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Meu 2020 em leituras (Estatísticas do Skoob e metas para 2021)

 


    Olá! Como o blog esteve um pouco parado nesse ano de 2020 (sem arrependimentos, a vida me chamou e eu fui), resolvi fazer uma postagem falando de um modo geral sobre minhas leituras. Utilizando como ponto de partida as minhas estatísticas do skoob, rede social que atualizo regularmente.


   A média de avaliações nesse ano foi 3.2 o que por si só já significaria um bom ano de leituras. Mas, considerando que eu sou uma pessoa que dificilmente avalia um livro com 5 estrelas redondo, esse número fica ainda mais relevante. De fato, li muitos bons livros esse ano, tais como "Complô contra América",  "A filha de Perdida" e "O enigma de Espinoza", só para citar alguns que não estão na minha lista de melhores do ano. Os dois primeiros foram, respectivamente, meu primeiro contato com Phillip Roth e Elena Ferrante, autores que já a algum tempo queria conhecer. Pretendo ler outros livros da Ferrante por esse ano, provavelmente o primeiro da quadrilogia Napolitana. Quanto a Roth, ainda procuro qual será a próxima leitura, aceito sugestões. 
    Apesar de ter avaliado com estrelas no skoob todas as minhas leituras, não fiz resenha de nenhum, nem mesmo um breve comentário. Gostaria de ser mais ativa nessa parte, então é provável que essa seja uma diferença para o próximo ano. 

    Em 2020 eu li um total de 37 livros, o que é bem mais que a quantidade de leituras no ano passado (25). Eu geralmente sou a primeira pessoa a dizer que a quantidade de livros lidos não importa, que o importante é ler etc. Continuo acreditando nisso, mas fiquei feliz de ter lido mais, mesmo em meio a faculdade, trabalho e tensões por conta do coronavírus. Junte-se isso ao fato da grande maioria das leituras ter sido muito satisfatória e temos um ano muito bom para mim enquanto leitora. A média de 26 páginas diárias é apenas isso, já que em muitos dias eu não li nada e em outros li muito. Parte de mim gostaria ser daquele tipo de pessoa que tem uma constância de leitura mas isso não rola comigo, então que bom que tem dado certo, mesmo que do meu jeitinho mais caótico. 
    Esse gráfico também é interessante porque mostra um pouco desse meu estilo mais caótico de leitura. A média é sempre dois ou três livros por mês, porém eu fui de um crescendo de 6 e 8 leituras nos meses de junho e julho para um total de 0 leituras em agosto. Atribuo os grandes números à chegada das férias e os menores ao retorno das aulas, mas posso estar errada. Fiquei pensando quais foram esses livros que eu li mais ou menos mas esse ano o skoob não detalhou, infelizmente.

    Confesso que não entendi muito bem essa divisão entre "ficação" e depois "LGBT" - LGBT não pode ser ficção? Enfim. Gostei de ver poemas e poesias nesse lista, é um gênero que voltei a ler em 2019 e que pretendo continuar explorando em 2021. Entre os poetas que conheci esse ano, Hilda Hilst pode ser citada como uma das minhas favoritas - com certeza quero ler outros livros da autora. 
    Sobre os livros com temática LGBT, já a algum tempo tenho lido algumas coisas do genero pelo qual eu tenho um interesse pessoal. Livros como "Controle" e "Os Sete Maridos de Evelyn Hugo" entraram, inclusive, para a minha lista de melhores do ano. 
    Um gênero que não aparece na lista mas que certamente pretendo dar mais atenção esse ano é o da não-ficção. Li bons livros de não ficção esse ano - "Mulheres que correm com os lobos" e "A verdade e as formas jurídicas", por exemplo - mas pretendo investir mais nesse tipo de leitura, é algo que sinto bastante falta na minha formação como leitora. A meta é ler pelo menos 3 livros de não ficção - mas não qualquer tipo de leitura mas sim uma leitura anotada, comentada e atenta. Torçam por mim rs.

    Basicamente foi esse o meu ano de 2020 em leituras. Tenho poucas metas para o ano que vem, além das que citei acima (continuei lendo, ler mais não ficção e poesia). Mas, ao mesmo tempo, estou bem tranquila caso não role - a leitura é algo que faço por prazer e quero manter dessa forma. 

    E vocês, como foram de leitura esse ano? Se quiserem, deixem seu comentário! 


5 melhores leituras de 2020

Finalmente 2020 chegou ao fim! Se bem que isso não signifique a solução mágica de todos os problemas, o mero fato de deixar esse ano no passado já traz um pouquinho de esperança. Ao menos é assim que me sinto.

O ano de 2020 não foi muito produtivo em matéria de blogagem mas fiz excelentes leituras, razão pela qual resolvi reunir todas elas nessa lista. Tentei fazer um ranking mas a verdade é que são todas leituras igualmente recomendadas, podem ir sem medo

5. Controle 














Natalia Borges Polesso já havia me encantado com Amora e agora o mesmo ocorreu com seu romance de estreia. Uma narrativa muitíssimo bem escrita, um verdadeiro romance de formação de uma mulher que tenta encontrar seu caminho e voz num mundo em meio a crises epilépticas, musicas e questionamentos sobre sua sexualidade. Ainda prefiro o livro de contos da autora, mas esse romance é incrível, li em apenas um dia. 

4. Eu, tituba














Uma história romanceada da escrava Tituba, a única negra julgada em Salém. Um trabalho muito mais de ficção que de história, esse livro apresenta uma escrita excelente, daquelas que fazem você devorar o livro em pouco tempo. É um livro que também nos faz pensar em temas como racismo e intolerância religiosa, recomendo muito!


3. Os Sete Maridos de Evelyn Hugo








Uma grande atriz de cinema conta sua história de vida a partir da narrativa de seus casamentos. Temas como racismo, sexualidade, machismo na indústria do cinema (e na vida!) são abordados de maneira maravilhosa. Este é um livro da qual sempre ouvi muito bem mas não imaginei que gostaria tanto dessa leitura - também é outro que você lê em pouquissimo tempo e termina desejando que Evelyn Hugo seja mesmo uma pessoa real.

3. O auto da Maga Josefa 









Um caçador de demônios e uma maga, investigando aparições sobrenaturais no nordeste brasileiro. Uma mistura de auto da compadecida com arquivo X - maravilhoso e muito divertido de ler!


1. Mulheres que correm com os lobos














 O livro que me acompanhou por 2019 mas que só pude terminar no começo de 2020. Uma leitura que recomendo a todas as mulheres, na qual a autora faz um paralelo entre os contos de fatas, mitos e lendas e a psique feminina através de uma perspectiva junguiana. Maravilhoso, um livro para ler e reler sempre!



***

Os livros que tem post foram linkados. Os outros você pode conferir maiores informações nos posts do Instagram do blog, @misscarbono. Feliz Ano Novo, pessoal! 



Os Sete Maridos de Evelyn Hugo - Taylor Jenkins Reid


    Evelyn Hugo, artista de cinema que brilhou nos anos 50. Casou-se sete vezes, protagonizando uma série de escândalos na época. Quando a jovem Monique é convidada por Evelyn para escrever sua biografia, mal pode imaginar quantos segredos irá revelar, alguns com poder de causar surpresas mesmo após tantos anos.
       A grande protagonista dessa história, Evelyn Hugo, é uma personagem apaixonante e admirável, com todos os seus defeitos e qualidades. Extremamente humana e com tanto carisma e nuances que várias vezes pensei em procurar seu nome no Google. "Não é possível que essa mulher nunca tenha existido". A sensação é tão forte que a própria autora cita Evelyn em seus agradecimentos.
      Apesar de ser uma leitura gostosa, com capítulos curtos e instigantes, o livro aborda alguns assuntos bem sérios, como a violência contra a mulher, questões relacionadas à sexualidade, machismo e, por que não, até mesmo racismo: o trecho que conta como Evelyn, de pais cubanos, teve que se fingir de loira para ter outros papéis de destaque, é curto porém nos faz refletir o quanto o preconceito moldou (e talvez ainda molde) toda uma indústria cultural. 
       Li esse livro para o clube do qual participo mas me vi completamente arrebatada pela história, devorando suas páginas. Pensei que seria difícil ler algum livro tão bom quanto "Eu, Tituba" mas "Os Sete Maridos de Evelyn Hugo" conseguiu ser um sucessor a altura, fiquei encantada com a história e universo apresentados.
       Se pudesse, no entanto, faria duas ressalvas: primeiro que os últimos 20% da história são bem tristes. Embora não tenham sido narrados de forma excessivamente dramática, é impossível não se emocionar.
        A segunda é que, embora tenha amado ler uma história com um romance homossexual, um dos membros do casal me irritou por demais, por vários motivos - obvio que qualquer julgamento fica meio anacrônico (estamos falando de uma personagem na década de 50, afinal) - mas não posso deixar de registrar que a raiva foi um dos sentimentos que tive com essa história.
       Termino indicando demais para você que está procurando uma boa narrativa em primeira pessoa. Um dos melhores livros desse ano, recomendo! 

Eu, Tituba - Maryse Condé


via Instagram

    Contando uma versão romanceada da história de uma negra que foi julgada em Salem, "Eu, tituba" é uma das grandes surpresas desse ano. Já tinha ouvido falar bem da história mas não imaginava que um livro pudesse falar tanto em tão poucas páginas. 
    Há partes um tanto pesadas e difíceis de ler, que fizeram com que eu deixasse o livro de lado por uns tempos e foram o principal motivo para ter dado 4 e não 5 estrelas. Há também reflexões muito importantes à cerca do machismo, racismo e intolerância religiosa, que eu vejo como enriquecedoras para uma história já muito interessante e envolvente. 
    Mas o que eu levo dessa narrativa e o que me envolveu ao longo de suas páginas foi o anseio de Tituba pela liberdade, seu respeito pela natureza e pelos seus ancestrais, a poesia e devoção a sua religião. Me toca muito quando vejo narrativas com mulheres cuja força é ampliada por seus ideais e crenças. Tituba, cujo princípio sempre foi levar o bem e a cura às pessoas, é certamente uma inspiração. 
    Recomendo demais! Fazendo ressalvas a alguns trechos que trazem muita raiva e revolta, essa é uma leitura inspiradora, uma das favoritas do ano, sem dúvida. 


Serpentário - Felipe Castilho



   Caroline, Hélio e Mariana estão passando as férias em São Sebastião onde Paulo vive. Os quatro passam todos os dias juntos, em meio a brigas, tédio e atividades diversas. Naquele ano em específico Caroline levou um filhote de cachorro que os amigos acabaram batizando de Mason. É justamente o desaparecimento do cão que dá origem a uma situação que irá alterar a vida desses jovens para sempre.
    Quase duas décadas depois Caroline luta contra a fobia de cobras. De volta a São Sebastião, ela marca um encontro com Mariana e Hélio naquele lugar onde tudo aconteceu. Nenhum deles parece muito interessado em reviver o passado mas cada teve sua vida alterada de modo significativo pelos momentos vividos a tantos anos. Será possível encontrar algum tipo de conciliação com o que passaram?
   Serpentário me lembrou um pouco de IT do autor Stephen King. Primeiro pela alternância dos capítulos entre passado e presente de um grupo de amigos. Embora seja focado mais no ponto de vista de Caroline e os personagens estejam longe de compor um "Clube dos Otários", há nesses momentos do passado certa nostalgia, como a que existia no livro de King. E isso e uma série de situações sobrenaturais que começam a acontecer com os protagonistas. No presente a vida parece ter afastado e tornado bem diferente aquele grupo de pessoas - em um primeiro momento elas parecem unidas apenas pelo o que viveram juntas. Mas isso também vai evoluindo ao longo da história. 
    A presença de uma figura antagonista central, O homem de branco, também é um dos pontos que me lembraram de IT. Porém, ao contrário do palhaço/coisa do best seller americano, o Homem de Branco não é necessariamente o mal puro. Difícil explicar mas em alguns momentos do livro você se vê concordando com esse personagem absolutamente apavorante, embora isso não tenha me impedido de ficar bem tensa nas cenas em que este aparecia. Gosto dessa ambiguidade, para mim deixa o livro ainda mais interessante do ponto de vista da mensagem transmitida e na questão psicológica. O que representa aquele homem claro de cabelos extremamente pretos numa ilha cheia de cobras? Façam suas deduções. 
   De leitura rápida e cheio de referências (a outras obras e até mesmo a programas de televisão) Serpentário é um livro divertidíssimo, não no sentido de comédia, claro, mas por ser uma leitura que entretém bastante. A própria narrativa de Felipe Castilho é algo a parte: temos momentos visualmente assustadores (aquele índio conduzindo uma canoa totalmente vendado é só um exemplo) e outros mais tensos mas também há uma ironia e senso de humor que são muito legais. Mentalmente, ela classificou a situação em que estava como “estranha para caralho” é um quote que eu deveria levar para vários momentos da minha vida.
   Vi algumas reclamações sobre o final do livro mas, particularmente, achei incrível toda aquela cena de ação e reviravoltas inclusas. Entendo que alguns momentos possam ter forçado a verossimilhança para algumas pessoas (alô, submarino), mas para mim tudo fez sentido, dentro do contexto apresentado. A ilha das couves/cobras é mais do que uma ilha cheia de animais peçonhentos - é um lugar onde passado/presente/futuro se entrelaçam e se misturam, onde coisas estranhas e sem explicação acontecem e de onde algumas pessoas não voltam. Com esse raciocínio não é difícil entender alguns momentos do final, por mais absurdos que possam parecer.
   Ainda falando sobre o desfecho, gosto muito mais do final que Felipe Castilho deu para seus personagens do que o que Stephen King fez com os protagonistas de IT. É estranho imaginar que as pessoas passam por tudo o que passaram e continuaram as mesmas como acontece em IT. Faz muito mais sentido que as duas experiências, a do passado e do presente, tenham influenciado os personagens e os feito alterar o rumo da dúvida. 
   Para os que gostam de livros ágeis e com vários momentos meio sobrenaturais (e até mesmo um pouco assustadores), Serpentário é um prato cheio. Parte de mim gostaria que o autor tivesse explorado um pouquinho mais a história entre Mariana e Caroline mas entendo a necessidade de objetividade (não queremos aqui um calhamaço de mais de mil páginas, certo?). Infelizmente tal objetividade não aparece em outros momentos um da história - aquela visita de Caroline ao psicólogo foi mesmo necessária? Respeito o autor mas perguntar não ofende.
   Fica então a indicação de Serpentário, uma ótima indicação para essas férias e um livro que superou as minhas expectativas. Nota 8,5 - muito bom o livro mas tirei meio pontinho por essas cenas um tantinho desnecessárias.

Cloro - Alexandre Vidal Porto


*LIVRO CEDIDO PELA EDITORA PARA RESENHA. OPINIÕES INDEPENDENTES. 

   Logo nas primeiras páginas a noticia de que o narrador e protagonista da história está morto. Numa espécie de limbo, Constantino resolve repassar os fatos de sua vida, principalmente as circunstâncias que o levaram até a sua morte precoce, aos 51 anos. Desapegado dos medos e vergonhas que sentia enquanto vivo, ele pode (finalmente) falar de forma livre sobre algo que escondeu durante toda a sua vida, sua homossexualidade. 
    Embora seu conteúdo seja triste, Cloro não foi escrito para fazer o leitor chorar. Talvez o fato de ser narrado por esse personagem que é um defunto-autor dê a trama certo distanciamento, tornando mais fácil acompanhar alguns momentos dessa história. Afinal, tudo o que estamos lendo é passado, a realidade presente é que Tino está morto e, portanto, muito distante de tudo o que passou. 

"Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível, que não adianta lutar, que não adianta ter controle. Foi o que aconteceu comigo e, antes que minha memória se apague, preciso entender como gastei a vida".  (pág. 12)
   Uma coisa interessante narrada na história é a forma como a homossexualidade foi revelada ao personagem. Ao ser chamado de "bicha" (ou "viado", não me lembro) por seu colega de turma quando tinha 8 anos, Tino percebe que há algo nele que era diferente das outras pessoas. Como a descoberta veio na forma de xingamento, de injúria, Tino passa a rejeitar aquele termo e tudo o que nele enseja. Ele organiza a sua vida a partir daquele momento, daquela injúria, para não dar razão aos xingamentos, para não ser aquilo que o coleguinha de turma via nele. 
   Ele se casa aos 21 anos, com Debora, sua namorada da juventude. Pouco tempo depois vem os filhos, um menino e uma menina. De repente a vida de Tino estava perfeita e o destino parecia promissor, aquela palavra esquecida para sempre. Mas a vida não é algo que você se planeja e logo um acontecimento trágico vem atrapalhar aquela vida familiar que Tino usava como escudo. Ele então se vê analisando os desejos que tem desde sempre dentro de si, uma homossexualidade nunca exercitada mas que sempre ficou latente, mesmo quando Tino pensava ter tudo superado. 

"Quanto tempo vou ficar na escuridão? Será que a morte é isso, uma escuridão perpétua dentro da gente, uma tentativa sem fim de entender o que aconteceu na vida? Acho que, aqui, nada de novo surgirá". (pág. 101)
   Cloro é um livro bem curto, suas palavras certeiras e direto ao ponto. Tino tem algumas atitudes um tanto reprováveis ao longo da história mas é difícil julgá-lo, ainda mais sabendo que ele já morreu. E, pior, que viveu uma vida de mentira e segredos, que nunca conseguiu assumir sua homossexualidade, que apenas gastou a vida ao invés de vivê-la - quando começou, de fato, a viver, foi-se. Não dá para censurar Tino, esse personagem que é fruto de uma época mais conservadora, que não tornou fácil a sua vida. Sim, Tino traiu a esposa, mas isso é tão pequeno perto de todas as nuances da história, que acabou sendo deixado como mais um aspecto infeliz de uma vida infeliz. 
   Após concluir a história de Tino, o autor faz alguns capítulos comentando sobre a reação de certos personagens citados na história, algo que achei tanto desnecessário quanto interessante. O capítulo dedicado a Debora, particularmente, foi o que eu mais gostei dessa sessão.. Queria, inclusive, que houvesse mais páginas sobre essa personagem que parece guardar alguns segredos ela mesma. Entendo, porém, que isso seria desviar o foco do tema do livro que é a história de Tino. 

"A vida, para mim, se transformou numa sequência infindável de cenas das quais eu participava sem ter fala." (pág. 135) 
   Nunca tinha lido nada de Alexandre Vidal Porto mas já coloquei Sergio Y. vai a América na minha lista de futuras leituras. Gostei dos temas que o autor apresenta e, mais ainda, gostei da forma com que o autor narra suas histórias e como constrói personagens únicos e cotidianos ao mesmo tempo. 
   Recomendo Cloro para quem gosta de boas histórias contemporâneas, com bons personagens. A temática é LGBT mas os sentimentos que o livro evoca são universais então seria realmente uma pena se alguém colocasse esse tipo de rótulo no livro e deixasse de lê-lo por isso. 
   Nota 9 - muito bom. 


|SINOPSE|


Querida Konbini - Sayaka Murata


   Keiko Furukura nunca se sentiu igual aos seus pares. Mesmo quando criança, parecia que todas as pessoas tinham um manual de como se comportar, do que dizer e fazer - todos menos Keiko. Com o passar dos anos, após várias mal entendidos e situações que a fizeram receber reprimendas dos seus pais e professores, Keiko se torna uma pessoa mais calada e introvertida, sem amigos ou afazeres. 
   É só aos 18 anos quando vai para a faculdade que a vida de Keiko sofre uma guinada - ou, como a própria diz, é nessa idade que ocorre o seu renascimento. Não pela faculdade em si, mas por ser quando ela se tornou funcionária de uma Kombini. A partir daí a personagem se define enquanto pessoa no mundo, deixando de ser apenas um ser humano desajustado para se tornar algo mais, uma funcionária de Kombini.
   Esse era um livro que eu queria ler há algum tempo, por isso fiquei muito feliz quando o ganhei de presente em um amigo secreto. A história escrita pela autora Sayata Murata é muito singela em muitos aspectos mas também dialoga com vários sentimentos que são vividos, em maior ou menor grau, por todas as pessoas em algum momento de suas vidas. A sensação de inadequação é popular - não é a toa que o livro foi best seller no Japão. 
   Antes de mais nada, o que é Kombini? Pelo o que entendi é uma espécie de loja de conveniência que existe no Japão. A mesma fica aberta 14 horas por dia, 7 dias por semana e é conhecida por empregar jovens estudantes universitários ou donas de casa que procuram uma renda extra para ajudar em casa. Logo que ficam sabendo que Keiko foi contratada para um Kombini, seus pais ficam extasiados, pensando que a filha finalmente está demonstrando características de uma pessoa normal. Mas 18 anos se passam e, aos 36, o fato de ainda trabalhar na Kombini começa a gerar cobranças e questionamentos por parte das pessoas ao redor.
   Sendo um livro em primeira pessoa, ficamos sabendo os motivos pela qual Keiko continua trabalhando naquele mesmo lugar mesmo depois de tantos anos. Para a protagonista, a Kombini é uma lente pela qual ela consegue interagir com o mundo. Tudo o que Keiko é, desde as roupas que usa até a forma de falar ou se comportar, foi aprendido enquanto trabalhava naquele local, observando a forma como suas colegas de trabalho se vestiam, agiam e falavam. Sem a Konbini como intermediária de suas ações e, mais ainda, sem o rotulo de "funcionária de kombini", Keiko não sabe mais como agir ou como se comportar. 

"Talvez o mundo fosse como a Konbini onde as pessoas vão sendo substituídas por outras, embora o cenário continue sempre o mesmo". 
   Não entendo muito de kombinis mas, durante a leitura, tentei imaginar como seria se uma pessoa trabalhasse em uma rede de fast food dos 18 aos 36 anos ocupando o mesmo cargo e função - percebi que o nível da cobrança das pessoas seria o mesmo que ocorre com Keiko. É também muito comum para nós ocidentais esses questionamentos sobre pessoas solteiras: 'mas porquê?' ou 'você precisa encontrar alguém!' são frases ditas por pessoas com menor ou maior grau de intimidade, todas tendo em comum o fato de que acreditam que a felicidade de uma pessoa está em encontrar alguém, casar e ter bebês. Portanto, embora as idiossincrasias da personagem sejam muito específicas, é fácil entender seu incomodo com essas questões e sentir empatia por ela. 
   Querida Konbini é bem curtinho, pouco mais de 150 páginas, portanto consegui ler tudo em único dia. Gostei da personagem principal e da sua jornada em busca da aceitação das pessoas. Keiko chega a abrigar um semi-desconhecido em sua casa apenas para parecer que tem um namorado e para que as pessoas parem de perguntá-la sobre isso. Pode parecer bizarro, mas imaginem a quantidade de desespero e vontade de se encaixar que essa atitude não reflete. 
    O desfecho vem em um momento de auto afirmação da personagem, quando ela finalmente descobre seu lugar no mundo (por assim dizer). Não dá para dizer que esse seja um livro imperdível ou que a trama cotidiana traga algo inédito - esse é praticamente um slice of life de uma atendente de Konbini. Mas gostei da reflexão que o livro provoca, ao questionar a interferência das pessoas na vida das outras e o significado de ser "normal" e de acordo com as normas implícitas da nossa sociedade. Tudo isso faz com que Querida Konbini seja um forte candidato a "Melhores do ano" - a ver. 
   nota 9 - muito bom 

|LEIA A SINOPSE|


Melhores de 2018 - LIVROS

   Como não poderia deixar de ser, esse ano também resolvi listar quais foram as melhores leituras que fiz. Ao contrário do ano passado, quando pude escolher entre 86 livros quais foram os que mais gostei de ter lido, esse ano eu li apenas 36 livros. Os motivos foram variados: primeiro, foi um ano de diversas mudanças. Emprego, casa, cidade... somente agora em dezembro é que estou começando a me adaptar mesmo a tudo isso. 
   O segundo motivo era que minhas metas para o ano de 2018 eram menos voltadas para quantidade que para a qualidade. Ao invés de ler 86 livros de tamanhos entre 200 e 300 páginas tentei focar meu tempo em ler apenas dois livros: Guerra e Paz e David Copperfield. É claro, eu flopei nessa minha pequena meta pessoal mas, também, eu acho que fui um pouco ingênua nas minhas previsões: estamos falando de livros que, juntos, somam mais de 3000 páginas. 
   Enfim, vamos ao top 5 desse ano de 2018. E se tiver algum livro lido depois disso que possa entrar para lista, eu coloco lá no Facebook e está tudo certo.

6) Leah fora de Sintonia - Becky Albertalli
Voltei a ler YA e foi simplesmente a melhor coisa que eu poderia ter feito porque escolhi livros muito bons. Leah fora de Sintonia é um romance adolescente com todas as características de um romance adolescente - mas nem por isso menos legal ou divertido.
RESENHA  


5) O quarto de Giovanni - James Baldwin
Esse livro quase não entrou na lista mas, quanto mais eu pensava nele, mais queria colocá-lo aqui. Então aí vai: a história de "amor" entre David e Giovanni entra para lista.
RESENHA

4) O fazedor de velhos - Rodrigo Lacerda
Literatura infanto-juvenil? Tem certeza? Esse livro era exatamente o que eu estava precisando ler no momento. Gostei demais
RESENHA foi um ano tão esquisito que eu jurava que tinha resenha desse livro mas fui ver e... não tem. 

3) As ruínas - Scott Smith 
Esse ano não tivemos Stephen King mas tivemos Scott Smith. Esse livro me deixou tão perturbada que eu tive que deixar para terminá-lo quando fui visitar meus pais - sempre que o lia sozinha, tinha pesadelos. 
RESENHA outro sem resenha - o que está acontecendo? 

2) Kindred - Octavia Butler
O primeiro livro lido em 2018 foi também um dos que eu mais gostei. Kindred é um socão na cara em todos os sentidos, um livro que discute racismo mas que também tem viagem no tempo... como isso não pode ser menos do que incrível? 

1) A assombração na casa da Colina - Shirley Jackson
Que. Livro. Bom. 
Meu primeiro da Shirlinda e - certamente - não o último. Depois dele eu li "Sempre vivemos no castelo", também muito bom livro, mas ainda prefiro este. 


*

 Menções Honrosas 

Nova Jaguaruara do Mauro Lopes quase entrou na lista em lugar de 'As ruínas' porque é muito - muito! - bom também. 

Eu também não posso deixar de citar dois livros que, embora não tenha lido por completo, também foram incríveis: O primeiro volume de "As mil e uma noites" e o meu karma/queridinho "Guerra e Paz". Não vamos fazer metas mas espero ter mais noticias sobre a conclusão desses livros ano que vem. 

Quais foram suas melhores leituras do ano? Comente!


O quarto de Giovanni - James Baldwin



    Publicado na década de 50, O quarto de Giovanni conta a história de David, um americano que se auto exila em Paris afim de se encontrar (ou para fugir de si mesmo, quem sabe). Lá ele conhece Hella, também americana e os dois se envolvem até chegar ao ponto de que David a pede em casamento. Mas Hella vai embora pra Espanha e David fica sozinho em Paris, passando por dificuldades financeiras. É quando conhece Giovanni, um bartender, e é forçado a reconhecer seus desejos que o perseguem desde a adolescência. 
    Logo de início já sabemos o final da história: Giovanni está preso, por algum motivo ainda não revelado, e será executado em algum momento da manhã seguinte. Sozinho numa casa do interior da França, David pensa no antigo amante e na história dos dois, ao mesmo tempo que se culpa pelo o que virá a acontecer. O livro é então essa mistura entre as memórias de David e o momento presente, em que ele tem que lidar com a desilusão e a culpa. O leitor sabe que não terminou bem, mas tem que ler o livro para descobrir o porquê.
    O quarto de Giovanni é bem curtinho, duzentas e poucas páginas muito bem escritas. Os textos ao  final do livro ajudam a ter uma noção maior do autor e do contexto em que o livro foi publicado. Foi lendo esses textos que descobri a alcunha de "Henry James do Harlem", que se encaixa perfeitamente com o autor. Assim como James, Baldwin parece ter total controle sobre o texto e as palavras. É tudo muito bem polido e colocado, tornando a leitura prazerosa, pois o texto é elegante sem recorrer a "firulas" de estilo.
    Outra coisa que os textos de apoio deixaram a entrever foi a figura de Baldwin como membro de uma suposta "literatura negra". O primeiro livro do autor tem essa temática mas, surpreendente, não há personagens negros nesse livro (exceção para o primeiro amante de David). Um dos textos do final discute essa diferença entre as temáticas do autor e a forma como, apesar de não ser um livro sobre raça, é possível fazer várias reflexões também nesse sentido.
    Por mais que seja um livro que trate sobre um relacionamento sexual e amoroso entre dois homens, O quarto de Giovanni é uma história muito mais sobre os papéis de gênero. O que significa ser homem e ser mulher, na década de 50, que é quando esse livro se passa. Obviamente, como um produto de sua época, o livro está repleto de frases e comentários machistas dos personagens principais, sendo um exemplo um momento em que Giovanni insinua que mulher deve apanhar do marido. Mas não dá para se ficar revoltado com as colocações dos personagens, ainda mais quando se percebe que é a masculinidade tóxica do ambiente cultural em que vivem (e que está introjetada dentro deles mesmos) que fez com que o relacionamento tivesse um final tão trágico. David e Giovanni são frutos de sua época e sofrem por isso.
    Gostei muito de O quarto de Giovanni, principalmente pela escrita de Baldwin, do qual pretendo ler outras coisas em breve. Recomendo para os que gostam de livros com essa temática (gênero, sexualidade, memórias) e para os que querem conhecer um grande autor.
    Nota 9 - muito bom

Leah fora de sintonia - Becky Albertalli


   É o último ano do ensino médio, últimos meses antes de Leah sair da casa da mãe e ir fazer faculdade na Geórgia. Seus amigos, Simon, Nick, Morgan e Anna, entre outros estão todos lamentando o fim dos seus dias de união e  Leah parece estar um pouco distante de tudo isso. Não é que ela não vá se sentir falta deles ou que ela não se importe com o que vai acontecer, mas é só que ela se sente acompanhando tudo isso a distância e, ao mesmo tempo, sente esse incômodo dentro de si, a sensação de que algo não está certo em sua vida.

"As vezes eu me sinto deixada de lado até quando a vida continua junto comigo."
   Leah fora de sintonia é a continuação de Simon e a agenda homo sapiens (ou Love, Simon), desta vez com uma história sobre uma das personagens mais misteriosas do primeiro livro. No primeiro livro Simon chega a pensar que era muito difícil conversar com Leah, porque parecia haver sempre um subtexto ali, algo que ele não conseguia entender ou perceber. Dessa vez nos temos acesso só que se passou na cabeça da personagem, o que é muito legal e, por vezes, surpreendente.
   Leah é o tipo de garota que se considera durma e fria, "uma Sonserina", como ela pensa em si na maioria das vezes. Mas, nesse período que o livro se passa, vemos uma rachadura nesse pose de durona e ela se mostra através de duas relações: de Leah com Garrett, que é meio apaixonado por ela desde o primeiro livro e de Leah com Abby.
  Pois é, Leah e Abby. Eu admito que cantei essa bola desde que assisti Love, Simon mas, quando cheguei ao final do primeiro livro, tive minhas dúvidas. Talvez eu só tivesse lendo demais no relacionamento das duas, talvez Leah só estivesse mesmo apaixonada por Nick.    Ou talvez não. Porque, nesse livro, percebemos toda uma situação que ocorria no primeiro livro e Simon nem reparou. Leah é Abby eram melhores amigas mas algo aconteceu e elas foram se distanciando, depois Abby começou a namorar Nick e as coisas ficaram bem estranhas.

"Essa deve ser a melhor parte de estar apaixonado - a sensação de ter um lar na mente de outra pessoa."
   Ao longo da história é complicado decidir se Abby é um ex-amor ou um amor atual pra Leah. Mesmo a personagem narrando tudo em primeira pessoa; é como se Leah estivesse enganando até mesmo a si mesma, tentando desenvolver algo por Garrett e falhando miseravelmente vez após vez.  Como leitura isso me deixou bastante em dúvida até mais ou menos a metade do livro - quem é cannon aqui Abby ou Garrett? - mas depois as coisas desenrolam e a gente vê que muito dessa confusão mental que Leah vem sentindo tem haver com os sentimentos que ela tem desenvolvido por Abby ao longo desse 1 ano e meio.
    Uma coisa legal desses livros serem em primeira pessoa é que a mudança de ponto de vista parece até mudar o personagem. A Abby que Leah vê é muito diferente da que Simon enxergava no primeiro livro - muito mais perfeita e baladeira do que nos foi mostrado em outra história. Talvez um pouco idealizada, porque Leah joga tantas qualidades em Abby que a considera perfeitinha e inacessível - além de, obviamente, hetero.
    É só quando o namoro de Abby e Nick começa a ir mal e quando as duas resolvem conhecer a faculdade que estudarão juntas é que as coisas começam a ficar mais claras na história. Leah, por exemplo, apesar de se considerar bissexual desde os 11 anos, nunca contou o fato pra ninguém além de sua mãe. Como ela esperava que Abby agisse de forma diferente da que agiu?      
   Enfim, esse livro tem bastante daquela angústia adolescente e dramas, o que me fez grudar na história e ler tudo em uns 2 dias. Chegou determinado ponto que eu cheguei a conclusão de que, se Leah não terminasse com ninguém mas procurasse um psicólogo, o final do livro seria feliz. Porque é óbvio que, por trás daquela pose marreta e auto suficiente, Leah tem problemas sérios de auto estima e aceitação. Pra não dizer um perfeccionismo que beira a auto sabotagem - do tipo que te impede de fazer qualquer coisa se não tiver certeza de que vai sair tudo perfeito.

"Como se já não fosse ruim o bastante eu estar sempre a um sopro de desmoronar, tenho que fazer isso sob a luz de um holofote? Não dá."
   Mas o amor resolve tudo e, bem, temos aqui nosso final feliz. Acho que, por ter personagens presentes na história e não apenas por mensagens como foi com Blue e Simon e por essa dúvida que tive durante toda a história se ia dar certo ou não, preferi a leitura de Leah fora de sintonia a leitura de Simon vs homo sapiens agenda. De um modo geral, essa semana que passei lendo Becky Albertalli foi bem divertida, fazia tempo que eu não me divertia lendo YA.
   Recomendo essa duologia para os que querem romance adolescente com a mistura certa de slice of life, romance, comédia e drama. A representação das minorias é muito bem feita - temos bons personagens negros, gordos e LGBT - e a autora escreve bem (embora com algumas ressalvas), Leah e Abby são um casal muito muito fofo.

"Ela me faz querer rasgar meu peito e arrancar meu coração"
  Nota 8,5 - o livro é muito bom mas tirei por causa de alguns detalhes da história que me deixaram um pouco confusa. 


A assombração da casa da colina - Shirley Jackson

fonte: Biblioteca do Terror 

   Quando um autor que você gosta recomenda um livro, você olha com atenção. Mas e quanto este autor não só recomenda um outro mas também dedica um livro a este? Quando recebi "A incendiária" da Suma e vi a dedicatória que Stephen King fez a Shirley Jackson, soube que precisava conhecer a autora que influenciou um dos meus escritores preferidos.
   Há dois livros dessa autora publicados recentemente mas escolhi Assombração na casa da colina para conhecer a autora. O motivo foi o mais bobo possível: o título me lembrou um filme de terror que assisti quando era pequena (mais a frente, percebi que a história me lembrava de um outro filme, que também vi quando era mais nova, chamado "A casa amaldiçoada"). Além disso, gosto de histórias sobre casas e lugares assombrados.
   Um das coisas que mais me chamou a atenção na escrita de Shirley Jackson é a forma como autora consegue criar todo um ambiente propício e assustador e desenvolver seus personagens de forma muito precisa sem apelar para descrições muito elaboradas de lugares e pessoas. A personalidade das quatro pessoas na casa da colina são delineadas com muita confiança e ao longo do livro de uma forma tão natural que, lá pela metade da história, já pensa que conhece todos os personagens muito bem.
   Assombração da Casa da Colina começa quando esse cientista e investigador de fenômenos paranormais, o Dr. Mortague, convida várias pessoas para passar um tempo nessa casa assombrada, que ele aluga sob a condição de receber também um parente dos donos da casa. Somente duas mulheres - Eleanor e Theodora - aceitam o convite e todos (Dr. Mortague, as mulheres e Luke, o herdeiro ) se mudam para a casa por um tempo.
    É curioso observar que a personagem sobre o qual eu mais tinha dúvidas era justamente a que narrava a história, Eleanor. Há algo que essa personagem esconde, de si e de leitor, algo que já estava nela antes que entrasse na casa mas parece desabrochar enquanto está lá. Nellie é mais do que demonstra mas qual será o seu segredo? E o que a casa quer com ela? São essas algumas das perguntas que me fiz durante esse livro.
   Como toda boa história de terror, essa também é um prato cheio de simbolismos e representações. A cena em que Theodora entra em crise após ver algo em seu quarto e a reação de Eleonor a tudo o que ocorre, são muito interessantes e nos fazem pensar nas camadas que há por trás da tensão entre as duas mulheres.
    Nessa mesma cena, há um momento muito específico em que Eleanor vê as mãos de Theo cheias de sangue e vai limpar, pensando que "nunca sentira uma repulsa incontrolável por ninguém em toda a sua vida". É de se pensar o simbolismo daquelas palavras, principalmente quando relacionamos o fato de que, até o sangue aparecer, as duas mulheres eram bem amigas, talvez até mesmo mais. O que o sangue representa ali? Talvez um lembrete ao subconsciente de Eleanor de que trata-se de outra mulher a pessoa pela qual ela se sentia tão encantada anteriormente. Ou, talvez, o sangue cobrindo as mãos de Theodora fosse uma marca física da transformação que a moça sofreria aos olhos de Eleanor. "Ela é má, é um monstro, é suja", pensa Nellie ao final dessa cena. Depois desse momento, embora volte a ver a amiga de uma forma positiva, o relacionamento entre elas não é mais exatamente como antes, quando chamavam uma a outra de primas. 
   Assim como ocorre em O Iluminado, o comportamento do protagonista vai sendo alterado quanto maior o tempo que ela passa na casa. Seria o objetivo da casa, fazer com que a protagonista se afastasse de todos os outros moradores? Ou será  que Eleanor sempre foi daquela forma e a casa apenas exacerbou seu comportamento? Não sei a resposta a essa pergunta mas, conforme o tempo vai passando na Casa da Colina mais temos contato com esse lado sombrio e um pouco instável da protagonista. É interessante e também um pouco assutador: Eleanor tem tanto medo de perder o controle que ficamos apreensivos sobre o que ela fará quando isso de fato acontecer.
   O livro é tão pequeno (240 páginas) e a narrativa tão interessante que, quando você dá por si, a história já terminou. Acostumada que estou aos calhamaços de Stephen King foi uma grata surpresa ler uma história de suspense/terror que consegue ser instigante, assustadora e psicologicamente rica em tão poucas páginas. Mesmo após terminar ainda fiquei um tempo pensando nos personagens, no desfecho, no que significou aquela experiência toda na casa da colina. Se você é do tipo que gosta de coisas nos mínimos detalhes talvez seja melhor ler o sr. King: Shirley Jackson não vai te explicar o que está acontecendo; ela apenas narra, cena após cena, os acontecimentos que e a reação dos personagens a eles. 
   Eu terminei o livro morrendo de medo mas não sei se é o tipo de terror que vai assustar a qualquer pessoa. É muito mais o suspense e algo psicológico do que cenas com fantasmas propriamente ditas. Para mim esse tipo de terror é mais interessante, mas vi algumas resenhas no Skoob que disseram que o livro não é tão assustador, o que me fez pensar que nem todo mundo vai ficar com tanto livro quanto eu fiquei. 

   Como um livro publicado pela primeira vez em 1959 é interessante ver o quanto a ficção (filmes ou livros) se inspirou em alguns aspectos desse livro. A sensação de familiaridade que eu senti enquanto estava lendo essa história se justificou: descobri que "A casa amaldiçoada", o filme que este livro estava me fazendo lembrar, é uma adaptação de "A assombração da casa da colina", tendo sido lançada em 1999 com Catherine Zeta Jones interpretando Theodora (repare que eu tinha 7 anos quando esse filme foi lançado e eu tinha mais ou menos essa idade quando assisti. Quando falo que filmes de terror me lembram infância é por isso). Há também uma adaptação da década de 60, mas não assisti. 
    Como prévia leitora de King, pude ver alguns ecos desse livro em algumas obras do autor, principalmente em "O iluminado" que, assim como "A assombração da casa da Colina" faz um paralelo entre medo, confinamento e loucura que é muito interessante. Outra coisa interessante que ambos os autores fazem é dar um toque de tristeza em suas histórias - uma boa história de terror tem sempre algum sentimento profundo além do medo. No caso de "...Casa da Colina" os sentimentos de culpa, solidão e não pertencimento que certa personagem sente alcançam o leitor mesmo sem a autora dizer com todas as letras que é isso que a personagem está sentindo. 
   O que mais posso dizer para te convencer esse terror clássico? Chamo de clássico não tanto pela idade mas por entender que as influências que esse livro despertou e sua atemporalidade fazem com que esse mereça tal título. Shirley Jackson já entrou no meu panteão de autores de terror favoritos não só pela qualidade da escrita mas também por desenvolver histórias que nos fazem pensar por horas mesmo depois de ter terminado, afim de criar nossas próprias interpretações do que ocorreu. Os personagens também são ótimos e, por mais que isso já torne esse livro acima da média, ainda há cenas de causar arrepio, mexendo sempre com o psicológico do leitor. 
   Nota 9,5 - esse livro já está na minha lista de favoritos do ano mas vou aguardar uma futura releitura antes de mudar essa nota para 10. 


Kindred: Laços de Sangue - Octavia E. Butler


    Eu amo histórias com viagens no tempo mas, quando me perguntam para que período da história eu voltaria minha resposta sempre foi "nenhum". Isso porque, além de questões de tecnologia, modernidade e higiene que eu considero essenciais, a cor da minha pele impediria que eu tivesse uma daquelas aventuras divertidas que leio e assisto.
   Kindred parece ter saído de um dos meus piores pesadelos a respeito de viagem no tempo: a protagonista, Dana, é uma mulher negra que volta dos anos XX (1976) para o Sul pré-abolicionista. Obviamente as coisas não são tão fofinhas quanto um Outlander da vida - Dana tem que não só lutar pela sobrevivência mas também para manter sua identidade.
   Com uma narrativa hipnotizante e personagens humanos, Kindred foi a primeira leitura de 2018 e, com certeza, já entrou pra lista de melhores do ano. Gostei de muitas discussões que ele trás, sobre relacionamentos, sobre racismo, sobre feminismo.
   Embora não tenha muitas explicações sobre o porquê dessas viagens no tempo que Dana faz, tudo parece estar relacionado à seus antepassados que viveram nesse período, Alice e Rufus.
    Um dos pontos interessantes é o contraste entre o relacionamento de Dana e do marido com o relacionamento vivido por seus antepassados. Embora ambos sejam relacionamentos interrraciais é bem claro a diferença entre um relacionamento do tipo da década de 70 e no período da escravidão. Não é possível a construção de qualquer coisa saudável em um ambiente em que uma das partes é posse da outra.
   Também é interessante a reflexão da autora sobre o quão fácil é se acostumar com a escravidão. Quando chega a esse mundo Dana acha tudo insuportável e o leitor também. Depois de um tempo, como numa síndrome de estolcomo, ela começa a se acostumar e até ver um pouco de vantagem nos tipos de servidão mais "tranquilos", como o cuidado da casa, por exemplo. Fica cada vez mais fácil pra Dana baixar a cabeça e se sujeitar a humilhações diárias quando ela percebe que a alternativa é ser surrada.
   Achei que fosse difícil escrever sobre esse livro porque ele ainda não foi 100% digerido. Vez ou outra me pego pensando na história, nos personagens e nos temas tratados por Kindred. Mesmo com essa dificuldade, achei por bem escrever sobre ele para incentivar quem não conhece a conhecer essa obra de uma das maiores autoras da ficção científica.
   Recomendo demais. Nota: 9,0 - muito bom



Melhores de 2017 - LIVROS

   Final do ano se aproximando e chega o momento de fazer aquela avaliação do que lemos e do que assistimos. O que foi bom, o que não foi. 
   Nem todo ano consigo fazer algo nesse sentido mas não é que esse ano saiu uma listinha? Considerei todos os livros que li esse ano, mesmo que não tenham sido lançados neste ano. Não considerei releituras porque, se estou lendo um livro pela segunda vez é certo que gostei dele né? O resultado foi uma lista de 11 livros de ficção e - surpreendente - 3 livro de não ficção. 
   Vou listá-los aqui em baixo e comentar um pouco sobre eles, sem ordem de preferência. Não custa lembrar que uma lista dessas é algo extremamente pessoal, que o que gostei você pode não ter gostado etc etc

Vamos lá? 

Não Ficção


  • Como funciona a ficção - James Wood
         Esse é um daqueles livros que podem ser guardados e relidos de tempos em tempos. James Wood dá uma verdadeira aula de análise critica dos livros, falando sobre enredo, personagens e escrita de uma maneira extremamente interessante. É o "critica literária for dummies" que eu sempre procurei, utilizando uma linguagem fácil mas abordando vários e diferentes temas com uma profundidade bem satisfatória. 



  • O ano em que eu disse sim - Shonda Rhimes
      Sabe a criadora de Grey's Anatomy, Scandal e How to get away with murder? Então, ela escreveu um livro de não-ficção falando sobre quando resolveu ficar um ano falando "SIM" para absolutamente todas as oportunidades que aparecessem e como isso mudou a sua vida. 
       Auto-ajuda? Com certeza. Mas é um livro que me ajudou a dar alguns passos importantes. 


  • Mini-Hábitos: Hábitos Menores, Maiores Resultados - Stephen Guise
      Todo mundo que já quis começar um hábito novo - ler, escrever, estudar, se exercitar - sabe o quanto isso é difícil. Esse livro apresenta um metódo de criação de hábitos que, além de funcionar, não te faz se sentir um lixo enquanto você não chega ao ponto que queria. 

Ficção


  • A Redoma de vidro - Sylvia Plath
       Esther parece estar no auge da vida. Mas o que isso significa se ela está ficando a cada momento mais infeliz e desassociada de tudo o que está ao seu redor? 
      Tive muitos problemas com a protagonista desse livro, achei ela um tanto cansativa e preconceituosa. Mas quando pensei nos melhores do ano, esse foi um dos primeiros livros que me veio a cabeça, então aí está. Tem resenha dele no blog. 


  • It "A Coisa" - Stephen King
      Estava quase terminando a lista quando me lembrei. Como esquecer do meu grande calhamaço de 2017? História incrível, personagens maravilhosos e aquele talento que o Stephen King tem de nos fazer morrer de medo em uma página e chorar loucamente na seguinte. Recomendo muito, resenha aqui.


  •  O médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson 
      Um livro curtinho mas que discute tanta coisa sobre a alma e a dualidade humana? Esqueçam os filmes em que Mr. Hyde é um monstro sem personalidade (alô Hulk!) e leiam o livro. O mau aqui é um homem comum e não surgiu do nada, mas faz parte do mesmo cientista que criou a fórmula. Não tem resenha mas comentei sobre ele brevemente aqui. 


  • Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
      Terminei esse livro já querendo reler. É uma daquelas distopias que te faz questionar todo o seu mundo e as coisas que você acredita, sabe? Não que eu concordo com tudo o que o autor expõe mas é um livro que me fez pensar muito, em muitas coisas. Resenha.


  • Drácula - Bram Stoker
      Como uma fã de histórias com vampiros, assumo que demorei tempo de mais para ler esse livro. Mas foi só ler para ficar apaixonada por esse novelão com ares vitorianos, cheio de subtextos bastante eróticos (embora ache que a grande maioria não foram percebidos pelo próprio autor). Pretendo reler algum dia, só para ver se continuo com a mesma opinião, mas Drácula tem tudo para se tornar um dos meus livros favoritos. Resenha.


  • Antes do baile verde - Lygia Fagundes Telles
      Ok, acho que estou roubando aqui. Tenho quase certeza de que já tinha lido esse livro. Mas não tem como não citar 'Antes do Baile Verde' entre os melhores do ano. É um dos melhores livros de contos que eu já li e, sinceramente, cheguei a invejar a autora pela forma como ela consegue formular histórias aparentemente tão banais e tão cheias de significado. Quero ler mais coisas dessa autora mas não sei se um romance me traria tanto impacto quanto esses contos. Resenha aqui. 


  • Essencial - Kafka
      É uma coletânea de contos, aforismos e escritos de Franz Kafka, incluindo histórias como "Na colônia penal" e "Metamorfose" (que nunca tinha lido). Tinha lido "O processo" antes e achado muito estranho mas, como já tinha esse livro na prateleira mesmo, resolvi emendar e ler logo tudo o que tinha desse autor. 
      "Essencial" é digno do nome, o típico livro que indicaria para qualquer um que queira conhecer esse autor. Não vou dizer que Kafka é sempre tão divertido quanto nesse livro (vide o meu sofrimento para seguir com "O processo") mas o livro é tão bom que me fez querer dar outra chance e ler mais coisas desse autor. Não fiz resenha, mas fica a indicação. 


  • A rainha branca - Phillippa Gregory
      Quando encontrei esse livro em um bazar por 5 reais eu não esperava que iria me sentir tão envolvida com essa história. A Guerra dos Primos, narrada aqui pelo ponto de vista de Elizabeth Woodville, a Rainha Branca, tem muito das tramóias e reviravoltas que me fizeram amar séries como "Game Of Thrones" e "House Of Cards", aquelas artimanhas políticas, sabe? Além disso, tem uma parte meio fantástica também, que é a ligação da protagonista com uma deusa das águas... Sério, leiam esse livro. O segundo eu não achei lá essas coisas, mas esse primeiro volume da "Guerra dos Primos" é muito divertido. Resenha.


  • Cira e O Velho - Walter Tierno
      Acabei de perceber que não resenhei esse livro. Por que não resenhei esse livro? Deve ser o final, que me incomodou. De qualquer modo, entra para uma das melhores do ano, uma história sobre o folclore brasileiro que me prendeu e me encantou - sabe quando você tem a sensação de que está ouvindo alguém te contar um "causo"? Foi o que senti lendo esse livro. Leiam Cira e O Velho, gente, sério.


FONTE
  • O oceano no fim do caminho - Neil Gaiman
      Esse é um dos últimos que li no ano mas também entra nessa lista. Sabe quando você tem a sensação de que, se tivesse lido um livro em um determinado momento da sua vida, ele poderia ter se tornado um dos seus favoritos? Então, foi o que eu senti quando terminei "O oceano no fim do caminho". A história tinha tudo para ser extremamente significativa mas algo não se encaixou nessa primeira leitura.
      Por que coloquei na lista de melhores então? Ele está aqui mais por essa promessa que eu fiz para mim mesma, de reler daqui há alguns anos. Depois volto para dizer se isso fez alguma diferença.


  • Na escuridão da mente - Paul Tremblay
       Por último, o último livro de terror que li esse ano e um dos melhores também. Sabe quando um livro te engana do início até - quase- o final? Então, foi o que senti lendo esse livro. O final não esclareceu muita coisa, de forma que ainda fiquei vários dias pensando no que realmente tinha acontecido com a família. Foi uma das últimas resenhas do ano. 

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É isso! Ano que vem espero ler tantos livros quanto esse ano. Quais são seus livros favoritos de 2017? Comente!