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As Aventuras do Bom Soldado Svejk - Jaroslav Hašek (ou: finalmente terminei o Livrada 2016!)


   Um calhamaço de mais de 688 e tantas páginas que, mesmo contando sobre as "aventuras de um soldado" não mostra uma única batalha. Eis "As Aventuras do Soldado Svejk" escrito pelo autor checo Jaroslav HaÅ¡ek com base em suas próprias experiências na primeira guerra mundial. A história gira em torno desse personagem principal que, seja porque é muito esperto e dissimulado, seja porque é uma verdadeira mula, acaba se metendo nas improváveis e hilárias situações - e conseguindo se safar de todas elas.
   Esse era um livro que eu tinha grande vontade de ler desde o início do "Desafio Livrada" mas acabou que foi o último dos livros desse desafio que li. Aliás, essa palavra parece a mais ideal para descrever minha experiência de leitura, uma vez que acompanhar as peripécias desse soldado foi um dos esforços (literários) mais hercúleos que já fiz na minha vida. Para vocês terem uma ideia: Comecei a ler esse livro em setembro de 2016 e terminei somente no final de janeiro de 2017, após jurar para mim mesma que iria terminar esse livro ainda no ano passado. 
   Talvez, quando você tenha visto ou ouvido falar desse livro, alguém tenha lhe dito que se trata de uma história muito divertida e bem humorada e que esse é um livro muito gostoso de ler. Longe de mim dizer que as pessoas que pensam assim estão erradas - realmente o autor parece querer que o riso seja a resposta do leitor as peripécias do personagem. Mas o que acontece quando o humor que há nas páginas de um calhamaço de quase 700 páginas não é o humor que o leitor se identifica ou acha engraçado? Foi o que aconteceu comigo. 

   Não que o livro seja de todo maçante. Até dei uma ou duas risadas em alguns momentos mas as histórias me parecem tão repetitivas que logo foram perdendo a graça. O humor de Hasek, além de apresentar o pior tipo de pessoa possível para dialogar com Svejk, consiste em fazer com que os personagens comecem a narrar "causos" absurdos enquanto dialogam entre si. Então é uma história e cada personagem que fala entre si vai contando outra história e assim vai até que o assunto principal retorna e é resolvido de forma abrupta. 
   Acompanhando Svejk desde o início, em seu alistamento, até todo o percurso que o mesmo faz para chegar até o local da guerra na companhia de seu batalhão, sinto um misto de admiração, por aquilo que Hasek estava tentando fazer (que é mostrar os absurdos e mazelas da Primeira Guerra Mundial pelo ponto de vista do povo checo e utilizando humor) e aquilo o que ele me passou, um bando de pessoas horríveis dizendo e fazendo coisas tão horríveis que parece até engraçado. 

   Foi muito difícil persistir nessa leitura e, quando cheguei ao final, acabei por receber outro golpe: O livro não tem final. O autor faleceu antes de concluir a história então tudo termina em meio a outro diálogo absurdo - ficamos sem saber até onde iria nos levar aquele aqueles momentos, se pessoas iriam morrer ou se a guerra iria mesmo acontecer para esses personagens. Tudo acaba de um momento para outro e não temos resposta alguma do que significava toda essa trama meio sem sentido. 
   Se você gosta de um humor seco e pautado no pior do ser humano, se quer conhecer algum ponto de vista diferente da Primeira Guerra Mundial ou ainda, se pretende ler alguma coisa que te faça conhecer melhor a cultura checa, leia "As Aventuras do Soldado Svejk". Caso contrário, não recomendo a leitura. 
   Nota 6 - não gostei 

DECLARO AQUI ENCERRADO O DESAFIO LIVRADA 2016! Um beijo para quem achou que eu não ia conseguir! 
   

Os melhores Contos - Rubem Braga (Resenha) #DesafioLivrada2016

   
   O livro reúne os melhores Contos de Rubem Braga, autor Paulista que teve o primeiro livro publicado em 1936. São 39 contos, todos razoavelmente curtos, todos com temas variados mas tratando, principalmente, do cotidiano. 

   Ao ler os contos desse livro sensação de ouvir aquelas "causos" contados por pessoas mais velhas. As histórias não tem grande clímax ou reviravoltas, são recortes do tempo e do cotidiano. Obviamente, ao serem transmitidos na forma escrita, esse cotidiano ganha contornos de lirismo e até mesmo certa ironia, tudo graças ao estilo simples e interessante com que Braga escreve. 
   Eu gosto muito de contos, embora não leia tanto quanto gostaria. Escolhi esse livro para o Desafio Livrada 2016, na categoria "um livro que você não sabe porque tem". Esse livro está aqui em casa a séculos e eu não faço ideia de como chegou aqui, então achei que era uma boa escolha. 
   Percebi ao ler esses "Melhores Contos", que Braga é um escritor muito bom, com um bom domínio da escrita, capaz de se comunicar com o leitor de forma simples e quase coloquial. O leitor se sente amigo do autor, alguém de quem pode ouvir histórias entre uma xícara de café e outra. 
   Mas, infelizmente, esse livro não dialogou tanto comigo quanto eu gostaria. Salvo uma ou duas exceções (como "A partilha" ou "Noite de Chuva") a maioria dos contos foram recebidos por mim com certa apatia. Eu não odiei ler essas histórias mas, ao terminar de ler a última delas, não pude deixar de lado a sensação de que tempo foi perdido. 
   Volto a afirmar que isso se refere mais a mim como leitora do que a qualidades ou defeitos do autor. Talvez por ser de uma geração mais imediatista eu tenha me acostumado com esses contos mais cheios de reviravoltas ou com tramas aventurescas. Ou talvez eu não tenha sido capaz de detectar a subtrama (ou trama oculta) que há nos contos clássicos, de forma que todas as histórias acabaram ficando um pouco tolas e vazias para mim.
   Logo, recomendo esse livro apenas ao que tem interesse na obra do autor, ou para os que gostam de crônicas ou contos mais prosaicos e do dia-a-dia. Me senti chateada por não ter gostado desse livro, tanto que até dei uma pausa antes de terminá-lo,  achando que fosse o momento da leitura que estava atrapalhando. Mas não foi esse o caso - como eu disse acima, a obra apenas mão dialogou comigo. 
   Nota 6 - não gostei


|DIRETO AO PONTO #014| Agatha Christie, Ed/Lorraine Warren e Lewis Carroll

Direto ao ponto é uma coluna do blog em que falo rapidamente sobre 3 livros ou filmes que assisti/li recentemente. Para ler outras postagens iguais a essa, CLIQUE AQUI. 



Nome do livro: O Assasinato no Expresso do Oriente
Autor: Agatha Christie
Ano: 1998   /   Formato: e-book
Editora: Nova Fronteira
Opinião: Um assassinato no Expresso Oriente tem tudo para parecer um roubo comum. Porém Hercule Poirot, o principal detetive da Agatha Christie, está em um dos vagões e não compra essa ideia de forma alguma. 
   Não é a toa que essa é uma das tramas mais famosa da escritora inglesa: trama bem elaborada, com um plot-twist de tirar o folêgo e desenvolvimento rápido, esta história mostra um Hercule Poirot (e uma Agatha Christie) em sua melhor forma, com direito aquele senso de humor peculiar a qual estamos acostumados é uma tendência para as revelações dramáticas.
   Nunca havia pensado nisso, mas quando li esse livro percebi que Poirot não é um herói típico. Claro, ele nunca se assemelhou em nada que fosse um herói, mas é que eu andava tão acostumada com romances policiais em que o detetive busca a "Justiça" que até estranhei quando li o final desse livro. A "justiça", ou melhor, a lei, pouco importa a Poirot. O importante é a verdade e a conclusão do caso. 
Cena: A cena final tem o que esses romances policiais tem de melhor, plot-twist e muita emoção. Mesmo eu, que já sabia o final, fiquei de boca aberta com as revelações de Poirot e, principalmente, com a forma na qual ele chegou a essas conclusões. Recomendo muito essa história do detetive de massa cinzenta privilegiada rs. 
Nota:  Nota 9 - muito bom



Nome do livro: Invocadores do Mal
Autor: Ed e Lorraine Warren
Ano: 2016    /   Formato: E-BOOK
Editora: Pensamento
Opinião: Quem lê o blog, sabe que gosto bastante de filmes de terror. Livros eu não costumo ler tanto mas, quando vi essa não-ficção escrita pelo verdadeiro casal Warren (que estão nos cinemas como os investigadores paranormais da franquia Invocação do Mal), adicionei a minha lista de leitura imediatamente.
O livro é uma espécie de compilado de algumas palestras dadas pelos Warren em que eles dividem suas experiências a respeito de fantasmas, demônios e outras coisas bem estranhas. Antes do início das "palestras" e dos casos há uma breve biografia de cada um deles, focando-se especialmente na habilidade de Lorraine como sensitiva e em como ela foi testada pela UCLA etc. 
Tive sentimentos ambivalentes com esse livro. Fiquei muito cética a respeito da veracidade de algumas situações narradas no livro quando descobri que os Warren aceitavam dinheiro como "demonstração de gratidão" e que, para "ajudar" uma família, faziam questão de que esta pagasse todas as despesas. Isso não é muito diferente de falsos médiuns que vemos por aí. 
As histórias de fantasmas também não me chamaram atenção mas minha percepção do livro mudou quando cheguei a parte dos casos protagonizados por entidades demoníacas. Tudo o que posso dizer sobre o assunto é que todo o meu lado covarde veio a tona, a ponto de eu ter certas dificuldades para dormir a noite. Não que seja algo inovador ou absolutamente aterrorizante é mais como encontrar no livro (depois de tantas páginas de blábláblá) o tipo de material que estava procurando. 
Quando eu pensei que estava engrenando na leitura veio a parte das 'criaturas'. O caso envolvendo o pé grande (ou abominável homem das neves, sei lá) é tão ridículo que anula todo o restante da história.
Cena: As cenas do meio do livro, que falam sobre demônios etc. Mas nem elas compensão essa leitura fraquíssima. 
Nota:  6,5 - não gostei, mas dei meio porque fiquei com medo ao ler algumas histórias "reais". 

|LEIA A SINOPSE DO LIVRO|

Nome do livro: Alice no País das Maravilhas 
Autor: Lewis Carrow
Ano:  2013   /   Formato: E-BOOK
Editora: Zahar
Opinião: 
ESSE LIVRO FAZ PARTE DO DESAFIO LIVRADA. PARA VER OUTROS LIVROS DO DESAFIO CLIQUE AQUI 
Alice está com sua irmã em um local perto de casa quando vê um Coelho de casaca e relógio de bolso passando por ela. Ela resolve imediatamente seguir o bichinho e acaba caindo em um buraco - e em um mundo de maravilhas. 
Minha primeira leitura desse clássico infantil, achei bem inventivo e interessante. Também gostei da forma como, apesar se ser claramente infantil, o livro contém alguns momentos de sabedoria bem adultos. 
Cena: Eu gosto da conversa de Alice com a lagarta e com o gato Cheshire. 
Nota: 8 - um bom livro. 
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|RESENHA| Malagueta, Perus e Bacanaço - João Antônio #DesafioLivrada

ESSE LIVRO FAZ PARTE DO DESAFIO LIVRADA 2016, PARA CONHECER OUTROS LIVROS DESSE DESAFIO CLIQUE AQUI
   João Antônio foi um escritor e jornalista brasileiro. Seu primeiro livro, "Malagueta, Perus e Bacanaço" foi lançado em 1963 e lhe rendeu fama e dois prêmios Jabuti. A partir desse reconhecimento, seu nome passou a ser conhecido entre os literatos brasileiros como um autor capaz de dar voz a marginalidade Paulista, tanto com o uso de gíria e coloquialidade quanto por seu estilo único de prosa. 

   Comprei esse livro há quase 1 ano, minha última compra no site da Cosac Naify. Tudo o que sabia sobre esse autor era o que estava escrito na "descrição" dele no site mas resolvi comprar porque me interessei por sua obra (e porque queria aproveitar o desconto de 50% que tinha no site). 
   Assim que eu li a sinopse de "Malagueta, Perus e Bacanaço" e as declarações sobre a escrita de João Antônio, soube que ia gostar desse livro. Mas foi necessário quase um ano e a inclusão da obra no meu Desafio Livrada (na categoria "um autor do seu estado") para que eu finalmente desse início a essa leitura. Por que a gente adia tanto a leitura de livros que sabemos que vamos gostar? Boa pergunta. 
   Os contos aqui são divididos em três partes. Na primeira, "Contos gerais", estão os contos mais curtos e mais fracos desse livro. São apenas três contos aqui e o meu preferido dessa parte é "Fujie", o mais perto de uma história de amor a que o autor chega neste livro. 
   Na segunda parte, "Carserna", temos mais dois contos, dessa vez passado em quartéis. Nesse momento do livro nota-se que o autor organizou o livro de forma brilhante, já que a qualidade e  complexidade das histórias só vai aumentando com o passar dos contos. Depois que li "Fujie" me senti fisgada pelo estilo de narrativa do autor e por suas histórias com personagens humanos e não consegui mais parar de ler esse livro até terminá-lo. 
    Os contos de "caserna" são muito bons mas o melhor está na terceira e última parte do livro, "Sinuca". É aqui que vemos o "submundo" da São Paulo da época e é também nesse momento em que vemos João Antônio em seu auge como escritor. São contos passados em sua maioria a noite e ora em primeira, ora em terceira pessoa, mas nunca falhando em nos dar retratos pungentes de pessoas e lugares. Não me surpreenderia saber que algumas dessas tramas tem caráter auto biográfico porque algumas histórias e personagens parecem tão reais que é fácil imaginar que eles existiram mesmo. 
   "Malagueta, Perus e Bacanaço", conto que dá título ao livro e que o finaliza é um conto excelente e destaca-se como o ápice de todas essas narrativas, momento em que somos levados pela noite de São Paulo e vivemos aventuras ao lado dos 3 malandros que dão título a obra. 
   Ã‰ um conto mais longo, repleto de personagens interessantes e ambientes quase nunca agradáveis. O autor, utilizando da terceira pessoa, vai alternando pelo ponto de vista de Malagueta (velho e abatido) Bacanaço (no auge de seu jogo e "cabeça do bando") e Perus, o mais novo de todos. Os três, Malagueta, Perus e Bacanaço são "tacos", isto é, exímios jogadores de sinuca, e ganham dinheiro dessa forma. 
   Mas, embora só tenha elogios para esse último conto, a história do livro de que mais gostei e a que vem antes desta. "Meninão do Caixote" deixou meus olhos mareados. Talvez nem tenha sido essa a intenção do autor mas sua escrita simples dessa história corriqueira sobre um menino que se torna um às na sinuca me emocionou e fez desse o meu conto favorito; esse conto é escrito em primeira pessoa que, na minha opinião, é a voz com a qual o autor trabalha e se expressa melhor.  Todos os contos em primeira pessoa que li nesse livro são interessantes, porque revelam um pouco mais dos sentimentos e angústias dos personagens. 
   Recomendo muito esse livro para todos os que gostam de contos e de personagens meio sem rumo na vida. Algumas histórias são melhores que as outras mas o subtexto dos contos e os personagens que se sentem deslocados no mundo em que vivem valem a pena até mesmo em histórias não tão legais quanto as que citei. 
  João Antônio dificilmente pode ser considerado um escritor datado pois através de sua escrita simples e sem firulas somos apresentados a um universo único e palpável. É como se, conforme lemos, a São Paulo do início da  década de 60 - da Lapa com ruas de terra, dos corregos na Vila Mariana e do período pré ditadura militar - estivesse viva e se descortinasse perante nossos olhos. 
   E, se muito mudou desde então, se o malandro Paulista já não é o mesmo dos contos deste livro, ainda ficam as boas histórias e a visão e voz que o autor deu aos marginalizados deste período, que pela primeira vez puderam vez a si mesmos em um livro - não é à toa que o livro foi sucesso de público quando vai lançado em 63. 
   Nota 9 - muito bom.


|Direto ao Ponto #013| Shakespeare, Homero e Hemingway


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Nome do livro: Odisseia
Autor: Homero
Ano: 2011   /   Formato: LIVRO
Editora: Saraiva de bolso
Opinião: Já tinha lido uma versão infanto-juvenil desse livro, adaptada pela Ruth Rocha, e na ocasião com 9/10 anos, essa história já tinha se tornado uma das minhas favoritas. Anos depois, a versão original, sem cortes e sensibilizações e totalmente em versos se mostrou um desafio maior, mas recompensador. A história de Odisseu (Ulisses), que fica 20 anos longe da sua amada Itaca e passa por vários perrengues para retornar para a esposa Penelope e o para o filho Telemaco me conquistou uma vez mais, ainda que eu tenha pensado em abandonar esse livro várias vezes devido a minha dificuldade para lê-lo. Mas a trama falou mais forte pois contem tudo o que um livro precisa, aventura/drama/romance/ação... E com um desfecho inesquecível. 
Cena: Gosto da vingança de Odisseu junto aos pretendentes, apesar de ser uma cena bem forte, cheia de sangue. Outra das minhas cenas favoritas é a que conta a primeira noite de Odisseu e Penelope depois de tantos anos, em que eles contam um ao outro tudo o que passaram "sem esconder nada". Para mim é um dos momentos mais românticos do livro (se não o único). 
Sim, o livro é machista de cabo a rabo e os personagens que deveriam ser 'mocinhos' agem de acordo com uma ética duvidosa mas hei: não é justo julgar um livro escrito a mais de 2.000 anos atrás pelos nossos padrões atuais - uma contextualização é justa e necessária.
Nota:  Nota 9 - muito bom
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Nome do livro: Muito Barulho por Nada
Autor: Shakespeare
Ano: 2014   /   Formato: E-BOOK
Editora: Saraiva de Bolso
Opinião: Meu primeiro Shakespeare! Esse livro é bem rapidinho e divertido. É uma peça que conta a história de Claudio e Hero, apaixonados um pelo outro, que quase perdem a chance de serem felizes graças a Dom João, um nobre sórdido e cruel. Paralelo a isso temos Benedito e Beatriz, este amigo de Claudio e ela prima de Hero, que vivem as turras e discutindo mas que são, secretamente, apaixonados um pelo outro. 
Gostei muito desse primeiro contato com Shakespeare principalmente pelos diálogos. Achei que a trama iria se arrastar em determinado momento mas não, o seu desenrolar seguiu o mesmo ritmo do restante da peça.
Cena: Gosto muito dos diálogos entre Beatriz e Benedito, os meus personagens favoritos, por isso minha cena favorita é quando eles "concordam" em casar um com o outro.
Nota: 9 - muito bom, apesar de rápido.

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Nome do livro: O velho e O mar
Autor: Ernest Hemingway
Ano: 2011   /   Formato: livro
Editora: Bertrand Brasil
Opinião:
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 Santiago é um pescador que vive numa Cuba pré-revolução. Todos os dias ele pega o seu barco a vela e vai pescar em alto-mar. Porém já faz mais de 80 dias que Santiago não pega um peixe sequer. 
O livro narra então o 85º dia de pesca de Santiago. Ele tem certeza de que fisgará um peixe naquele momento e, como vemos, tem toda razão. O que ele não espera é que um simples peixe lhe dê tanto trabalho. 
É meu primeiro contato com Hemingway e se por um lado gostei de sua escrita reflexiva porém simples e despretensiosa, por outro lado achei a história do livro meio maçante. É um dia de pescaria de um velho e, por mais que aconteçam uma porção de coisas, é cansativo ver Santiago falar sozinho e repetir várias vezes ao longo da história as mesmas coisas. Eu gosto de histórias que se passam no mar mas esta não me cativou muito. 
Embora tenha achado a escrita do autor interessante e visto a beleza e a delicadeza na metáfora que esta trama representa, não é um livro que me tornou fã de Hemingway como  foi com "O grande Gatsby" de Fitzgerald. 
Cena: Sem spoilers mas acho o desfecho do livro muito bonito, embora um tanto melancólico. 
Nota:  nota 7 - um livro ok mas me deu vontade de conhecer mais obras do autor. 



|RESENHA| O jovem Törless - Robert Musil #DesafioLivrada

   ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS.
   Vivendo em colégio em um local distante de casa, de disciplina rígida e só com meninos, Törless é um adolescente cheio de angústias. Embora tenha vários amigos, como Reitin e Beineberg, o jovem se sente diferente de todos, buscando algo que parece não existir. 
   O livro começa de forma um tanto típica, mostrando Törless, o adolescente cheio de angústia (o que é quase um pleonasmo), despedindo-se dos pais na estação de trem e voltando a pé para o internato onde vive mas que odeia. Mesmo assim, até nessas primeiras páginas é possível ver a qualidade do autor, Robert Musil, que parece abordar um mar de sentimentos interiores numa simples caminhada até o colégio. 
   Logo, porém, a trama se complica e ganha contornos ousados para a época em que o livro foi publicado. É que Reitin, o sádico amigo de Törless, descobre que o colega de classe deles, Basini, está roubando dinheiro dos outros alunos. Reitin sugere então a Beineberg e Törless que eles mesmo punam Basini e só depois o entreguem a direção da escola. Começa então uma série de abusos ao personagem de Basini que se prolonga por quase todo o livro, com a participação de Reitin e Beineberg e a complacência de Törless. 
   Li esse livro para o desafio livrada, pois ele é o típico romance de formação e essa é uma das categorias que consistem esse desafio. Iria ler "O jogo das contas de vidro" mas optei por "O jovem Törless" porque tenho esse livro fisicamente e porque, segundo li, "O jogo das contas de vidro" é um livro muito complicado. Achei melhor lê-lo fora do desafio, para poder dar mais atenção e tempo a trama. 
   "O jovem Törless" é um romance curto (talvez até possa ser categorizado como novela, de tão curto que é) mas cheio de temas fortes e passíveis de discussão. Törless é um adolescente cheio de desejos que não compreende e com uma moral ainda pouco desenvolvida e por isso comete alguns erros por omissão nesse livro. Törless não faz nada ao ver Reitin e Beineberg espancando Basini e, quando descobre que as surras se tornaram estupros, fica mais intrigado do que revoltado com a história toda. 
   Ã‰ que Törless já tinha alguns pensamentos homossexuais dentro de si, alguns dirigidos ao seu amigo Beineberg. Quando descobre essa situação com Basini, um aluno mais frágil, possivelmente homossexual e numa posição vulnerável (precisa que os outros não contem sobre seu roubo) transfere seus "sentimentos" para Basini. Em certo momento do texto ambos acabam se relacionando sexualmente, mas Törless pouco a pouco começa a desprezá-lo pela sua falha moral e complacência. 
   A temática homossexual está bastante presente nesse livro mas, dos três amigos, só Törless romantiza esse relacionamento com Basini. Reitin, que foi o primeiro a ter relações sexuais com o colega, é o verdadeiro sádico - quer a humilhação total (moral, psicológica e física) do outro e sente prazer nisso. Já Beineberg usa a desculpa de conseguir "o crescimento espiritual" para repetidamente estuprar e espancar o colega ladrão. 
   Assim como "O senhor das Moscas" nesse livro também vemos a que ponto a crueldade das pessoa pode chegar quando detém o poder mas nenhuma força que para inibir o exercício deste. Os professores e diretores da escola parecem ausentes, distantes, incapazes de ver o que acontece diante de seus olhos. E, com isso, a situação de Basini vai se complicando de tal forma que, não fosse uma interferência de Törless no final do livro, não tenho dúvidas de que o jovem acabaria morto. 
   Não dá pra dizer que gostei desse livro, mas, analisando a obra seu contexto e a época em que foi escrito, reconheço os méritos e a ousadia da história. Mesmo assim vejo esse livro divido em duas metades. 
   A primeira antes de Törless se relacionar sexualmente com Basini. Nesse ponto o livro é muito bonito porque vemos o personagem principal se apaixonando e sua confusão e angústia ao perceber que seu afeto é dirigido a alguém do mesmo sexo. Nesse momento já acontecem os abusos da parte dos outros colegas para com Basini, mas Törless somente intui que esses abusos ocorrem e se sente incapaz de impedir. 
   Já na segunda parte, depois que o relacionamento se consuma, vemos os sentimentos românticos de Törless se desintegrarem. Utilizei a expressão relacionamento para falar de Törless e Basini pois, ao contrário do que acontece com os outros, o sexo entre ambos é consensual. Ou ao menos é o que mais se aproxima desse conceito. 
   Nesse segundo momento, ao invés de ficar em êxtase por estar consumando aquilo que com frequência fantasiou, Törless se vê ainda mais angustiado. Li que o livro é baseado nas experiências do autor, Robert Musil, em um colégio militar e, embora o autor o tenha negado, estou inclinada a acreditar nisso. Para mim fica muito visível no texto momentos em que o autor se vê na necessidade de justificar o comportamento de Törless e tudo o que ele passou, chegando até mesmo a abandonar o momento presente da trama para dizer como Törless enxergaria tal relacionamento no futuro. 
   Acho que essa ânsia de Musil por analisar e justificar o que ocorre entre Basini e Törless diminuiu um pouco a obra. Mesmo que o final permanecesse o mesmo, seria mais interessante se o autor deixasse em aberto se essa homossexualidade de Törless foi coisa de um episódio ou se foi algo que levou para sua vida adulta. Musil, no entanto, talvez por ver muito de si no personagem, resolveu usar parágrafos do romance para justificar que aquela foi apenas uma experiência para que "Törless" adquirisse a moral que tem hoje. 
   Mesmo um pouco decepcionada pelas escolhas do autor da segunda parte do livro, tanto na narrativa quanto na trama, ainda recomendo para os que querem saber o que raios é um romance de formação mas não tem paciência ou tempo para ler um Dickens da vida. Se você tem interesse pela trama, saiba que, embora haja uma linguagem pela e poética, não se trata de um livro romântico. Muito pelo contrário, aliás. 
  
 Minha nota é 7,5 - o livro é bom mas tiro meio ponto pelas questões que citei. 
   
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|Resenha| O Castelo Animado - Diana Wynne Jones #DesafioLivrada

ESSE LIVRO FAZ PARTE DO DESAFIO LIVRADA 2016. Para conhecer outros livros do Desafio, CLIQUE AQUI

   Sophie é a mais velha de três irmãs. Como vive em um mundo em que contos de fadas real, ser a primeira filha para ela significa nunca ter um final feliz. Sophie já leu muitos contos de fadas para saber que a irmã mais velha sempre tem o pior destino e acaba se resignando com isso.  Ao invés de tentar conseguir uma grande fortuna ou o amor de um príncipe, Sophie passa seus dias cuidando das irmãs mais novas e ajudando a madrasta na loja de chapéus da família. 
   Um belo dia, uma bela e assustadora mulher entra na loja e pede para experimentar um chapéu, mas não gosta de nenhum. Essa mulher logo se revela como a Bruxa das Terras Desoladas e, após dizer a Sophie que não aceita competição (ou algo assim), a Bruxa lança uma maldição. Quando ela sai da loja de chapéus, Sophie não é mais uma jovem de 17 anos mas uma senhora de quase 90. 
   O Desafio Livrada não é composto apenas de desafios, vejam só vocês. Há uma categoria muito fofa esse ano, denominada "um livro bobo". Interpretei isso não do modo pejorativo mas sim como a oportunidade de ler algo divertido, para fugir um pouco dos livros cabeça que povoam essa lista. 
   Não poderia ter escolhido melhor. Ou melhor, re-escolhido, já que minha primeira opção era um livro chamado "E se..." que é tudo menos divertido (estou a meses lendo mas ainda não consegui terminá-lo de tão chato). Quando eu li "O castelo animado", uma indicação da Karol do Blog Quem é Você Karol, eu soube imediatamente que ele seria perfeito para o Desafio. 
   Ao contrário do que possa parecer na minha sinopse do início o livro não é um conto de fadas fofinho e romântico. Sophie sai por aí como velha e acaba indo trabalhar para Howl, um mulherengo, fútil, dramático e muito talentoso mago, que vive em um castelo que flutua pela cidade. Howl aceita Sophie sem saber de sua maldição, por isso não dá em cima dela como faz com todas as moças da cidade.
  O relacionamento entre Sophie e Howl é marcado por muitas discussões e "altas confusões" por assim dizer, o que é muito divertido de acompanhar. No "castelo" também vivem Michael, aprendiz do mago e o demônio do fogo Calcifer, com quem Sophie faz um pacto na primeira noite no castelo: ela teria que desfazer o contrato que liga Howl e Calcifer e este lhe ajudaria a quebrar a maldição.
   Além dos personagens incríveis, o livro também tem uma trama muito bem elaborada, com capítulos curtos e divertidos e todo um universo rico e interessante. Descobrimos que o castelo tem uma porta que leva a universos paralelos, nem todos mágicos. E que o "felizes para sempre" só chega no momento certo: para um livro infanto-juvenil é notável o desenvolvimento dos personagens principais, que não terminam o livro da mesma forma que começaram e, ao mesmo tempo, também não transformam suas personalidades do dia para noite. 
   Logo na primeira página, a escrita da Diana Wynne Jones me encantou. A mistura de conto de fadas e humor foi irresistível para mim e fez com que eu lesse "O Castelo Animado" em 2 dias, sem querer largar essa história um segundo sequer. Se você gosta de cenas românticas ao luar certamente esse livro não é para você mas se gosta de feitiços que dão errado, identidades trocadas e personagens que amam se odiar, por favor, leia esse livro! (Ponto de exclamação necessário, para exprimir toda a minha empolgação). 
   Recomendo muito para os que estão passando por uma fase de "não conseguir ler nada" ou simplesmente para os que querem um livro que aquece nossos corações e nos faz sorrir sem motivo. Só depois que finalizei o livro é que descobri que havia uma animação do estúdio Ghibli baseada nesse livro (também chamada "O Castelo Animado") , feita por ninguém menos que Hayao Miyazaki. 
   Não vejo a hora de conferir essa animação mas, embora um post conjunto pudesse ser interessante, queria deixar logo aqui minhas impressões do livro, antes que minha memória confunda tudo rs. Nota 9,5 - um livro muito bom, que tem tudo para se tornar um favorito (só uma releitura o dirá, por isso não dei o 10). 

|Resenha| Um Rosto Na Noite - Patricia Highsmith (#Livrada2016)

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    Um homem chamado Ralph passeia com Deus (seu cachorro - God, em ingles, é o contrário de Dog) quando encontra uma carteira que recolhe, feliz por ter a oportunidade de mostrar seus princípios através de um gesto tão simples. Ele devolve a carteira com todo o dinheiro que havia, para imensa satisfação e surpresa do proprietário, Jack Sutherland. 
   Jack e a esposa Nathalia vivem próximos a Ralph mas nunca tinham se encontrado antes. Porém, após esse acaso insólito, os caminhos de Ralph e Jack se cruzam ainda muitas vezes. É que, indiretamente através de Ralph, Jack conhece a jovem e carismática Elsie, por quem ele e sua esposa Nathalia acabam se apaixonando. 
   Depois de ler Carol eu estava ansiosa para ler algo mais dessa autora, principalmente os seus livros mais "policiais", suas histórias que fogem do romance que é Carol e que são grande parte de sua obra. Highsmith tem um jeito tão próprio de escrever que eu simplesmente quis ler tudo o que pudesse dessa autora, fosse romance ou não. 
   Pois bem, pode-se dizer que há, nesse livro, uma teia amorosa, do qual todos os personagens participam, de forma ou de outra. Sabe aquele poema do Drummond "João amava Teresa, que amava Raimundo..."? O livro parece seguir essa mesma pegada. A diferença é que todos os personagens principais (e alguns secundários também) amavam Ãºnica pessoa: Elsie. 
   A sinopse, que é falha em alguns pontos, acerta quando diz que Elsie é "o centro no qual todos os personagens gravitam". De fato, tudo está ligado a ela, inclusive o tal crime violento que a própria sinopse diz que vai ocorrer em algum ponto. 
   Eu apreciei a leitura desse livro quase que até o final, porque eu gosto demais da escrita dessa autora. O único problema foram as minhas expectativas com relação ao livro, que fizeram com que o desfecho da história fosse um pouco decepcionante. 
   A própria Highsmith costumava rejeitar a categorização de "policial" para os seus romances e isso deveria ter sido um indicativo de que, ao contrário do que capa, título e sinopse parecem sugerir, o livro não é um romance policial. Não há foco na investigação ou na identidade do assassino - o que eu esperava - mas sim nos sentimentos e emoções dos personagens principais com base nos acontecimentos. 
   Ã‰ por isso que me decepcionei com a história e achei o livro, em alguns momentos, um pouco ingênuo demais para mim. Talvez deveria ter encarado 'Um rosto na Noite' como um romance "normal", sem esperar características de um gênero ou de outro. Ou talvez não devesse ter lido a sinopse. 
   De qualquer forma, o livro ainda rendeu bons momentos e algumas reflexões. A forma levemente irônica e cheia de subtextos com que Highsmith escreve ainda vale a pena a leitura desse livro e de outros da autora (meu próximo dela provavelmente será o mais famoso, "O talentoso Ripley"). 
   Recomendo se você quiser um romance quase que sobre o cotidiano, que mostra relacionamentos complexos e diferentes do tradicional (até mesmo com uma pegada LGBT). Mas leve o livro sem expectativas, como um romance sobre pessoas que se encontram em algum momento de suas vidas.  Como se autora iluminasse a vida dos personagens por um momento, para contar determinada história e depois retirasse essa luz e os personagens seguissem com suas vidas da mesma forma. 
   Gosta de livros assim? Então vá em frente: 'Um rosto na noite' está esgotado (razão pela qual foi incluído no Livrada!) mas é encontrado facilmente na internet em epub ou mobi. 

   Nota 6,5 - o livro é OK mas minhas expectativas frustradas me obrigam a tirar meio ponto. 

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|RESENHA| O Conde de Monte Cristo - Alexandre Dumas #DesafioLivrada

ESSE LIVRO FAZ PARTE DO DESAFIO LIVRADA 2016. Para conhecer outros livros do Desafio, CLIQUE AQUI 

   Edmond Dantes é um jovem marujo, com o futuro pela frente. Filho devotado, a primeira coisa que faz depois que chega de viagem é ir ver seu pai, único parente visto que tem. A segunda coisa é ver Mercedes, sua amada. Edmond pretende se casar com Mercedes o mais rápido possível, antes de voltar novamente para o mar... Porém um colega de navio invejoso e um ex-pretendente enfurecido tramam um plano para impedir a felicidade deste casal. 
   Até mesmo quem não conhece ou leu O Conde de Monte Cristo já deve ter visto sua história por aí, disfarçada em algum filme, série ou HQ. Quem não reconhece a história do jovem com futuro promissor que, após ser traído e perder tudo, retorna mais poderoso e buscando vingança? Teria esse livro se tornado tão popular a ponto de ter transcendido suas páginas ou essa temática sempre fez parte do imaginário coletivo? Não sei e não importa muito: por um motivo ou por outro o tema central deste livro já era reconhecido por mim bem antes de lê-lo. 
   A primeira parte, que conta todos os infortúnios de Dantés, é certamente a melhor de todo o livro. Desde a sua felicidade e súbita infelicidade até seu escape da prisão e encontro dos tesouros prometidos pelo seu colega de cela, o Cardeal Spada, tudo é contado com tal energia que tira o fôlego do leitor. Eu fiquei revoltada, eu quis xingar, eu me empolguei. Desde a primeira parte senti que estava lendo algo especial mas, naquela primeira parte, achei que finalmente havia encontrado meu livro favorito da vida. 
   O que se seguiu não diminuiu a qualidade da história, a segunda parte começa tão emocionante quanto a primeira. Foi o único momento do livro que me fez chorar e, talvez pela primeira vez em um livro, chorar de pura felicidade. O 'arco' em que Dantés ajuda o senhor Morrel continua sendo um dos meus favoritos do livro e é um dos poucos em que vemos o protagonista fazer algo bom sem esperar nada em troca. Logo depois disso Dantés parte para se tornar O Conde de Monte Cristo e a coisa fica mais séria e pesada. 
   Justamente nesse momento passamos a ver a história sob a perspectiva de certo Franz, que conhece O Conde de Monte Cristo em condições muito misteriosas. Da-se início então a uma parte bem maçante, é como se estivéssemos sendo novamente apresentados ao personagem principal, mas sob uma nova perspectiva. É uma parte um tanto prolixa e cheia de referências as Mil e Uma Noites e a autores gregos, além do ar meio gótico que o autor dá a trama, tentando transformar Monte Cristo em uma espécie de vampiro. 
   Certamente não é meu momento favorito, mas até mesmo aqui é possível ver o talento do autor. Dumas é o tipo de escritor com o qual eu gostaria de tomar um café e perguntar de onde vem tantas histórias, qual o seu processo criativo... É tanta coisa que acontece nesse livro, tantos personagens indo e vindo a todo momento, cada um com sua história de vida e sua sub-trama, que cheguei a imaginar O Conde de Monte Cristo com muito mais que suas mais de 1600 páginas. Eu certamente gostaria de ler mais, tamanho meu apego pelos personagens. 
   Falando em personagens, é na parte 3 que são inseridas as principais "peças do tabuleiro", por assim dizer. Temos Dantés/Conde, que agora é um homem amargurado e frio, que usa uma mascara de riqueza e futilidade para mascarar suas cruéis intenções. Temos Danglas, Fernand e Villefort, os principais autores da injustiça contra Dantés e as principais vítimas de suas maquinações; são homens mais ou menos odiosos da qual é impossível ter qualquer compaixão (com exceção de Villefort, em momento bem especifico). 
   Temos também os parentes desses três antagonistas do Conde. A filha de Danglars, Eugenie, está prometida para se casar com o filho de Fernand e Mercedes, Albert. A filha de Villefort, Valentine, está apaixonada pelo filho do sr. Morrel, a única pessoa que tentou ajudar Edmond em seus anos de infortúnio. Todos esses personagens se relacionam entre si e ainda nem citei outros tantos personagens que aparecem nessa história, inclusive um tal Benetto, fruto de uma indiscrição de um dos antagonistas de Monte Cristo. 
   Ã‰ incrível que, com tanta coisa acontecendo, Dumas ainda consegue criar emoções e interesse no leitor. A cada página eu ficava mais empolgada com a história e com os personagens e acontecimentos. É porque estava lendo a edição física e não sou do tipo que marca mais livros físicos, do contrário teria marcado esse livro quase no todo, tamanha a quantidade de cenas e trechos que considerei espetaculares, emocionantes ou memoráveis.
   Depois dessa primeira parte nós só ficamos sabendo dos sentimentos do personagem principal em momentos-chave e no final mas nem por isso deixei de gostar e torcer por ele. A terceira parte é um deleite, com Monte Cristo voltando a sociedade e sendo reconhecido apenas por Mercedes, agora esposa de Fernand. Mas a quarta parte é aquela em que a vingança finalmente começa a ser posta em pratica e eu não consegui ler rápido o bastante. Tirando a primeira parte, creio que a terceira e quarta partes tenham sido o ápice do livro para mim. 
     A quinta parte tinha tudo para ser a melhor de todas, a começar por uma conversa emocionante entre Mercedes e Monte Cristo, outra das minhas cenas xodó nesta história. Meu coração disparou como se fosse eu naquele momento e atribuo isso não só a minha torcida por esse casal mas também a escrita espetacular de Dumas. Este autor costuma ser muito subestimado pelos críticos mas, como sou apenas uma leitora, pude me deleitar com sua escrita com ares de "novelão" sem me sentir culpada ou pouco intelectualizada. 
     Infelizmente, depois dessa cena incrível que citei acima, acontece algo que me deixou bem, mas bem chateada. Lembram que eu disse que passei o livro todo shippando Edmond e Mercedes? Pois é, não posso entrar em detalhes, mas algo aconteceu nessa parte do livro que fez meu shipp afundar (sem trocadilhos). Depois disso o livro perdeu parte do sabor: antes achava que o ódio e fúria de Edmond se devia a ter perdido tudo, sim, mas principalmente a perda da mulher amada. Depois que do que li, cheguei a conclusão de que Edmond era um personagem rancoroso e fim. Nada poderia dissuadi-lo de sua vingança, não haveria nada do final feliz que vemos no filme, por exemplo. 
   Depois disso dei uma parada com o livro, só retomando porque eu queria muito saber o final da trama e porque eu estava pirando com o livro até aquele momento, não poderia deixar um mero detalhe (um detalhe chamado Haydeé) estragar minha leitura. 
   Minha retomada da história foi uma ótima decisão pois fui brindada com um dos momentos mais progressistas da história; vocês podem dizer que não mas para mim Eugénie não só é uma personagem homossexual em um clássico, como também é uma das poucas a ter um final (mais ou menos) agradável. Queria que o autor tivesse parado no final da parte cinco a falar sobre tal personagem mas a parte 6 nos mostra que, sim, Dumas é um fruto de sua época (e, portanto, machista). 
   A conclusão da história, parte 6, é feliz e triste ao mesmo tempo. Foi interessante chegar até aqui e me ver, assim como Dantés, questionando todos esses propósitos de vingança. Teria sido demais? Teria sido justo? Edmond tem dois momentos de incerteza nessa parte, devido a um acontecimento especialmente dramático e muito pesado que ocorre perto do desfecho. Foi interessante ver ele tentando justificar suas atitudes retornando ao Castelo de If e também doloroso assisti-lo "virando o rosto" para uma parte do seu passado. 
   Nesse momento é que digo que Dumas foi machista, porque, apesar de não saber ou participar de nada, Mercedes tem um desfecho que soa tão melancólico quanto os dos rivais de Monte Cristo. Mercedes foi punida porque tentou ser feliz e continuar com a vida, após achar que seu amado estava morto. Irônico é que ela sequer foi feliz desta forma,  pois a lembrança de Edmond foi sombra constante em seu casamento. O autor, no entanto, não parece muito generoso com tal sofrimento e é muito triste ver que Edmond tão pouco.
   O último capítulo nos traz uma das frases mais bonitas do livro "Esperar e ter esperança". Isto é, sempre ter fé de que dias melhores virão. Porém, não sei se esse é o caso do Conde de Monte Cristo; concluindo a história tive a sensação de que a personagem nunca poderá ser feliz de novo depois do que fizeram para ele. Nem a vingança pareceu trazer satisfação suficiente, suscitando dúvidas e arrependimentos ao invés da satisfação almejada. 
   Mas o Dumas foi mais bondoso com Monte Cristo que com Mercedes e o leitor pode pensar que há um happy ending ali. De minha parte, concorda com uma resenha que li no Skoob, da usuária Raquel Andrade, que diz que, embora tenha escapado da prisão de If, Dantés continuou preso pelos grilhões da vingança. 
   Enfim, é um baita livro, não só pela quantidade de páginas mas pela história e reflexão que nos traz. Gostei muito da escrita do autor; apesar de algumas vezes me decepcionar ele conseguiu emocionar e trazer esperança para o seu final, algo que admiro muito nos livros que leio. Certamente quero ler mais coisas de Dumas e recomendo se quiser um clássico que não parece um clássico, tamanha a diversão que se tem lendo. 
    Minha nota é 9,5 - tirei meio ponto por causa dessa minha frustração com o destino de uma das personagens mas acho esse livro tão fantástico que pretendo rele-lo em algum momento da minha vida. 

    
P.S.: Fiz diário de leitura desse livro no Tumblr.