Conversas entre amigos - Sally Rooney



Francês e Bobbie são inseparáveis desde o dia em que terminaram o relacionamento e se tornaram amigas. Quando conhecem o casal mais velho formado por Melissa e Nick, Bobbie logo se interessa por Melissa, para a angústia de Frances, a complexa narradora dessa história. 

Conversa entre amigos acompanha a história dessas quatro pessoas (dois casais?), suas dinamicas e conflitos ao longo de certo período de tempo. A narradora é apontada pelos outros personagens como a mais fria e reservada dos quatro mas só o leitor e a própria narradora é quem consegue ver o universo de angústia existencial burguesa e tentativa de auto controle e afirmação que existem na personagem. 

Esse é um livro com pessoas muito jovens e nem tão jovens assim fazendo coisas reprováveis. Para fugir do seu tédio burguês, talvez? Boa parte dos personagens são brancos, cis, com uma vida confortável; possuem privilégios e tem consciência social. Eles tomam café em bares enquanto discutem sobre os conflitos na Palestina, bebem vinho falando sobre o racismo cometido na polícia americana. Todo mundo muito cool, muito moderno e inteligente - muito rebelde e contestador. 

Não que os personagens não tenham problemas. Mas é que parece que somente Frances - que tem que esperar o exame do sistema público de saúde e passa por algumas dificuldades financeiras - tem algo sólido para se preocupar, todos os outros parecem um pouco desocupados demais. Mesmo Francis parece estar mais preocupada em manter sua pose blasé que em resolver as questões de sua vida, muitas das quais ela mesmo se meteu.
Como bem previ no começo, é um livro de pessoas tomando decisões duvidosas. 

Gostaria de dizer que não criei expectativas a respeito dos personagens mas nas últimas páginas a autora me pegou: por um momento achei que chegaria a um final esperado, uma paz seria estabelecida. Mas um final sem conflitos seria fácil demais e esse final em si, piegas e conservador demais para personagens que se consideram tão descoladas. 

Apesar de me sentir frequentemente como se estivesse assistindo um acidente de carro acontecer ("vai dar muito errado isso") achei uma leitura rápida e sem grandes transtornos. Sally Rooney escreve muito bem mas me pareceu um pouco pedante em alguns momentos. 

No geral gostei da leitura mesmo tendo certas ressalvas a esse tipo de livro, em que você parece alternar entre raiva e pena dos personagens. Essa questão da trama menor, que atinge apenas um pequeno número de pessoas me é particularmente agradável: de repente o cotidiano passa a ser objeto do livro. 

Recomendo caso você queira conhecer essa jovem escritora que já foi comparada a Elena Ferrante e Sallinger. Eu, particularmente, senti algo de Fitzgerald, talvez mais pelo tema que pela escrita. Não sei se lerei outros livros da autora, mas essa me parece ser uma boa forma de adentrar em sua escrita.

Nota 3 ⭐ /5

O complexo de Cassandra - Laurie Layton Schapira



"Leiga resolve se meter com psicologia analítica e olha no que deu" 

   Propondo uma análise da "mulher Cassandra" como a histérica dos dias atuais, o livro se põe a analisar esse arquétipo na perspectiva da psicologia analítica bem como a sugestão do "tratamento", isto é, como o terapeuta deve conduzir esses casos. 

   Uma leitura muito rica e interessante, da qual certamente não aproveitei nem metade por não ter tanto conhecimento assim sobre essa abordagem psicológica: tenho um pouco sobre mitologia e isso ajudou em alguns pontos, mas os conceitos psicológicos me travaram um pouco a leitura - muitas vezes precisei consultar o "glossário dos termos junguianos" ao fim do livro e, ainda assim, apanhei bastante.

    Mesmo com essa limitação, gostei bastante de ter lido "O complexo de Cassandra". Espero retornar a ele quando tiver um pouco mais de conhecimento sobre o tema, tenho certeza que será uma leitura ainda mais rica.

 Nota 4 ⭐ /5

O processo do tenente Ieláguin - Ivan Búnin



O livro conta a história do assassinato da atriz Maria Sosnovskaia, a partir do decorrer do processo que julga o tenente Aleksandr Ieláguin por tal crime. É uma narrativa rápida com capítulos curtos, você senta e lê sem perceber boa parte do livro. Mesmo sabendo que a atriz foi morta e quem a matou, é interessante acompanhar a história, afim de entender porque ocorreram os fatos dessa maneira. Gostei muito da leitura e achei um bom ponto de partida para a obra do autor ganhador do Nobel de literatura. Caso você não tenha tanta intimidade com a literatura também é um excelente ponto de partida. Nota 3 ⭐ /5

O mal-estar na civilização - Sigmund Freud



    O livro trata do surgimento da cultura e civilização do ponto de vista da psicanálise, tratando também de um paralelo com o surgimento da própria consciência. Questões como religião, culpa e infelicidade são tratadas pelo autor em uma obra que é curta mas cheia de reflexões interessantes. 
   Apesar de ser um livro curto e bem escrito mas algumas digressões do autor tornam a leitura mais lenta. Recomendo se você tiver um interesse no tema, não é necessário ter prévio conhecimento em psicanálise para ler esse livro já que alguns conceitos (como super ego) são explicados na própria obra. 

Há bastante referências a totem e tabu, outra obra que pretendo ler em breve. 

 Nota 4 ⭐ /5

(In) distraível - Nir Eyal



   Ganhei esse livro de aniversário*, mas já há um tempo estava querendo lê-lo. Fala sobre a importância de se manter focado nas suas atividades em um mundo cheio de distrações (a maioria delas online). O autor, Nir Eyal, publicou anteriormente "Hooked", um livro que ensina as empresas de tecnologias a manter os usuários cada vez mais conectados em seus aplicativos. Indistraível é um pouco como o outro lado dessa discussão, dessa vez mostrando aos consumidores, como é possível se proteger desses gatilhos.
    O que mais gostei do livro foi a constatação de que a distração nada mais é do que um mecanismo pra evitar fazer o que você tem que fazer. Se estou planejando estudar, por exemplo, e resolvo mexer no celular, isso é uma distração mas igualmente seria se resolvesse conversar com um amigo ou limpar a casa (porque o que planejei fazer foi estudar). Logo, a reflexão sobre o que estamos evitando já permite um olhar sobre essas distrações e nossos gatilhos internos muito mais aprofundado. Depois de analisar as distrações internas, o autor passa passa para as externas, mostrando truques e dicas importantes para não deixarmos ser consumidos por notificações e pop-ups. Por último, há dicas sobre "tração", ou seja, como se manter focado nos afazeres. 
   Todas essas partes do método são muito interessantes e com certeza serão relidas, já que é um processo constante esse de manter o foco no que importa e faz sentido. Mas já posso dizer que gostei muito do livro e já apliquei várias coisas sugeridas por ele na minha vida pessoal. 

Nota 4 ⭐ /5 

* Obrigada, @mairaa.costa ! ✨