O homem sem doença - Arnon Grunberg



   O homem sem doença conta a história de Sam, um jovem arquiteto nascido na Suíça mas que possui herança Indiana. Sam se considera um homem prático e racional, um cidadão do mundo destinado a grandes feitos. Após a morte do pai, quando Sam tinha 16 anos, ele assumiu a função de homem da casa com a seriedade que lhe era esperada, cuidando da irmã (que possui uma doença degenerativa) e da mãe com toda a seriedade que a função exige.
   Quando é convidado ao Iraque para realizar o projeto de um teatro de óperas, Sam pensa que esse é apenas o começo de uma carreira que já se mostrava promissora. O que ele não esperava é a série de mal entendidos ocorridos nessa viagem, que iriam mudar a vida de Sam para sempre.
   Arnon Grunberg é um autor que eu já queria conhecer há muito tempo, não é a toa que tenho os dois livros dele que foram publicados aqui no Brasil. Mesmo assim, peguei O homem sem doença meio que por um acaso na estante - achei que seria divertido ler uma história que se passava parcialmente em pais árabe enquanto fazia uma escala em Istambul.
   De fato, foi uma leitura bem rápida e bem interessante. A trama, embora possua as suas peculiaridades, tem alguns elementos que fizeram com que eu me lembrasse principalmente de dois livros: O estrangeiro de Alberto Camus e O processo de Franz Kafka. O primeiro, entre outras coisas, pela indiferença que o personagem sente perante as pessoas a seu redor. O segundo de maneira mais relacionada a trama, no sentido de que Sam é acusado de forma aparentemente muito similar a que foi acusado K. no romance checo. Essas duas referências dão uma boa ideia do que se pode esperar desse romance curto e cheio de nuances.
Enquanto eu virava a madrugada sem Internet em um aeroporto turco, me senti particularmente entretida com a história de Sam. Não que eu sinta qualquer simpatia pelo personagem, este mostrou, ao longo da história (principalmente através de insinuações do autor sobre a relação dele com sua irmã) ser um sujeito particularmente abjeto. Ao mesmo tempo, porém, há um interesse perverso em acompanhar tudo o que sai dando errado na vida desse personagem.
   A orelha do livro classifica o desfecho como chocante mas esse termo me pareceu um pouquinho sensacionalista. Abre-se sim uma nova possibilidade de interpretação mas, como em outros momentos da obra, o autor não deixa nada muito claro também aqui. Você pode ler o que o narrador em primeira pessoa diz nesse último capítulo de várias formas e tirar desta última parte várias interpretações. Eu, que já tenho um desconfiança natural de narradores em primeira pessoa, não achei nada muito chocante.
   A indicação deste livro é para os que querem um livro rápido e interessante, de um autor que foge um pouco do eixo EUA/Inglaterra. Não acho um livro particularmente imperdível mas gostei da leitura e pretendo conferir outras obras do autor.
   Nota 8 - bom livro


Turma da Mônica - Laços (Filme)


   Se você já foi criança na década de 90 (ou até mesmo antes disso) existe uma boa chance de um gibi da turma da Mônica ter sido a sua primeira leitura. Embora nem toda a família tivesse assinatura, era comum encontrar um gibi da Mônica ou do Cebolinha em algum canto da casa, nem que fosse com algumas páginas faltando.
   Laços aposta nesse saudosismo para criar uma história focada na amizade entre os quatro personagens principais da turma da Mônica, que também inclui Cebolinha, Cascão e Magali. A rotina normal das crianças - que consiste basicamente em Cebolinha tentando roubar o coelho de Mônica com a ajuda de Cascão e falhando miseravelmente - é subitamente interrompida com o desaparecimento de floquinho, o cachorro de Cebolinha.
'CEBOLINHAAAA'

   Os quatro resolvem então investigar o desaparecimento, e acabam descobrindo que o bichinho foi sequestrado pelo "Homem do saco". Como seus pais não parecem levar a sério essa teoria, eles mesmos resolvem partir em busca de Floquinho, o que os levará a uma aventura no meio de uma floresta.
   Turma da Mônica Laços é um filme que tem muito das características dos quadrinhos da turma da Mônica e afins mas que, ao mesmo tempo, consegue ser um pouco mais profundo que os quadrinhos que eu costumava ler. Não li Laços mas posso dizer que o filme consegue aliar muito bem aventura e humor, ao mesmo tempo em que conta uma história muito bonita sobre amizade.
   O filme poderia muito bem ter tentado atualizar a turminha, colocando meios tecnológicos. No entanto, preferiram manter tudo exatamente como está nos quadrinhos, de forma que parecemos estar acompanhando uma história que se passa antigamente. Isso não chega a ser um problema, na verdade o saudosismo que isso traz acaba sendo um ponto benéfico, considerando que vivemos em uma época em que Stranger Things faz sucesso. 



   Laços é um filme voltado para o público infantil, tenha isso em mente. Isso não quer dizer que nós, adultos que crescemos em meio a essas histórias, não possamos nos encantar por essa fofura. O casting é um dos pontos altos do filme, já que todos os personagens parecem ter saído direto dos gibis para a telona. Magali, que é minha personagem favorita nos quadrinhos, continua sendo minha favorita no filme também. Embora sua participação seja mais discreta, para mim Magali roubou a cena.
   Recomendo para os que gostam de histórias mais infantis e estejam afim de conferir a adaptação da Turma da Mônica para os cinemas. Vale a pena se você estiver afim de voltar a ser criança, nem que seja por apenas algumas horas.
   Nota 8,5 - bom filme. Dei meio ponto pelo casting excelente. 

|TRAILER|

  

Disobedience | Desobediência (2017)



   Dentro de uma comunidade judia heterodoxa, o filme conta a história de Ronit, uma jovem fotógrafa que retorna a esse ambiente onde passou a adolescência para o enterro de seu pai. Lá ela se reencontra seu amigo de infância Dovid, que a convida para ficar com ele e a esposa durante a semana (a cerimônia toda de luto aparentemente dura este tempo).
   Qual não é a surpresa de Ronit quando percebe que a mulher de Dovit é Esti, seu primeiro amor. Embora esteja bem mudada, mais focada na religião, algo entre Ronit e Esti continua existindo e o filme explora essa dinâmica entre elas, ao mesmo tempo que conta suas trajetórias individuais. 

   A sinopse do filme nunca me chamou a atenção, talvez porque se parecesse mais um daqueles filmes bem dramáticos, que você assiste só para se chatear. Precisa estar em um humor certo para ver esse tipo de filme, então sempre acabei protelando - mas uma noite de insônia cura até esse receio, então fui assistir.
   Não é que o filme não seja um drama mas ele é algo muito diferente do que eu pensei. Imaginava algum tipo de dramalhão mas é tudo tão bem construído e fundamentado que acabei me surpreendendo. As atuações do filme também são excelentes, principalmente as das protagonistas, Rachel Weisz e Rachel McAdams. 

   Das coisas que mais gostei em Desobediência foi não terem transformado Dovid, o marido, em vilão. O grande objetivo do filme é mostrar como crescer em um ambiente sem liberdade de escolha moldou esses personagens e, Dovid, embora seja um homem aparentemente devotado a sua fé, cedo ou tarde também demonstra sentir o peso dessas restrições sociais e morais que acompanham a sua religião. É um personagem mais complexo que parecia a princípio e que tem seu próprio arco dramático durante a história, assim como Esti e Ronit.
   Uma situação que ilustra bem esse ambiente restritivo em que os personagens vivem é a questão do toque. Ronit, por algum motivo não esclarecido, não pode ser tocada por ninguém da comunidade, é um espécie de pária. Embora não pelos mesmos motivos, tanto Dovid quanto Esti sentem vontade de desafiar essa restrição e lutam contra isso boa parte do filme. Essa tensão do não tocar faz com que, quando um contato aconteça, ele tenha um significado ainda mais especial. 

   Falando em contato, é melhor tirar as crianças da sala porque esse "não-romance" tem algumas cenas de sexo bem intensas. Felizmente tudo é para o desenvolvimento da história, não há nada gratuito ou despropositado, o que era outro receio que eu tinha com relação ao filme.
   Gostei demais de Desobedience, talvez porque estivesse esperando por um final bem clichê e acabei sendo recompensada com algo surpreendentemente bom. Não há fadinhas que resolvem magicamente nenhuma situação mas só por não terminar em morte e conformidade já ganha muitos pontos.
   Fica a minha indicação para quem gosta de dramas com enfoque no desenvolvimento de personagens.
   Nota 9 - muito bom

Cemitério Maldito / Pet sematary (2019)

   O sucesso do filme IT, lançado em 2017 e baseado em livro homônimo de Stephen King fez ressurgir um grande interesse pelas obras desse autor. Não que esse autor alguma vez tenha saído de moda mas, ao meu ver, IT foi um filme que conseguiu mostrar que um filme de terror (com relativo baixo investimento) pode trazer ranking de bilheteria. 
   A partir daí já vimos algumas produções (séries e filmes) lançadas a partir de obras do autor e até mesmo inspiradas no universo dos seus livros (alô, Castle Rock!). Sou sempre muito atrasada para acompanhar séries mas sempre que lançam algum filme inspirado em livro do Stephen King eu faço questão de assistir. 
   Pet Sematary (chamado daqui em diante de Cemitério Maldito) é um remake baseado em um livro de grande sucesso de Stephen King. Conta a história de uma família que se muda de Boston para o Maine porque Louis,o pai, consegue um trabalho como médico em uma universidade dali. A busca por um estilo de vida mais tranquilo faz com que eles escolham uma residência um tanto afastada da cidade, com uma grande porção de terra.
   Não demora muito para que Ellie (a filha mais velha) comece a explorar o local. Ele encontra então o 'cemitério dos bichos', local onde os moradores da cidade costumam enterrar os animais de estimação quando esses morrem. Louis também acaba sendo levado até esse lugar por seu vizinho Judd mas em circunstâncias menos favoráveis. 

   Toda vez que vou escrever sobre um filme que é baseado em um livro que li sofro de um dilema. Por um lado, acho importante citar as semelhanças e diferenças entre uma obra ou outra, até mesmo para comentar como foi a adaptação, se algo funcionou ou não e assim por diante.
   Ao mesmo tempo, porém, tento não me estender muito nas comparações entre filme e livro. Lembro até hoje de quando assisti Harry Potter e o Cálice de Fogo e minha grande reclamação foi: "No livro o vestido da Hermione era azul!". Eu ainda era uma pré-adolescente, então muita dessa fúria é compreensível. Mas até hoje isso virou um termômetro para mim: será que estou avaliando a obra como adaptação que é ou estou procurando a cor do vestido dos protagonistas? Uma coisa que aprendi nos últimos anos é que um filme não precisa ser exatamente igual ao livro para ser uma boa adaptação. Ou até mesmo para, independentemente disso, ser um bom filme.  
   Cemitério Maldito não precisava ter feito muita coisa para ter se tornado um bom filme. Só contratar um bom diretor, atores decentes e algum roteirista disposto a se debruçar sobre o livro e retirar de lá os momentos mais interessantes para uma adaptação. Infelizmente, conseguiram falhar em cada um desses aspectos. 
   A atuação é simplesmente muito ruim (o melhor ator ali é o gato) mas poderia ser até mesmo aceitável se houvesse ali uma direção com o mínimo de habilidade para filmes de terror. O diretor do filme não consegue ir além de jump scare. As cenas que poderiam servir para construir alguma tensão na história (como aquele em que Ellie "volta") não alcançam o efeito esperado e as de drama muito menos - a tristeza pelo destino da família não perdura muito. No final eu simplesmente não me importava mais com o que iria acontecer a qualquer um dos personagens. 

   Mas a principal crítica vai para o roteiro. Não é possível que alguém tenha lido o livro do King e pensado "o mais importante aqui é morto-vivo". A metáfora sobre o luto e o desespero com a perda de um ente querido é deixada em segundo plano em prol de uma série de cenas assustadoras inspiradas no livro mas que, no geral, não dão nem a metade do medo. Tudo parece mais um videoclipe que um filme e isso se aplica tanto a fotografia quanto a falta de profundidade da história. Como nenhuma cena tem o peso dramático devido, nenhum momento parece importante de verdade.
    Como se não bastasse todo o desenvolvimento terrível, ainda tentaram "inovar" no final e, mais um vez, erraram feio - a impressão é que estava assistindo uma comédia de humor negro. Não é necessário que se tenha lido livro para achar aquele desfecho ridículo, mas o fato de ter assistido só me deixou ainda mais revoltada: eles ignoraram um dos melhores finais de livro do King para colocar aquilo? 
   Novamente, não é a questão de ser diferente. Há muitas adaptações que se separam bastante dos livros mas conseguem ser boas adaptações porque captam o sentido da trama e levam isso para a tela. Outras não chegam a ser boas adaptações mas são bons filmes, independente disso. 

    Cemitério Maldito é péssimo como adaptação e como filme. Não dá. 

    Nota 6 - não gostei.

Não dá para escrever sobre tudo (Mudanças)




   Depois de um longo e tenebroso inverno sem postagens por aqui, voltamos com o blog! Para quem não acompanha nossa página no Facebook, a razão do sumiço foi simples: fui convocada a escrever sobre a oitava (e última) temporada de Game Of Thrones lá no Multverso Geek; resolvi focar a minha atenção nessa tarefa nas últimas seis semanas. Você pode conferir meus textos sobre cada episódio aqui.  
    O post de hoje não é uma resenha mas sim uma reflexão que tive ao analisar minhas últimas postagens, as que eu fiz antes desse tempo em que estive ausente. O próprio fato de ter optado por paralisar o blog durante os posts sobre as séries também é um indicativo dessa mesma mudança. É sobre isso resolvi escrever hoje.

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   Não sei se alguém percebeu (será que alguém leu esse blog?) mas nós últimos meses as resenhas tem passado por certa mudança.
   Eu explico. Antes eu fazia questão de escrever sobre tudo o que lesse e assistisse (em matéria de cinema, por exemplo). O problema é que, muitas vezes, existem coisas sobre o qual você simplesmente não tem a mínima vontade de falar. Então, para driblar isso, eu acabei criando uma coluna no blog chamada "direto ao ponto", em que falava brevemente sobre três filmes (ou três livros etc).
   Acontece que é muito chato escrever sobre algo que você não quer. Entendo que elaborar em palavras o que você pensa sobre algo é importante, seja positivo ou não. Quantas vezes eu não comecei uma resenha pensando que não tinha gostado de um livro ou filme e, no meio dela, percebi que sim, gostei de várias coisas? Essa é uma das minhas maiores satisfações com o "Miss Carbono" e a razão pela qual continuo escrevendo aqui mesmo me perguntando quase semanalmente se deveria.
   Por outro lado, nem sempre da vontade de escrever sobre tudo. As vezes o filme ou livro é algo que mexeu tão pouco com você que tudo o que, quando se vai escrever, até se esquece sobre o que ele trata.
   Outras vezes é uma mistura disso com um enfado sobre o tema e o hype. Não me lembro qual foi o último post sobre filme de herói que fiz aqui mas, percebam, eles também tem rareado, embora eu ainda acompanhe a Marvel razoavelmente bem. É cansativo escrever sobre esses filmes porque geralmente é sempre as mesmas coisas que passam na tela e você se vê obrigado a repetir as mesmas coisas que escreveu na resenha de filme de herói anterior a essa. O único filme de herói que vi nos últimos tempos e que me arrependo de não ter escrito nada é Pantera Negra - para mim é um dos melhores filmes da Marvel dos últimos anos e, sinceramente, parte de mim torceu para que ele ganhasse um Oscar (e acabou ganhando né? Mas não de melhor filme).
   Isso significa que o blog só terá textos sobre o que eu gostei? Claro que não. Primeiro porque é possível sentir vontade de falar sobre um filme/livro mesmo sem ter gostado dele - as vezes é mais divertido ainda escrever sobre aquilo que não se gosta. Segundo porque nem sempre dá vontade de escrever sobre o que gostamos também. O post da semana que vem é um exemplo disso.
   Parte de mim ainda sente que "deve" fazer sim post sobre tudo. Por isso pode ser que esse post de hoje seja apenas um breve parêntese no meio de dois "direto ao ponto" ou dois posts bem genéricos sobre filme de herói. Não estranhem, as vezes as coisas por aqui não fazem muito sentido.
   Mas estou aprendendo a respeitar cada momento meu e, neste momento, o que eu sinto é que preciso priorizar. Já que tenho tão pouco tempo para escrever, que seja sobre aquilo que eu realmente tenho algo para falar a respeito. A ansiedade sobre ter obrigação de escrever sobre absolutamente tudo estava criando o efeito reverso - eu me sentia tão sobrecarregada que, para evitar o sentimento, acabava não assistindo nada ou lendo livro nenhum. 
    
  Tudo isso para dizer que estou tentando deixar as coisas mais leves por aqui. Escrever aqui é um hobbie que levo com certa seriedade mas, no momento, estou afim de simplificar. Afinal, um hobbie tem que ser divertido também.

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   Espero que os meus seis leitores do blog entendam alguma coisa desse texto, que na verdade é só uma reflexão por escrito a respeito de coisas que venho pensando a certo tempo. Semana que vem voltaremos a programação normal, ou seja, com as resenhas.

  


Nós / Us (2019)



   No dia de seu aniversário, uma menina passeia com os país por um parque que fica próximo ao mar. Entediada ou levemente curiosa, a menina aproveita-se de um momento em que a mãe teve de sair e vai perambulando pelo lugar, até se ver em uma casa de espelhos. Naquele lugar ela se encontra com algo que vai marcar sua vida para sempre. 
   Muitos anos se passam e Adelaide e Gabe estão levando os filhos para a casa de praia, afim de passarem o final de semana juntos com uma outra família amiga. Mal poderiam imaginar que essas simples férias poderiam levar a uma situação bizarra, situação essa curiosamente relacionada com os eventos de alguns anos. 
   Fui assistir Nós sem nenhuma informação do tema do filme e acho que você deveria fazer o mesmo. Claro, vi algumas divulgações mas, fora isso, nenhum simples comentário ou spoiler chegou até mim. Isso foi bom porque me colocou em uma posição de assistir ao filme sem ter muito certeza do que estava prestes a ver. 
  Fiquei hipnotizada pela história desde a primeira cena. A direção, a história e a trilha sonora (que alterna momentos clássicos com canções populares) são dignas de todos os elogios possíveis. Você quer saber o que está acontecendo ali e o que tudo isso significa - mas a resposta para isso pode de deixar ainda mais confuso do que você estava no começo. 

   Jordan Peele apresenta em Us (Nós, em português) uma história que pode ter interpretações sociológicas, filosóficas e psicológicas. É um filme com muitas camadas e com muitas cenas que parecem carregadas de simbolismos e pistas para o espectador, tudo isso ao mesmo tempo em que somos imersos naquela tensão que os protagonistas sentem quando cópias de si mesmos aparecem em sua casa. 
   A questão do duplo não é exatamente nova nem no cinema e nem na literatura mas, aqui, não há uma explicação fácil para isso. O que significa o aparecimento dessas pessoas de vermelho com uma tesoura na mão? O que eles são, o que querem? "Somos americanos", responde a mulher de vermelho que se parece com Adelaine. Em outros momentos, ela refere-se a si mesma como sombra ou chama as pessoas de vermelho de "acorrentados".
   Ao invés de nos dar apenas uma resposta Peele nos dá várias. A coerência interna do filme pode até apontar para uma origem específica, mas isso não significa que o filme se esgote nela. Na verdade, ele parte desse pressuposto supostamente fantasioso para lidar com questões que podem ser bem complexas, fantasiosas ou não.
   Assisti a Nós por duas vezes no cinema e, ainda agora, percebo que há muitos detalhes do filme esperando para serem percebidos nas próximas vezes em que assistir. Eu, particularmente, tenho uma predileção por aspectos psicológicos nesse tipo de história, o duplo sombrio e maldoso como um aspecto indesejado da nossa própria mente. Nós o deixamos longe da superfície por tanto tempo que, quando ele por fim escapa, se torna incontrolável e pronto para nos destruir.  

   Nesse sentido, não pude deixar de lembrar de Cisne Negro enquanto assistia 'Nós'. Principalmente na segunda vez, quando a história já estava contada para mim e pude apreciar os detalhes, senti que Adelaine tem um pouco de Nina, na medida em que vai, ao longo do filme, passando por uma espécie de transformação, tendo, inclusive, seu ápice em uma espécie de dança. Por essa visão, penso que o Nós do título diz muito mais a respeito de Adelaide que de sua família. 
   Mesmo que eu esteja certa e o título diga respeito a personagem de Lupita Nyong'o (maravilhosa!), a participação de sua família na história apenas acrescenta a trama. Em alguns desses momentos o filme flerta com a comédia, algo que já tínhamos visto em Corra! nas interações entre Chris e seu amigo. Há também algumas cenas que tem muito do gênero de ação mas, não se engane, ainda estamos em um filme de terror. E um muito bem escrito e dirigido, por sinal - as comparações com Hitchcock que Peele tem recebido são reflexo disso. 
   Gosto muito de Gabe e Zora mas Jason, o filho mais jovens, é um dos personagens mais complexos depois de Adelaide. O tipo de relação que ele desenvolve com o seu duplo e diferente dos demais e, além disso, apesar da pouca idade, Jason é muito observador e, em certa cena do filme, sua reação representa justamente aquela que o espectador tem assistindo a história. 

   Indico Nós para que gostam de histórias de suspense e terror, mas sem clichês. Vi gente reclamando de supostos "furos" do roteiro ou do terceiro ato (que explica demais), ou do pequeno twist do final. Acho que as pessoas estão tão acostumadas com filmes que explicam tudo que, quando isso não ocorre, chamam de furos. Dizer que o filme se explica demais também me parece um pouco bobo, como se a pessoa se limitasse a acreditar em tudo o que os personagens disseram ou falaram sobre o que estava acontecendo. 
   Quanto ao twist, ele é sensacional e um dos motivos pelo qual tive que ver esse filme outra vez. Ao invés de explicar a história, ele deixa tudo ainda mais complexo ao lançar na nossa cara algo que estava ali o tempo todo e que preferimos não enxergar. Qualquer teoria que você possa ter sobre esse filme apenas se complica quando vem a virada do final - a sensação é que estamos participando de um truque de mágica, como aqueles que Jason vive fazendo ao longo da história: ficamos surpresos mas ao mesmo tempo confusos, como se tivéssemos perdido algo. 
   Nota 9,5 - o meio ponto é por puro capricho. Vocês precisam assistir Nós.  


Creep (2014)



   Creep é um daqueles filmes de terror que certamente teria passado despercebido por mim, não fosse uma indicação que li na Internet. Acho Adriana, do canal redatora de merd@ que comentou no Twitter uma vez sobre esse filme e, desde então ele se alojou no meu subconsciente, pronto para aparecer ao menor sinal de tédio.
   Foi o que aconteceu. Sábado a noite, ninguém dava sugestões legais ou se empolgava por qualquer coisa que havia na Netflix. Foi quando aquela imagem do homem com máscara de lobo surgiu na minha mente e eu pensei "porque não?" - o fato do filme ter 1 hora e 17 minutos de duração também foi um importante motivador. Afinal, se nada mais der certo, o tempo perdido equivale ao mesmo que um episódio de uma série meia boca da própria Netflix.
   Narrado com aquela câmera em "primeira pessoa" (found footage), Creep conta a história de Aaron, um cinegrafista que vai até uma casa nas montanhas devido a um anúncio que viu nos classificados. Chegando lá, ele conhece Josef, que é um cara bem excêntrico, para dizer o mínimo. Josef quer gravar um vídeo para o filho que está prestes a nascer, já que foi diagnosticado com uma doença terminal. Apesar da visível estranheza do seu contratante, Aaron resolve ficar. 
   Creep foi escrito por Mark Duplas e Patrick Brice, justamente os atores que fazem Josef e Aaron. A direção fica por conta de Brice, enquanto Duplas faz a produção. Não fosse o fato de que a produtora é a Bloomhouse, eu diria que esse era um filme caseiro, tanto por essas informações quanto pela simplicidade da história que, realmente, parece ter sido gravada com aquela única câmera e aquelas duas pessoas. 
   Não que isso seja algo negativo. Gosto das formas que o filme se utiliza para criar a empatia entre quem está assistindo com o protagonista - algo que seria difícil, sendo ele também o câmera. Gosto também como eles fizeram desse found footage algo interessante e não cansativo como os últimos filmes do gênero que vi. Não espere efeitos mega especiais ou cenas sanguinolentas - o terror aqui é muito mais do fato de imaginar exatamente o que Josef quer com Aaron. 
   Conforme o dia passa as coisas vão ficando mais e mais estranhas. Aaron parece perceber que a situação é, no mínimo, inusitada, mas parece não conseguir se livrar dela. Sabe aquelas pessoas que tem receio de parecerem mal educadas ou desagradáveis? Esse é Aaron. É o típico personagem que até pode conseguir ser mais esperto que o antagonista em algum momento mas que sempre acaba sendo traído por sua natureza bondosa. 
   Não quero dar spoilers e o filme é relativamente curto, então, se você gosta de filmes de terror, dê uma olha em Creep. Não vai mudar sua vida, não vai revolucionar o cinema, mas garanto que vale alguns arrepios - a cena em que conhecemos Peachfuzzz é um dos pontos altos do filme para mim. 
   Nota 8 - bom filme do seu gênero, perfeito para um sábado em casa.