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O cemitério - Stephen King

ATENÇÃO: SE VOCÊ É SENSÍVEL A QUALQUER TIPO DE SPOILER, NÃO LEIA. ESSA RESENHA TEM ALGUMAS REVELAÇÕES DE MÉDIA IMPORTÂNCIA, ALÉM DE COMENTÁRIOS INDIRETOS SOBRE O DESFECHO

   Recém contratado como médico de uma universidade do Maine, Louis Creed e a família se mudam para uma bela casa, cercada de uma floresta cujas terras pertenciam aos índios Micmac. O lugar é muito bonito e os vizinhos que moram do outro lado da rodovia, o velho Jud e sua esposa, são amistosos e fazem Louis se sentir a vontade desde o primeiro momento.
   É Jud quem resolve levar Louis e o restante da família dele para explorar a floresta, particularmente o S'mitério dos Bichos onde há anos, as crianças da região tem o hábito de enterrar seus bichinhos de estimação depois que morrem. A esposa de Louis, Rachel, fica um tanto chocada com o lugar mas Ellie, a filha, e Louis acham bem interesante. Já Gage, o bebê da família está mais interessado nas belas árvores que os rodeiam do que em qualquer outra coisa.
   O cemitério é um daqueles livros do King sobre qual eu sempre ouvi falar muito bem, mas nunca tive vontade de ler. O pouco que sabia da história não me atraia - mortos que revivem após serem enterrados em cemitério indígena - então não foi difícil focar em outras histórias do autor. Mas o remake estando prestes e a ser lançado e uma observação de um amigo fã do autor de que este seria o livro mais assustador de Stephen King me fizeram pensar no assunto. Por que não? Fiquei com esse pensamento na cabeça e nas ferias resolvi conferir essa história. 
   Como todas as histórias desse autor, a trama é muito mais profunda do que se pode imaginar a primeira vista. Em meio a todas as cenas creep há uma discussão sobre a forma como lidamos com a morte daqueles que amamos. Louis Creed é um médico cético, que vive uma situação chocante em seu primeiro dia de trabalho na faculdade algo que, de alguma forma, parece estar ligado a todos os eventos que ocorrem depois. Profissionalmente, Louis consegue manter uma postura de racionalidade frente a morte mas, quando algo ocorre em seu núcleo familiar, a coisa já é diferente. 
   A primeira parte do livro é um pouco lenta, porque é basicamente aquele momento em que toda a família é apresentado e sua dinâmica mostrada para o leitor. Tirando esse evento no primeiro dia de trabalho de Louis e um sonho que ele tem na noite seguinte a isso, tudo é bem normal. O cotidiano da família. A parte seguinte já é um prenúncio do que está por vir, porque o gato da família é atropelado (?) e Jud resolve "ajudar" o amigo, mostrando que, após o S'mitério dos Bichos existe um outro cemitério. 
   Eu estava achando tudo muito normal e típico de Stephen King até o livro ir se aproximando do seu desfecho. Algo terrível ocorre e vemos os personagens imersos em dor e desespero. Louis, até então um ser quase 100% racional, vai aos poucos perdendo a sanidade em meio a toda dor que está enfrentando no momento e isso faz com que tome atitudes muito erradas, daquelas que faz a gente gritar com o livro "NÃO FAZ ISSO SEU IDIOTA!". São momentos de ansiedade também para o leitor, até mesmo para aqueles que sabem o que vai acontecer, primeiro porque lamentamos o destino da família, segundo porque vemos que a atitude de Louis só vai piorar as coisas. Mas será que não faríamos o mesmo nesta situação? A mente humana tem dessas.
   Agora, terror, terror mesmo, está na ultima parte, quando as coisas saem do controle e ficam assustadoras. O personagem que achava que poderia recuperar o que perdeu (a sanidade, o ente familiar) de repente se vê atolado em ainda mais horror, perdendo ainda mais. É tão chocante que não dá nem para ficar triste. Lamentar, sim, talvez por Ellie (a filha) e algum outro personagem que foi pego de surpresa. Louis deveria ter pagado o preço sozinho, mas não é assim que funciona. 
   Já li histórias do autor em que o final é desesperador, mas nenhum final do Stephen King consegue ser tão desesperador quanto as ultimas linhas de O cemitério. Eu fico pensando se o filme manterá esse desfecho mas, pensando bem, não tem como não manter. O fato é que fiquei assombrada por ele até horas depois de que terminei, ainda chocada com tudo o que tinha lido. 
   Então, apesar desse começo lento que já é quase uma característica do autor, O cemitério está no meu top 3 de livros do Stephen King, junto com IT e O iluminado. Recomendo demais para os fãs do gênero e estou ansiosa para assistir ao filme. 
   Nota 9 - muito bom. Só não entrou na lista dos melhores livros de 2018 porque já tinha publicado a lista quando li o livro. Mas é sim, uma das minhas melhores leituras do ano passado. 

|LEIA A SINOPSE NO SKOOB|


A assombração da casa da colina - Shirley Jackson

fonte: Biblioteca do Terror 

   Quando um autor que você gosta recomenda um livro, você olha com atenção. Mas e quanto este autor não só recomenda um outro mas também dedica um livro a este? Quando recebi "A incendiária" da Suma e vi a dedicatória que Stephen King fez a Shirley Jackson, soube que precisava conhecer a autora que influenciou um dos meus escritores preferidos.
   Há dois livros dessa autora publicados recentemente mas escolhi Assombração na casa da colina para conhecer a autora. O motivo foi o mais bobo possível: o título me lembrou um filme de terror que assisti quando era pequena (mais a frente, percebi que a história me lembrava de um outro filme, que também vi quando era mais nova, chamado "A casa amaldiçoada"). Além disso, gosto de histórias sobre casas e lugares assombrados.
   Um das coisas que mais me chamou a atenção na escrita de Shirley Jackson é a forma como autora consegue criar todo um ambiente propício e assustador e desenvolver seus personagens de forma muito precisa sem apelar para descrições muito elaboradas de lugares e pessoas. A personalidade das quatro pessoas na casa da colina são delineadas com muita confiança e ao longo do livro de uma forma tão natural que, lá pela metade da história, já pensa que conhece todos os personagens muito bem.
   Assombração da Casa da Colina começa quando esse cientista e investigador de fenômenos paranormais, o Dr. Mortague, convida várias pessoas para passar um tempo nessa casa assombrada, que ele aluga sob a condição de receber também um parente dos donos da casa. Somente duas mulheres - Eleanor e Theodora - aceitam o convite e todos (Dr. Mortague, as mulheres e Luke, o herdeiro ) se mudam para a casa por um tempo.
    É curioso observar que a personagem sobre o qual eu mais tinha dúvidas era justamente a que narrava a história, Eleanor. Há algo que essa personagem esconde, de si e de leitor, algo que já estava nela antes que entrasse na casa mas parece desabrochar enquanto está lá. Nellie é mais do que demonstra mas qual será o seu segredo? E o que a casa quer com ela? São essas algumas das perguntas que me fiz durante esse livro.
   Como toda boa história de terror, essa também é um prato cheio de simbolismos e representações. A cena em que Theodora entra em crise após ver algo em seu quarto e a reação de Eleonor a tudo o que ocorre, são muito interessantes e nos fazem pensar nas camadas que há por trás da tensão entre as duas mulheres.
    Nessa mesma cena, há um momento muito específico em que Eleanor vê as mãos de Theo cheias de sangue e vai limpar, pensando que "nunca sentira uma repulsa incontrolável por ninguém em toda a sua vida". É de se pensar o simbolismo daquelas palavras, principalmente quando relacionamos o fato de que, até o sangue aparecer, as duas mulheres eram bem amigas, talvez até mesmo mais. O que o sangue representa ali? Talvez um lembrete ao subconsciente de Eleanor de que trata-se de outra mulher a pessoa pela qual ela se sentia tão encantada anteriormente. Ou, talvez, o sangue cobrindo as mãos de Theodora fosse uma marca física da transformação que a moça sofreria aos olhos de Eleanor. "Ela é má, é um monstro, é suja", pensa Nellie ao final dessa cena. Depois desse momento, embora volte a ver a amiga de uma forma positiva, o relacionamento entre elas não é mais exatamente como antes, quando chamavam uma a outra de primas. 
   Assim como ocorre em O Iluminado, o comportamento do protagonista vai sendo alterado quanto maior o tempo que ela passa na casa. Seria o objetivo da casa, fazer com que a protagonista se afastasse de todos os outros moradores? Ou será  que Eleanor sempre foi daquela forma e a casa apenas exacerbou seu comportamento? Não sei a resposta a essa pergunta mas, conforme o tempo vai passando na Casa da Colina mais temos contato com esse lado sombrio e um pouco instável da protagonista. É interessante e também um pouco assutador: Eleanor tem tanto medo de perder o controle que ficamos apreensivos sobre o que ela fará quando isso de fato acontecer.
   O livro é tão pequeno (240 páginas) e a narrativa tão interessante que, quando você dá por si, a história já terminou. Acostumada que estou aos calhamaços de Stephen King foi uma grata surpresa ler uma história de suspense/terror que consegue ser instigante, assustadora e psicologicamente rica em tão poucas páginas. Mesmo após terminar ainda fiquei um tempo pensando nos personagens, no desfecho, no que significou aquela experiência toda na casa da colina. Se você é do tipo que gosta de coisas nos mínimos detalhes talvez seja melhor ler o sr. King: Shirley Jackson não vai te explicar o que está acontecendo; ela apenas narra, cena após cena, os acontecimentos que e a reação dos personagens a eles. 
   Eu terminei o livro morrendo de medo mas não sei se é o tipo de terror que vai assustar a qualquer pessoa. É muito mais o suspense e algo psicológico do que cenas com fantasmas propriamente ditas. Para mim esse tipo de terror é mais interessante, mas vi algumas resenhas no Skoob que disseram que o livro não é tão assustador, o que me fez pensar que nem todo mundo vai ficar com tanto livro quanto eu fiquei. 

   Como um livro publicado pela primeira vez em 1959 é interessante ver o quanto a ficção (filmes ou livros) se inspirou em alguns aspectos desse livro. A sensação de familiaridade que eu senti enquanto estava lendo essa história se justificou: descobri que "A casa amaldiçoada", o filme que este livro estava me fazendo lembrar, é uma adaptação de "A assombração da casa da colina", tendo sido lançada em 1999 com Catherine Zeta Jones interpretando Theodora (repare que eu tinha 7 anos quando esse filme foi lançado e eu tinha mais ou menos essa idade quando assisti. Quando falo que filmes de terror me lembram infância é por isso). Há também uma adaptação da década de 60, mas não assisti. 
    Como prévia leitora de King, pude ver alguns ecos desse livro em algumas obras do autor, principalmente em "O iluminado" que, assim como "A assombração da casa da Colina" faz um paralelo entre medo, confinamento e loucura que é muito interessante. Outra coisa interessante que ambos os autores fazem é dar um toque de tristeza em suas histórias - uma boa história de terror tem sempre algum sentimento profundo além do medo. No caso de "...Casa da Colina" os sentimentos de culpa, solidão e não pertencimento que certa personagem sente alcançam o leitor mesmo sem a autora dizer com todas as letras que é isso que a personagem está sentindo. 
   O que mais posso dizer para te convencer esse terror clássico? Chamo de clássico não tanto pela idade mas por entender que as influências que esse livro despertou e sua atemporalidade fazem com que esse mereça tal título. Shirley Jackson já entrou no meu panteão de autores de terror favoritos não só pela qualidade da escrita mas também por desenvolver histórias que nos fazem pensar por horas mesmo depois de ter terminado, afim de criar nossas próprias interpretações do que ocorreu. Os personagens também são ótimos e, por mais que isso já torne esse livro acima da média, ainda há cenas de causar arrepio, mexendo sempre com o psicológico do leitor. 
   Nota 9,5 - esse livro já está na minha lista de favoritos do ano mas vou aguardar uma futura releitura antes de mudar essa nota para 10. 


Livro A maldição do cigano - Stephen King (Resenha)

   
   Billy é um advogado com a carreira ascenção, casado com uma bela mulher chamada Heidi e com uma filha de 15 anos, Linda. Ele tem tudo o que um homem poderia desejar, mas há um único problema: Billy é extremamente obeso, come demais e não parece querer mudar esse quadro. 
   As coisas mudam quando Billy atropela uma velha cigana. No julgamento, Billy é inocentado pelo juiz, seu amigo de longa data e parceiro de golf. Ninguém se atreve a dizer nada: afinal aquela é uma cidade pequena e a mulher morta é apenas uma cigana que fazia parte de um bando que passava pela cidade. 
   Na saída do tribunal, um velho com uma aparência horripilante toca seu rosto e diz uma única palavra. Após isso tudo muda na vida do personagem que, conforme avança a maldição, também vai ficando mais louco. 
   Assisti ao filme "A maldição do cigano" quando era bem nova e, por muito tempo, tinha a dúvida se aquela história que eu me lembrava nos mínimos detalhes era real ou só um pesadelo que eu tive. Até que eu vi o livro de Stephen King e resolvi pesquisar na Internet, apenas para descobrir que esse livro não só existia mas também era de um autor que tenho tido muito interesse. 

   Qualquer leitor imparcial jamais colocaria "A maldição do cigano" na lista dos melhores livros de King. A trama se arrasta em alguns pontos e tudo poderia ser reduzido a um simples conto, tamanha a sua simplicidade. Mesmo assim, no auge da minha parcialidade, não posso criticar esse livro: mesmo após quase 20 anos após ter "visto" esse filme continuo me arrepiando com essa história*. 
   Dito isso, só posso recomendar "A maldição do cigano". Se você tiver paciência para alguns momentos mais parados e cansativos, personagens odiosos e momentos nem nojentos, vai ser recompensando com uma trama interessante e memorável. 
   Me atrevo a dizer que, após ler "A maldição do cigano", você nunca vai olhar para uma torta de morango com os mesmos olhos. 
   Nota 8,5 - um bom livro mas dei meio ponto pela nostalgia que essa história me despertou.


* "Mas Karol você tem 25 anos? Como assim assistiu a um filme de terror com 5?!" - Eu não assisti de verdade, eu meio que estava na sala enquanto viam o filme e fui perguntando as coisas que não entendia. Minha mãe e minha tia assistiam muitos filmes de terror quando eu era menor, por isso tenho essas recordações meio bizarras (e estranhamente nostálgicas) na minha infância - qualquer dia faço um post sobre isso.

IT (A Coisa) - Stephen King


Bem vindo a Derry! 

   Como destruir algo que a encarnação dos pesadelos de cada pessoa?  IT, livro escrito por Stephen King na década de 80, conta a história de 7 amigos que, um dia, 27 anos atrás, tentaram destruir essa "Coisa". Muitos anos se passaram e todos seguiram com suas vidas, ficaram mais velhos, casaram-se. Uma noite, porém, todos recebem a mesma ligação: devem voltar a Derry. A Coisa havia retornado. 
   Um calhamaço de 1100 páginas contando a história de um ser assustador e de toda uma cidade que foi construída praticamente em cima do local onde esse ser vivia. Uma história que mescla tanto a infância quanto a vida adulta dos personagens e faz isso de forma que as duas histórias - a do passado e a do presente - terminem quase ao mesmo tempo no livro. Um mostra do ego de Stephen King, uma ode a infância e aos dias que não voltam mais. Há tanta coisa a ser dita sobre IT, mas vou estruturar essa resenha escrevendo sobre cada uma das cinco partes que compõe a história e seguir a partir daí. Para quem quiser saber comentários mais detalhados, no Tumblr do blog há um diário de leitura do livro. 
   A primeira parte é bem curta, apenas nos apresenta alguns crimes ocorridos em Derry na década de 80 e os telefonemas que esses amigos recebem. Todos os crimes parecem estar de alguma forma ligados já que, em todos eles, há sempre um palhaço, que se apresenta como Pennywise, segurando um punhado de balões. Os crimes motivaram esses telefonemas, amigos são lembrados de promessas feitas quando tinham 11 anos e (quase) todos retornam a Derry. Nesse primeiro tempo já há a alternância entre o passado e o presente dos personagens e, quando vi a parte da infância, foi impossível não lembrar de Stranger Things. Há algo nessa coisa de crianças saindo perseguindo monstros que me lembra essa série mas a atmosfera nostálgica a verdadeira razão pela qual isso me ocorreu.  O próprio King comentou sobre a familiaridade das séries com suas obras, então acho que não estou tão maluca ao fazer essa comparação. 
   Como ocorre em O Iluminado, também de King, aqui o mal não está em pessoas ou em um contexto mas sim na própria Derry. Como no hotel Overlook, as coisas estranhas vem acontecendo nessa cidade há muito tempo e o mal parece ter se entranhado por ali desde a sua fundação. Não é só uma rua, não é só uma casa - toda a Derry parece estar amaldiçoada e corrompida e a razão tem tudo a ver com o palhaço Pennywise, com A Coisa. 
   A parte 2 do livro se concentra no início de verão de 58, mostrando como os 7 se conheceram e as coisas assustadoras que viram na época. Bill Gago, o líder do grupo, é um garoto triste que perdeu o irmãozinho de repente, uma história meio esquisita que destruiu a sua família e que ele não entende direito. Eddie é o amigo asmático de Bill e o vê como uma espécie de herói, alguém quem ele gostaria de ser mas que não pode, devido as doenças (reais ou imaginárias?) que sua mãe diz que ele tem. Richie, o boca de lixo, é irreverente, bem humorado e chega a perder a mão algumas vezes, por sempre querer fazer piada de tudo e de todos (sem filtros). 
Magda PROski

   Há também Ben, um menino gordo e sozinho, que encontra com Eddie e Bill por acaso, quando estava fugindo de meninos chamados Henry, Arroto e Victor pelo local conhecido como Barrens (uma espécie de matagal de Derry, onde se passa boa parte da história). A partir daí Ben também faz parte do grupo, conhece Richie e Stan, um judeu quietinho e um tanto misterioso. Bev também se junta ao grupo na segunda parte, uma menina linda, excluída pelas outras garotas da sua idade por morar na parte pobre da cidade. Todos os meninos são um tanto apaixonados por Beverly (Ben mais do que todos) mas, naquele verão, Bervely se apaixona totalmente por Bill. 
   Embora Mike, praticamente o único garoto negro que vive na cidade, seja citado nessa segunda parte e embora seja ele que tenha feito todos aqueles telefonemas anos depois, ele não se reúne ao grupo naquele início. Talvez tenha sido uma estratégia do autor para prolongar a história? Não é como se IT precisasse de algo assim. De qualquer forma, a forma como Mike chegou ao grupo, durante a "apocalíptica guerra de pedras" que ocorre na parte 4, é um dos melhores momentos do livro. 
   Esse é o terceiro livro que leio desse autor e já consigo identificar alguns elementos padrões em sua história. O primeiro é um toque de inacreditável que sempre permeia a suas histórias, alguma situação tão absurda e fantástica que acontece e faz com que o leitor tenha que abandonar completamente a voz da razão para comprar aquilo que está sendo escrito. Em IT esse momento foi quando Bill e Richie visitam uma casa abandonada. Já estava começando a comprar a história de que A Coisa é uma criatura sobre-humana e assustadora mas como levar a sério um monstro que espirra com pó de mico? Nas mais de 1000 páginas que compõe essa história acabamos percebendo que esse elemento infantil é proposital, que não é a toa que tenham sido 7 crianças a desafiar "A Coisa" etc. mas, como uma pessoa que já leu uma história de King sobre uma máquina de passar assassina, posso afirmar que esses momentos bizarros e estranhos são a cara dele. 
   O segundo elemento/assinatura do autor que reconheço nessa obra e nas outras dele que li é que, por mais que sejam histórias de medo e horror, há sempre algum elemento de tristeza, pesar ou melancolia na trama. No caso de IT esse sentimento é mais uma saudade que permeia as frases e momentos do passado e presente dos personagens. Ler Stephen King para mim é sempre uma mistura de ficar com medo, tentar superar algumas passagens e me emocionar em outras. Tem algo triste nesse autor e isso me toca profundamente - não é a toa que comecei e terminei esse livro com lágrimas nos olhos. 
   A terceira parte, com os amigos já adultos e reunidos, é a que menos gosto. A figura dA Coisa só funciona, só faz sentido para mim quando coloquei nela um olhar de criança e quando li sob o ponto de vista de crianças. Quando a narrativa foca em adultos tanto o personagem quanto a trama perdem a força. Não por acaso, foi nesse momento, entre a página 400 4 a 600 do livro, que comecei a achar Pennywise um pouco sem graça e repetitivo. Não dá para ter medo de um monstro que você vê toda hora. 
   Felizmente, a quarta parte volta a se focar nos personagens quando crianças, e o livro engrena de novo. Gosto muito das cenas envolvendo a rivalidade entre o grupo de Henry Bowers e o grupo de Bill Gago. Bowers é o único antagonista humano dos meninos que vemos e acompanhamos de perto e da para ver sua loucura aumentando ao longo das páginas. Mas um pouco dessa loucura é um pouco influência do pai de Henry e, claro, dA Coisa. 
   Nesse ponto a figura dA Coisa acaba se tornando a figura do mal encarnado. Em Nárnia, Aslan não criou sua antagonista, a feiticeira essa chega ao mundo criado por ele quase por acaso. Em IT o mesmo acontece, a coisa não foi criada. A cena de sua chegada a Terra, no entanto, me soou um pouco sem graça e forçada. 'Show don't tell' não funciona para King: ele tem que mostrar E falar para não deixar nenhuma dúvida no que ele está mostrando. 
BANKSY

    A última parte da coisa reúne a conclusão do último confronto com A Coisa, 27 anos atrás e o confronto atual. Novos elementos são adicionados à trama e há momentos de tensão quando os amigos fazem o ritual que chamam de Chüd, bem nas profundezas de Derry. 
   Alternando, ora o passado, ora o presente, descobrimos a história como um todo e a natureza dA Coisa e da própria Derry. “A Coisa” é a externalização do mal, se alimenta de crianças, literal e metaforicamente: é a fé das crianças que o monstro  quer, uma fé que é capaz de acreditar em coisas que os adultos esqueceram faz tempo. Derry está contaminada por essa coisa, por esse mal e todos os habitantes parecem ser mais ou menos influenciados por ela (é por isso que tantas coisas ruins acontecem em Derry).
   A razão pela qual A Coisa é desafiada por crianças no início é porque essa fé infantil também pode poder: é necessária certa dose de fé para encarar o mal nos olhos e não enlouquecer de vez e isso falta nos adultos. 27 anos depois, Stan, que sempre foi adulto para sua idade, enlouqueceu só de pensar em encarar "A Coisa" de novo. Para o restante do grupo conseguir derrotar esse tipo de mal seria necessário, de alguma forma, voltar a ser um pouco das crianças que foram 27 anos atrás. 
   Não quero dar Spoiler nesse final e ainda estou refletindo sobre tudo o que esse livro me causou. Há certamente muitos pontos positivos e que dialogaram comigo: no fundo é uma história sobre o bem e o mal, sobre amor, amizade e infância. Há também aquela nostalgia melancólica das histórias do autor, aquela sensação de que as coisas jamais serão como antes. Isso é triste mas também é muito bonito.
   Por trás desse desfecho porém há uma história muito irregular, com páginas demais, pontos de vista demais, personagens demais. King parece ter a necessidade de dar um nome e uma história para cada pessoa que já pisou em Derry e, embora isso possa ser interessante para dar realismo a trama, no decorrer das páginas acaba ficando um pouco cansativo. Além disso, nesse mesmo desfecho que me emocionou há situações que eu simplesmente não posso acreditar que estão ali, como a cena com Beverly e os meninos no meio dos esgotos de Derry há 27 anos. Sério, qual a necessidade daquela cena? 
   Há também a super utilização do monstro. Pennywise sequer aparece no encerramento do livro e a razão disso, imagino, é que nem King se assustava mais com o palhaço macabro. Ao invés disso vemos A Coisa em sua "verdadeira forma", o que foi um recurso interessante para renovar a trama na reta final mas que não seria necessário se houvesse um pouco mais de cuidado na utilização desse antagonista inumano. Em determinado ponto da história Henry Bowers foi mais assustador para mim do que A Coisa e, mesmo que tenha sido mostrado que Bowers foi influenciado pela criatura, achei isso mais uma demonstração do quanto a história acabou sendo prejudicada pela quantidade de páginas. 
   Apesar de todas as ressalvas acima dei 4 estrelas para IT no Skoob. Como eu disse acima, no fundo essa é uma história sobre a infância, sobre a amizade e eu senti isso em cada um desses momentos entre Bill, Ben, Richie, Eddie, Beverly, Mike e Stan. Cada um desses personagens acabou se tornando meu amigo ao longo desses dois meses de leitura e, por isso, não consigo dar uma nota baixa para esse livro, apesar de todos os problemas que citei. 
   Já estava com saudades dos personagens quando vi que saiu o trailer do filme. Mal vejo a hora de assistir IT nos cinemas, embora tenha consciência de que filme nenhum, por mais longo que seja, seria capaz de retratar tudo o que vemos e sentimos ao ler IT.
   Nota 9 - muito bom. 

|LEIA A SINOPSE DO LIVRO NO SKOOB|


|LISTA| 5 motivos para ler O Iluminado de Stephen King


   Halloween chegando! Uso o mês de Outubro para ler livros de terror, um gênero com o qual não tenho tanta intimidade mas que gosto muito. Pensando nisso, resolvi indicar o único livro de suspense/ terror que li nesse mês de Outubro, O Iluminado de Stephen King. Já havia lido Sombras da Noite desse autor e gostado muito (indiquei esse livro e mais outros para o Halloween do ano passado) mas foi só lendo esse clássico do terror que eu pude ter noção total do que é Stephen King, que ele representa para o gênero na modernidade. 

   Por isso resolvi fazer essa "resenha" na forma de lista, dando 5 motivos pelo qual eu acredito que você deva ler O Iluminado. Nunca é demais dizer que o foco da lista é o livro, logo, não vou citar o filme nesse momento. Pretendo re-assistir a versão cinematográfica futuramente (até porque me lembro muito pouco) e fazer um comentário no blog mas não tenho previsão de quando. 

   Para quem não sabe do que se trata O Iluminado: O livro conta a história de uma família que vê sua vida mudar quando se muda para um hotel durante o inverno, quando o pai foi contratado para ser o zelador do Overlook durante esse período sem clientes. Mas logo Danny, que é um garoto com habilidades especiais, percebe que o Overlook é mais do que um hotel. E que não está tão desabitado assim. (Leia a sinopse do Skoob).

   Vamos então aos 5 motivos pelo qual eu acho que você deva dar uma chance a essa obra prima do Stephen King. 

5. É um livro que te deixa tenso logo no início e só alivia essa tensão no final 
Mesmo que você não saiba o que é redrum, está na cara que algo ruim vai acontecer e é impossível não sentir aquela sensação de quem está prestes a ver uma tragédia.

4. Os personagens principais são muito bem desenvolvidos
 Apesar de alguns clichés a família composta por Jack, Winnie e Danny é realista e cativa o leitor desde o primeiro momento. Além disso Danny é um personagem tão cativante e o amor que os pais sentem por ele é tão óbvio, que torna-se fácil esquecer algumas falhas de caráter dos pais e torcer para essa família ficar bem. 

3. Ambientação
 Como omo uma continuação do que foi comentado acima, tenho que elogiar a ambientação sensacional que o autor faz em sua história. É como se nos víssemos transportados para a década de 70, a linguagem, ambientes, carros, até mesmo a forma de agir e pensar dos personagens, tudo isso causa  a imersão do leitor no texto. 

2. A Escrita de King
   Stephen King escreve como um maníaco. Li em algum lugar que por muitos anos o autor foi viciado em cocaína e, ao ler esse livro, não pude deixar de pensar se essa substância não participou da concepção de O Iluminado. A escrita cheia de pensamentos sobre pensamentos é uma loucura total mas, ao mesmo tempo, é brilhante porque consegue que o leitor também fique meio louco junto com os personagens (ao menos foi o que aconteceu comigo). Fiquei bastante obcecada na leitura de O Iluminado e ansiosa para conhecer o final dessa história. 

1. Terror... Mas não só isso 
   O terror do livro é focado nas assombrações do Overlook, que começam sendo vistas só por Danny mas depois se mostram reais a todos os membros da família. Há também elementos do terror psicológico nos corredores silenciosos e enlouquecedoramente vazios. Não sou do tipo que sente medo com facilidade mas algumas cenas do livro me deixaram meio desconfortável. 
   Mas, embora seja um livro de terror, cheio de cenas e momentos que deixam o leitor perturbado e cheio de tensa expectativa, veja mais disso em O Iluminado. Para mim o tema principal do livro é o amor paternal/maternal porque é isso o que move Jack e Winnie ao longo da história, é isso que o hotel tenta destruir em Jack. 

***
   Ler Stephen King também me fez chegar a conclusão de que os melhores livros de terror e suspense tem um quê de tristeza e com esse não foi diferente. Tem sempre algo de melancolia em livros como esse e mesmo um suposto final feliz é sempre envolto em muita tristeza e pesar. Não sou especialista em literatura mas isso é algo que passe a pensar depois que li O Iluminado.  
   Recomendo a todos que querem uma boa opção para o Halloween. Não é à toa que esse livro já se tornou um clássico do terror, dou a nota 9 -  muito bom.

A mão esquerda de Deus – Paul Hoffman

                Sabe aqueles livros que você quer ler apenas pela capa? ‘A mão esquerda de Deus’ foi um desses livros para mim. Quando ganhei um sorteio no twitter da Editora Suma poderia escolher qualquer livro do acervo da Editora (incluindo Escuridão que quero ler a tempos) mas escolhi esse apenas pela capa ma-ra-vi-lho-sa.
                Mas qual é a história mesmo?

                Thomas Cale é um menino de mais ou menos 15 anos – ninguém sabe ao certo sua idade – que vive no ‘Santuário’, um local para onde há cerca de 10 mil meninos órfãos que são ‘treinados’ para serem guerreiros, em nome do Grande Redentor enforcado. Os redentores, com suas batinas negras e ares de seriedade, tratam os garotos com extrema crueldade e são piores ainda com Cale (embora esse não saiba o porquê disso).
                A vida de Cale no ‘Santuário’ não é nada fácil mas segue um padrão previsível, de surras e aulas sobre estratégia militar com o Redentor Bosco (Lorde da Guerra), quando algo acontece.  Seu amigo Henri acha uma porta e a partir daí ocorrem vários fatos atípicos que vão resultar da fuga dos 3 garotos (Cale, Heri e Kleist, esse ultimo ainda não citado) do Santuário e, conseqüentemente, no inicio da aventura.

                O livro se passa em passado/presente/futuro alternativo pois, apesar de ter vários elementos que dão a entender que seja um livro do período da ‘Idade Média’ há outros tantos que diferem, de forma que não se sabe ao certo qual é o período do livro. Para começar vemos os Redentores, espécie de padres, adorando a figura de um Redentor Enforcado (Especulando: Judas?), citando a bíblia e agindo como os padres da idade média fariam. Temos também um ‘Marechal’ que governa boa parte do mundo, com seus exércitos de fortes guerreiros e armaduras brilhantes, o que lembra um pouco a dominação dos romanos – mas não é a mesma coisa.
Enfim, Paul Hoffman criou seu próprio universo, mas ainda não terminou de explicá-lo. Isso por que o livro é o primeiro de uma trilogia, que promete ser muito interessante – pelo menos para os fãs de trajetórias épicas. A maneira prolixa do autor me fez lembrar do mestre Tolkien mas isso se deve, principalmente, ao fato de eu não ser uma leitora fervorosa desse tipo de épico e esse ser o único autor que eu tenho para comparar. Porque ‘A mão esquerda...’ não tem elfos ou seres fantásticos, como também é muito mais ‘sem-fé’.  Mas que eu me lembrei do ‘Passolargo’ quando vi ‘IddrisPukke’, ah, lembrei.

Os personagens são meio ambíguos, sempre relutando em fazer uma boa ação, o que os torna ainda mais interessante. Tanto Cale e seus ‘amigos’, até as heroínas Riba e Arbell, passando por vilões e mocinhos de todas as espécies, todos os personagens desse livro recebem contornos que os tornam únicos, foram muito bem criados. É impossível ler sobre eles e não imaginá-los perfeitamente, como se fosse um filme, a narrativa toda é construída dessa maneira cinematográfica, o que é outro ponto positivo.
Apesar de ser um livro sobre crianças, não é um livro para crianças e talvez nem mesmo para jovens, por conta da narrativa lenta e descritiva – e de algumas ações do livro. Indico para os que gostam desses livros que unem profecias, guerras, paixões e personagens interessantes. Ou seja, para quem gosta de um bom épico e não liga muito para o estilo meio lento que esses livros tem.

Meu único parêntese nesse livro é sobre uma atitude de Cale no final do livro. É algo tão sem-sentido e sem ter a ver com personagem que me fez refletir se Cale não é de fato aquilo que teme/finge não ser: um herói. Veremos nos próximos livros.
Nota 8 – o livro é mais que bom mas dei essa nota por que, apesar do bom inicio, trata-se de uma trilogia e quero aguardar para ver como Hoffman vai desenvolver sua história nos próximos livros.

O que acham de livros épicos? Acompanhariam essa trilogia? Comentem!