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Não dá para escrever sobre tudo (Mudanças)




   Depois de um longo e tenebroso inverno sem postagens por aqui, voltamos com o blog! Para quem não acompanha nossa página no Facebook, a razão do sumiço foi simples: fui convocada a escrever sobre a oitava (e última) temporada de Game Of Thrones lá no Multverso Geek; resolvi focar a minha atenção nessa tarefa nas últimas seis semanas. Você pode conferir meus textos sobre cada episódio aqui.  
    O post de hoje não é uma resenha mas sim uma reflexão que tive ao analisar minhas últimas postagens, as que eu fiz antes desse tempo em que estive ausente. O próprio fato de ter optado por paralisar o blog durante os posts sobre as séries também é um indicativo dessa mesma mudança. É sobre isso resolvi escrever hoje.

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   Não sei se alguém percebeu (será que alguém leu esse blog?) mas nós últimos meses as resenhas tem passado por certa mudança.
   Eu explico. Antes eu fazia questão de escrever sobre tudo o que lesse e assistisse (em matéria de cinema, por exemplo). O problema é que, muitas vezes, existem coisas sobre o qual você simplesmente não tem a mínima vontade de falar. Então, para driblar isso, eu acabei criando uma coluna no blog chamada "direto ao ponto", em que falava brevemente sobre três filmes (ou três livros etc).
   Acontece que é muito chato escrever sobre algo que você não quer. Entendo que elaborar em palavras o que você pensa sobre algo é importante, seja positivo ou não. Quantas vezes eu não comecei uma resenha pensando que não tinha gostado de um livro ou filme e, no meio dela, percebi que sim, gostei de várias coisas? Essa é uma das minhas maiores satisfações com o "Miss Carbono" e a razão pela qual continuo escrevendo aqui mesmo me perguntando quase semanalmente se deveria.
   Por outro lado, nem sempre da vontade de escrever sobre tudo. As vezes o filme ou livro é algo que mexeu tão pouco com você que tudo o que, quando se vai escrever, até se esquece sobre o que ele trata.
   Outras vezes é uma mistura disso com um enfado sobre o tema e o hype. Não me lembro qual foi o último post sobre filme de herói que fiz aqui mas, percebam, eles também tem rareado, embora eu ainda acompanhe a Marvel razoavelmente bem. É cansativo escrever sobre esses filmes porque geralmente é sempre as mesmas coisas que passam na tela e você se vê obrigado a repetir as mesmas coisas que escreveu na resenha de filme de herói anterior a essa. O único filme de herói que vi nos últimos tempos e que me arrependo de não ter escrito nada é Pantera Negra - para mim é um dos melhores filmes da Marvel dos últimos anos e, sinceramente, parte de mim torceu para que ele ganhasse um Oscar (e acabou ganhando né? Mas não de melhor filme).
   Isso significa que o blog só terá textos sobre o que eu gostei? Claro que não. Primeiro porque é possível sentir vontade de falar sobre um filme/livro mesmo sem ter gostado dele - as vezes é mais divertido ainda escrever sobre aquilo que não se gosta. Segundo porque nem sempre dá vontade de escrever sobre o que gostamos também. O post da semana que vem é um exemplo disso.
   Parte de mim ainda sente que "deve" fazer sim post sobre tudo. Por isso pode ser que esse post de hoje seja apenas um breve parêntese no meio de dois "direto ao ponto" ou dois posts bem genéricos sobre filme de herói. Não estranhem, as vezes as coisas por aqui não fazem muito sentido.
   Mas estou aprendendo a respeitar cada momento meu e, neste momento, o que eu sinto é que preciso priorizar. Já que tenho tão pouco tempo para escrever, que seja sobre aquilo que eu realmente tenho algo para falar a respeito. A ansiedade sobre ter obrigação de escrever sobre absolutamente tudo estava criando o efeito reverso - eu me sentia tão sobrecarregada que, para evitar o sentimento, acabava não assistindo nada ou lendo livro nenhum. 
    
  Tudo isso para dizer que estou tentando deixar as coisas mais leves por aqui. Escrever aqui é um hobbie que levo com certa seriedade mas, no momento, estou afim de simplificar. Afinal, um hobbie tem que ser divertido também.

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   Espero que os meus seis leitores do blog entendam alguma coisa desse texto, que na verdade é só uma reflexão por escrito a respeito de coisas que venho pensando a certo tempo. Semana que vem voltaremos a programação normal, ou seja, com as resenhas.

  


Sobre Guilty Pleasure (ou: Por que sentimos culpa por gostar de coisas "ruins"?)

https://misscarbono.blogspot.com/2018/05/sobre-guilty-pleasure-ou-por-que.html

   Você já ouviu a expressão guilty pleasure? Funciona assim: a pessoa diz que gosta da série/livro/filme X e acrescenta que é "guilty pleasure", porque sabe que é ruim etc etc. Ou seja, um "guilty plesure" é um produto que você consome e gosta mesmo sabendo que é de qualidade duvidosa. 
    Eu já devo ter utilizado esse termo no blog em algum momento porque é uma maneira bem rápido de explicar que você sabe que aquela coisa X (novamente, livro/filme/série) é ruim mas que gosta mesmo assim. Em uma resenha é quase um aviso "olha, eu estou falando bem disso mas não me xingue, okay? Eu sei que é ruim". Funciona mas, ao mesmo tempo, também me incomoda um pouco toda vez que uso. 

   A primeira coisa que me incomoda é a tradução literal - prazer culpado. Como se a pessoa devesse se sentir culpada por gostar de algo que não é considerado entretenimento de qualidade. Como se fosse necessário um grupo homogêneo de pessoas dizendo que algo é bom para que você possa respirar aliviado e dizer que gosta. 
   Eu entendo que algumas coisas que você goste possam ser tão ruins e tão massacradas que dê até uma vergonha de dizer em voz alta para um grupo de pessoas. Ou tão ruins que você até consegue perceber as falhas e pontos absurdos, mesmo gostando. Mas, falando como um fã da Saga Crepúsculo e alguém que gostou sinceramente do primeiro 50 Tons de Cinza: A gente tem que parar com essa coisa de Ensino Médio de fingir que não gosta das coisas só para se encaixar. Dá vergonha, mas precisamos tirar nossas autores e séries "ruins" que curtimos do armário: do contrário, como vamos encontrar outras pessoas que curtem esse algo tanto quanto a gente? 
   Então o primeiro motivo é esse, uma nova postura de assumir que meu gosto não é só clássicos e coisas cabeças, que também consumo bobagem (no melhor sentido possível). De dizer sem vergonha - ou talvez até com vergonha mas dizer mesmo assim - que não só estou amando Supergirl como também chorei no último episódio da primeira temporada porque pensei que a Kara não fosse sobreviver. A série tem problemas? Claro, principalmente a segunda temporada, que estou assistindo agora. Mas eu gosto. 

   O segundo ponto é que acho esse lance de "guilty pleasure" algo meio arrogante. Porque a pessoa que usa esse termo parece pressupor que, tirando aquelas músicas do Pablo Vittar ou aquela trilogia de romances hot que é o que ela chama de guilty pleasure, todo o resto que ela consome é bom. Tudo bem, você gosta dessas coisas mesmo sabendo que são ruins, ou bobas ou whatever - mas já parou para pensar nas coisas que você gosta e não sabe que são ruins? 
   Quando falo bom e ruim falo, obviamente, em um nível de avaliação técnica, aquela coisa impessoal, sem consideração pessoal. Um livro bom no sentido de ser bem escrito, um filme bom no sentido de ser bem filmado com um roteiro bem elaborado, bons diálogos. Pare e pense: tudo o que eu gosto é tecnicamente bom? 
   Se você for honesto consigo mesmo vai responder que "NÃO". Há momentos em que algo é bem feito ou bem escrito ou historicamente relevante mas esse produto supostamente incontestável não é algo que você gosta. Maior exemplo são os "clássicos" da literatura: eles são aclamados como clássicos por um motivo ou por outro mas, de modo geral, são considerados boas produções. Você gosta de todos os clássicos que lê? Só para citar um exemplo, eu não consegui terminar "O triste fim de Policarpo Quaresma" até hoje porque achei um porre. "O ateneu"? Li duas páginas. São livros clássicos mas não foram livros que me agradaram. 
   Ã‰ aquele papo de sempre, gostar é algo muito pessoal e individual. É quando o livro dialoga com você de alguma forma ou quando aquele filme tem algo que te interessa, te desperta atenção. Quando a série tem aquele personagem que parece falar tudo o que você quer dizer.
  Gostar não faz sentido, não é racional. Então, lamento dizer, nem tudo o que você gosta e defende com unhas e dentes da internet é bom. Isso vai além daquela comédia boba que você assiste sempre que está se sentindo para baixo, além de guilty pleasure, porque gostar não é um critério técnico, é algo 100% emocional (ok, talvez menos. Eu estou tentando criar um argumento aqui, me ajudem). 

    Então eu entendo o que você (e eu) quando falamos de Guilty Pleasure. É uma forma de avisar "olha, não adianta falar mal de X para mim, eu sei que é ruim". Mas essas mesmas pessoas que comentam "nossa, uma moça tão inteligente, assistindo reality show?" também curtem coisas que não foram validadas ou que não são intelectuais. E está tudo bem, sabe? Porque julgando o coleguinha ou se justificando para um coleguinha imaginário toda vez que for dizer que gosta de algo?
    Pensei nesse texto porque estava lendo o livro da Stephenie Meyer, chamado "A Química". É um livro irregular, algumas partes eu gostei, outras nem tanto. Mas, antes de escrever sobre esse resolvi refletir um pouco sobre essa expressão tão usada e compartilhar aqui com vocês.

 Claro, essa não é uma discussão fechada. Coloque sua opinião nos comentários! Bjs e até a próxima!





Respeitem Milady! (Representação feminina em Os três mosqueteiros)


"Meu Deus sou eu e quem ajudar em minha vingança!" 
 Milady, pág 661, Os Três Mosqueteiros

   Como todo livro de Dumas, Os três mosqueteiros também tem personagens interessantes. Já falei um pouco de d'Artangnan na minha resenha do livro mas senti vontade de falar de Milady, a grande vilã de Os três mosqueteiros.  Assim como é dito de Mina em Drácula, também aqui se fala em ao similar ao "mulher com cérebro de homem" utilizado no livro de Bram Stoker. Dumas falam que colocaram "uma alma viril em um corpo franzino e delicado" o que, para a época, talvez seria um elogio.
   O fato é que Milady é uma personagem a quem muitos crimes são atribuídos ao longo da história. Porém, ao longo das quase 800 páginas, Milady fez muito pouco: Conspirar com o cardeal, mas todos conspiravam uns com os outros. Sequestrou determinado personagem, mas também foi sequestrada em determinado ponto da história.
    Poderia ficar parágrafos e parágrafos aqui falando sobre os atos dessa personagem e, tirando duas mortes que lhe foram atribuídas no final e das quais não há desculpas, tudo seria muito justificável. Antes desses homicídios, me parece que o único "pecado" de Milady era agir com obstinação, coragem e inteligência. A personagem também é constantemente comparada a uma leoa ou tigresa, o que fala muito sobre como as mulheres eram vistas naquela época: preferem compará-la a um animal selvagem do que admitir que uma mulher teria tais sentimentos mais mundanos.
   Milady tapeia praticamente todos os homens com que se relaciona no livro, incluindo Athos (o que fez com que o mosqueteiro se tornasse um misógino, mas isso é outra história). E os homens, que não suportam a ideia de serem passados para trás pela astúcia de uma simples mulher, a chamam de demônio, serpente ou dos selvagens felinos que já citei.
Milady em ação no filme "Os Três Mosqueteiros"
   O que Dumas faz, nessa história, é transformar em vilã a mulher que não age de acordo com o que se espera das mulheres de sua época. Milady não é meiga, dócil, ingênua e manipulável, logo, só pode ser vilã. Para deixar ainda mais claro que não podemos sentir nenhuma piedade por essa pessoa "meio felina, meio serpente" o autor se encarrega de, ao longo da história, tirar qualquer humanidade que Milady possa ter: no início do livro comenta-se que ela teria um filho porém essa criança simplesmente para de ser mencionada, como se o fato de ser mãe não combinasse mais com uma personagem tão rebelde e pouco maternal. 
   Ao longo da história, a personagem vai ficando mais e mais cruel e descontrolada, como para justificar uma trapaça que o herói, D'Artangnan faz com ela. Mas, enquanto Milady é punida severamente, tanto D'Artangnan quanto os outros homens da história - incluindo o cardeal e Rochefort - são perdoados com muita facilidade. 
   Isso não é exatamente novo na literatura, nem hoje, nem à época em que o livro foi escrito. Milady tem algo da Lilith dos hebreus, aquela a quem todo mal é atribuído, em comparação com Eva, pura e casta. Mas quem ocuparia o lugar de Eva em Os três Mosqueteiros? Talvez a rainha, pela devoção que os personagens lhe atribuem. Mas a rainha quase não aparece na história, então só ficamos com esse exemplo "falho" de mulher, essa não mulher, na visão do autor. 
   Mesmo sendo tão caricata, Milady acabou se tornando uma das personagens mais interessantes de "Os três mosteiros". Alguns dos capitulos finais se passam sob seu ponto de vista e foi muito divertido ver essa mente "maligna" em ação, trapaceando para se livrar de uma situação aparentemente sem saída. 

   Milady é desprezível e desleal na maioria das vezes mas é impossível não admirar sua coragem e astúcia ao longo da história. Imaginem só uma mulher que, na Paris de 1600 e tantos, consegue ascender social e financeiramente, além de se tornar alguém tão vital ao reino da França, que o cardeal passa a depender dela para ganhar uma guerra? É de se admirar, ao meu ver. 
   Você pode não concordar com tudo o que esta personagem fez ao longo da história, principalmente no final dela. Mas, se os tempos fossem outros, essa poderia ter sido uma heroína ainda melhor do que os três mosqueteiros, daquelas que conseguem se livrar da maioria das situações por meio das palavras. 
    Mas, já que ficamos com essa personagem tão absurdamente má que se torna impossível de gostar, ao menos respeitemos Milady, uma personagem que se tornou cada vez mais má para que os homens de capa e espada pudessem parecer cada vez melhores.