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Serpentário - Felipe Castilho



   Caroline, Hélio e Mariana estão passando as férias em São Sebastião onde Paulo vive. Os quatro passam todos os dias juntos, em meio a brigas, tédio e atividades diversas. Naquele ano em específico Caroline levou um filhote de cachorro que os amigos acabaram batizando de Mason. É justamente o desaparecimento do cão que dá origem a uma situação que irá alterar a vida desses jovens para sempre.
    Quase duas décadas depois Caroline luta contra a fobia de cobras. De volta a São Sebastião, ela marca um encontro com Mariana e Hélio naquele lugar onde tudo aconteceu. Nenhum deles parece muito interessado em reviver o passado mas cada teve sua vida alterada de modo significativo pelos momentos vividos a tantos anos. Será possível encontrar algum tipo de conciliação com o que passaram?
   Serpentário me lembrou um pouco de IT do autor Stephen King. Primeiro pela alternância dos capítulos entre passado e presente de um grupo de amigos. Embora seja focado mais no ponto de vista de Caroline e os personagens estejam longe de compor um "Clube dos Otários", há nesses momentos do passado certa nostalgia, como a que existia no livro de King. E isso e uma série de situações sobrenaturais que começam a acontecer com os protagonistas. No presente a vida parece ter afastado e tornado bem diferente aquele grupo de pessoas - em um primeiro momento elas parecem unidas apenas pelo o que viveram juntas. Mas isso também vai evoluindo ao longo da história. 
    A presença de uma figura antagonista central, O homem de branco, também é um dos pontos que me lembraram de IT. Porém, ao contrário do palhaço/coisa do best seller americano, o Homem de Branco não é necessariamente o mal puro. Difícil explicar mas em alguns momentos do livro você se vê concordando com esse personagem absolutamente apavorante, embora isso não tenha me impedido de ficar bem tensa nas cenas em que este aparecia. Gosto dessa ambiguidade, para mim deixa o livro ainda mais interessante do ponto de vista da mensagem transmitida e na questão psicológica. O que representa aquele homem claro de cabelos extremamente pretos numa ilha cheia de cobras? Façam suas deduções. 
   De leitura rápida e cheio de referências (a outras obras e até mesmo a programas de televisão) Serpentário é um livro divertidíssimo, não no sentido de comédia, claro, mas por ser uma leitura que entretém bastante. A própria narrativa de Felipe Castilho é algo a parte: temos momentos visualmente assustadores (aquele índio conduzindo uma canoa totalmente vendado é só um exemplo) e outros mais tensos mas também há uma ironia e senso de humor que são muito legais. Mentalmente, ela classificou a situação em que estava como “estranha para caralho é um quote que eu deveria levar para vários momentos da minha vida.
   Vi algumas reclamações sobre o final do livro mas, particularmente, achei incrível toda aquela cena de ação e reviravoltas inclusas. Entendo que alguns momentos possam ter forçado a verossimilhança para algumas pessoas (alô, submarino), mas para mim tudo fez sentido, dentro do contexto apresentado. A ilha das couves/cobras é mais do que uma ilha cheia de animais peçonhentos - é um lugar onde passado/presente/futuro se entrelaçam e se misturam, onde coisas estranhas e sem explicação acontecem e de onde algumas pessoas não voltam. Com esse raciocínio não é difícil entender alguns momentos do final, por mais absurdos que possam parecer.
   Ainda falando sobre o desfecho, gosto muito mais do final que Felipe Castilho deu para seus personagens do que o que Stephen King fez com os protagonistas de IT. É estranho imaginar que as pessoas passam por tudo o que passaram e continuaram as mesmas como acontece em IT. Faz muito mais sentido que as duas experiências, a do passado e do presente, tenham influenciado os personagens e os feito alterar o rumo da dúvida. 
   Para os que gostam de livros ágeis e com vários momentos meio sobrenaturais (e até mesmo um pouco assustadores), Serpentário é um prato cheio. Parte de mim gostaria que o autor tivesse explorado um pouquinho mais a história entre Mariana e Caroline mas entendo a necessidade de objetividade (não queremos aqui um calhamaço de mais de mil páginas, certo?). Infelizmente tal objetividade não aparece em outros momentos um da história - aquela visita de Caroline ao psicólogo foi mesmo necessária? Respeito o autor mas perguntar não ofende.
   Fica então a indicação de Serpentário, uma ótima indicação para essas férias e um livro que superou as minhas expectativas. Nota 8,5 - muito bom o livro mas tirei meio pontinho por essas cenas um tantinho desnecessárias.

Livros 'Uma criatura dócil', 'Navegue a lágrima' e 'E se?' (DIRETO AO PONTO #017)


Uma criatura de dócil 
Autor: Dostoievski 
Ano:     /   Formato: LIVRO
Editora: Cosac Naify 
Opinião:  

O LIVRO FAZ PARTE DAS MINHAS METAS PARA 2016
Essa é uma novelinha curta, publicada pela editora Cosac Naify. Conta a história desse homem possessivo  e dominador que se casa com uma pobre coitada que conhece através do seu trabalho numa penhora de objetos apenas para dominá-la e a fazer sentir miserável (ao menos é isso o que parece). 
O livro é narrado sob o ponto de vista do homem e este se dirige a nós como se fossemos um juiz ou júri - o narrador nos conta sobre seu casamento para justificar a sua inocência: o corpo de sua esposa está na sala ao lado, mas ele quer que acreditamos que a culpa não é dele. 
Cena: Esse é um livro curto e não tem nenhuma cena especial ou favorita. O mérito dessa obra é a escrita do autor e a forma como ele, mesmo em poucas páginas, consegue elaborar uma história engenhosa e com personagens complexos. 
Nota: 8 - bom livro



Navegue a lágrima 
Autor: Letícia Wierzchowski
Ano: 2015    /   Formato: E-BOOK
Editora: Intrínseca
Opinião:  uma mulher solitária compra uma casa em um Balneário que pertencia a uma escritora a qual ela tem grande admiração. A mulher carrega seus próprios fantasmas do passado mas é o "fantasma" dos antigos moradores que ela passa a ver andando no local, de forma que toda a história daquela família acaba desenrolada para ela. O livro conta a história dessa família, narrada por sua nova narradora, que conta o que vê e também sua própria história. 
Navegue a lágrima foi uma leitura muito irregular para mim. Gostei da primeira parte da história e da escrita da autora nessa primeira metade. Embora tudo ainda esteja envolto em mistério, ficamos com vontade de saber o que de tão terrível vai acontecer com aquela família - a narradora deixa claro que os dias felizes ali retratado fazem parte do passado, que o presente é muito mais tenebroso. 
Na segunda metade, porém, não só a escrita da autora piora - me fazendo pensar que existe um lapso de tempo em que uma parte e outra foi escrita - como o enredo começa a se revelar bem sem graça também. Dessa forma, Navegue a lágrima pode ser interpretado de duas maneiras: Pode ser o exercício de superação de uma perda feito por uma mulher por volta dos sessenta que se sentia sozinha - e precisava de alguma forma desabafar para poder lidar com os seus sentimentos para superar tudo. Ou pode ser mais um caso em que a autora quer ter tanto controle sobre a obra (ou se apega tanto aos personagens) que acaba se perdendo e concluindo a história de uma forma que não faz jus ao resto do texto. 
Cena: Gosto da parte em que é narrada a forma como a escritora que morava na casa e seu marido se conheceram. 
Nota: 6,5 - eu achei o livro ok, mas tirei meio ponto porque me parece uma história que vou esquecer na primeira oportunidade



E se?
Autor: Randall Munroe
Ano: 2014    /   Formato: E-BOOK
Editora: Companhia das Letras
Opinião: O livro é um compilado de um blog de ciência que responde a perguntas estranhas dos leitores. Eu gosto muito da série "Guia dos curiosos", por isso achei que gostaria desse livro - afinal é mais um compilado de conhecimento inútil. O problema é que as respostas dadas pelo autor são cheias de cálculos e conceitos que são desinteressantes para mim. Dessa forma fiquei um ano lendo esse livro, pelo simples fato de que estava tudo muito chato. 
Cena: As únicas partes que gostei foi as que o autor dava resposta através de desenhos às perguntas mais esquisitas que eram enviadas ao blog. 
Nota: 6 - o livro pode ser interessante se você gostar de cálculos e de ciência, principalmente física. Mas física é a matéria que eu menos gosto, por isso não gostei MESMO desse livro.

|ESPECIAL| O lar das Crianças Peculiares (FILME + LIVRO)


   Esse post é uma "resenha / review" do filme "O lar das Crianças Peculiares" e do livro "O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares". 

   Jacob é um típico garoto franzino do Ensino Médio, que trabalha no negócio da família e luta contra o tédio. Mas, após um ligação que seu avô lhe faz pouco antes de morrer, a vida de Jacob muda bastante. Quando criança "vô Abe" contava sobre monstros e sobre o Orfanato muito especial em que morou em Gales,  mas Jake cresceu e passou a achar aquilo apenas um punhado de histórias. Com a morte do avô, ele descobre que as tais histórias são reais. 
   Não assisti a esse filme imediatamente e por isso pude conferir a repercussão que o filme causou antes de ir ao cinema. Quando vi reclamações sobre as divergências entre a Obra de Tim Burton e o livro de Ransom Riggs, eu soube que teria de ler o livro e foi o que fiz. Para facilitar a leitura de quem estiver acompanhando o post vou separar meus comentários sobre o filme e sobre o livro em primeiro lugar e depois farei o comparativo entre os dois. Embora muitas opiniões sobre o livro se apliquem também ao filme (e vice-versa) acho que dessa forma conseguirei me expressar melhor. 

FILME

   Tim Burton não é um autor que eu possa chamar de favorito mas eu gosto de assistir a seus filmes assim que são lançados, de preferência no cinema. A mistura de efeitos, figurino e personagens meio esquisitões são coisas que tornam os filmes desse diretor únicos ou, na linguagem da trama em questão, peculiares. 
   No caso de "O lar das Crianças Peculiares" todos esses critérios foram altamente atendidos. A visão de Burton sobre esse universo criado por Briggs possui alumas características próprias, algumas bem relevantes (como as alterações nos personagens e na trama) outras mais sutis, como o humor sutil e um pouco mórbido que a trama adquire no filme. 
   Gostei muito da agilidade com que a história foi conduzida e me senti cativada pelas crianças peculiares da mesma forma que Jake quando viu o Orfanato pela primeira vez. Até a metade do filme, minha única ressalva era sobre a srta. Peregrine, que ficou meio dúbia na versão cinematográfica e muito mais excêntrica. Claro, Eva Green é sempre um estouro em tela mas, se eu não tivesse lido o livro, teria achado a personagem era alguma especie de vilã. 
   Engraçado é que foi justamente quando os verdadeiros vilões apareceram que o filme começou a ficar problemático. Os "Etéreos" são uma espécie de 'peculiares do mal' que ficaram invisíveis e monstruosos após uma experiência fracassada. Somente devorando uma grande quantidade de olhos de crianças peculiares é que eles voltariam a sua forma humada e ficariam visíveis. Quando os "Etéreos" apareceram o filme passou de divertido para muito confuso. 
   Eu gosto muito de filmes com viagens no tempo, universos paralelos e coisas assim. O problema é quando essas histórias vem com situações meio que impossíveis e esse é o caso do filme "O lar das Crianças Peculiares". Enquanto acompanhava a sequência de idas e voltas entre fendas temporais que ocorre no filme eu tive a famosa dúvida: Será que o roteirista cometeu um erro cronológico ou eu é que não entendi o filme? 


LIVRO

   Li "O Orfanato da Srta. Peregrine..." em e-book e acho que esse é um dos poucos casos em que um livro físico teria sido melhor. Explico: é que há muitas imagens nesse livro, algumas delas com texto incluso. No Kindle isso significa sempre um zoom na ilustração e uma tentativa débil de mexer na iluminação para conseguir ler o que raios está escrito naquela foto. Isso tirou um pouco do ritmo de leitura e um pouco dá magia também, já que o livro todo é para ser concebido como um álbum fotográfico. 
   A escrita de Riggs, em primeira pessoa e com aquele linguajar adolescente presente em todos os YA, não tem nada de espetacular. Já a trama é bem interessante, achei uma boa sacada a reunião dessas fotos bizarras tiradas em séculos passados para contar uma história única e diferente. 
   No entanto, embora tenha gostado do livro e o lido razoavelmente rápido, não fiquei com vontade de ler os próximos. Talvez porque a história teve um desfecho satisfatório para mim, sem aqueles benditos cliffghangers que algumas trilogias insistem em usar. 
   Ou talvez porque eu o livro não tenha me empolgado tanto assim. No livro foi tudo muito razoável para mim, sem nenhum momento em que tive alguma emoção mais extrema, para mais ou para menos. Jacob é um narrador sem gracinha e eu achei o relacionamento dele com Emma algo mais sem gracinha ainda e até um pouco bizarro quando consideramos que Emma tem, digamos, idade para ser a avó dele.  Some isso a escrita lenta do autor e temos um livro que, embora criado numa premissa bem criativa, não tem nada demais no desenvolvimento.  Temos aqui outro caso do livro com mais de 300 páginas que poderia facilmente ter umas 50 delas cortadas - cerca de 40% do livro é a narrativa de pesadelos e de toda a saga que Jake faz para chegar a ilha. Em uma história juvenil isso é tempo demais para a ação começar. 
   Sobre o final do livro, achei o conflito com o vilão rápido e simples demais. Mas entendo que, sendo uma trilogia, outros confrontos virão, esses mais elaborados e perigosos.

FILME VS LIVRO

Riggs vs Burton
   O filme e o livro tem diversas diferenças entre si. Eu classifiquei essas diferenças em duas categorias: adaptativas e criativas
   As diferenças que eu coloquei como adaptativas são aquelas alterações feitas para adaptar o enredo ao cinema. Como mídia diferente, não é possível que as coisas aconteçam exatamente da mesma maneira e uma dos grandes méritos do filme é entender isso. Gostei da forma como eles tornaram a história mais ágil e simples, cortando personagens desnecessários (tipo aquele melhor amigo que Jacob tem e eu sequer lembro o nome) e reorganizando alguns acontecimentos e informações. 
   Um exemplo: No livro Jake não sabe que a Srta. Peregrine pode se transformar em um pássaro e, mesmo ela indo visitá-lo sob essa forma, não há nenhuma forma de contato por nenhum deles. No filme, o vô dele diz que ela pode assumir a forma de um pássaro e ele brinca com o fato quando avista um falcão Peregrino, se apresentando como "o neto de Abe" para grande consternação de seu pai. Enquanto a cena do livro tem o objetivo de informar o "dom" da diretora do Orfanato, no filme uma cena com as mesmas características (avistar um falcão etc.) faz com que a srta. Peregrine (era ela, na forma animal) saiba da existência do personagem e envie seus pupilos para buscá-lo. 
   Até aí tudo bem. O problema começa quando vem as diferenças "criativas" entre livro e filme. Muitas são coisas bem simples, como tornar os Etéreos mais assustadores (e gigantescos) ou alterar a idade ou as características do poder desse ou daquele personagem. Outras, no entanto, são bem mais radicais, como quando Tim Burton inverte a características de duas personagens.
   Eu não sou muito fã da Emma do livro mas até eu me choquei quando vi que no filme, ao invés de conjurar e manipular o fogo, Emma flutuava. Olive deveria flutuar, eu pensei, mas no filme é Olive quem manipula o fogo. Acho que Burton achou que seria mais fofo e delicado que Jake se apaixonasse pela "garota flutuante" do que pela maluca incendiária. Ok, I get it. 
   Mas o que dizer da tentativa de vilanizar Enoch transformando sua peculiaridade para mostrar nele uma pessoa mais cruel do que ele é fato?  E, principalmente, o que dizer do desfecho do filme? Será que há alguma justificativa criativa que explique alguma dessas coisas?
   Certamente há quanto a Enoch mas minhas dúvidas são todas com esse desfecho. Porque as coisas que Burton alterou, nesse caso, não tornaram o filme mais fácil, compreensível ou interessante (embora alguns possam descordar desse último). Pelo contrário, eu fiquei completamente confusa quando o filme começa a "brincar" com viagens no tempo através de fendas temporais e, confesso, estou confusa até agora
   Lendo o livro cogitei a hipótese do roteiro ter adiantado coisas que acontecerão aos montes nos próximos livros. Por mais que pareça uma boa ideia, achei que o filme falha na forma com que nos apresentou esses temas porque não explicou muito bem como essa "viagem no tempo" é possível. Eu perguntei a várias pessoas se elas tinham entendido essa parte e as respostas variaram de "não entendi p... nenhuma" a "mais ou menos". 

Conclusões

   Antes que alguém venha me dizer que Tim Burton não escreveu o roteiro do filme e, portanto, não poderia ter feito essas mudanças, peço que leiam esse post. Há um trecho de uma entrevista com o diretor em que ele diz que quer explorar esse universo em que uma menina levita e uma mulher voa e que fez um filme sobre eles. É muita tolice achar que o processo criativo fica todo no roteiro; há filmes que são totalmente reescritos pelo diretor durante as filmagens. 
   Portanto continuarei atribuindo todas essas mudanças de criativas a Tim Burton e vocês não podem me impedir. Se eles acertou em alguns aspectos, como em alterar a aparência dos Etéreos, em outros o diretor pode ter deixado um pouco a desejar, como quando resolveu "brincar de senhor do Tempo" (li essa definição no twitter, achei fantástica e precisa). Eu prefiro acreditar que as mudanças deixaram o filme mais difícil de ser compreendido a acreditar que tenha havido falha no roteiro. Porque ou eu não entendi aquele final direito ou, se entendi, tem um erro temporal muito sério nele (há uma terceira via: faltaram informações de como funciona essa "fenda temporal" fazendo-me tomar por impossível algo que é somente mal explicado).  
   Enfim, assistirei aos outros filmes para ver como o diretor vai trabalhar com essas informações e com esse universo como um todo. Se pretendo ler os próximos livros? Tudo vai depender da minha empolgação com à época do lançamento do segundo filme. No momento atual, embora não tenha grandes reclamações sobre a leitura, também não tenho vontade de continuar lendo. 
   O Orfanato da srta. Peregrine para Crianças Peculiares é até um YA bem criativo e interessante quando comparado a média mas, em última instância, continua sendo um YA e esse não é um gênero que aprecio muito. Para o livro dei nota 7,5 - achei bom, mas tirei meio ponto pela enrolação em alguns momentos e pelo final meio bobo. 
   Ao filme darei a mesma nota de 7,5 mas por motivos diferentes - dessa vez tirei meio ponto pelo final confuso, que acabou tirando um pouco do brilho da obra. 

|RESENHA| Vida e Morte - Stephenie Meyer (Saga Crepúsculo #005)


   E se os personagens de Crepúsculo  tivessem seus gêneros trocados? Se ao invés de Bella, uma humana, apaixonada por Edward, um vampiro, nós tivessemos o humano Beau apaixonado pela vampira Edythe? Stephenie Meyer diz no prólogo que isso não alteraria nada a história em nada e passa o livro todo tentando provar isso, chegando ao ponto de mudar o gênero de TODOS os personagens da história (tirando Charlie e Reneé).
 Assim que li sobre o lançamento dessa história fiquei louca para ler. Afinal (me julguem) Crepúsculo é uma saga muito importante para mim, realmente marcou o final da minha adolescência. Esperava algo diferente do livro principal, apenas com a mesma temática mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que o livro era exatamente igual ao original, com várias cenas e diálogos idênticos ao primeiro. 
   Embora ler essa versão de Crepúsculo tenha despertado minha adolescente interior (me senti com 16 anos de novo), logo essas similaridades passaram a me incomodar. A impressão que me deu foi que a autora se esforçou de mais para encaixar as cenas no primeiro livro nessa versão alternativa, tornando algumas partes bem forçadas. Talvez a história fosse mesmo a mesma em muito aspectos mas tentar passar até mesmo as expressões de Edward para Edythe foi demais, tornou difícil imaginar esses personagens como algo mais do que Bella e Edward com gêneros trocados. Eu sei que o tema é "Crepúsculo Reimaginado" mas, em muitos momentos, me pareceu "Crepúsculo exatamente o mesmo". 
   Se a autora não tivesse se prendido tanto a esse molde a história teria sido muito melhor: as poucas cenas em que ela se afasta de "Crepúsculo" mostram que Beau e Edythe tem várias diferenças do casal em que foram baseados e que são apaixonantes a sua própria maneira. Beau é muito mais divertido e uma personagem mais "gostável" que Bella, mas só vemos isso nas poucas cenas em que Stephenie não tenta nos socar TWILIGHT guela abaixo de novo. 
   Falando em personagens, os secundários não tiveram chance, ficaram esquisitos com gêneros trocados e ponto (talvez pelo pouco tempo para desenvolve-los). Archie e Jessamine, por exemplo, só serviram para me fazer sentir saudade do meu casal favorito da saga, Alice e Jasper. Para que trocar o gênero desses personagens se não teria chance de desenvolve-los melhor? Achei essa escollha da autora um pouco ambiciosa demais. 
   O final foi exatamente o que eu gostaria que o livro todo tivesse sido - diferente. Me deu vontade de ler mais sobre Beau e Edythe, esse mundo alternativo terminou criando ramificações interessantes que gostaria de acompanhar com mais detalhes. Mas acho difícil a autora escrever mais sobre isso, "Vida e Morte" tem toda a história única. Terminei o livro feliz e triste ao mesmo tempo: feliz por ter lido e triste pelo final de tudo (foi como terminar a Saga mais uma vez). 
  Resumindo, gostei muito do começo (Crepúsculo palavra por palavra), me enjooei no meio da história e amei o final, apesar desse ter algo de agridoce (espero que não considerem isso spoiler). O momento em que a autora toma vergonha na cara e resolve se distanciar de Crepúsculo - pirei com essa cena. 
   Minha nota é 7 - o livro é razoável, mas teria sido muito bom caso a autora tivesse se afastado de Crepúsculo antes e não somente nas 50 páginas finais. 



|Resenha| Amanhã você vai entender - Rebecca Stead


   Miranda Sinclair é uma garota comum, criada apenas pela sua mãe. Ela tem uma vida comum e é feliz com seu amigo Saul, até que um dia este leva um soco na rua e tudo muda. Quase como se estivesse relacionado a esse evento, Miranda começa a receber billhetes anonimos que, apesar de bem estranhos a assustam muito: o autor dos bilhetes parece conhecer sua vida e destino com precisão assustadora. 
   A história se passa no inicio dos anos 70 e é narrada pela própria Miranda, uma menina de 12/13 anos. Mesmo sendo uma história voltada para o público jovem, pela narrativa da protagonista podemos ver alguns temas, como diferenças sociais e racismo, abordados de maneira muito sutil ao longo da história. Miranda estuda em uma escola pública e acaba estudando e convivendo com pessoas muito diferentes dela própria. 
   Esses aspectos apenas enriquecem a narrativa, cujo tema principal é... *musica de suspense* viagem no tempo. Alguns podem considerar essa revelação um micro-spoiler mas, quem já tem algum contato com narrativas que tem esse plot vai perceber isso logo de cara, então... Enfim, eu mesma só fiquei com mais vontade de ler quando fiquei sabendo disso. (Aliás, obrigada JotaPluftz por indicar esse livro em um dos seus vídeos).
   Os capítulos são bem curtinhos e instigantes e o livro passa num piscar de olhos. Li em 5 dias por que comecei a economiza-lo: a leitura estava tão interessante que eu queria parar para pensar nos mistérios que rodeavam a personagem e saborear a história antes de terminá-la. Fora os mistérios, as discussões de Miranda com o personagem Marcus são interessantíssimas e merecem ser lidas com bastante atenção. 
   A história ocorre em uma espécie de flashbacks pois Miranda vai relembrando e tentando fazer sentido aos eventos dos últimos meses, ao mesmo tempo em que vive a situação atual, em que sua mãe está treinando para participar de um programa de tv (no estilo Mega Senha) em que pode ganhar até 20 mil doláres, uma fortuna pra época. Miranda e Richard (namorado de sua mãe) ajudam a mãe de Miranda a treinar, criando questões etc. Miranda se lembra que essa participação da mãe no show era uma das coisas que estavam escritas em um dos bilhetes misteriosos que recebeu. O mesmo bilhete que afirmava que algo horrível ocorreria a seu amigo. 
   Como eu disse no inicio, trata-se de uma história para o público jovem/adolescente, por isso a linguagem é bem acessível. Mas, mesmo para mim que tenho 23 anos,a leitura valeu muito a pena. Você nem vê as páginas passando, a história toda é muito divertida e interessante, você não pode esperar para saber o desfecho. O final não chegou a ser surpreendente mas isso não tirou em nada o mérito dessa história incrível, que espero poder presentear a alguma criança/jovem algum dia. 
   Rebecca Stead escreveu uma história completamente despretensiosa e, por isso mesmo, cativante. Recomendo se você gosta do tema (viagem no tempo) mas também se estiver querendo ler algo diferente, com uma narrativa mais simples mas que não vai falhar em te entreter, nem que seja por algumas horas de leitura. 
   Nota 9 - um livro muito bom, que tem tudo para entrar nos meus favoritos (só não dei 10 por que preciso relê-lo para saber se será  um favorito ou não).

Resenha: 50 Tons mais escuros – E.L. James









ATENÇÃO: Esse é o segundo livro da Trilogia “50 tons de cinza” e pode conter spoilers sobre o primeiro volume. Para ler a resenha do primeiro livro da trilogia clique aqui.


Faz quatro dias que Anastasia pôs fim ao seu relacionamento com o sombrio e enigmático Christian Grey. Na ocasião ela havia se assustado ao perceber até onde ia o sadismo do amante, e se deu conta de que jamais conseguiria fazer aquilo, nem mesmo por ele.

Acontece que, embora a mente racional de Ana saiba que essa foi sua melhor decisão, seu corpo e seu coração estão morrendo de saudade do bilionário bonitão. Isso faz com que a mocinha haja de forma autodestrutiva, não se alimentando ou dormindo por longos quatro dias.
Porém tudo isso muda quando ela recebe um email de Christian, perguntando se ela precisaria de uma carona para um evento que eles haviam combinado de ir juntos, antes de se separarem. Ana aceita e, só de saber que vai ver Christian novamente, recomeça a viver.
Um dos aspectos positivos de ’50 tons mais escuros’ é que vemos uma pequena evolução na escrita da autora. Se, em 50 tons de cinza, a escrita de E.L. James poderia ser considerada muito ruim, agora está só ruim. Percebe-se que o uso de algumas expressões é diminuído nesse segundo volume, o que torna melhora a leitura.
Por ter gostado do primeiro livro e quase ter ido a loucura com aquele final, tinha altas expectativas com ’50 tons mais escuros’. Para começar queria saber se Christian iria conseguir superar seus traumas para, enfim, criar um relacionamento verdadeiro com Ana. Depois, havia a curiosidade para conhecer mais detalhes do passado desse homem, por que ele havia se tornado tão arisco ao toque das pessoas e tão fechado para relacionamento. Por ultimo, ainda tinha aquela curiosidade por saber se Ana se renderia ao lado obscuro de sua própria sexualidade ou se continuaria afirmando que fazia tudo aquilo por ele.
No fundo eu sabia que não poderia acontecer tudo isso logo no segundo livro, afinal, é uma trilogia, mas essas eram minhas expectativas quando comecei.

Meu primeiro choque foi a mudança de Christian: Em quatro dias Grey passou de bilionário esquivo que foge de relacionamentos, para um cara completamente apaixonado e entregue, que está disposto a tudo para ficar com Anastasia... Até mesmo abrir mão de seu lado sádico. Uma parte de Ana fica um pouco decepcionada, mas ela também fica feliz por conseguir tirar o seu “50 tons” da escuridão e traze-lo para a luz dos relacionamentos baunilha.  


Então o livro prossegue e, por conta de uma perseguição implacável de uma ex-namorada maluca, Ana aceita morar com Christian por um tempo. Para a segurança dela, ele também coloca seguranças grandalhões próximos a ela enquanto vai ao trabalho e faz com que ela prometa informa-lo sobre todos os passos que der.
Falar sobre o trabalho de Ana me fez lembrar de seu chefe, Jack Hide. Quando vi o nome desse personagem sabia, com todas as minhas forças que ele teria algum papel importante na trama.  A semelhança do nome Jack Hide com o personagem de “O médico e o monstro” (Dr. Jekyll, que também era Mr. Hyde) é tão óbvia que não há como não sacar que esse personagem terá uma personalidade oculta.
Dito e feito. Sem spoilers sobre o assunto, mas a cena em que o sr. Hide mostra o seu verdadeiro caráter é meio inverossímil, como se ele estivesse se tornado um monstro mesmo.

Infelizmente não é a única coisa inverossímil e fraca do livro. Se você, assim como eu, se preparava para descobrir mais segredos obscuros do senhor Grey, prepare-se para se decepcionar. Nosso mocinho conta um pouco mais sobre o seu passado e, realmente, ele passou por muita coisa barra pesada antes dos 4 anos. Mas, será esse um motivo válido para que ele não suporte que o toquem até hoje? Não, nem um pouco. Foi ai que comecei a me perguntar se todos esses psicólogos e psiquiatras que Christian frequentou quando era pequeno eram todos uns incompetentes ou se era a autora que não soube justificar bem esse aspecto do seu personagem.
Daí, quando eu pensei que a parte dos segredos não poderia ficar pior, vem o segredo mais obscuro do senhor Grey, o mais terrível, aquele que ele teme que fará Ana se afastar dele para sempre.

Suspense, música dramática, esquilo dramático. Christian conta o segredo e... Era isso? A cena foi tão rápida e mal escrita que fiquei sem entender os detalhes, mas, se foi isso mesmo o que eu entendi, acho que o nosso personagem masculino andou lendo livros Freudianos demais.

Minha expressão quando li sobre o 'super' segredo de Christian Grey. 
Enfim, o livro foi passando e meu incomodo foi crescendo. Tudo era muito raso, muito frágil no argumento da autora. Isso sem contar a própria Anastasia que, novamente, pensava uma coisa quando estava longe dele e fazia outra quando estava perto. Numa página acha que eles tem que ir devagar, na outra já está morando com ele. Diz que não gosta de BDSM mas faz provocações sobre o assunto em vários momentos da trama.
 Imagine situações como essa em loop infinito e saberá como foi o comportamento de Anastasia nesse livro. Em alguns momentos senti alguma iniciativa da heroína mas, infelizmente, Ana não conseguiu sair do medíocre e patético durante todo o livro.
Eu até teria aturado esses personagens malucos como mocinhos se o livro tivesse uma trama interessante. Porém, se no primeiro livro, a trama principal era o contrato que Ana teria que assinar e os mistérios do sr. Grey no segundo livro não há trama nenhuma.  É simplesmente o cotidiano desse casal problemático que alterna brigas e discussões a cenas de sexo e declarações de amor e posse. A autora tenta provocar algumas reviravoltas, mas tudo se resolve magicamente na próxima cena, em poucas linhas.

Sinceramente, analisando todo o livro, não há nada (repito, NADA) que justifique metade das 485 páginas de “50 tons mais escuros”. Nem mesmo as cenas de sexo empolgam: Tirando a cena do “baile de mascaras” achei o restante muito tedioso e não por não terem BDSM  mas por que autora não conseguiu me convencer da tensão sexual existente entre os personagens nesse segundo livro, como ocorreu no primeiro.
Falando em BDSM, se no primeiro livro eu não consegui perceber essa visão preconceituosa da autora sobre o tema, no segundo esta foi escancarada: E.L. James chega ao ponto de transformar em vilã a única personagem que assume gostar desse estilo de vida, em mais uma cena pouco crível e desnecessária do livro.


Por isso, rebatizei o titulo de livro de “50 tons mais escuros” para “50 tons de decepção”. Por que foi decepcionante perceber que o bilionário misterioso outrora conhecido como sr. Grey não é nada mais do que um pirralho mimado e carente*. Decepcionante ver a mocinha ter momentos de lucidez para logo em seguida cair no choro ou esquecer tudo em nome da paixão.

 É decepção por ver uma autora tão preconceituosa ser considerada uma libertadora da sexualidade feminina. E ver uma série que parecia ter tanto potencial entrar pelo ralo. 
Dou nota 6,5 não gostei do livro mas o meio ponto vai para os momentos de sobrevida, quando achei que a história poderia entrar nos eixos (só para me decepcionar novamente depois) e também para a cena do baile de mascaras, que realmente é muito boa. 

Sobre o terceiro e ultimo livro da Trilogia, “50 tons de liberdade”: Podem ter certeza de que lerei sim, nem que seja para saber o que diabos a autora vai colocar em um terceiro livro (mais perseguição sem sentido, pelo o que eu entendi). Mas vai demorar um pouco: no momento não sinto a mínima vontade de comprar/ler esse ultimo livro.

* Uma das maiores exemplos dessa mudança pela qual Christian Grey passa é a forma como Ana se refere a ele: No primeiro livro era “Sr. Grey” e, no segundo, é apenas Christian.

Veja também a página do livro no Skoob.

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