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Com armas Sonolentas - Carola Saavedra



    Lembro que quando li Torto Arado comentei no Clube do Livro da qual participo que, embora tal vertente não fosse muito explorada pelo autor, as personagens principais pareciam terem sido arrastadas pelo destino em direção ao papel que viriam a desempenhar no final da história. "É um mito grego", joguei eu citando algumas passagens que careciam um pouco de verosimilhança, a maioria delas envolvendo uma faca. 
    Eis que chega a próxima leitura do clube, Com Armas Sonolentas, e a sensação é de que o mito grego encontrou-se com Alice no País das Maravilhas, Dark e Rio de Janeiro, não necessariamente nessa ordem. A narrativa polifónica, como é descrita na sinopse, quase me derrubou - é difícil manter a tal suspensão da descrença a não ser que pensemos nessa história como um mito grego, ou melhor, um sonho/pesadelo com traços de mito, uma fita de mobius em que se misturam a vida dessas três protagonistas. 
       Nas notas da autora, vemos que houve referências a peça Medeia de Euripides. Medeia, a personagem grega que mata os próprios filhos para se vingar de Jasão, que a abandonou para se casar com uma princesa, sob o argumento de que ela seria "selvagem demais". Medeia que mata o irmão e abandona o próprio lar para seguir Jasão, que comete as maiores crueldades por esse homem a quem ama com loucura, só para ser então descartada.  "Aprende o que custa renegar o sítio natal" diz Anna em sua peça, em referência a peça de Eurípedes. Tal qual Medeia, as mulheres desse livro também são estrangeiras - "exóticas demais", "selvagem demais", "estranhas demais" - para o lugar em que vivem. 
    Na primeira parte temos a brasileira Anna, aspirante a atriz, que viaja a Alemanha para casar-se com um diretor famoso. Na segunda parte há Maike, alemã, que apesar de ingressar na faculdade pronta para cursar direito, acaba "caindo" nas disciplinas de português, lingua pela qual sente estranho fascínio. Por ultimo temos uma personagem feminina sem nome, que sai do interior onde vive com a mãe para trabalhar no Rio de Janeiro a troco do próprio sustento. Cada narradora tem voz, vivência e angústias características mas o livro dá a entender que existe algo entre elas, algo inquebrável.

"Gostamos de imaginar que somos livres, completamente livres, mas isso não passa de ilusão, somos nossa herança, uma herança gravada nas palavras de nossos ancestrais"
    Carola Saavedra não dá respostas claras aqui por isso é bem aos poucos que vamos entendendo o que está se passando entre essas três narrativas, como uma se relaciona a outra. Quando se pensa que está entendendo o cerne da história, porém, algo acontece e você começa a se perguntar até que ponto aquilo que está lendo é mesmo real. "O que te dá tanta certeza de que você existe?", Max pergunta a Maike em determinado momento da história. O que nos dá a certeza de que essa história existiu, ou seja, que esses acontecimentos narrados realmente aconteceram na realidade dos personagens e não no delírio de um deles? Não há certezas aqui. 
    O final dá a sensação de que é necessário voltar ao começo, de que certamente algo foi perdido no meio, de que esse não pode ser o final. Mais perguntas que respostas se somam, algo obviamente proposital mas que deixa um leve sentimento de frustração. Particularmente, mesmo reconhecendo a riqueza de repertório, técnica e estilo da autora não posso dizer que gostei de ler Com armas sonolentas. Claro, isso fala muito mais sobre mim que sobre o livro, talvez não li no momento correto ou me falte algum tipo de preparo, talvez com o tempo o livro "cresça" para mim.
    Por hora recomendo àqueles que querem conhecer uma escritora talentosa, personagens e enredos que a principio aparecem ser simples mas que contem algumas várias camadas. Nota 3/5

***

      



Antes do Amanhecer (1995)




   Esses dias descobri uma palavra nova. Tupananchiskama do idioma indígena Quechua. A explicação que eu vi dizia que essa palavra, mais que sinônimo de tchau ou um adeus, tinha um significado mais profundo: "até que a vida volte a nos encontrar". Se houvesse um filme que pudesse ilustrar essa expressão esse filme seria Antes do Amanhecer. 
   Começando num trem rumo a Paris, conhecemos a história da francesa Celine e do americano Jesse. Ele descerá em Viena e de lá pegará o avião para seu país Natal. Ela retorna a Paris para concluir os estudos depois de passar um tempo com a vó em Budapeste. Pouco antes de descer Jesse faz a proposta: que Celine passe o dia com ele em Viena e retorne a Paris no dia seguinte. 
   Assisti Antes do Amanhecer com altas expectativas, é um filme bem elogiado, com duas continuações e incontáveis fãs. Esperava chorar litros mas, para a minha surpresa derramei poucas lágrimas com esse filme. Acho que é porque eu meio que esperava o desfecho ou pelo filme não ser necessariamente triste. 


   Antes do amanhecer é uma história sobre duas pessoas que se apaixonam e conhecem uma a outra no período de um dia, em uma cidade estranha. Mesmo parecendo um tanto  idílica, dois jovens em Viena se apaixonando, o filme consegue passar uma naturalidade entre os personagens, o que torna a história mais verossímil e realista. Mérito dos dois atores que, além de ter uma química incrível, ainda conseguem fazer parecer que realmente estão começando a nutrir sentimentos um pelo outro. 
   Todos os diálogos do filme são muito bons e vitais, do tipo que te fazem pensar sobre várias coisas diferentes. Um dos meus favoritos ocorre quando Jesse diz a Celine que o amor é algo que nunca esperou, que gostaria mais de ser alguém que cumpriu uma tarefa ou fez algo grandioso que amar ou ser amado. Celine então conta sobre um rico senhor que aos 52 anos lhe disse, aos prantos, que seu único arrependimento na vida era nunca ter amado. "Eu tenho 52 anos e nunca me entreguei de verdade pra ninguém". 
   Após ter assistido a esse filme pensei em muitas coisas, entre elas esse diálogo, em como deve ser triste, passar pela vida sem ter se entregado, sem ter amado ninguém. Esse diálogo entre os personagens me lembrou o monólogo do pai no final de Me Chame Pelo Seu Nome, em que ele lamenta pelas pessoas cujo sofrimento faz com que tenham cada vez menos para dar. O amor não deveria ser limitado ou negado, mesmo com a possibilidade da dor no final - e os personagens de Antes do Amanhecer parecem entender isso. Mesmo com a separação se aproximando, eles decidem sequer trocar telefones e manter aquele dia intocado e especial em suas mentes - vivendo o amor que cresce e a dor que se aproxima quando o outro for embora. 


   Eu poderia muito bem questionar alguns aspectos do filme, como certo diálogo sobre as diferenças entre homens e mulheres ou o comportamento um tanto machista de Jesse em alguns momentos mas tudo isso me parece insignificante perante esse filme. Prefiro atribuir esses diálogos a construção do caráter dos personagens, mostrando que eles também tem suas falhas, ou até mesmo ao fato do filme ter sido lançado em 1995.
   Quando penso no desfecho de Antes do Amanhecer novamente me vem a palavra em quechua que descobri essa semana. Ao final, Celine e Jesse não dizem adeus mas sim tupananchiskama - que a vida nos encontre de novo. 

Nota 9 - muito bom. 

P. S.: assista quando estiver afim de um filme romântico sim porem com algo de reflexivo




Todos nós Adorávamos Caubóis - Carol Bensimon


   Cora e Júlia saem em uma road trip pelo Sul do país, sem roteiro específico, sem data para voltar, sem qualquer expectativa a não ser andar por aí. Ambas também parecem estar um pouco perdidas na vida: Cora faz faculdade de moda em Paris, mora com um amigo francês, tem subempregos. Vem ao Brasil para encontrar Júlia, mas diz ao pai que é para acompanhar o nascimento do novo irmão - filho do pai com outra mulher - para que esse concorde em pagar a passagem. Júlia estuda no Canadá, largou o noivo para ir viajar com Cora pelo Brasil, tem um relacionamento cheio de tensão com os pais e irmão baseado em um fato que ocorreu antes do seu nascimento. 
   É como se as duas mulheres, no alto de seus vinte e tantos anos, resolvessem dar um pause em suas vidas e seus problemas do cotidiano para realizar essa fantasia do final da adolescência. Quando cursaram faculdade juntas, Júlia e Cora eram muito amigas (mais do que isso até) e sonhavam com essa viagem. Agora, tantos anos depois, após vários anos sem saber um da vida da outra, estão novamente juntas. E os sentimentos que existiram naquela idade aos poucos também vão retornando. 
    Esse é um dos livros que li para o desafio livrada 2019, na categoria "Uma escritora brasileira viva" (mas estou pensando em jogar para a categoria "escritor xará", veremos). A autora, Carol Bensimon, escolheu narrar a história em primeira pessoa e isso faz muito sentido pois muito da história é visto através das lembranças de Cora, ou melhor, de como ela enxergava seu relacionamento com Júlia no passado e no presente e como ela interpreta tudo isso. Cora considera Júlia certinha mas logo percebemos que essa vontade de agradar tem uma origem mais profunda e que a própria Cora age no sentido oposto, com um desejo quase adolescente de desafiar as pessoas. 
   Outro ponto positivo nessa narrativa são os diálogos e na própria narrativa de Cora, que estão cheios de "tu" e "ti" e expressões sulistas. Isso dá um realismo maior para a história, parece que são pessoas de verdade ali e o modo delas conversarem contribui muito para isso. Gosto de dizer que esse é um livro com sotaque, porque até na narração eu consegui imaginar um sotaque gaúcho - eu, particularmente, gosto muito de livros assim, me sinto mais próxima dos personagens.
    A cena do final é a que dá o título do livro, Cora lembra de um momento entre ela e Júlia antes mesmo que saíssem para viajar. Dá para dizer que o final é feliz? Acho que sim. Se o livro tivesse terminado no capítulo anterior talvez não tivesse curtido tanto mas esse desfecho meio aberto foi, na minha opinião, o ideal. Júlia e Cora são muito diferentes e dá para ver que estão em um momento da vida mais propício para o auto conhecimento do que para um happy ending - mas, deixando tudo em aberto, fica a cabo do leitor imaginar o que teria acontecido.
   Nota 8 - livro bom livro. 

|LEIA A SINOPSE DO LIVRO|


O Estrangeiro - Albert Camus



Nenhum sofrimento me comove
Nenhum programa me distrai
Eu ouvi promessas e isso não me atrai
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu 'to exatamente aonde eu queria estar
(...)
A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mersault é o jovem narrador do estranho livro chamado “O Estrangeiro”, do autor Albert Camus. Porque uso o termo estranho ao tratar desse livro? Porque, embora tudo pareça tudo muito normal e corriqueiro algo também parece muito esquisito durante toda a trama.
Não é como se houvesse algum fato futurista ou fantástico. O estranho mesmo é o comportamento do narrador/protagonista Mersault. Um homem aparentemente comum, com um trabalho comum, pessoas que conversam com ele e o chamam de amigo, uma mulher que o chama de namorado. Tudo corriqueiro – a não ser pelo fato do narrador ser apático a tudo.
A canção Deja vú da cantora Pitty, cujo trecho foi colocado no inicio dá uma ideia de como reage esse personagem a tudo o que está a sua volta. O primeiro parágrafo é icônico e dá bem o tom de toda a trama:
“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.”
Percebe-se desde o primeiro momento a indiferença de Mersault com a noticia e o mesmo se repete ao longo de toda a narrativa. A morte de sua mãe, o encontro com uma namorada, seu vizinho espancando o cachorro, nada o abala. Nem mesmo a ideia de uma promoção, de ir morar em Paris a trabalho parece capaz de esboçar qualquer reação de Mersault. Nem mesmo rir esse personagem consegue, é como se estivesse algo nele fechado para o mundo, um abismo que a realidade não consegue transpor.
Como uma espécie de Bartleby emocional (ao invés de “prefiro não faze-lo”, temos o “prefiro não senti-lo”), vemos esse personagem se metendo em uma série de situações moralmente duvidosas na parte 1 até que, ao final desta, ele comete o ato mais impensável possível: mata um homem, sem motivo algum.
Peço perdão caso considerem isso um spoiler, mas está na orelha do livro. De toda forma, nem mesmo matar um homem a sangue frio e sem razão provoca uma reação de Mersault. Na verdade, só há um momento da trama em que vemos algum tipo de emoção e essa emoção é a fúria do personagem quando alguém lhe diz que vai rezar por ele.
O que é Mersault? Qual o significado dessa história e dessa vida aparentemente carente de propósito? Camus parece estar querendo fazer uma metáfora aqui e, me arrisco a dizer, a mensagem talvez seja a de que – no nosso mundo sem raízes e sem pensamento crítico que vivemos hoje – temos todos um pouco de Mersault. É muito fácil levar a vida no automático, não refletindo ou pensando sobre nada, apenas comendo, dormindo e aproveitando tudo o que podemos. Sem moralidade, sem imoralidade, apenas aquela indiferença eterna, no trabalho, na vida, nos relacionamentos. Talvez seja por isso que o livro seja tão perturbador, afinal: é muito fácil se tornar um Mersault.
Ou talvez não seja nada disso e a mensagem de Albert Camus seja outra completamente diferente. Mas deixo aqui minhas reflexões e recomendo o livro para que você também tire as suas. Não sei exatamente se gostei dO Estrangeiro, mas quero ler outras coisas do autor.
Se for preciso dar uma nota: 8. Até a próxima.

|SINOPSE NO SKOOB|




|RESENHA| O jovem Törless - Robert Musil #DesafioLivrada

   ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS.
   Vivendo em colégio em um local distante de casa, de disciplina rígida e só com meninos, Törless é um adolescente cheio de angústias. Embora tenha vários amigos, como Reitin e Beineberg, o jovem se sente diferente de todos, buscando algo que parece não existir. 
   O livro começa de forma um tanto típica, mostrando Törless, o adolescente cheio de angústia (o que é quase um pleonasmo), despedindo-se dos pais na estação de trem e voltando a pé para o internato onde vive mas que odeia. Mesmo assim, até nessas primeiras páginas é possível ver a qualidade do autor, Robert Musil, que parece abordar um mar de sentimentos interiores numa simples caminhada até o colégio. 
   Logo, porém, a trama se complica e ganha contornos ousados para a época em que o livro foi publicado. É que Reitin, o sádico amigo de Törless, descobre que o colega de classe deles, Basini, está roubando dinheiro dos outros alunos. Reitin sugere então a Beineberg e Törless que eles mesmo punam Basini e só depois o entreguem a direção da escola. Começa então uma série de abusos ao personagem de Basini que se prolonga por quase todo o livro, com a participação de Reitin e Beineberg e a complacência de Törless. 
   Li esse livro para o desafio livrada, pois ele é o típico romance de formação e essa é uma das categorias que consistem esse desafio. Iria ler "O jogo das contas de vidro" mas optei por "O jovem Törless" porque tenho esse livro fisicamente e porque, segundo li, "O jogo das contas de vidro" é um livro muito complicado. Achei melhor lê-lo fora do desafio, para poder dar mais atenção e tempo a trama. 
   "O jovem Törless" é um romance curto (talvez até possa ser categorizado como novela, de tão curto que é) mas cheio de temas fortes e passíveis de discussão. Törless é um adolescente cheio de desejos que não compreende e com uma moral ainda pouco desenvolvida e por isso comete alguns erros por omissão nesse livro. Törless não faz nada ao ver Reitin e Beineberg espancando Basini e, quando descobre que as surras se tornaram estupros, fica mais intrigado do que revoltado com a história toda. 
   Ã‰ que Törless já tinha alguns pensamentos homossexuais dentro de si, alguns dirigidos ao seu amigo Beineberg. Quando descobre essa situação com Basini, um aluno mais frágil, possivelmente homossexual e numa posição vulnerável (precisa que os outros não contem sobre seu roubo) transfere seus "sentimentos" para Basini. Em certo momento do texto ambos acabam se relacionando sexualmente, mas Törless pouco a pouco começa a desprezá-lo pela sua falha moral e complacência. 
   A temática homossexual está bastante presente nesse livro mas, dos três amigos, só Törless romantiza esse relacionamento com Basini. Reitin, que foi o primeiro a ter relações sexuais com o colega, é o verdadeiro sádico - quer a humilhação total (moral, psicológica e física) do outro e sente prazer nisso. Já Beineberg usa a desculpa de conseguir "o crescimento espiritual" para repetidamente estuprar e espancar o colega ladrão. 
   Assim como "O senhor das Moscas" nesse livro também vemos a que ponto a crueldade das pessoa pode chegar quando detém o poder mas nenhuma força que para inibir o exercício deste. Os professores e diretores da escola parecem ausentes, distantes, incapazes de ver o que acontece diante de seus olhos. E, com isso, a situação de Basini vai se complicando de tal forma que, não fosse uma interferência de Törless no final do livro, não tenho dúvidas de que o jovem acabaria morto. 
   Não dá pra dizer que gostei desse livro, mas, analisando a obra seu contexto e a época em que foi escrito, reconheço os méritos e a ousadia da história. Mesmo assim vejo esse livro divido em duas metades. 
   A primeira antes de Törless se relacionar sexualmente com Basini. Nesse ponto o livro é muito bonito porque vemos o personagem principal se apaixonando e sua confusão e angústia ao perceber que seu afeto é dirigido a alguém do mesmo sexo. Nesse momento já acontecem os abusos da parte dos outros colegas para com Basini, mas Törless somente intui que esses abusos ocorrem e se sente incapaz de impedir. 
   Já na segunda parte, depois que o relacionamento se consuma, vemos os sentimentos românticos de Törless se desintegrarem. Utilizei a expressão relacionamento para falar de Törless e Basini pois, ao contrário do que acontece com os outros, o sexo entre ambos é consensual. Ou ao menos é o que mais se aproxima desse conceito. 
   Nesse segundo momento, ao invés de ficar em êxtase por estar consumando aquilo que com frequência fantasiou, Törless se vê ainda mais angustiado. Li que o livro é baseado nas experiências do autor, Robert Musil, em um colégio militar e, embora o autor o tenha negado, estou inclinada a acreditar nisso. Para mim fica muito visível no texto momentos em que o autor se vê na necessidade de justificar o comportamento de Törless e tudo o que ele passou, chegando até mesmo a abandonar o momento presente da trama para dizer como Törless enxergaria tal relacionamento no futuro. 
   Acho que essa ânsia de Musil por analisar e justificar o que ocorre entre Basini e Törless diminuiu um pouco a obra. Mesmo que o final permanecesse o mesmo, seria mais interessante se o autor deixasse em aberto se essa homossexualidade de Törless foi coisa de um episódio ou se foi algo que levou para sua vida adulta. Musil, no entanto, talvez por ver muito de si no personagem, resolveu usar parágrafos do romance para justificar que aquela foi apenas uma experiência para que "Törless" adquirisse a moral que tem hoje. 
   Mesmo um pouco decepcionada pelas escolhas do autor da segunda parte do livro, tanto na narrativa quanto na trama, ainda recomendo para os que querem saber o que raios é um romance de formação mas não tem paciência ou tempo para ler um Dickens da vida. Se você tem interesse pela trama, saiba que, embora haja uma linguagem pela e poética, não se trata de um livro romântico. Muito pelo contrário, aliás. 
  
 Minha nota é 7,5 - o livro é bom mas tiro meio ponto pelas questões que citei. 
   
|LEIA A SINOPSE DO LIVRO NO SKOOB|

|FILME| Esquadrão Suicida (Resenha/ Review)


ATENÇÃO: Se você não assistiu "Batman vs Superman" esse filme pode ter alguns spoilers. Você foi avisado.

   Com a morte do Superman, o governo americano tem um novo desafio. Como lidar com os "novos super-homem", os meta-humanos que vem surgindo dia após dia em Gotham, Metropólis e em todos os Estados Unidos. Quem irá combater essas potenciais ameaças?
   Amanda Waller propõe então a criação de um "Esquadrão Suicida", um grupo de detentos que seria obrigado a participar de missões em que o governo não quisesse envolvimento direto e, em troca, teriam alguns anos da sua pena reduzidos. 
   São vários os nomes que compõe esse Esquadrão e cada um deles possui uma habilidade especial (ou não): O Pistoleiro não erra um tiro, o Killer Croc é uma mistura de crocodilo com ser humano, Capitão Bumerangue que é bom com bumerangues (pois é), Magia é uma bruxa milenar que está possuindo uma jovem arqueóloga, El Diablo tem habilidade de lidar com o fogo e Arlequina... bom, a Arlequina só é louca para caramba. O Esquadrão ainda conta com a misteriosa Katana e é liderado por Rick Flag, que só obedece ordens da própria Amanda Waller. 
   Eu (ainda) não confio na capacidade da Warner de fazer filmes dignos de uma empresa como a DC Comics, por isso previ que esse filme seria um grande desapontamento. Como demorei certo tempo para assistir (estava viajando e essa também a razão do sumiço aqui no blog), os comentários dos críticos mostravam que eu estava certa em minha suposição inicial. Mas ouvi de fontes (mais ou menos) confiáveis que o filme não era tão ruim e que a trilha sonora era sensacional e isso me animou bastante para assistir: afinal eu também não tinha muitas expectativas com "Guardiões da Galáxia" e ele acabou sendo um dos meus filmes favoritos da Marvel. 
   Os primeiros momentos do filme me deixaram bastante empolgada: a apresentação de cada membro do Esquadrão aliou momentos dramáticos a cenas divertidas e cheias de ação. A trilha sonora também fez jus a todos os elogios e se confirmou como um dos pontos altos do filme -  se gosta de músicas retrô, ouça o soundtrack desse filme. 
   Essa primeira parte de apresentações toma certo tempo mas antes tivesse durado mais ainda. Porque é logo após isso que começam os principais problemas do filme, a começar pelo vilão. Eu não vou dar spoilers sobre sua identidade mas confesso que esperava que o Coringa desempenhasse esse papel. Infelizmente escolheram um vilão mais poderoso e que, ao meu ver, combina menos com a pegada do filme. O fato de que esse vilão é meio que um ET também não ajudou a gostar mais da trama. 
    Vejo o Esquadrão Suicida como um grupo de heróis mais urbanos na vibe do Demolidor da Marvel ou do próprio Batman na trilogia do Nolan. Nela, o Batman não queria salvar o mundo inteiro, "apenas" Gotham. Eu queria que o Esquadrão tivesse essa pegada também, ajudando a salvar Gotham ou Metropólis mas, infelizmente, os estúdios andam um pouco obcecados com essa história de vilão poderosíssimo e destruição mundial. Posso citar várias vezes em que esse mote deu certo, mas acho que não foi o caso do Esquadrão Suicida. 
   Se a trama principal não empolgou ou atraiu o mesmo não se dá para as atuações. Gostei da maioria das interpretações desse filme, especialmente de Viola Davis como Amanda Waller e Margo Robbie como Arlequina. Ambas as atrizes parecem ter sido feitas para esses papéis: Davis empresta um pouco de sua Annelise Keating para deixar Waller tão durona quanto é preciso mas sem fazer uma cópia total de sua atuação em HTGAWM. Já Robbie é Arlequina do início ao fim e, com suas piadas e delírios tornou-se uma das minhas personagens favoritas do filme - é muito difícil não simpatizar com o mau caratismo bem humorado dessa personagem. 
   Do lado masculino destaco Will Smith, do qual não esperava nada como Pistoleiro e que acabou entregando um personagem humano e interessante, e Joel Kinnaman que, na pele do soldado Rick Flag, conseguiu fazer um mocinho que (quase) não me irritou. Não conheço muito de Kinnaman mas achei essa atuação bem diferente da que fez em House Of Cards, quando interpretou um charmoso candidato a presidência do partido Republicano. 
   Mas Karol, e o Jared Leto? Bem, esse é outro ponto negativo do filme. Não é que Jared Leto faça um mal coringa - a risada dele no filme é algo de arrepiar - o problema é que não temos a oportunidade de verificar completamente essa atuação. O Coringa aparece muitas poucas vezes ao longo da história e sempre em momentos completamente descartáveis e insignificantes. Me decepcionou a atitude da DC, de transformar um personagem tão marcante dos quadrinhos, em um "namorado da Arlequina", alguém sem importância na história. Por que não colocaram o Coringa como vilão? É algo pela qual nunca vou perdoar a DC. Isso é aquelas tatuagens babacas que deram ao Coringa e que, aliados aos dentes de metal, deixaram o personagem parecendo um gangster. 
   Analisando o filme como um todo fica aquela sensação estranha de rascunho, de filme que tinha potencial para ser mais e não foi. Essa noticia reflete bem a sensação que eu tive ao assistir o filme: de que muitas cenas foram regravadas (havia cortes meio esquisitos) e de que o tom do filme mudou na sala de edição. Alguns personagens tem um background sinistro mas pouco explorado (vide El Diablo e a cena em que insinuam um abuso contra Arlequina) e outros tem motivações meio duvidosas ao longo da trama (até agora tentando entender porque o Capitão Bumerangue voltou ou porque o Crocodilo foi). Noticias como a que eu linkei acima me deixam curiosa para qual seria a versão mais séria do filme, mas acho que isso é algo que nunca veremos. 
   Eu só recomendo "Esquadrão Suicida" se você quiser um filme bem simples, sem grandes complicações de enredo e que garante uma ida divertida ao cinema. Sabe aqueles filmes de aventura genéricos que a gente assiste na tv? Espere algo do tipo e, aconteça o que acontecer, não crie expectativas. No caso de Esquadrão Suicida você se saíra melhor criando unicórnios porque é mais fácil sair algo daí do que desse filme. 
   Apesar de tudo e porque eu realmente gostei de alguns detalhes, dou nota 7,5 - um filme razoável que ganhou meio ponto pela trilha sonora. 

|TRAILER|