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Antes do Amanhecer (1995)




   Esses dias descobri uma palavra nova. Tupananchiskama do idioma indígena Quechua. A explicação que eu vi dizia que essa palavra, mais que sinônimo de tchau ou um adeus, tinha um significado mais profundo: "até que a vida volte a nos encontrar". Se houvesse um filme que pudesse ilustrar essa expressão esse filme seria Antes do Amanhecer. 
   Começando num trem rumo a Paris, conhecemos a história da francesa Celine e do americano Jesse. Ele descerá em Viena e de lá pegará o avião para seu país Natal. Ela retorna a Paris para concluir os estudos depois de passar um tempo com a vó em Budapeste. Pouco antes de descer Jesse faz a proposta: que Celine passe o dia com ele em Viena e retorne a Paris no dia seguinte. 
   Assisti Antes do Amanhecer com altas expectativas, é um filme bem elogiado, com duas continuações e incontáveis fãs. Esperava chorar litros mas, para a minha surpresa derramei poucas lágrimas com esse filme. Acho que é porque eu meio que esperava o desfecho ou pelo filme não ser necessariamente triste. 


   Antes do amanhecer é uma história sobre duas pessoas que se apaixonam e conhecem uma a outra no período de um dia, em uma cidade estranha. Mesmo parecendo um tanto  idílica, dois jovens em Viena se apaixonando, o filme consegue passar uma naturalidade entre os personagens, o que torna a história mais verossímil e realista. Mérito dos dois atores que, além de ter uma química incrível, ainda conseguem fazer parecer que realmente estão começando a nutrir sentimentos um pelo outro. 
   Todos os diálogos do filme são muito bons e vitais, do tipo que te fazem pensar sobre várias coisas diferentes. Um dos meus favoritos ocorre quando Jesse diz a Celine que o amor é algo que nunca esperou, que gostaria mais de ser alguém que cumpriu uma tarefa ou fez algo grandioso que amar ou ser amado. Celine então conta sobre um rico senhor que aos 52 anos lhe disse, aos prantos, que seu único arrependimento na vida era nunca ter amado. "Eu tenho 52 anos e nunca me entreguei de verdade pra ninguém". 
   Após ter assistido a esse filme pensei em muitas coisas, entre elas esse diálogo, em como deve ser triste, passar pela vida sem ter se entregado, sem ter amado ninguém. Esse diálogo entre os personagens me lembrou o monólogo do pai no final de Me Chame Pelo Seu Nome, em que ele lamenta pelas pessoas cujo sofrimento faz com que tenham cada vez menos para dar. O amor não deveria ser limitado ou negado, mesmo com a possibilidade da dor no final - e os personagens de Antes do Amanhecer parecem entender isso. Mesmo com a separação se aproximando, eles decidem sequer trocar telefones e manter aquele dia intocado e especial em suas mentes - vivendo o amor que cresce e a dor que se aproxima quando o outro for embora. 


   Eu poderia muito bem questionar alguns aspectos do filme, como certo diálogo sobre as diferenças entre homens e mulheres ou o comportamento um tanto machista de Jesse em alguns momentos mas tudo isso me parece insignificante perante esse filme. Prefiro atribuir esses diálogos a construção do caráter dos personagens, mostrando que eles também tem suas falhas, ou até mesmo ao fato do filme ter sido lançado em 1995.
   Quando penso no desfecho de Antes do Amanhecer novamente me vem a palavra em quechua que descobri essa semana. Ao final, Celine e Jesse não dizem adeus mas sim tupananchiskama - que a vida nos encontre de novo. 

Nota 9 - muito bom. 

P. S.: assista quando estiver afim de um filme romântico sim porem com algo de reflexivo




Rocketman (2019) é o melhor filme que vi esse ano | Review


   Rocketman se inicia com Elton John chegando a uma reunião do A.A. (ou N.A.). Todo fantasiado, o cantor vai aos poucos deixando cada um de seus adereços cair enquanto conta a história da sua vida àquele grupo de desconhecidos. A história narrada por John naquele momento é o que vemos em Rocketman, um filme que se pretende que pretende contar a vida do cantor sob a perspectiva do próprio, abusando por isso de cores e imaginação. Algumas ultrapassam os limites da realidade, mas é tudo proposital, para mostrar a visão da vida que o cantor e compositor de talento possui. 
   A cinebiografia de Elton John alcança sucesso logo de cara em pontos importantes. De imediato nos sentimos encantados por aquele menino tímido porém talentoso que ninguém da família parecia querer abraçar ou acalentar. Embora sua vó lhe dê alguma atenção, isso não é suficiente para apagar as marcas da indiferença do pai e desprezo constante de sua mãe. Isso é algo que faltou em Bohemian Rhapsody, por exemplo, filme em que é muito difícil criar qualquer empatia pelo astro no seu início e, consequentemente, em sua decadência. 

   O gênio musical cresce e se torna cada vez mais encantado pelo pop e rock, em detrimento das músicas clássicas sob o qual foi tutorado ao aprender piano. Quando conhece Bernie Taupin, é que Reginald Dwight se torna de fato Elton John e começa sua carreira na música. Com Taupin escrevendo e John musicando, logo as músicas e os sucessos começam a surgir. 
   Embora o filme deixe claro que os relacionamento de Elton John e Bernie Taupin é o da mais pura amizade, uma das cenas mais românticas do filme envolve justamente esses dois. A ocasião em que Elton John compõe Your Song, uma de suas músicas mais famosas, é um momento tão singelo e bonito que tive que voltar para assistir de novo. Your Song já é uma canção linda por si só e essa cena só serviu para deixar a música ainda mais bela. 


   Mas nem tudo são flores na vida do astro. Afinal ele começa o filme numa reunião do A.A. Como isso foi acontecer? A decadência do cantor, - que é viciado em álcool, cocaína, compras e sexo - é uma série de cenas que me impactaram tanto que sequer tive capacidade de chorar. Não é bonito ver um talento enorme se desperdiçando dessa forma nem perceber que, em meio a tanta riqueza, o canto não tinha sequer uma pessoa que se importasse realmente com ele. 
   As lágrimas só vieram próximo ao final, em uma cena belíssima que representa a união entre o menino tímido e o cantor espalhafatoso. A cinebiografia mostra que, para chegar a sobriedade, Elton John teve que fazer as pazes com diversas pessoas de sua vida, incluindo ele mesmo. Isso é feito de uma forma muito emocionante e, claro, com muita música, como é com o restante do filme. 
   Rocketman é, talvez, o melhor filme que vi esse ano. Se você gosta de musicais e filmes feitos com o coração, não pode perder esse. 
    Nota 9,5 - o filme é, para mim, sem defeitos mas o 10 vai só quando o assistir pela segunda vez.

Mais um texto sobre Coringa (2019)?


   A Internet não precisava de mais um texto sobre o filme do Coringa. Mas esse blog precisa de atualização então vamos lá.
   Era uma vez uma jovem inocente entrando no cinema, ligeiramente preocupada com a abordagem que dariam a um personagem que é obviamente um vilão. O hype em torno do filme estava muito dividido entre aqueles que consideravam um filme tóxico e outros que viam como uma obra prima do cinema de heroi. 
   O início foi um pouco estranho, um corte brusco após o palhaço ser brutalmente espancado deixa um pouco de confusão no ar. Será que isso foi antes ou depois? O diálogo com a psicóloga, porém, esclarece que foi uma situação anterior ao momento atual. Também nos deixa claro que aquele homem já havia sido internado no hospício por algum tipo de comportamento irregular no passado. 
    Após esse começo meio desconfiado achei que Coringa se saiu muito bem como um filme de origem e, mais, ultrapassou o subgênero "filme de herói" para se tornar algo interessante até mesmo para quem não é muito fã desse tipo de narrativa. A atuação de Joaquin Phoenix é o principal dessa história - Phoenix é Coringa, não só o personagem mas o filme também. Sem ele a história não teria o mesmo impacto. 
   Dito isso, me chamou a atenção o argumento do roteiro em torno do surgimento da "loucura" completa do personagem. Tudo no roteiro da a entender que o personagem foi tornado da forma que é devido a sociedade em que ele está vivendo. Até mesmo sua doença mental vem de uma lesão cerebral causada por algo do seu passado. Como se Arthur fosse um cara bom até a sociedade aparecer e ferrar com a sua vida. 
   Me incomodei um pouco com essa abordagem. É óbvio para mim que Fleck é, desde o início, uma personalidade narcisista, que quer receber aplausos apenas porque sim (ou porque sua vida é complicada). Já pensou se todo mundo que tivesse uma vida merda virasse um serial killer? As cenas de caos no final do filme mostram bem como seria. 
   Apesar desse desconforto com o argumento que parece querer isentar o personagem de culpa, gostei bastante de Coringa. Acho que os estúdios deveriam olhar com mais carinho produções que abordam os personagens das HQs de um modo mais psicológico. Apesar de algumas ressalvas, gostaria de ver mais filmes como Coringa por aí. 
   Só não entendi ainda o conceito de simpatia que alguns parecem ter sentido pelo personagem. Fiquei foi apavorada com ele, não senti nenhum pouco de compreensão ou pena por ele. Mas vi gente dizendo até mesmo que se identificou. Vai entender. 
    Nota 9 - muito bom o filme. 


Turma da Mônica - Laços (Filme)


   Se você já foi criança na década de 90 (ou até mesmo antes disso) existe uma boa chance de um gibi da turma da Mônica ter sido a sua primeira leitura. Embora nem toda a família tivesse assinatura, era comum encontrar um gibi da Mônica ou do Cebolinha em algum canto da casa, nem que fosse com algumas páginas faltando.
   Laços aposta nesse saudosismo para criar uma história focada na amizade entre os quatro personagens principais da turma da Mônica, que também inclui Cebolinha, Cascão e Magali. A rotina normal das crianças - que consiste basicamente em Cebolinha tentando roubar o coelho de Mônica com a ajuda de Cascão e falhando miseravelmente - é subitamente interrompida com o desaparecimento de floquinho, o cachorro de Cebolinha.
'CEBOLINHAAAA'

   Os quatro resolvem então investigar o desaparecimento, e acabam descobrindo que o bichinho foi sequestrado pelo "Homem do saco". Como seus pais não parecem levar a sério essa teoria, eles mesmos resolvem partir em busca de Floquinho, o que os levará a uma aventura no meio de uma floresta.
   Turma da Mônica Laços é um filme que tem muito das características dos quadrinhos da turma da Mônica e afins mas que, ao mesmo tempo, consegue ser um pouco mais profundo que os quadrinhos que eu costumava ler. Não li Laços mas posso dizer que o filme consegue aliar muito bem aventura e humor, ao mesmo tempo em que conta uma história muito bonita sobre amizade.
   O filme poderia muito bem ter tentado atualizar a turminha, colocando meios tecnológicos. No entanto, preferiram manter tudo exatamente como está nos quadrinhos, de forma que parecemos estar acompanhando uma história que se passa antigamente. Isso não chega a ser um problema, na verdade o saudosismo que isso traz acaba sendo um ponto benéfico, considerando que vivemos em uma época em que Stranger Things faz sucesso. 



   Laços é um filme voltado para o público infantil, tenha isso em mente. Isso não quer dizer que nós, adultos que crescemos em meio a essas histórias, não possamos nos encantar por essa fofura. O casting é um dos pontos altos do filme, já que todos os personagens parecem ter saído direto dos gibis para a telona. Magali, que é minha personagem favorita nos quadrinhos, continua sendo minha favorita no filme também. Embora sua participação seja mais discreta, para mim Magali roubou a cena.
   Recomendo para os que gostam de histórias mais infantis e estejam afim de conferir a adaptação da Turma da Mônica para os cinemas. Vale a pena se você estiver afim de voltar a ser criança, nem que seja por apenas algumas horas.
   Nota 8,5 - bom filme. Dei meio ponto pelo casting excelente. 

|TRAILER|

  

Disobedience | Desobediência (2017)



   Dentro de uma comunidade judia heterodoxa, o filme conta a história de Ronit, uma jovem fotógrafa que retorna a esse ambiente onde passou a adolescência para o enterro de seu pai. Lá ela se reencontra seu amigo de infância Dovid, que a convida para ficar com ele e a esposa durante a semana (a cerimônia toda de luto aparentemente dura este tempo).
   Qual não é a surpresa de Ronit quando percebe que a mulher de Dovit é Esti, seu primeiro amor. Embora esteja bem mudada, mais focada na religião, algo entre Ronit e Esti continua existindo e o filme explora essa dinâmica entre elas, ao mesmo tempo que conta suas trajetórias individuais. 

   A sinopse do filme nunca me chamou a atenção, talvez porque se parecesse mais um daqueles filmes bem dramáticos, que você assiste só para se chatear. Precisa estar em um humor certo para ver esse tipo de filme, então sempre acabei protelando - mas uma noite de insônia cura até esse receio, então fui assistir.
   Não é que o filme não seja um drama mas ele é algo muito diferente do que eu pensei. Imaginava algum tipo de dramalhão mas é tudo tão bem construído e fundamentado que acabei me surpreendendo. As atuações do filme também são excelentes, principalmente as das protagonistas, Rachel Weisz e Rachel McAdams. 

   Das coisas que mais gostei em Desobediência foi não terem transformado Dovid, o marido, em vilão. O grande objetivo do filme é mostrar como crescer em um ambiente sem liberdade de escolha moldou esses personagens e, Dovid, embora seja um homem aparentemente devotado a sua fé, cedo ou tarde também demonstra sentir o peso dessas restrições sociais e morais que acompanham a sua religião. É um personagem mais complexo que parecia a princípio e que tem seu próprio arco dramático durante a história, assim como Esti e Ronit.
   Uma situação que ilustra bem esse ambiente restritivo em que os personagens vivem é a questão do toque. Ronit, por algum motivo não esclarecido, não pode ser tocada por ninguém da comunidade, é um espécie de pária. Embora não pelos mesmos motivos, tanto Dovid quanto Esti sentem vontade de desafiar essa restrição e lutam contra isso boa parte do filme. Essa tensão do não tocar faz com que, quando um contato aconteça, ele tenha um significado ainda mais especial. 

   Falando em contato, é melhor tirar as crianças da sala porque esse "não-romance" tem algumas cenas de sexo bem intensas. Felizmente tudo é para o desenvolvimento da história, não há nada gratuito ou despropositado, o que era outro receio que eu tinha com relação ao filme.
   Gostei demais de Desobedience, talvez porque estivesse esperando por um final bem clichê e acabei sendo recompensada com algo surpreendentemente bom. Não há fadinhas que resolvem magicamente nenhuma situação mas só por não terminar em morte e conformidade já ganha muitos pontos.
   Fica a minha indicação para quem gosta de dramas com enfoque no desenvolvimento de personagens.
   Nota 9 - muito bom

Cemitério Maldito / Pet sematary (2019)

   O sucesso do filme IT, lançado em 2017 e baseado em livro homônimo de Stephen King fez ressurgir um grande interesse pelas obras desse autor. Não que esse autor alguma vez tenha saído de moda mas, ao meu ver, IT foi um filme que conseguiu mostrar que um filme de terror (com relativo baixo investimento) pode trazer ranking de bilheteria. 
   A partir daí já vimos algumas produções (séries e filmes) lançadas a partir de obras do autor e até mesmo inspiradas no universo dos seus livros (alô, Castle Rock!). Sou sempre muito atrasada para acompanhar séries mas sempre que lançam algum filme inspirado em livro do Stephen King eu faço questão de assistir. 
   Pet Sematary (chamado daqui em diante de Cemitério Maldito) é um remake baseado em um livro de grande sucesso de Stephen King. Conta a história de uma família que se muda de Boston para o Maine porque Louis,o pai, consegue um trabalho como médico em uma universidade dali. A busca por um estilo de vida mais tranquilo faz com que eles escolham uma residência um tanto afastada da cidade, com uma grande porção de terra.
   Não demora muito para que Ellie (a filha mais velha) comece a explorar o local. Ele encontra então o 'cemitério dos bichos', local onde os moradores da cidade costumam enterrar os animais de estimação quando esses morrem. Louis também acaba sendo levado até esse lugar por seu vizinho Judd mas em circunstâncias menos favoráveis. 

   Toda vez que vou escrever sobre um filme que é baseado em um livro que li sofro de um dilema. Por um lado, acho importante citar as semelhanças e diferenças entre uma obra ou outra, até mesmo para comentar como foi a adaptação, se algo funcionou ou não e assim por diante.
   Ao mesmo tempo, porém, tento não me estender muito nas comparações entre filme e livro. Lembro até hoje de quando assisti Harry Potter e o Cálice de Fogo e minha grande reclamação foi: "No livro o vestido da Hermione era azul!". Eu ainda era uma pré-adolescente, então muita dessa fúria é compreensível. Mas até hoje isso virou um termômetro para mim: será que estou avaliando a obra como adaptação que é ou estou procurando a cor do vestido dos protagonistas? Uma coisa que aprendi nos últimos anos é que um filme não precisa ser exatamente igual ao livro para ser uma boa adaptação. Ou até mesmo para, independentemente disso, ser um bom filme.  
   Cemitério Maldito não precisava ter feito muita coisa para ter se tornado um bom filme. Só contratar um bom diretor, atores decentes e algum roteirista disposto a se debruçar sobre o livro e retirar de lá os momentos mais interessantes para uma adaptação. Infelizmente, conseguiram falhar em cada um desses aspectos. 
   A atuação é simplesmente muito ruim (o melhor ator ali é o gato) mas poderia ser até mesmo aceitável se houvesse ali uma direção com o mínimo de habilidade para filmes de terror. O diretor do filme não consegue ir além de jump scare. As cenas que poderiam servir para construir alguma tensão na história (como aquele em que Ellie "volta") não alcançam o efeito esperado e as de drama muito menos - a tristeza pelo destino da família não perdura muito. No final eu simplesmente não me importava mais com o que iria acontecer a qualquer um dos personagens. 

   Mas a principal crítica vai para o roteiro. Não é possível que alguém tenha lido o livro do King e pensado "o mais importante aqui é morto-vivo". A metáfora sobre o luto e o desespero com a perda de um ente querido é deixada em segundo plano em prol de uma série de cenas assustadoras inspiradas no livro mas que, no geral, não dão nem a metade do medo. Tudo parece mais um videoclipe que um filme e isso se aplica tanto a fotografia quanto a falta de profundidade da história. Como nenhuma cena tem o peso dramático devido, nenhum momento parece importante de verdade.
    Como se não bastasse todo o desenvolvimento terrível, ainda tentaram "inovar" no final e, mais um vez, erraram feio - a impressão é que estava assistindo uma comédia de humor negro. Não é necessário que se tenha lido livro para achar aquele desfecho ridículo, mas o fato de ter assistido só me deixou ainda mais revoltada: eles ignoraram um dos melhores finais de livro do King para colocar aquilo? 
   Novamente, não é a questão de ser diferente. Há muitas adaptações que se separam bastante dos livros mas conseguem ser boas adaptações porque captam o sentido da trama e levam isso para a tela. Outras não chegam a ser boas adaptações mas são bons filmes, independente disso. 

    Cemitério Maldito é péssimo como adaptação e como filme. Não dá. 

    Nota 6 - não gostei.

Nós / Us (2019)



   No dia de seu aniversário, uma menina passeia com os país por um parque que fica próximo ao mar. Entediada ou levemente curiosa, a menina aproveita-se de um momento em que a mãe teve de sair e vai perambulando pelo lugar, até se ver em uma casa de espelhos. Naquele lugar ela se encontra com algo que vai marcar sua vida para sempre. 
   Muitos anos se passam e Adelaide e Gabe estão levando os filhos para a casa de praia, afim de passarem o final de semana juntos com uma outra família amiga. Mal poderiam imaginar que essas simples férias poderiam levar a uma situação bizarra, situação essa curiosamente relacionada com os eventos de alguns anos. 
   Fui assistir Nós sem nenhuma informação do tema do filme e acho que você deveria fazer o mesmo. Claro, vi algumas divulgações mas, fora isso, nenhum simples comentário ou spoiler chegou até mim. Isso foi bom porque me colocou em uma posição de assistir ao filme sem ter muito certeza do que estava prestes a ver. 
  Fiquei hipnotizada pela história desde a primeira cena. A direção, a história e a trilha sonora (que alterna momentos clássicos com canções populares) são dignas de todos os elogios possíveis. Você quer saber o que está acontecendo ali e o que tudo isso significa - mas a resposta para isso pode de deixar ainda mais confuso do que você estava no começo. 

   Jordan Peele apresenta em Us (Nós, em português) uma história que pode ter interpretações sociológicas, filosóficas e psicológicas. É um filme com muitas camadas e com muitas cenas que parecem carregadas de simbolismos e pistas para o espectador, tudo isso ao mesmo tempo em que somos imersos naquela tensão que os protagonistas sentem quando cópias de si mesmos aparecem em sua casa. 
   A questão do duplo não é exatamente nova nem no cinema e nem na literatura mas, aqui, não há uma explicação fácil para isso. O que significa o aparecimento dessas pessoas de vermelho com uma tesoura na mão? O que eles são, o que querem? "Somos americanos", responde a mulher de vermelho que se parece com Adelaine. Em outros momentos, ela refere-se a si mesma como sombra ou chama as pessoas de vermelho de "acorrentados".
   Ao invés de nos dar apenas uma resposta Peele nos dá várias. A coerência interna do filme pode até apontar para uma origem específica, mas isso não significa que o filme se esgote nela. Na verdade, ele parte desse pressuposto supostamente fantasioso para lidar com questões que podem ser bem complexas, fantasiosas ou não.
   Assisti a Nós por duas vezes no cinema e, ainda agora, percebo que há muitos detalhes do filme esperando para serem percebidos nas próximas vezes em que assistir. Eu, particularmente, tenho uma predileção por aspectos psicológicos nesse tipo de história, o duplo sombrio e maldoso como um aspecto indesejado da nossa própria mente. Nós o deixamos longe da superfície por tanto tempo que, quando ele por fim escapa, se torna incontrolável e pronto para nos destruir.  

   Nesse sentido, não pude deixar de lembrar de Cisne Negro enquanto assistia 'Nós'. Principalmente na segunda vez, quando a história já estava contada para mim e pude apreciar os detalhes, senti que Adelaine tem um pouco de Nina, na medida em que vai, ao longo do filme, passando por uma espécie de transformação, tendo, inclusive, seu ápice em uma espécie de dança. Por essa visão, penso que o Nós do título diz muito mais a respeito de Adelaide que de sua família. 
   Mesmo que eu esteja certa e o título diga respeito a personagem de Lupita Nyong'o (maravilhosa!), a participação de sua família na história apenas acrescenta a trama. Em alguns desses momentos o filme flerta com a comédia, algo que já tínhamos visto em Corra! nas interações entre Chris e seu amigo. Há também algumas cenas que tem muito do gênero de ação mas, não se engane, ainda estamos em um filme de terror. E um muito bem escrito e dirigido, por sinal - as comparações com Hitchcock que Peele tem recebido são reflexo disso. 
   Gosto muito de Gabe e Zora mas Jason, o filho mais jovens, é um dos personagens mais complexos depois de Adelaide. O tipo de relação que ele desenvolve com o seu duplo e diferente dos demais e, além disso, apesar da pouca idade, Jason é muito observador e, em certa cena do filme, sua reação representa justamente aquela que o espectador tem assistindo a história. 

   Indico Nós para que gostam de histórias de suspense e terror, mas sem clichês. Vi gente reclamando de supostos "furos" do roteiro ou do terceiro ato (que explica demais), ou do pequeno twist do final. Acho que as pessoas estão tão acostumadas com filmes que explicam tudo que, quando isso não ocorre, chamam de furos. Dizer que o filme se explica demais também me parece um pouco bobo, como se a pessoa se limitasse a acreditar em tudo o que os personagens disseram ou falaram sobre o que estava acontecendo. 
   Quanto ao twist, ele é sensacional e um dos motivos pelo qual tive que ver esse filme outra vez. Ao invés de explicar a história, ele deixa tudo ainda mais complexo ao lançar na nossa cara algo que estava ali o tempo todo e que preferimos não enxergar. Qualquer teoria que você possa ter sobre esse filme apenas se complica quando vem a virada do final - a sensação é que estamos participando de um truque de mágica, como aqueles que Jason vive fazendo ao longo da história: ficamos surpresos mas ao mesmo tempo confusos, como se tivéssemos perdido algo. 
   Nota 9,5 - o meio ponto é por puro capricho. Vocês precisam assistir Nós.  


Creep (2014)



   Creep é um daqueles filmes de terror que certamente teria passado despercebido por mim, não fosse uma indicação que li na Internet. Acho Adriana, do canal redatora de merd@ que comentou no Twitter uma vez sobre esse filme e, desde então ele se alojou no meu subconsciente, pronto para aparecer ao menor sinal de tédio.
   Foi o que aconteceu. Sábado a noite, ninguém dava sugestões legais ou se empolgava por qualquer coisa que havia na Netflix. Foi quando aquela imagem do homem com máscara de lobo surgiu na minha mente e eu pensei "porque não?" - o fato do filme ter 1 hora e 17 minutos de duração também foi um importante motivador. Afinal, se nada mais der certo, o tempo perdido equivale ao mesmo que um episódio de uma série meia boca da própria Netflix.
   Narrado com aquela câmera em "primeira pessoa" (found footage), Creep conta a história de Aaron, um cinegrafista que vai até uma casa nas montanhas devido a um anúncio que viu nos classificados. Chegando lá, ele conhece Josef, que é um cara bem excêntrico, para dizer o mínimo. Josef quer gravar um vídeo para o filho que está prestes a nascer, já que foi diagnosticado com uma doença terminal. Apesar da visível estranheza do seu contratante, Aaron resolve ficar. 
   Creep foi escrito por Mark Duplas e Patrick Brice, justamente os atores que fazem Josef e Aaron. A direção fica por conta de Brice, enquanto Duplas faz a produção. Não fosse o fato de que a produtora é a Bloomhouse, eu diria que esse era um filme caseiro, tanto por essas informações quanto pela simplicidade da história que, realmente, parece ter sido gravada com aquela única câmera e aquelas duas pessoas. 
   Não que isso seja algo negativo. Gosto das formas que o filme se utiliza para criar a empatia entre quem está assistindo com o protagonista - algo que seria difícil, sendo ele também o câmera. Gosto também como eles fizeram desse found footage algo interessante e não cansativo como os últimos filmes do gênero que vi. Não espere efeitos mega especiais ou cenas sanguinolentas - o terror aqui é muito mais do fato de imaginar exatamente o que Josef quer com Aaron. 
   Conforme o dia passa as coisas vão ficando mais e mais estranhas. Aaron parece perceber que a situação é, no mínimo, inusitada, mas parece não conseguir se livrar dela. Sabe aquelas pessoas que tem receio de parecerem mal educadas ou desagradáveis? Esse é Aaron. É o típico personagem que até pode conseguir ser mais esperto que o antagonista em algum momento mas que sempre acaba sendo traído por sua natureza bondosa. 
   Não quero dar spoilers e o filme é relativamente curto, então, se você gosta de filmes de terror, dê uma olha em Creep. Não vai mudar sua vida, não vai revolucionar o cinema, mas garanto que vale alguns arrepios - a cena em que conhecemos Peachfuzzz é um dos pontos altos do filme para mim. 
   Nota 8 - bom filme do seu gênero, perfeito para um sábado em casa.   
   

Megarromântico (2019)

   

   O saudosismo tem dominado o entretenimento de massa. Nos últimos anos tem sido comum filmes, séries ou até mesmo livro que fazem referência a outros filmes, séries ou livros publicados no passado. Essas referências podem ser desde uma música mais retrô (alô, Guardiões da Galáxia) até citações de obras ou cenas. O Jogador nº 1 é um dos exemplos mais extremos desta nova era do cinema mas temos exemplos mais sutis como Para todos os garotos que já amei que é praticamente uma homenagem à romcoms adolescentes mas sem copiar exatamente nenhum deles.
   Megarromântico pega um pouco desse saudosismo já tão utilizado ao contar a história de Natalie: Quando criança, ela adorava filmes de romance, daqueles bem água com açúcar, que costumam levar a finais felizes mas, devido a comentários críticos de sua mãe, sua percepção mudou e ela cresce odiando tudo e qualquer coisa que possam envolver o amor. 
   Um belo dia, durante um assalto, Nat acaba batendo com a cabeça e acordando na sua própria versão de uma comédia romântica para menores de 13 anos. Em dúvida sobre o que fazer para sair do que considera ser um pesadelo, Natalie chega a conclusão de que precisa que alguém se apaixone por ela - dessa forma, o "filme" acabará e ela poderá retornar para a sua vida antiga. 

   Embora algum filme romântico ou outro seja eventualmente citado durante Megarromântico, a grande sacada do filme é fazer piadas com todos os clichês desses filmes que amamos tanto e, com isso, criar uma história de auto-aceitação bem convincente. O saudosismo aqui está por conta do próprio expectador já que o filme exagera alguns pontos desse tipo de filme para criar humor e expor que, sim, é tudo um pouco ridículo - mas que isso não significa que não podemos encontrar o amor da nossa própria maneira. 
    Não sou muito fã da Rebel Wilson, acho ela forçada em alguns momentos, mas nesse filme ela está bem melhor do que em Pitch Perfect, por exemplo. Falando em A escolha perfeita, Adam DeVine também está nesse filme e, pasmem, novamente faz um aparente par romântico com Wilson. Gosto bastante desse ator, ele tem uma daquelas caras que são tão simpáticas que você não pode evitar torcer por ele em qualquer filme. 

   Para quem está tendo um dia ruim e que uma história divertida, com homens bonitos e cenas com os personagens cantando em um karaokê, Megarromântico é uma ótima pedida. A Netflix tem se saído bem com esses filmes mais "água com açúcar", sendo uma das poucas a ainda produzir algo nesse gênero hoje em dia. Eu gostei demais desse filme, e ainda terminei com vontade de reassistir uma série de outras comédias românticas de que gosto igualmente. 
   Nota 8 - um bom filme. 

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