O silêncio da chuva - Luiz Alfredo Garcia Roza


   O Detetive Espinosa tem de investigar um mistério de um homem que leva um tiro na cabeça dentro de uma garagem. Como detetive lotado na delegacia de Mauá, no Rio de Janeiro, o mesmo não possui muitos recursos, além de sua imaginação para traçar cenários do que ocorreu ali.
    A primeira coisa que me chamou a atenção nesse livro, além da ambientação interessante do Rio de Janeiro, seus subúrbios e lugares, é a época em que essa história foi escrita, 1998. Daí se pode observar que celulares, no período, era uma raridade inacreditável e que muitos recursos modernos, como exames de DNA, seriam impossíveis de ser realizados, ainda mais com uma história se passando no Brasil.
    Esse ar retrô da trama seria interessante se essa não fosse uma história que poderia ser facilmente resolvida se houvesse um sistema de câmeras no local do crime. Isso me deixou muito encucada durante a primeira metade da história mas então as coisas foram evoluindo para outro lado.
    Quando 2 pessoas desaparecem e mais uma é encontrada morta a trama parece que finalmente engata. Teorias começam a ser formadas e descartadas, tanto pelo detetive quanto pelo leitor. Ao mesmo tempo em que busca o culpado, ainda acompanhamos a atração que Espinosa sente não por uma, mas por duas mulheres ligadas ao caso.
    Eu não tinha muito informação sobre esse livro mas, assim que acabei, vi na biografia do autor que "O silêncio da chuva" ganhou um prêmio Jabuti. Minha primeira reação foi perguntar "Por quê?" e essa resenha é também um exercício para tentar entender os motivos.
    Encontrar algo nessa trama que mereça prêmios é uma tarefa tão difícil quanto foi para Espinosa encontrar o responsável por todos os desaparecimentos e mortes. Uma história cheia de buracos e falhas que, apesar de rápida, tem foi um sacrifício de ler. Na primeira metade, não temos mistério algum, tudo é escancarado para o leitor e somente para ele, que infelizmente continua a assistir Espinosa patinar em suas deduções. Já a segunda parte tem a identidade do culpado tão óbvia que, para inovar, o autor apelou para uma das cenas mais absurdas que já vi na literatura. Eu ri com aquele final porque a alternativa seria jogar o Kindle na parede e eu ainda não estou rica para poder cometer esse tipo de loucura.
    Como é que alguém dá um prêmio para uma história fraca, inverossímil e cheia de problemas como essa? A única explicação que me é possível é terem encarado todos esses absurdos como algo proposital do autor. Somente partindo desse princípio eu consigo entender o prêmio Jabuti dado - consigo até mesmo imaginar uma porrada de intelectuais escrevendo longas justificativas para ele com um sorrisinho no rosto.
    Nessa não-trama policial os elementos dos romances dos gênero são todos pervertidos. O Detetive é um anti-detetive, alguém que apenas comete erros, do início ao fim da história. Espinosa está mais interessado em chops, mulheres e nos seus tão amados livros do que em realizar qualquer trabalho investigativo sério. Ele passa o livro todo seguindo de um palpite ao outro até que as soluções praticamente caem em seu colo.
    O assassino é resolvido por pura sorte e, o final é o que chamaria de anti-climático, não fosse a ironia de assim o fazer. Se temos um não-detetive investigando uma história em que praticamente todas as convenções do gênero dão errado de alguma forma, não é surpresa que sequer no final algo daria certo. O confronto com o assassino acontece entre outros personagens e, enquanto isso, Espinosa dorme. 
   A genialidade de criar uma história que foge o cliché deve ter sido escrita e reescrita tanto pelas pessoas que acharam que esse livro merece um Jabuti quanto pelos que resenharam essa obra ao longo dos anos. 
   De minha parte, como leitora leiga que começou essa história inocentemente esperando um romance policial digno só tenho a lamentar o meu tempo perdido. Infelizmente não foi dessa vez que consegui ler algo bom desse gênero, fato que ocorreu comigo bastante em 2017. 
   Como estava na expectativa de um tipo de história e fui recebida por algo completamente diferente e menos agradável, não posso indicar esse livro a ninguém. Espinosa é um personagem interessante quando se para pra pensar sobre ele mas não vale a pena ler sátira de romance policial quando há tão outros realmente bons por aí. 

   Nota 6 - não gostei e não recomendo. Acho que o livro tem que ser bom por si só e esse não é o caso de "O silêncio da chuva".


Me chame pelo Seu Nome (Review) #Oscar2018


   Elio é um jovem de 17 anos que vive com sua família em alguma parte ensolarada da Itália. Todo verão sua família acolhe algum estudante para trabalhar com o pai de Oliver em troca de moradia e Elio tem que ceder seu quarto para esse estranho ou estranha.
   É dessa forma que Elio conhece Oliver, que tem 24 anos. Desde o primeiro encontro da pra perceber que tem algo diferente nesse estudante. Em meio a tantos outros e de alguma forma ele chama a atenção de Elio, que se vê cada vez mais encantado com o homem mais velho. 
   Como o filme é baseado em um livro em primeira pessoa, não conhecemos muito do ponto de vista de Oliver nessa história, só como Elio enxerga o relacionamento dos dois. Mesmo assim, dá para ver em pequenos detalhes que Oliver não é tão invulnerável e inatingível quanto Elio parece pensar no começo. 
   A fotografia do filme é excelente e mostra bem esse local paradisíaco onde se passa a história. No começo somos informados de que a trama se passa na década de 80 mas a história parece tão atemporal (com exceção da trilha sonora) que daria para colocar praticamente qualquer ano antes do surgimento do celular e Internet ali.

   Gosto muito das atuações de Armie Hammer e Timothée Chalamet em "Me chame pelo seu nome". A química entre os dois atores está perfeita, em cada olhar, toque e sorriso dá para sentir a atração entre Oliver e Elio. Quando essa atração se converte no primeiro beijo do casal, não dá para assistir sem se impressionar com a quantidade desejo é atração que eles conseguem emanar.  Não dá pra acreditar que tiraram Armie Hammer das indicações no Oscar desse ano mas torço por Timothée desde já.
     Mais que um filme de descoberta da sexualidade, "Me chame pelo seu nome" é um história de amor entre dois homens. É tão raro assistir a um filme com um casal homoafetivo que não tenha nenhuma cena de homofobia ou morte que quando ocorre, como é o caso desse, dá até um quentinho no coração.
    Não quero dizer com isso que tudo segue os moldes dos filmes românticos tradicionais. Até porque, na década de 80, seria muito difícil que esse relacionamento terminasse com os dois homens casados e com filhos, por exemplo. Mas é tão singular e bonita a história contada em "Me chame pelo seu nome" que não dá para ficar triste assistindo esse filme. Mesmo me emocionando em alguns momentos o sentimento maior foi de que estava vendo uma história de amor linda sendo contada.

   Ainda não vi todos os indicados ao Oscar de melhor filme mas, de todos que já assisti até agora, Call Me by your Name é um dos que mais gostei. Eu não poderia terminar sem comentar a cena mais bonita do filme que, curiosamente, não envolve o casal mas sim Elio e seu pai: foi tão bonito ver a conversa entre pai e filho, as palavras do mais velho e todas as revelações que se seguiram... Só por esse momento já teria gostado demais do filme, mas temos alguns outros bons momentos, como aquela ligação do final.

   Dei nota 9 - muito bom.




Não brinque com fogo - John Verdon (Resenha)

    

  
   David Gurney está furioso. Não só por ter sido baleado a cerca de seis meses, mas também por não ter sido capaz de identificar o  assassino naquele caso até ser tarde demais.
    Imerso na auto piedade, Gurney recebe uma ligação que o leva até a jovem repórter Kim Corazon. Ela está realizando um documentário sobre as famílias das vítimas de um serial killer chamado "O bom pastor" e, também, sofrendo uma série de acontecimentos bizarros que podem (ou não) estar relacionados à esse trabalho.
    É o terceiro livro que leio desse autor e também o terceiro em que o detetive é o policial aposentado David Gurney (leia a resenha de "Eu sei o que você está pensando" e "Feche bem os olhos" AQUI). Embora tenha achado o desfecho do primeiro livro um pouco decepcionante, gosto muito do segundo "Feche bem os olhos" e estava empolgada para o que iria encontrar nessa nova história.
    A primeira coisa que me chamou a atenção foi que os crimes investigados não foram cometidos na atualidade, mas há dez anos atrás. Isso me levou a criar certa expectativa no começo, esperava que algum outro assassinato fosse ocorrer mas, lá pela metade do livro, desencanei disso e passei a curtir a história.
    Outra diferença é o status de Gurney nesse caso. Enquanto nas outras histórias ele trabalhou em conjunto com a polícia, como investigador convidado, agora Gurney trabalha sozinho, com relatórios enviados em segredo e, quase sempre, entrando em conflito com pessoas com que costumava trabalhar bem. O detetive frio e racional parece ter ido embora, nesse livro Gurney está o tempo todo com raiva de alguma coisa que não pode explicar.
    "Não brinque com fogo" tem uma trama de investigação muito consistente e gostosa de ler. O autor, John Verdon, consegue fazer com que trabalhemos com milhões de hipóteses ao mesmo tempo - os casos em que Gurney se envolve sempre são muito complexos e cheio de vários elementos que podem (ou não) serem relevantes.
    Dito isso, embora o final tenha sido algo que me ocorreu, achei um tanto fraco quando comparado a todo o resto. Primeiro porque, tecnicamente, Gurney não descobriu quem era o assassino através de dedução (acho que é a segunda vez em que isso ocorre). O final do livro é só um monte de coisas dando certo para ele, vez após vez.
    A segunda coisa que me incomodou é algo que vou me abster de comentar com detalhes por ser um Spoiler. Digo apenas que John Verdon tem uma opinião pouco lisonjeira das mulheres e isso reflete no tipo de personagem feminina que ele cria.
    Mesmo assim, é um autor que sabe escrever uma história interessante, mesmo que nem sempre a finalize de uma forma que eu gostaria.
    Dou nota 8 - um bom livro

SAIBA MAIS


A forma da água (Review) #Oscar2018


   Elisa trabalha na limpeza de uma base americana, durante o período que aparenta ser da Guerra Fria. Ela leva uma vida pacata e rotineira, tendo como única companhia seu vizinho Giles e os gatos dele.
   É quando trazem para a base uma estranha criatura que Elisa parece encontrar um propósito para sua vida. Imediatamente ela se sente ligada a esse "monstro" do mar, que parece retribuir sua afeição.
   Guilherme Del Toro entrega mais um filme encantador e bizarro em iguais proporções. É desconcertante a forma como ele consegue nos convencer da história de amor entre uma moça muda e uma criatura do mar mas é exatamente isso o que acontece. Tudo é tão bem produzido e feito de uma forma tão cativante que você acaba envolvido na história, por mais bizarra que possa parecer.
   Como é Del Toro você acaba sendo redundante ao falar sobre produção, maquiagem e efeitos visuais mas é necessário dizer que aqui ele continua impecável como sempre. O visual da "criatura" é uma das atrações do filme, tão realista que impressiona. Me lembrou um pouco Abraham, o monstro aquático intelectualizado de HellBoy, que é do mesmo diretor.
   Quanto a história em si, achei algumas partes previsíveis mas, creio, isso é meio que o charme do filme. É como se estivéssemos assistindo uma história de amor clássica, saída de um filme de anos atrás... Mas como um toque fantástico.    

   Essa abordagem da ambientação no passado misturada com aspectos fantásticos é algo já utilizado em "Labirinto do Fauno" por exemplo. Seria possível, inclusive, dizer que as duas tramas se espelham em muitos aspectos - até mesmo em uma outra imagem. Um sinal de que o cineasta está perdendo sua criatividade ou apenas sua assinatura pessoal ecoando nos dois trabalhos? Decidam vocês.
   Falando da música, esta desempenha um papel importante para que essa história seja contada. Seja pelas canções escolhidas (You'll never know...) ou pela trilha sonora de Alexandre Desplat, é a música que nos liga a essa história e esses personagens.
   Outro ponto digno de nota são as atuações. Fiquei tão impressionada com Sally Hawkins que tive que procurar na Internet para saber se ela era muda na vida real. Michael Shannon está no-jen-to como o Coronel Strickland, um vilão dos piores que já vi, mas sem ficar (muito) caricato. E, para coroar, dois coadjuvantes de peso: Richard Jenkins (que faz o papel do vizinho e narrador da história) e Octavia Spencer, que deveria ganhar outro Oscar desde "Estrelas Além do Tempo" e segue muito bem em "Forma da Água".    

   O desfecho dessa história é minha parte favorita mas não vou revelar nada. Basta dizer que me fizeram chorar com uma história que eu passei o filme inteiro achando meio esquisita.
   No geral gostei muito da experiência de assistir "A forma da Água". Dá pra fazer várias leituras dessa história, sobre o amor de Elisa e da criatura ser uma metáfora para aquilo. Mas também dá para curtir o filme sem ficar pescando simbolismos, a mensagem do autor é bem clara: amor é amor.
   Nota 8,5 - o filme é bom mas também ganha meio ponto por ser tão bem feito.


P.S.: Para quem já assistiu, você imaginaria "The Shape Of Water" concorrendo a prêmios se o filme fosse lançado a uns 10 anos atrás? As coisas mudam. Ainda bem.




A Rainha Vermelha - Philippa Gregory (Resenha)

   A rainha vermelha é a continuação de um dos melhores livros que li em 2017, A Rainha Branca da autora Philippa Gregory. Logo que terminei o incrível primeiro livro eu já pensei em começar o segundo mas resolvi esperar um pouco, com medo de que as altas expectativas atrapalhassem a minha leitura do segundo livro.
   Isso foi muito bom, já que o segundo livro foi escrito do ponto de vista de Margarete Beaufort, nada menos que a pior inimiga da protagonista do primeiro livro, Elizabeth Woodville. Não acho a protagonista de “A rainha branca” uma mulher acima de críticas mas, nessa ‘batalha’ entre as duas mulheres sou 100% team Elizabeth. Se tivesse começado esse segundo livro logo em seguida logo o teria abandonado ao descobrir de quem se trata.
   A Rainha Vermelha é basicamente um reconto dos momentos de A Rainha Branca, mas sob o ponto de vista dessa outra personagem. Eu não gostei de Margarete desde a primeira cena mas, alguns momentos do livro me fizeram ter um pouco de empatia por ela. É uma personagem muito culta, que sempre quis estudar e ser religiosa mas, por sua posição como herdeira direta do rei na época em que era mais jovem, foi obrigada a se casar e produzir um herdeiro com apenas 13 anos. A cena do parto de Margarete é bem difícil, principalmente quando descobrimos, junto com a personagem principal, que a sua própria mãe exigia que fosse salva a vida do bebê ao invés da dela, caso tivessem que escolher. Não dá para ficar indiferente lendo algo assim.
   Infelizmente, o decorrer do livro se encarrega de acabar com essa simpatia que temos pela narradora. Margareth é narcisista e obsessiva e só se importa em colocar o seu filho na posição de Rei, estando disposta a qualquer coisa para colocar Henrique Tudor como o próximo rei da Inglaterra.
   Não fosse essa total falta de ética e escrúpulos, Margareth também é uma maníaca religiosa, obcecada com Joana D’arc e que acredita piamente que Deus fala com ela e que a sua vontade e a de Deus são a mesma. É muito irritante ver uma personagem sem caráter nenhum atribuir seus planos pérfidos à vontade de Deus se cumprindo.
   Outra coisa que me desanimou um pouco foi o fato da narradora estar muito longe da ação em boa parte da história. Margareth só vai para a corte aos 27 anos o que, em termos de história, é muito depois do início do livro e também de vários acontecimentos interessantes. Vemos momentos chaves do primeiro livro vistos apenas a distância por uma personagem que não tem qualquer influência sobre esses fatos, além do fato de estar rezando quando eles aconteceram.
  Quando Margareth vai à corte, agora casada com Lorde Stanley, a trama melhora bastante. O que mais gostei do primeiro livro foi “o jogo dos tronos”, a forma como os personagens tramam por detrás dos panos sua permanência no poder. A ida da personagem ao local onde essas intrigas acontecem fez a trama começar a girar e a ficar interessante, mesmo eu acompanhando sob o ponto de vista dessa mulher detestável.
   Mas tudo o que é bom dura pouco e logo a protagonista sai do centro dos acontecimentos. Imagino que esse período vai ser narrado em primeira mão por alguma outra personagem dos próximos livros, mas é frustrante mesmo assim.  Queria saber em detalhes o que acontece quando o Rei Ricardo chega ao poder mas não é nesse livro em que vemos esses acontecimentos de perto.
   Em determinado momento, Margareth tem que hospedar a filha de Elizabeth Woodville, a também chamada Elizabeth. É um dos momentos mais irritantes do livro, porque percebemos o quando Margareth é horrível e mesquinha. Felizmente Elizabeth rouba a cena nessas trocas com a futura sogra: um dos últimos diálogos entre elas me levou do ódio profundo à uma gargalhada em poucos segundos – risada não de alegria mas de satisfação de ver essa protagonista tão antipática ser devidamente mal tratada. Infelizmente estava lendo do trabalho quando isso aconteceu, o que não foi muito legal para minha reputação por lá.
   Não sei dizer se pretendo continuar com essa série. O segundo livro, embora tenha seus momentos frenéticos e seja tão bem narrado quanto o primeiro, não tem aquele elemento especial, aquele algo mais que tornou o primeiro livro tão incrível para mim. Isso faz com que eu pense se vale a pena prosseguir com essa série, só para ver outras pessoas tão sem carisma quanto Margarete narrarem os acontecimentos.
  Mesmo assim, tenho curiosidade com o livro de Elizabeth, a filha da protagonista de “A Rainha Branca”. É uma personagem que promete ter tanto carisma quanto a mãe embora não pareça ser tão esperta quanto a primeira. O tempo dirá se me animo com essa continuação – ou não.
   Não me entenda mal, “A Rainha Vermelha” não é um livro ruim. É apenas decepcionante. Mesmo assim, para os que gostam de romances históricos, talvez seja uma boa escolha. Me diverti com a leitura até quando não estava gostando muito da história ou da protagonista, acho que isso conta muito sobre o talento da autora.

   Dei a nota 7,5 – o livro é bom mas tirei meio ponto por que demora para começar de fato. 


Respeitem Milady! (Representação feminina em Os três mosqueteiros)


"Meu Deus sou eu e quem ajudar em minha vingança!" 
 Milady, pág 661, Os Três Mosqueteiros

   Como todo livro de Dumas, Os três mosqueteiros também tem personagens interessantes. Já falei um pouco de d'Artangnan na minha resenha do livro mas senti vontade de falar de Milady, a grande vilã de Os três mosqueteiros.  Assim como é dito de Mina em Drácula, também aqui se fala em ao similar ao "mulher com cérebro de homem" utilizado no livro de Bram Stoker. Dumas falam que colocaram "uma alma viril em um corpo franzino e delicado" o que, para a época, talvez seria um elogio.
   O fato é que Milady é uma personagem a quem muitos crimes são atribuídos ao longo da história. Porém, ao longo das quase 800 páginas, Milady fez muito pouco: Conspirar com o cardeal, mas todos conspiravam uns com os outros. Sequestrou determinado personagem, mas também foi sequestrada em determinado ponto da história.
    Poderia ficar parágrafos e parágrafos aqui falando sobre os atos dessa personagem e, tirando duas mortes que lhe foram atribuídas no final e das quais não há desculpas, tudo seria muito justificável. Antes desses homicídios, me parece que o único "pecado" de Milady era agir com obstinação, coragem e inteligência. A personagem também é constantemente comparada a uma leoa ou tigresa, o que fala muito sobre como as mulheres eram vistas naquela época: preferem compará-la a um animal selvagem do que admitir que uma mulher teria tais sentimentos mais mundanos.
   Milady tapeia praticamente todos os homens com que se relaciona no livro, incluindo Athos (o que fez com que o mosqueteiro se tornasse um misógino, mas isso é outra história). E os homens, que não suportam a ideia de serem passados para trás pela astúcia de uma simples mulher, a chamam de demônio, serpente ou dos selvagens felinos que já citei.
Milady em ação no filme "Os Três Mosqueteiros"
   O que Dumas faz, nessa história, é transformar em vilã a mulher que não age de acordo com o que se espera das mulheres de sua época. Milady não é meiga, dócil, ingênua e manipulável, logo, só pode ser vilã. Para deixar ainda mais claro que não podemos sentir nenhuma piedade por essa pessoa "meio felina, meio serpente" o autor se encarrega de, ao longo da história, tirar qualquer humanidade que Milady possa ter: no início do livro comenta-se que ela teria um filho porém essa criança simplesmente para de ser mencionada, como se o fato de ser mãe não combinasse mais com uma personagem tão rebelde e pouco maternal. 
   Ao longo da história, a personagem vai ficando mais e mais cruel e descontrolada, como para justificar uma trapaça que o herói, D'Artangnan faz com ela. Mas, enquanto Milady é punida severamente, tanto D'Artangnan quanto os outros homens da história - incluindo o cardeal e Rochefort - são perdoados com muita facilidade. 
   Isso não é exatamente novo na literatura, nem hoje, nem à época em que o livro foi escrito. Milady tem algo da Lilith dos hebreus, aquela a quem todo mal é atribuído, em comparação com Eva, pura e casta. Mas quem ocuparia o lugar de Eva em Os três Mosqueteiros? Talvez a rainha, pela devoção que os personagens lhe atribuem. Mas a rainha quase não aparece na história, então só ficamos com esse exemplo "falho" de mulher, essa não mulher, na visão do autor. 
   Mesmo sendo tão caricata, Milady acabou se tornando uma das personagens mais interessantes de "Os três mosteiros". Alguns dos capitulos finais se passam sob seu ponto de vista e foi muito divertido ver essa mente "maligna" em ação, trapaceando para se livrar de uma situação aparentemente sem saída. 

   Milady é desprezível e desleal na maioria das vezes mas é impossível não admirar sua coragem e astúcia ao longo da história. Imaginem só uma mulher que, na Paris de 1600 e tantos, consegue ascender social e financeiramente, além de se tornar alguém tão vital ao reino da França, que o cardeal passa a depender dela para ganhar uma guerra? É de se admirar, ao meu ver. 
   Você pode não concordar com tudo o que esta personagem fez ao longo da história, principalmente no final dela. Mas, se os tempos fossem outros, essa poderia ter sido uma heroína ainda melhor do que os três mosqueteiros, daquelas que conseguem se livrar da maioria das situações por meio das palavras. 
    Mas, já que ficamos com essa personagem tão absurdamente má que se torna impossível de gostar, ao menos respeitemos Milady, uma personagem que se tornou cada vez mais má para que os homens de capa e espada pudessem parecer cada vez melhores.

Filme Lady Bird (Review)

  
    Christine "Lady Bird" McPherson é uma adolescente de 17 anos, em seu último ano escolar. O filme acompanha sua vida em Sacramento e fala um pouco do relacionamento complicado que Lady Bird tem com a mãe, além de todas aquelas angústias adolescentes (crushes, onde fazer a faculdade etc).
   Eu queria assistir a esse filme já faz um tempo, por causa dos comentários que ouvi a respeito. Surpreendente, embora tenho lido bastante comentários positivos sobre o filme, eu não fazia ideia sobre o que era Lady Bird. Até me surpreendi quando vi que era uma história até bem prosaica.
   No começo não gostei muito da personagem principal mas, aos poucos, consegui resgatar o meu eu adolescente e entender um pouco mais seus dramas e atitudes (embora nem sempre tenha concordado). Mas, como um filme que mostra a passagem do personagem principal da adolescência para a vida adulta, nós vemos aqui muitos erros antes de acontecerem os acertos.

   Sei que esse é um filme que pode ser considerado leve, já que não carrega no drama mesmo quando conta histórias dramáticas. Mesmo assim me emocionei com essa história, embora contra a minha vontade. Eu tive vontade de chorar em vários momentos do filme (eu sei que é uma comédia-dramática mas eu sou assim, me deixem) e, no finalzinho, não consegui não me emocionar. 
    Um dos motivos que me fez chorar foi a amizade entre a protagonista e Julie, sua melhor amiga. A amizade delas é tão natural e sincera que foi impossível não me emocionar. Julie é um estudante gordinha e tão outsider e maluca quanto Bird, as duas sempre juntas e se apoiando foi um dos melhores momentos do filme pra mim. 
     O principal motivo para eu ter perdido a dignidade durante esse filme foi devido ao relacionamento entre mãe e filha que é nele retratado. Por mais que briguem, discutem e tudo mais, o amor está em cada cena entre essas duas. Mérito das atrizes, claro, mas também do roteiro que escreve uma história que parece real. Não me surpreenderia descobrir que foi inspirado nas experiências de adolescência de algum dos roteiristas.   
      Não há muito a ser falado sobre a trama, acho mais legal que a pessoa que for assistir ao filme acompanhe tudo meio sem saber. Não que haja algum plot twist ou coisa do gênero - o filme conta a passagem de Lady Bird da adolescência para a vida adulta. E fala um pouco sobre o quanto demoramos a reconhecer o que nossos pais fizeram por nós, ou como a maioria só reconhece depois de mais velhos. 
   Personagens reais e humanos, trama que consegue ser engraçada e dramática, profunda e superficial. Mais uma história sobre relações familiares que você tem que assistir, nem que seja para sentir aquele quentinho no coração depois.
    Acho que desde "Pequena Miss Sunshine" não tinha visto um filme tão delicado e que tivesse me emocionado tanto.
      Nota 9 - muito bom, assistam!