|Resenha| 1984 - George Orwell

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"ABAIXO O GRANDE IRMÃO!" 

      Winston Smith é apenas mais um cidadão que serve o partido na Oceania.  Ele trabalha no Departamento da Verdade, responsável por adulterar jornais, livros e documentos que não apresentem a verdade dita pelo partido. Então se, por exemplo, o partido disser em alguma edição antiga de algum jornal que não irá diminuir a ração de chocolate mas em seguida diminuí-la, a função de Winston é "corrigir" esse jornal antigo, para que se adeque a verdade. 
          O ano é 1984, ou ao menos é o que Winston imagina. Nesse futuro distópico (o livro foi escrito na década de 40/50) vemos o que antes era a Inglaterra, subjugado por esse regime totalitário, onde todos respondem ao comando do Grande Irmão (ou Big Brother, no original) e são vigiados o tempo todo por ele. O 'Grande Irmão' é uma espécie de Deus para essas pessoas, o nome máximo desse partido ditatorial e aquele a quem todos amam e obedecem. Todos menos Winston que, embora seja um membro obediente do partido, parece ter alguma dificuldade em aceitar a lealdade cega que todos são obrigados a prestar.  A Oceania, nome desse país-continente, está atualmente em guerra com a Eurásia e, embora a mensagem oficial do partido seja de que eles sempre estiveram em guerra contra esse outro país/continente, Winston se lembra claramente de que, há 4 anos, eles estarem guerra com a Lestásia, o outro país/continente que governa outra parte extensa do mundo. No entanto, só por essa lembrança, Winston já comete crimidéia pois está pensando que o partido está errado, e o partido nunca erra. 
        O tom do livro e seco e sem muitas reviravoltas. Desde a primeira página somos apresentados a rotina cansativa e solitária de Winston e a esse governo absurdo do 'Grande Irmão'. Como membro médio do partido, Winston mora em um apartamento e é vigiado o tempo inteiro por uma teleteta que filme e grava todos os seus movimentos, além de transmitir as noticias, músicas e o que mais o partido mandar. O livro começa com Winston comprando um diário e escrevendo no papel, pela primeira vez, o que realmente pensa. Ele não acha que irá sobreviver por muito tempo fazendo isso, logo a polícia do Amor (responsável pela Guerra) irá prendê-lo e matá-lo mas, pela primeira vez não parece se importar muito com isso. 
         Para entender esse livro em sua totalidade, é muito importante saber o contexto e história em que foram escritos. Orwell é o pseudônimo de Eric Blair, um escritor inglês, conhecido por sua luta contra o socialismo coletivista e crítico do comunismo russo e do fascismo. Orwell escreveu 1984 no inicio da Guerra Fria, como forma de criticar a forma a que, aparentemente o mundo estava sendo levado: uma disputa eterna entre dois extremos (EUA e URSS) em que nenhuma das partes pensa nas pessoas mas apenas em conseguir mais e mais poder. É importante dizer também que Orwell, embora crítico do comunismo, mantinha estreitas relações com o partido Socialista Inglês, considerando esses regimes oligárquicos que tanto criticava, apenas perversões do que seria considerado o "verdadeiro socialismo". 
"A história parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão."
       Com tudo isso em mente, é fácil entender o pessimismo de sua obra, onde não há esperança, não por que o partido seja indestrutível, mas por que as pessoas estão por demais acomodadas em sua situação que se recusam a lutar. No livro, Winston diz várias vezes sobre como a salvação está nos "proletas", a parcela da população não-filiada ao partido, que vive "livremente" mas em extrema pobreza. No entanto, ao mesmo tempo em que faz essa afirmativa, Winston percebe que os 'proletas' (ou proletariado) pouco se importa com política ou com aquele que os controla, mais preocupados em sobreviver em sua pobreza extrema e se entupindo de cultura inútil, escapista e sem sentido proporcionada pelo próprio partido.
           É um livro muito difícil de ler, tanto pela seu estilo lento e repetitivo, tanto pela total ausência de esperança que emana de suas páginas. Mesmo quando se apaixona por Júlia e começa a ter encontros secretos com ela (é proibido para os membros do partido se relacionar), Winston tem plena consciência de que isso não durará muito tempo, que logo serão descobertos, torturados e mortos e Júlia também pensa o mesmo. Eu li por força de vontade e pelas reflexões de Winston a respeito do partido que podem ser aplicadas (de forma livre) a muitos "partidos" nos dias de hoje. 
          Quando, Emmanuel Goldstein, suposto líder de um movimento contra o Partido, escreve num livro que Winston estalendo que "grandes setores da população foram impedidos de trabalhar e mantidos semivivos por meio de caridade estatal" ou quando afirma que a pedra fundamental do socialismo inglês é "dizer mentiras deliberadas e nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado inconveniente" é impossível não traçar paralelo com governos populistas da atualidade. Não digo somente o Brasil, que engatinha nesse aspecto, mas países como Venezuela, Cuba e até mesmo regimes não populistas e sim totalitários como o da Coréia do Norte e China, parecem ter seguido a mesma cartilha do Grande Irmão. 
        Essa interpretação e atualização é muito pessoal. A quem diga que as teletas-espiãs são possíveis e utilizadas livremente no dia de hoje, com os computadores de todos sendo espionados pela NSA nos Estados Unidos e que o opressor na verdade é o Capitalismo. Essas são algumas dos paralelos que se atribui essa obra que é elogiada por pessoas de esquerda e de direita, desde o século XX até os dias de hoje. 
          Eu, particularmente, não me ative muito a essas reflexões, mais interessada em terminar o livro e saber onde raios aquela história em que muita pouca coisa acontece iria me levar. O final seguiu precisamente o que é dito desde o inicio do livro e, embora possa admirar a constância do autor, também fiquei um pouco chateada com o destino dos personagens. 
         "Se quer uma imagem do futuro, pense numa bota pisando um rosto humano - para sempre"
          Acho que 1984  não é um livro divertido mas é necessário - todos devem ler e tirar suas próprias conclusões ao menos uma vez na vida. Prefiro "A revolução dos bichos", por ser uma história a que se pode atribuir mais significados e mais acessível as pessoas, mas acho a distopia 1984 uma obra maior, não só pela quantidade de páginas: seu enredo é atemporal e serviu como base para muitas obras (livros, filmes etc) que vieram depois. Então leia e prepare-se para se divertir pouco mas pensar muito. 
           Nota 8 - um bom livro

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|FILME| Mad max: Estrada da Fúria (Resenha / Review)

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      Max é um nômade do deserto, um homem sem casa e sem rumo, que vive assombrado por um erro cometido a anos atrás. Um dia, Max é capturado por soldados de Immortan Joe, uma espécie de deus/rei do deserto que o usa como escravo de sangue para seus soldados de "meia vida". Algum tempo se passa, com Max preso até que um dia ele se vê no meio de uma perseguição a Imperatriz Furiosa, um dos braços direitos (sem trocadilhos) de Immortan Joe que acaba por roubá-lo. Max então se vê na posição de ajudar Furiosa e o grupo de garotas e, além disso, conseguir sua liberdade. Começa então uma corrida mortal pelo deserto, com Max, Furiosa e as outras mulheres fugindo do grupo de Joe e de outros inimigos mortais. 
      Se você não entendeu muito do resumo acima não me culpe. Assim que começa Mad Max somos, sem muita explicação, transportados para um mundo caótico, em que água é um artigo de luxo e as pessoas veneram motores e vivem de maneira precária e tribal. Vemos um Max amordaçado sendo usado como banco de sangue para uns guerreiros magrelos que precisam de transfusão de sangue e Furiosa saindo com um comboio para alguma missão oficial para, logo em seguida, desertar. Immortan Joe, que tem esse nome por que parece ter infinitos anos de idade e também por que é venerado como um Deus, sai em sua busca e a partir daí temos uma cena de ação e perseguição atrás da outra, recheando as 2h00 de filme com explosões, tiroteios, lutas e muita velocidade. 
     Sobre os personagens, Max é um sujeito calado de mais e sem muitas palavras. Quase não é possível saber qualquer coisa sobre ele, além do que é insinuado no início do filme. Furiosa é quem tem um desenvolvimento maior, em sua busca por um paraíso distante, onde possa levar as mulheres fugitivas de Immortal Joe e também encontrar descanso para si própria. Mas, assim como com Max e com todo o enredo de forma geral, não há como ter certeza de qualquer coisa sobre ela. Não há tempo para diálogos existenciais, eles estão correndo por suas vidas. 
     Tive a sensação de pegar um bonde andando quando comecei a assistir esse filme mas depois entendi que era isso parte do charme de toda a coisa. O expectador é pego de surpresa e levado para uma viagem distópica pós apocalíptica, através de um deserto sem fim e ao som de riffs insanos de guitarra. Aliás, o guitarrista em cima de um "trio elétrico" tocando enquanto o grupo de Immortan Joe sai para a batalha é um bom exemplo do que é Mad Max. 
Esse cara
       Demorei para escrever a review desse filme por que estava tentando chegar a um acordo comigo mesma. Será que eu gostei? Como acontece em todos os filmes que assisto a noite e que tem mais cenas de ação que explicações sobre o enredo eu acabei "pescando" um pouco em alguns momentos, principalmente na cena final. Nada como o que aconteceu em Transformers 3, não é que eu não estava gostando do filme, apenas que não é meu gênero realmente. 
    E que gênero é Mad Max? Ação, muita ação, um filme para homens, com ritmo frenético, explosões e fan service. Mas, para um filme do gênero e depois que vim a pensar seriamente no assunto, é ação de muita boa qualidade: consegue prender o expectador, tem cenas divertidas e impressionantes de ação e luta. Aliado a tudo isso produtores e o diretor conseguiram "criar" um universo interessante e com inúmeras possibilidades. Fora isso há todo um subtextos por trás de sua aparente frivolidade que me mantiveram interessada por (quase) toda a duração do filme. 
      Escrevi "criar" entre aspas porque, como todos devem saber, o filme é o quarto de uma série de filmes que ficou famosa sendo interpretado por Mel Gibson. Conforme fui lendo para escrever esse review, descobri que o passado de Max foi apresentado em flash pois já foi imensamente explorado nos outros filmes da franquia, e o diretor não quis fazer um remake, isso é, recontar a mesma história. Um risco que acabou dando certo, pois o filme agradou tanto fãs quanto pessoas que nunca tinham ouvido falar da franquia antes (tipo eu). 
       Por isso vou parar de tentar explicar o que é esse filme com metáforas fracas e dizer: ASSISTA! Talvez ação não seja seu gênero. Talvez eu tenha te deixado confuso demais e agora você não queira mais ver. Mas é que Mad Max não é um filme para ser analisado ou discutido numa review. É um filme para ser visto e apreciado (ou não). 
       Nota 8 - um bom filme


|Resenha| Álbum de casamento - Nora Roberts

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   Mac é uma bem-sucedida fotografa de casamentos que, junto com suas amigas Parker, Emma e Laurel, tem uma empresa de casamento chamada "Votos". Porém, embora trabalhe nesse tipo de evento desde que se entende por gente, Mac não acredita no amor e sim em momentos. Afinal, depois de presenciar vários divórcios de seus pais, ela sabe que "felizes para sempre" só existe nos contos de fadas.
    É por isso que, quando se encontra com Carter, um antigo colega de colégio e este lhe diz que sempre sentiu uma "quedinha" por ela, Mac fica intrigada e preocupada ao mesmo tempo. Por um lado, ela quer conhecer essa nova visão de Carter, tão igual (e ao mesmo tempo tão diferente) da de anos atrás. Preocupação por que ela sabe que Carter não é do tipo que tem flertes passageiros - com ele é tudo ou nada.
     Mesmo com suas reservas a respeito de relacionamentos, Mac começa a se envolver com Carter, ao mesmo tempo em que tem de lidar com seus compromissos na "Votos" e com sua mãe, uma mulher egoísta e infantil, que acha que sua vontade deve ser seguida sem hesitação. Enquanto tenta se livrar do controle que sua mãe exerce em suas atitudes, Mac vai conhecendo Carter melhor: mas ela estará preparada para o seu "felizes para sempre"?
      Nora Roberts foi, durante muito tempo, uma das minhas autoras favoritas (até escrevi esse post aqui recomendando os livros dela) e, ainda hoje, são a seus livros a que recorro quando me bate aquele desânimo literário. Quando comecei a ler "Álbum de casamento" eu já tinha começado um punhado de livros, sem terminar nenhum (em minha defesa eram livros de contos mas, ainda assim) estava completamente desanimada para qualquer história da minha estante, então vi esse livro e pensei: Por que não? Esse foi o ultimo livro que recebi da Editora Arqueiro antes do encerramento da nossa parceria no ano passado e até esse ano ainda não o havia lido. 
       No começo parecia com qualquer outro livro da "Diva". Quatro amigas responsáveis por uma empresa de casamento e, como se trata de uma quadrilogia, cada uma delas teria um livro onde seria contado como elas encontraram o amor. Mac dá de cara com Carter novamente, após tantos anos, quase por coincidência e, no inicio, sequer reconhece ele. Porém, quando o faz, senti algo além da alegria de rever um conhecido e, com o tempo, percebe que está atraída pelo desastrado professor. 
        Sobre Carter, ele não é o típico herói dos livros da Nora, ele é desastrado, com certeza apanharia em uma briga e fica nervoso facilmente, No entanto, tem a mesma fibra e personalidade de todos os heróis da Nora (desde Roarke até Daniel MacGregor) e, quem diria, os mesmos olhos azuis de muitos deles. Logo, mesmo que nunca tivesse lido esse livro, reconheci a personagem, assim como a heroína, Mac, de outras histórias.
       Embora logo de cara tivesse me prendido a história e a sua familiaridade, logo percebi que esse livro estava um tanto diferente. Mocinha Impulsiva? Ok. Mocinho decidido? Ok. Uma das partes tinha uma linda familia? Ok. Todos os elementos das obras de Nora Roberts estavam lá e, ainda assim... Não era a Nora Roberts que havia sido minha autora favorita por tanto tempo.
       Continuei a ler, tentando perceber o que havia mudado. A primeira coisa que percebi foram os diálogos, mais duros e artificiais, com expressões que deveriam modernizar a história mas que a deixou mais esquisita e não-fluída. Além disso, havia a insistência dos personagens principais de travar monólogos imensos sobre os seus sentimentos... algo que, em outras histórias, faria parte da narrativa, agora era um diálogo sem resposta, dignos de novelões mexicanos. 
        Tudo bem, a escrita da autora pode ter mudado com os anos, isso eu posso aceitar. O que não me desceu nesse livro, no entanto, foi como a autora tentou se fazer relevante ao longo da história. Deixe-me elaborar melhor: Carter é um professor de literatura. E, ao longo do livro, eles faz comentários sobre a "importância dos best-sellers", sobre o quanto eles retratam bem o período em que estão e não dá pra ler esse tipo de coisa sem imaginar a própria Nora tentando validar sua obra*. Fora isso, Nora ainda tenta dialogar com uma obra do Shakespeare, que cita umas 3 vezes ao longo do livro, como um exemplo de história divertida etc. e comecei a achar tudo muito pretensioso nessa história.
         Eu poderia ter aceitado a tentativa de modernizar a história, transformando-a muitas vezes em algo próximo de um chick-lit e poderia aceitar a prepotência da escritora se ao menos a história fosse interessante. Mas o livro, embora seja rápido e (algumas vezes) divertido de se ler, é bem mais ou menos. Todo o conflito da história está no fato de Mac não querer se envolver e é resolvido "ao virar de uma página". Além disso, senti falta da química entre os personagens, Mac e Carter simplesmente não me convenceram como casal - mas talvez a autora desenvolva-os melhor nos próximos livros, não sei.
          Poderia recomendar esse livro para os que estão afim de um romance água com açúcar mas há inúmeros livros que são melhores que esse. Talvez continue lendo os livros dessa série para ver se melhora mas não imediatamente. Nota 7 - um livro razoável.

* Lembrei de uma entrevista que ela deu a revista Veja há muitos anos em que ela faz a mesma defesa de seus livros, incluindo se comparando a Jane Austen - o único link que achei para ela foi do Yahoo Respostas mas dá pra ter uma ideia.