Nova Jaguaruara (Mauro Lopes) é uma Derry da Caatinga |Resenha



Uma cidadezinha no interior do Ceará, Nova Jaguaruara parece ser a típica cidade do interior, daqueles que tem como principal ponto de referência a igreja e a praça principal. No entanto, algo se esconde nas sombras deste lugar, um mal que se revela todos os dias através de um estranho fenômeno: a meia noite, há mais de 100 anos, todas as luzes se apagam por cerca de um minuto, sem qualquer explicação racional para o fato.
Partindo dessa premissa a história de Nova Jaguaruara se desenvolve em três frentes. A primeira delas conta a história de Vicente, um geógrafo que vai até Nova Jaguaruara com sua equipe para avaliar a possibilidade de instalação de equipamentos que captam energia eólica na cidade. A esperança é que essa energia faça com que as constantes quedas terminem mas, assim que Vicente, Rose, Maria, Felipe e André chegam ao local, percebem que essa não é uma missão tão simples. As pessoas estão meio ressabiadas com a presença deles ali – duas delas chegam a aconselhar que eles não cheguem perto de uma igreja abandonada que fica a alguns quilômetros da cidade.
A segunda subtrama conta a história de Bonifácio, uma espécie de homem santo que nasceu nas redondezas de Jaguaruara há alguns anos (o livro não diz quantos, mas deduz-se que sejam mais de cem). Bonifácio tem uma história insólita desde seu nascimento, quando todos relatam terem sentido uma indescritível sensação de bem estar. Conforme cresce, todos vão percebendo que Bonifácio não é uma criança comum, ele tem um dom de lidar com pessoas e animais feridos que logo se mostra como uma verdadeira capacidade de cura, que ele reluta, mas acaba usando para curar as pessoas da região.
Curiosamente, a terceira história não se passa em Nova Jaguaruara mas sim em Fortaleza, onde a infeliz professora Raquel, tem que lidar com o possível caso de maus-tratos de um de seus alunos favoritos. O que essas três histórias tem em comum é algo que só vamos conforme o livro vai transcorrendo – felizmente todas as subtramas são igualmente interessantes, então não fica chato acompanhar.
Vejo Nova Jaguaruara como uma espécie de Derry da Caatinga, uma cidade onde o mal parece se refugiar. Ao contrário de Derry, porém, aqui o mal não cai do céu e nem parece estar em toda parte. Pelo contrário, prefere se isolar em um único ponto, a igrejinha que fica a 20 km de Nova Jaguaruara. É por aquelas bandas que são vistos pela ultima vez os diversos desaparecidos que a cidade possui, pessoas que sumiram sem deixar vestígio e cujos rostos decoram o quadro de aviso da nova capela no interior da cidade. Para saber o que aconteceu e o que significa aquele apagão de luzes todas as noites, deve-se acompanhar a história, que se revela aos pouco.

 “Esses lugares são cercados, isolados, esquecidos. São apagados dos mapas! Podem procurar, nem nos mapas ou em imagens de satélite eles são encontrados. Ninguém entende como ou por que, mas é como se essas entidades tomassem posse de um local, um terreno, uma propriedade (...) Por sorte, as pessoas acreditam menos nessas coisas a cada dia e essa é a única forma de estarem verdadeiramente a salvo”.
Talvez por ser uma história independente, o ebook tem alguns erros, tanto de gramática quanto de digitação. Algumas cenas também são escritas de uma forma meio truncada ou com pontos de vista que não fazem muito sentido (é como se o narrador em terceira pessoa pudesse, de relance, ler o pensamento de um ou outro personagem). Tudo isso desanima um pouco, principalmente no começo, mas a trama é interessante e, por isso, dá para relevar esses detalhes e prosseguir com a leitura.
Li essa história praticamente em um dia, principalmente porque não via a hora de saber o que iria acontecer com os personagens, qual a história da cidade e como tudo estava relacionado. Mauro Lopes criou em Nova Jaguaruara um terror de primeira qualidade, com pontos que pareciam retirados de filmes ou livros da cultura popular mas muitos outros que eram 100% criatividade do autor. Achei a caracterização do lugar tão boa que imaginei os personagens falando com sotaque do Ceará. É sensacional ver um autor de um gênero tão pouco explorado no Brasil quanto o terror, explorando os elementos brasileiros de sua história.
        Meus personagens favoritos são Bonifácio, o homem santo que quer ajudar até mesmo aqueles que não querem ser ajudados, e Raquel, a professora que tem a vida preenchida por junky food e televisão até sentir a necessidade de ajudar um aluno. Raquel tem uma relação distante da mãe e carrega um pouco de mágoa do pai – aos poucos vamos sabendo o porquê. Mas Raquel também tem algo em comum com Nova Jaguaruara, algo que a liga não só ao aluno que quer ajudar mas também a Bonifácio. Essa é, talvez, a personagem que mais de desenvolve na trama, passando de um papel passivo na vida para a ação.

“Você não sabe o quanto é forte, Bonifácio. Não deixe o medo te enfraquecer. É só o que ele faz”
        Por mais que tenha algumas ressalvas quanto a esse livro, fiquei surpreendida com essa história e com a forma como o livro conseguiu me prender. Penso que algumas situações poderiam ser melhor trabalhadas, principalmente a influência que as pessoas da cidade recebem do que quer que haja na igreja ‘assombrada’. Isso teria sido fundamental para entendermos alguns comportamentos durante a história, além de favorecer para que o final ficasse um pouco mais verossímil. Há outros pontos que acho que poderiam ter melhor atenção do autor, principalmente aqueles que estabelecem ligações entre personagens de diferentes núcleos.
        São detalhezinhos como esse que tornam um pouco difícil dar uma nota máxima para Nova Jaguaruara. Acredito que boa parte desses pontos que citei se devem ao fato desse ser o primeiro livro do autor, razão pela qual pretendo acompanhar seus próximos lançamentos – Mauro Lopes é um autor que tem muito a crescer ainda.
        No quesito criatividade e emoção esse livro é nota 10 mas, por detalhezinhos aqui e ali dei nota 8,5 – recomendo demais esse livro, mesmo com essas ressalvas.

P.S.: Nova Jaguaruara ficou em segundo lugar na segunda edição do Prêmio Kindle, descobri depois. Sério, leiam esse livro



5 comédias românticas teen disponíveis na Netflix

Gostou de Para todos os Garotos que já Amei e quer assistir algo parecido? Pensando nisso, reuni uma lista de filmes na mesma pegada teen disponíveis na Netflix. Vem comigo!

5. Gatinhas e Gatões

Sabe o filme que Lara Jean cita em Para todos os garotos que já amei? Então, ele está disponível na Netflix! Sam é uma menina bem tímida que tem um crush em Jake Ryan, o popular da escola que parece não saber que ela existe. Isso tudo muda quando Jake pega, sem querer, um bilhete que Sam enviou para uma amiga. Ao mesmo tempo, Sam também tem que lidar com o fato de que toda sua família simplesmente se esqueceu do seu aniversário. Esse filme é um daqueles cuja história se passa em um único dia, então não espere muito desenvolvimento de personagens. Mesmo assim é uma ótima pedida, um clássico de John Hughes (diretor desse filme e de vários outros como Clube dos Cinco, também disponível na Netflix).

4. Ela é demais

Zach é um daqueles garotos populares da escola que acha que consegue tudo o que quer. Quando sua namorada o troca por uma estrela de reality show, ele faz uma aposta inusitada com os amigos: nas seis semanas que restam até o baile ele será capaz de transformar qualquer garota em rainha do evento. A escolhida é a nerd e excluída Laney, que mal sabe o que a espera. Esse filme é um clássico para quem foi adolescente na década de 90 e vale muito a pena.

3.  The Duff

Bianca é uma estudante nerd do ensino médio que tem duas amigas lindas. Ela não vê nada demais nisso... Até Wesley (seu vizinho e ex melhor amigo) dizer que ela é a DUFF de suas amigas (designated ugly fat friend). Bianca simplesmente pira com essa informação e faz com que Wesley a ajude a não ser mais uma DUFF, em troca de ajudá-lo a passar em química. The DUFF não chega a ser inesquecível mas é divertido e tem um casal que é muito fofo junto.

2. Alex Strangelove

Alex tem a namorada perfeita mas, por algum motivo, não sente vontade de levar a relação para o próximo passo (sexo). Quando conhece Elliot, ele descobre o porquê. Okay, isso não é exatamente uma comédia romântica, é mais um daqueles filmes de descoberta. Mas não poderia deixar de colocar um filme LGBT nessa lista e, na falta de Love, Simon, será esse. Alex está passando por essa fase complicada de auto descoberta então nem sempre ele é muito legal com Elliot ou com as pessoas a sua volta - mas a gente torce por ele mesmo assim, o que é sempre um ponto importante nesse tipo de filme. Além disso ele e Elliot tem química e formam um casal bem legal. Então assistam o/

1. 10 coisas que eu odeio em você

Bianca só pode sair num encontro quando sua irmã, Kat, o fizer. O problema é que Kat odeia garotos e não quer saber de namorar. Joey está interessado em Bianca então o que ele faz? Exatamente, paga um bad boy da escola para sair com Kat e, com isso, ser autorizado a sair com Bianca. Além de ser uma releitura de "A megera domada", esse filme é também mostra Heath Ledger em seu melhor  papel (Dark night who?). Sério, você não sabe o que é romance até ver Patrick (Leadger) cantando Can't take my eyes off you para Kat no meio de toda a escola. Como deu para ver, é meu filme favorito do gênero e (sim!) está na Netflix. Então não percam essa oportunidade.

BÔNUS (não tem na Netflix, mas...) A MENTIRA

Eu não entendo até hoje como esse filme não virou um clássico da sua geração, tipo um "Meninas Malvadas" (que, aliás, também é ótimo e também saiu Netflix). Emma Stone é Olive, uma adolescente que resolve mentir sobre ter um namorado fora da escola mas que vê sua mentira saindo do controle. Além de cenas bem divertidas, o filme também dialoga com "A letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne, ao analisar a forma como (em nossa sociedade) reputação é tudo.

Sempre vivemos no Castelo - Shirley Jackson


  Merrycat Blackwood sempre viveu no castelo, ou melhor, na casa da família que é tão grande e imponente que parece com um castelo. Antes, ela costumava sair para ir para escola e convivia com seus vizinhos. Porém, depois de um acontecimento trágico alguns anos atrás, tudo mudou.
    Esse é o segundo livro da Shirley Jackson que leio esse ano. O primeiro foi Assombração da casa da Colina , que permanece até agora como um dos melhores (e assustadores) livros que li esse ano. Mesmo tendo gostado desse meu primeiro contato com a autora eu  tentei manter uma expectativa o mais neutra possível, afim de não ter nenhuma decepção (o que não deu muito certo já que logo no primeiro capítulo eu já estava no hype pela história).    Sempre vivemos no castelo tem uma abordagem tão psicológica quanto Assombração da casa da Colina, com a diferença de que, nessa história, não há nenhum fantasma. Acompanhamos Merricat morando com sua irmã Constance e com seu tio Julian naquela casa enorme e ficamos nos perguntando o tempo todo o que há de errado com aauela família e o que aconteceu exatamente anos atrás. Sabemos, porém, que seja o que seja esse evento trágico, nada tem haver com seres de outro mundo: algum ser humano cometeu um ato terrível. E ele continua vivendo naquele castelo com o restante da família.
    Por algum motivo lembrei um pouco de Coraline enquanto lia esse livro. Merrycat parece ser bem mais nova do que seus dezoito anos e ela também passa o livro todo na companhia de um gato, criando histórias de maldições e objetos mágicos. Foi difícil não me lembrar do meu livro favorito do Neil Gaiman e fiquei pensando se o autor não se inspirou um pouco nessa obra para compor a sua história. 
   O clima idílico da família sofre uma mudança quando o primo Charles aparece. Filho do irmão do pai das meninas, Charles logo se instala e começa a agir como dono da propriedade o que Constance aceita com toda tranquilidade. Merricat, por outro lado, vê Charles como uma ameaça ao estilo dela e da família e vai tentar expulsá-lo de todas as formas que puder.
    O desfecho tem alguns contornos de irreal mas, quando você pensa que agorafobia é uma doença real, não soa tão absurdo assim. Lá pelo final do livro também ocorre uma revelação que poderia ser surpreendente se não fosse algo que eu tivesse adivinhado (literalmente) no primeiro parágrafo do livro. Mesmo com esses detalhes, gostei tanto do desfecho quanto da revelação.
    De modo geral, ainda prefiro Assombração na casa da Colina mas Sempre vivemos no Castelo é, também, um livro que vale muito a pena. Com poucas páginas muito bem escritas, Shirley Jackson constrói uma trama interessante, com personagens profundos e com personalidade cheia de nuances psicológicas. Foi uma leitura muito interessante que recomendo para todos que gostem de livros mais psicológicos, cuja ação ocorre mais no mundo interno do personagem narrador.

 Nota 8 - um bom livro

 P.S.: Não vejo a hora de lançarem mais livros dessa autora por aqui.

Para todos os garotos que já amei (Review)


   Comédia romântica é um gênero que eu gosto bastante de assistir, principalmente quando a história se passa em uma escola (vide 10 coisas que eu odeio em você, meu favorito do gênero). Infelizmente, nos últimos anos foram poucos os bons filmes com esse tipo de história. O último bom que me lembro de ter visto foi Love, Simon e era bem mais drama que comédia.
Seja por ter percebido o sucesso desse (sub?) gênero ou pela política kamikaze de comprar tudo o que lhe é oferecido, o fato é que a Netflix acertou demais com Para todos os garotos que já  amei. A história da menina que um dia descobre que todas as cartinha melosas que escreveu para seus crushes foram enviadas é muito fofa e apaixonante.
   Os filmes não tenta fugir dos  clichês inerentes ao seu gênero. Pelo contrário, abraça cada um deles e mostra como uma homenagem. As referências de filmes da década de 80 não são a toa; um oficio do clima do filmes de John Hughes nessa história, embora seja um JH atualizado, cheio de questões atuais como sexualidade e exposição de Internet.
   As cartas enviadas são o início de uma série de novos acontecimentos para Lara Jean. Uma das cartas é para o ex namorado de sua irmã e, até então, melhor amigo. Para fugir da conversa que precisaria ter com Josh, Lara Jean começa um namoro falso com outro ex-crush, Peter Kavinski; o jovem astro do LaCrosse topa esse namoro falso como uma forma de fazer ciúme na ex namorada. O que começa como uma encenação logo vai se transformando em sentimentos reais, conforme Peter e Lara Jean vão se conhecendo.
   Um destaque importante no filme foi a escolha dos atores que formariam o casal principal. Além de carismáticos, os atores que interpretam Lara Jean e Peter tem bastante química e conseguem convencer como adolescentes que estão descobrindo o amor um pelo outro. A gente torce para que os dois fiquem juntos praticamente desde a primeira cena deles como um "casal" - num filme romcom isso esse é um ponto fundamental.
   A ascendência oriental da protagonista é citada de maneira bem sutil ao longo da trama o que pode ser um ponto de críticas para alguns. Eu gostei desses detalhes porque mostram um lado diverso de uma protagonista - Gostei mais ainda de Peter tentando fazer parte de algumas coisas (a cena em que ela descobre que ele Bebe já coreano ou quando ele diz ter ido em uma loja específica do outro lado da cidade só para comprar yakult são alguns exemplos do que estou querendo dizer). Como eu disse antes, não é nada muito detalhado mas foi o suficiente (ao meu ver) para tratar da herança da protagonista sem se desviar muito da trama.
   Se fosse citar algo negativo sobre o filme seria a demora entre o "momento reflexivo" e o desfecho. Lara Jean tem umas três conversas sérias com três pessoas diferentes antes de se convencer a ir atrás de Peter. Como se fosse tão difícil dar uma chance a um relacionamento com o garoto que é, basicamente, um sonho adolescente (imagine que nesse momento da resenha você começa a ouvir teenage dream).
    Outro ponto contestável é o papel da melhor amiga de Lara Jean na história. Chris some na maioria dos momentos de importância da protagonista - qual o sentido dela na trama? Claro, como o filme terá sequência pode ser que haja maior aproveitamento dessa personagem no futuro. Nesse filme, porém, ela foi bem inútil, como melhor amiga e como personagem. 
   Se romcom adolescente cheio de clichês é a sua praia, assista Para todos os garotos que já amei. Não só um prato cheio para quem curte esse tipo de filme mas também a pedida ideal para assistir após um dia frustrante. 

Nota 9 - muito bom 

Mamma Mia - E lá vamos nós de novo (Review)


   A continuação do filme-musical Mamma Mia! tinha tudo para dar errado: afinal, como pegar as músicas do ABBA que não foram para o primeiro filme e encaixá-las numa história que, não somente se encaixasse como continuação do primeiro filme mas também que justifique a si mesma? É um trabalho complicado, ainda mais quando consideramos a fanbase apaixonada que o primeiro filme possui. Mamma Mia! pode não ser um sucesso de crítica mas foi o sucesso de público que fez com que essa sequencia saísse do papel, mesmo contando com nomes de peso como Meryl Streep e Colin Firth (só para citar os ganhadores do Oscar). 
   Racionalmente eu me dizia "não tem como essa continuação dar certo". Mas aí vi que o filme lançou no cinema e "my my how can I resist you?". Lá fui eu assistir logo no primeiro final de semana pós estréia. 
   Um dos principais trunfos dessa sequência foi saber dosar o que deveria ser mudado com relação ao primeiro filme e o que ser mantido. Dez anos após o primeiro filme seria impossível que os personagens permanecessem na mesma. Ao mesmo tempo, o público tem uma expectativa bem específica com relação a esse filme: músicas do ABBA, dancinhas cafonas, personagens cativantes.
   Mamma Mia! - Lá vamos nós de novo se saí muito bem nessa corda bamba. Ao mostrar uma Sophie mais madura e, ao mesmo tempo, uma Donna mais jovem, o filme consegue passar essa sensação de passagem do tempo sem se esquecer de acrescentar alguns ecos do primeiro filme (esse também começa com Sophie escrevendo uma carta) e as cenas musicais que tanto amamos. Embora o contraste entre esse presente mais pesado e um passado mais leve pareça ser grande demais no inicio, o desenvolvimento vai fazendo com que a história dessas duas personagens se aproximem, mesmo com tantos anos de distancia uma da outra. Além disso, é muito legal rever Amanda Seyfried e acompanhar Lily James (muito convincente) como a jovem Donna, embora eu ache que deveria haver um pouco mais de músicas com o solo da primeira. 

   Eu pensei bastante se iria escrever sobre esse filme, não porque eu não tenha gostado mas porque não achei que fosse conseguir. O primeiro Mamma Mia! é um dos meus filmes musicais favoritos, o que já dá um peso enorme, mas, mais ainda, como escrever sobre um filme em que chorei até com "When I kiss the Teacher", a primeira música? Na verdade eu chorei em todas as músicas desse filme. E até em alguns momentos entre as músicas também. 
   Racionalmente eu não conseguia explicar o porquê de ter me sentido assim, quanto mais escrever sobre. Mas então eu li a review do Valkirias e tudo fez sentido: eu estava chorando pela passagem do tempo, pelos 10 anos que se passaram entre um filme e outro e que mudaram não só Sophie, mas a mim também (e todo o público que assistiu ao primeiro filme). É como a própria Sophie canta em 'One Of Us', "now it's different I want you to know...". Agora é diferente, há certa tristeza em Mamma Mia! que não existia antes. 
   Ao mesmo tempo, o filme mostra a possibilidade de reencontrar a felicidade, mesmo em meio a situações difíceis. Um dos momentos mais emblemáticos nesse sentido é a cena de 'Dancing Queen', que ocorre logo após Sophie ter uma espécie de epifania e ter decidido parar de ficar se lamentando. Nesse momento temos de volta um pouco da sensação do primeiro filme, aquele sentimento de confiança, que vai ficar tudo bem. 

   Claro, Here We Go Again nunca poderá ser melhor que Mamma Mia!. Mas, só pelo fato da sequencia ter se feito relevante para o universo do primeiro filme e por essa história ter conversado tanto comigo, já se torna digno de vários elogios.
   No meio de tudo isso, ainda temos aquelas performances musicais divertidas e emocionantes, aquelas coreografias meio exageradas e - algo que não tinha no primeiro - ainda temos Cher. Sério, como não amar? Inclusive quase aplaudi a cena em que Cher cantou porque sou dessas (e porque a música em questão ficou muito boa na voz dela). 
    Fico feliz de ter conseguido escrever um pouco sobre esse filme para vocês. Mamma Mia - E lá vamos nós de novo foi um dos melhores filmes que vi esse ano - se você gostou do primeiro, assista essa sequencia sem medo.

   Nota 9 - muito bom 

O que terá acontecido a Baby Jane? (1962) - Review


   Quando era criança, Jane Hudson era conhecida como Baby Jane e fazia apresentações por todo o país acompanhada de seu pai. Sua irmã mais velha Blanche apenas observava o sucesso estrondoso de Baby Jane e também seus ataques de estrelismo, quando fazia com que o pai realizasse todas as suas vontades. Anos depois o quadro se inverteria, Blanche seria uma atriz famosa enquanto Jane conseguiria se empregar apenas devido a bondade da irmã. 
    'O que terá acontecido a Baby Jane?' é um filme lançado em 1962 com Betty Davis e Joan Crawford nos papeis de Jane e Blanche. A relação tumultuosa das atrizes nos bastidores desse filme rendeu até uma série (Feud, de Ryan Murphy, que pretendo assistir assim que possível), indicando que a rivalidade entre as personagens irmãs no filme se resvalou de alguma forma no relacionamento das atrizes uma com a outra. Há até mesmo uma história sobre as agressões que Jane faz a irmã no filme terem sido feitas de verdade - ou seja, Betty Davis deu mesmo aquele tapa em Joan Crawford.


   Já na meia idade, Jane cuida de uma Blanche paralítica em uma casa da qual a irmã mais velha nunca sai. Nota-se que Jane é uma pessoa ressentida e que faz certo abuso do álcool. Enquanto Blanche reluta em internar a irmã e vender a casa, Jane vai ficando cada vez mais cruel e insana, fazendo com que a vida da própria Blanche passe a correr perigo. Porém, embora o comportamento de Jane só piore, Blanche sempre tenta dialogar com ela de forma muito gentil, o que só acentua a raiva de Jane.
   Não sou muito fã desse tipo de filme em que uma personagem pode cometer maldades o tempo inteiro sem nunca ser pega ou descoberta a não ser no final. Todos os personagens de ''O que terá acontecido a Baby Jane?' são incapazes de impedir que Jane se torne ainda mais abusiva, até mesmo Blanche. É difícil não sentir pena da irmã cadeirante e não torcer para que Jane se dê mal em algum momento dessa história. 
    No maior estilo thriller, porém, há uma reviravolta no final que faz com que muda um pouco o status de Blanche como vitima da história. Não que a revelação da personagem altere tudo o que Jane fez mas, ao menos, mostra que as duas irmãs são igualmente problemáticas e destrutivas. 
    Queria assistir esse filme faz um tempo, não tanto pela história mas para conferir a interpretação elogiadíssima de Betty Davis, que impressiona desde a voz até a linguagem corporal. A atuação de Joan Crawford é mais discreta, o que talvez tenha feito com que as premiações não tivesse prestado muita atenção nela à época. Mesmo assim, é emocionante ver ambas as atrizes nesse filme. 

   Sobre os coadjuvantes, o que talvez tenha tido maior destaque é Edwing Flagg, um homem obeso e desempregado que responde o anuncio de Jane para ser pianista. Eu ainda não entendi muito bem qual é a função de Edwing na trama mas o fato é que esse personagem é o único que tem um arco na trama, onde é mostrado o seu relacionamento conturbado que o pianista tem com a mãe, com quem vive e de quem depende financeiramente. A última conversa entre Edwing e sua mãe, que culmina em uma revelação sobre o passado da mulher, deve ter sido chocante em 1962 mas em 2018 essa cena sequer teria ido para a versão final, assim como o todo a subtrama desse personagem. 
   Mesmo sendo um filme em alguns aspectos datado, 'O que terá acontecido a Baby Jane?' merece ser assistido. A história te prende durante toda a duração e, mesmo com raiva do que estava acontecendo, fiquei bastante interessada na história e nos personagens. Tudo bem que a revelação de Blanche não me surpreendeu tanto no final mas, mesmo assim, aquela cena da praia me impressionou bastante. 
   Para você que gosta de assistir filmes antigos, fica a diga do interessante 'O que terá acontecido a Baby Jane?'. Nota 8 - um bom filme

Enquanto eu te esquecia - Jennie Shortridge


   Uma página em branco. É assim que estão as memórias de Lucy Walker quando ela é encontrada nas águas da baía de São Francisco. Ela não se lembrava seu nome ou de onde tinha vindo, nem mesmo porque estava no meio das águas do São Francisco com todas as roupas. Levada para um hospital psiquiátrico e tendo seu rosto divulgado em todos os jornais da cidade, logo aparece seu noivo, Grady, que a leva para a casa dos dois em Seattle e tenta faze-lá se adaptar a vida que os dois tinham antes. 
   Mais uma leitura do Clube do Livro do qual participo, "Enquanto eu te esquecia" é um livro sobre o qual eu não sabia nada antes de começar a ler. Nem na capa eu tinha prestado muita atenção, razão pela qual eu passei os primeiros capítulos pensando que se tratava de um thriller e que Grady logo iria se revelar um completo boçal. Mas não, trata-se de um romance romântico com algumas pitadas de drama, principalmente quando se trata da revelação do segredo de Lucy. 
   Quando Grady leva Lucy para casa ela não consegue se reconhecer nas antigas roupas, na decoração do lugar e em seu estilo de vida prévio. A única coisa que parece despertar alguma memória é um piano antigo na qual Lucy toca algumas melodias cujo nome não conhece. Ela também não se lembra de nada sobre o noivo, embora o considere atraente. 
    O livro é contado sob o ponto de vista de Lucy, de Grady e da tia de Lucy, Helen, com a qual a personagem não falava havia anos. Enquanto Lucy parece estar gostando pouco do seu antigo eu conforme o vai conhecendo, Grady só pensa em ter a antiga Lucy de volta para lhe dizer o que fazer, já que a relação dos dois era inteiramente centrada nas vontades de Lucy e não no que Grady realmente queria. Por mais que ele goste da nova versão que sua noiva apresenta, parte dele ainda se sente culpado pelo o que aconteceu com ela, principalmente devido ao fato de que ela desaparece após uma briga dos dois. 
    "Enquanto eu te esquecia" tem um desenvolvimento lento e, por isso, os primeiros capítulos são bem pouco interessantes. Porém, quando Lucy se encontra com sua tia as coisas começam a acontecer de forma bem mais veloz e o livro se torna interessante. Ao mesmo tempo que a personagem luta para recuperar suas memórias, também vemos o desenvolvimento de seu relacionamento com o noivo, com os dois ainda atraídos um pelo outro mas agindo um com o outro como se fossem estranhos (para Lucy eles são mesmo).
   Infelizmente toda essa qualidade do meio do livro não se traduz no final. A revelação do segredo que Lucy carrega e as razões para sua amnésia são fortes o suficiente mas, quando tudo parece se encaminhar para o desfecho, o livro termina de forma aberta. Não consigo entender os motivos para a autora terminar o romance da forma como o fez, sem deixar claro se a personagem eventualmente recupera a memória ou não. Esse foi um grande ponto de decepção para mim que já estava gostando do livro apesar do inicio meio estranho. 
   Se você gosta de histórias com romance e drama 'Enquanto eu te esquecia' pode ser uma boa alternativa mas, fique ciente, que a autora não dá aos personagens um final muito explicito. Fora esse ponto negativo, é um livro até rápido de ler e interessante em sua maioria - se a autora tivesse feito um epílogo minha avaliação geral poderia ser melhor. 
   Mas, com esse final, só me resta dar nota 6,5 - o livro ok com esse ponto negativo.