|DIRETO AO PONTO #009| Cornélia Funke, Gustavo Ávila e Emily Murdoch

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Direto ao ponto é uma coluna do blog em que falo rapidamente sobre 3 livros ou filmes que assisti/li recentemente. Para ler outras postagens iguais a essa, CLIQUE AQUI

Nome do livro: Coração de Tinta

Autor: Cornelia Funke 
Ano: 2014   /   Formato: e-book
Editora: Companhia das Letras
Opinião: E se você pudesse trazer elementos de um livro que está lendo à vida? Esse é o dom de Mo, pai de Maggie, que consegue retirar desde moedas até personagens de carne e osso dos livros que lê. Mo esconde esse segredo de Maggie o quanto pode, pois o desaparecimento da mãe da menina está relacionado a esse dom dele.  
Um dia um estranho bate a porta e os três, Maggie, Mo e Dedo Empoeirado (o estranho) vão embarcar numa aventura perigosa, inesperada e cheia de mágica. 
Esse é um livro para ser lido sem pressa,  deixando que as páginas e os acontecimentos passem tranquilamente; só assim você conseguirá transpor as diversas páginas dessa história infanto-juvenil sem a sensação de o enredo está se arrastando.  
Na verdade somos nós que, mais velhos, não temos mais paciência para histórias contadas lentamente. É por isso que me senti com 12 anos lendo esse livro - sei que meu eu dessa idade teria amado essa história é encontrado conforto em personagens que amam tanto os livros e que só por isso, já parecem amigos íntimos. 
Cena:  eu gosto muito de todas as referências a livros que Coração de Tinta faz - desde "Senhor dos Anéis" até uma inscrição de uma abadia italiana que amaldiçoa quem pega livros e não devolve haha

Nota:  8 - um bom livro, embora não me veja lendo a continuação por enquanto.


Nome do livro: O sorriso da hiena
Autor: Gustavo Ávila
Ano: 2015   /   Formato: e-book
Editora: publicação própria
Opinião: Iniciei esse livro por indicação, como quem não quer nada, e gostei muito do que eu encontrei. Mais que um romance policial, temos aqui a história que analisa a natureza do ser humano, do que nos torna bons ou maus: ao impor a crianças de 8 anos o mesmo que lhe ocorreu quando tinha essa idade, a morte dos pais, o assassino quer tentar provar que não é responsável pela sua maldade, que o mundo lhe fez assim. E nós, leitores, é quem acompanhamos passo a passo desse plano doentio. 
Achei que a história levanta várias discussões interessantes e que o autor, Gustavo Ávila, sabe costurar a trama muito bem e tem uma escrita muito rica e cheia de momentos muito ricos visualmente e muito significativos. 
Infelizmente, achei que alguns personagens não foram tão bem aproveitados quanto deveriam. O detetive Arthur, por exemplo: no início ele parecia um Sherlock Holmes moderno mas, com o passar da história, ele se mostra bem ineficiente na sua busca pelo assassino. A amiga de Arthur, Bete, é outra personagem interessante que poderia ter tido mais destaque na trama.

Cena:  A cena em que se dá o tal "sorriso da hiena" dá arrepios, de tal visualmente impactante que é.
Nota:  7,5 - o livro é bom e traz discussões interessantes mas, como romance policial, senti que faltou algo - por isso tirei meio ponto.


Nome do livro: No coração da Floresta
Autor: Emily Murdoch 
Ano: 2015   /   Formato: e-book
Editora: Agir Now
Opinião: Carey é uma jovem de 15 14 anos que passou boa parte da vida escondida numa floresta junto da irmã e da mãe. Chocante, certo? A história desse livro, que comecei sem grandes pretensões, me chamou a atenção logo de cara. A situação em que a menina e a irmãzinha vivia era deplorável e, no entanto, nenhuma das duas queria sair de lá, mas são obrigadas a isso.
O livro é curtinho, tem menos de 300 páginas, e dá para ser lido bem rápido. Gostei da narrativa da autora, Emily Murdoch que me fez por um momento esquecer que eu estava lendo um YA. Infelizmente, quando Carey entra na escola, o drama todo da adaptação é um pouco ofuscado pela atração que Carey sente pelo primeiro garoto que vê. Literalmente
Cena:  A cena que eu vou citar é a cena que menos gostei do livro todo, o momento em que percebi que a novata autora tinha que melhorar muito ainda: toda a sequencia da festa é completamente irreal, além de ser difícil de compreender. Eu não sou capaz de dizer nem se os personagens principais nessa cena estavam de pé ou sentados, de tão ruim que é. 
Nota:  7,5 - o livro é bom e tem uma história que tinha tudo para ser muito boa, mas que acabou se perdendo entre a inexperiência da autora e a necessidade que as pessoas tem em colocar "casalzinho" em qualquer livro adolescente, só para aumentar as vendas. 

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|Resenha| A insustentável leveza do Ser - Milan Kundera

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   Um antigo filosofo dizia que a vida era dividida entre opostos: amor e ódio, positivo e negativo, claro e escuro, leveza e peso etc. As primeiras, amor, claro e leveza, segundo ele, seriam coisas positivas, enquanto que ódio, escuridão e peso seriam coisas negativas. Mas a leveza é realmente algo positivo? Ao longo da vida, tomamos determinada atitude apenas uma vez e é somente por essa única vez que nossas atitudes, sem o "peso" que um eterno retorno traria, se tornam efêmeras e vazias de significado. 
   É dessa reflexão que começa o romance "A insustentável leveza do ser". Nele, o autor checo Milan Kundera nos apresenta os personagens Tomas, Tereza, Sabina e Franz, utilizando da história dessas personagens e de seus relacionamentos como metáfora para reflexões sobre o comunismo, a traição, a vida, o amor, a religião... 
   Os temas que Kundera aborda nesses livros são muitos mas creio que o principal seja esse embate entre peso e leveza, e a forma como os quatro personagens encaram essas potências. Tomas e Sabina são do tipo que favorecem a leveza na vida e nos relacionamentos. Tomas chega a deixar de ver um filho por anos, ao entender que sua ex-esposa estava fazendo um jogo impedindo-o de ver. Já Sabina passa a vagar pelo mundo, sempre pulando de uma traição a outra.
   Do outro lado no espectro das relações amorosas estão os constantes Franz e Tereza. Franz sente-se apaixonado e obcecado por Sabina, já que esta lhe deu sua liberdade, algo que ele, como um acadêmico casado a mais de 20 anos, jamais esperava recuperar (se é que algum dia teve). Já Tereza viu em Tomas seu salvador, aquele por quem havia abandonado sua vida medíocre a muitos anos atrás. Tereza sofre com as infidelidades de Tomas porque acha que não é suficiente para ele; mas Tomas quer que Tereza entenda que a força de seu amor está em sempre querer retornar a ela, não importa o que faça. 
   É um livro relativamente pequeno (a versão pocket tem 302 páginas) mas que está cheio de temas e de reflexões. Embora a narrativa principal seja a desses quatro personagens, os momentos que mais gostei do livro são aqueles em que o autor faz pequenas divagações sobre a República Tcheca e sobre o comunismo que, durante toda a Guerra Fria, dominou aquele país. Eu, que sei muito pouco sobre esse país (apenas sabia o nome de sua capital, Praga) fiquei impressionada com a história de opressão do povo tcheco e mais ainda, com a apatia que neles cresceu quando confrontados com toda essa opressão. Claro, essa é a visão do autor, não sei se de fato foi assim, mas gostei mesmo desses momentos, além das pequenas informações sobre como é viver num regime comunista. 
   Porem, se tiveram momentos do livro que e u amei, também houve aqueles que eu odiei. Dois momentos, na verdade, um por "culpa" do autor e outro por "culpa" da Editora. A "culpa" do autor se dá quando, a certa altura do livro, ele narra uma situação inverosímel vivida por Tereza, quando esta sobre uma montanha a pedido de Tomas. Como a personagem costuma ter diversos sonhos ao longo da história, achei que fosse mais um desses sonho, mas me incomodou muito que o autor tivesse deixado esse momento no ar, deixando o leitor a deriva sobre se aquilo aconteceu ou não (só mais ao final é que cheguei a conclusão de que não aconteceu, mas ai já tinha ficado irritada). 
   O outro ponto questionável do livro é a revisão feita pela Companhia das Letras. Tudo bem que é um livro em formato econômico mas esperava que, fora todos os aspectos estéticos (qualidade das folhas, tamanho do livro etc.) o livro mantivesse a edição e revisão de qualquer grande lançamento da Companhia das Letras, o que não ocorre. Cheguei a conclusão de que nenhuma pessoa leu esse livro por inteiro antes dele ser publicado e dessa falha resulta que a cadela do casal Tomas e Tereza, Karenin, mude de gênero durante os capítulos. Em alguns se referem a Karenin por "ela", em outros por "ele", e o livro segue dessa forma bizarra até o final. Pode até ser que isso seja coisa do autor (o mesmo diz em alguns momentos que a cadela tem nome e atitudes de macho) mas há um outro momento na pág.131 em que a falta de revisão se torna grotesca. Reproduzo: 
"Aliás, Tereza constatara havia algum tempo que não era desagradável começar o dia com o chamado de Karenin. Para ele, a hora de acordar era de pura alegria: espantava-se ingênua e bobamente de ainda estar vivo e se alegrava sinceramente com isso. Tereza, em compensação, acordava a contragosto..."
   Essa cena é bizarra porque mostra o mesmo personagem, Tereza, tendo duas reações opostas ao ser acordado pela cachorra (o) Karenin. Depois de ler o texto uma segunda vez percebi que uma dessas reações (provavelmente a primeira) era de Tomas e a outra de Tereza; esse momento foi um divisor de águas para mim, porque foi depois disso que passei a notar outros erros de revisão, como a alternância de sexo do cachorro.
   Falei muitas coisas da edição mas e o livro?  No geral é uma história interessante, com reflexões interessantes. Recomendo aos que gostam de livros com abordagens mais filosóficas e que possuem narrativas não-lineares, como é o caso de "A insustentável leveza...".
   Eu gostei da história mas não é um livro que me marcou o suficiente ou que eu queira reler, razão pela qual pretendo me desfazer do livro. No entanto isso não desmerece a trama, quero conhecer mais histórias do autor e realmente indico para quem quer passar as horas de forma mais intelectual: embora não tenha me despertado nenhuma emoção profunda esse livro me fez pensar em várias coisas. Acho que era esse o objetivo do autor.
   Nota 8 - bom.

|LEIA A SINOPSE DO LIVRO NO SKOOB|   

|Resenha| Caro Michele - Natalia Ginzburg

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   Caro Michele é um livro publicado pela autora italiana Natalia Ginzburg em 1973.  A história curta, cerca de 150 páginas, gira em torno de Michele, um jovem de 20 e poucos anos que, de um dia para o outro sai deixa a Itália rapidamente, como que fugindo de algo. Somos então apresentados a amigos, amantes, irmãs e aos pais de Michele através de suas cartas ao personagem ou de algumas cenas narradas em terceira pessoa pela autora, que entremeiam as cartas.
   Nunca tinha lido nada da Natalia Ginzburg. Aliás, li muito pouco de literatura italiana em minha vida, de forma que resolvi solicitar um dos poucos livros que havia disponível dessa autora no Skoob e começar daí. Depois da ressaca literária pós "O conde de Monte Cristo" achei que era uma boa optar por um livro completamente diferente e com poucas páginas. 
   A primeira coisa que me chamou a atenção na autora foi sua escrita, de frases curtas e diretas. Para quem veio de um clássico francês, cheio de diálogos e parágrafos cheios e, muitas vezes, exagerados, foi um pouco estranho esse estilo de escrita, mas para minha surpresa, agradável, depois que se acostuma. Há certa poesia na reflexão dos personagens em suas cartas entre si, mas a narrativa em si é bem direta, se limitando a narrar os fatos que ocorrem, de forma até mesmo fria. 
   O livro, então, é dividido dessas duas formas: as cartas e a narrativa. Nas cartas é que vemos as reflexões e pensamentos dos personagens mas, enquanto isso poderia trazer luz para seu interior, o oposto é justamente o que ocorre. Tais pensamentos e reflexões muitas vezes estão contidos de forma muito velada, cabendo ao leitor a todo momento captar o subtexto do que é dito nessas missivas. Alguns personagens são claramente mentirosos ou omissos e o leitor pode se ver enganado por declarações de amor fajutas ou por falsas esperanças. 
   Michele é o personagem central do livro mas, curiosamente, todas as ações se passam em sua ausência. A narrativa em terceira pessoa nunca o alcança e nós só temos conhecimento dele e de suas atividades através de suas cartas curtíssimas e dos personagens que já se relacionaram com ele: sua mãe, a quem ele só escreve um par de vezes, preferindo se comunicar com sua irmã Angélica; Osvaldo, uma figura enigmática que os outros personagens acreditam ser ex-amante de Michele; Mara, uma jovem pobre que diz estar grávida do filho de Michele (mas não tem certeza)... Nessas visões e observações carregadas de afeto é que vemos o personagem que dá título ao livro, subtendendo seu caráter frívolo, mimado e inquieto
   A edição da Cosac, além de ter capa e diagramação espetaculares, também conta com um posfácio muito interessante, escrito por Vilma Arêas. Através desse texto pude confirmar as minhas percepções de que o livro tem algo de peça teatral, pela forma com que as cenas se passam e pelo conjunto entre diálogos e caracterizações dos personagens. Também havia percebido um quê político nessa história (muito sutil, por sinal) e Arêas contextualiza o lançamento da obra com a história italiana do período, além de dar informações sobre a biografia da autora, que era comunista e chegou a ser deputada na Itália antes de falecer em 1991. 
   Um aspecto do livro levantado por Arêas e que havia me escapado é a intertextualidade entre esse livro e a obra de Proust. Como nunca li o autor parisiense tal diálogo entre as duas obras me escapou, tendo visto a citação de Proust durante a história como algo casual apenas. Mas, segundo a autora do posfácio, há diálogo entre a temática dos dois livros: tanto Proust quanto Ginzburg tratam como tema universal a memória e o esquecimento, além da saudade de um tempo passado. Arêas ainda cita outras referências da autora, mas essa me pareceu uma das mais relevantes para entender o contexto da obra. 
   No geral, gostei muito da leitura. A escrita de Natalia Ginzburg é bem simples, direta mas, ao mesmo tempo, bem poética. É acessível a todos os tipos de leitores mas recomendo aos que gostam desses livros em que não há muita ação ou aos que tem vontade de ler algo da autora mas não sabem por onde começar. Ginzburg certamente tem livros mais famosos, principalmente de não-ficção, mas achei um bom livro introdutório.      
   Caro Michele mostra um vislumbre da vida de seus personagens em torno de uma ausência e também me mostrou um pouco da própria autora. Gostei muito de ambos. Nota 9 - muito bom.

PS.: Não citei na resenha mas gostei dessa visão do cotidiano de uma família na Italia. Embora não possa dizer que seja uma típica família, a descrição de lugares, comidas e canções napolitanas certamente foi um dos pontos altos da história. 

|LEIA A SINOPSE DESTE LIVRO NO SKOOB|