Frances Ha! (Review)


   Aos 27 anos, Frances persegue um sonho que alimenta desde criança: ser uma dançarina. Enquanto não é aceita como membro principal de uma companhia de balé, Frances dá aulas. Ela ainda divide um apartamento com sua melhor amiga, Sophie, a quem se refere como uma versão de si mesma mas com o cabelo diferente. 
   Frances Ha estava na minha watchlist desde Lady Bird mas só recentemente é que resolvi assistir de fato, em um daqueles dias vagando pela Netflix. Assim como Lady Bird, Frances Ha também tem aquele estilão meio coming of age - por mais que seja mais velha, o filme retrata o amadurecimento de Frances e, de certa forma, também a forma que ela encontrou de conciliar seus sonhos e aspirações juvenis com as responsabilidades de uma vida adulta.
  Não há cores no filme e isso é algo que me surpreendeu mas não incomodou tanto quanto eu pensei que incomodaria. É interessante porque dá um ar retrô para a história, como se ela não se passasse exatamente no presente mas sim numa recordação de alguém. 
   Frances Ha é todo bem humorado e cheio de frases de efeito - "sou alta demais pra casar", por exemplo, é uma frase que quero levar para a minha vida. Ao mesmo tempo em que tem suas cenas engraçadas, o filme também emociona. Assim que como acontece em Lady Bird, o motivo de emocionar não é bem o que está acontecendo mas uma identificação (ou empatia) que se sente pela personagem principal. Como me senti mais próxima das situações vividas por Frances do que por Christine, chorei mais nesse filme que em Lady Bird. 


   O filme foca muito no desenvolvimento dessa personagem, mas não deixa de apresentar alguns outros personagens interessantes. Talvez o mais importante deles seja Sophie, a melhor amiga de Frances. Uma das coisas que mais gostei no filme é o foco que ele dá a essas duas mulheres e na importância de sua amizade uma para a outra - tem uma cena muito específica que sugere que a visão que Frances tem do amor é muito próxima do que ela tem com Sophie, e eu achei isso lindo, mostrar o amor entre duas mulheres num contexto de amizade, sem nada romântico ou sexual. 
   Acompanhar essa "crise dos 20 e poucos" da personagem é o objetivo da história e, quando ela parece fazer as pazes entre o eu do passado e o do presente, o filme acaba. Talvez minha realidade seja bem distante da personagem mas, talvez pela idade ou por algumas situações, me senti realmente acolhida assistindo esse filme - quando terminei senti como se alguém tivesse me dado um abraço e dito "vai dar tudo certo". 
Uma das melhores cenas do filme, quando Frances sai dançando na rua ao som de Modern Love

   Em algum ponto racional e imparcial da minha mente eu consigo visualizar que esse filme não é para todos, que boa parte do seu sucesso se resume a identificação com os personagens. Consigo até mesmo ver as cenas que dialogam diretamente com Lady Bird e pensar se isso foi proposital ou se é apenas repetição (acho que foi proposital, para criar uma espécie de elo entro os filmes, uma assinatura, por assim dizer).    
     Mas sabe quando, apenas por um momento você desiste de ser racional sobre um filme? É assim que me sinto sobre Frances Ha: eu gostei demais desse filme e só isso o que me importa.   

   Nota 9 - ia dar 8,5 mas um filme que despertou em mim a vontade de ir para Paris e ficar ignorarando todos os pontos turístico enquanto leio "Em busca do tempo perdido" merece mais.

P.S.: Citei várias vezes Lady Bird durante a review mas esqueci de explicar porque: a diretora de Lady Bird - Greta Gerwig - é atriz principal e co-roteirista de Frances Ha! 





Enterre Seus Mortos - Ana Paula Maia




   Edgar Wilson trabalha removendo animais mortos, da estrada ou de qualquer lugar onde seja chamado. Numa profissão que lida tão de perto com a morte, o personagem acaba vendo também muita coisa e, com isso, desenvolve uma visão peculiar sobre a realidade que o cerca. Ana Paula Maia narra Enterre seus mortos sob o ponto de vista desse personagem - embora se utilizando de um narrador onisciente (e julgador) na terceira pessoa, é sob o ponto de vista de Edgar Wilson que este narrador prefere ficar.
    Enterre seus mortos é romance narrado de forma seca e crua, que chega a chocar em alguns momentos, por cenas um tanto gráficas e pela atitude dos personagens frente a essas cenas. Praticamente contendo apenas com personagens homens endurecidos pela vida, a narrativa acaba espelhando os sentimentos e cinismos desses homens, em especial do protagonista, Edgar Wilson, um homem capaz de jogar um cachorro morto para ser triturado, limpar a mão no uniforme de trabalho e ir almoçar, sem perder o passo ou a calma. Tudo isso na primeira cena do livro, só para mostrar ao leitor com o que ele vai lidar.
    Ana Paula Maia é uma escritora que eu queria conhecer desde que vi uma reportagem da Folha sobre os livros dela. Embora não seja tão conhecida aqui no Brasil, Ana Paula é sucesso no exterior, tendo seus títulos traduzidos para sete países, inclusive os Estados Unidos. Quando recebi esse livro da Companhia das Letras, passei na frente na minha lista de leituras sem pensar duas vezes, queria conhecer essa prosa tão polêmica (a matéria fala de como alguns críticos brasileiros esnobaram o trabalho de Ana Paula Maia). O fato da capa ser tão bonita só me fez querer ler ainda mais. 

 "Olha para o alto e gira a cabeça de um lado para o outro na tentativa de encontrar algum vestígio, algum traço mínimo de verdade. Porém, não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte."
    Uma coisa relevante na biografia da autora é o fato dela ser ex-evangélica. Isso se reflete muito nesse livro, na forma irônica como o narrador vê os pastores e evangélicos que povoam as estradas e pregam para os pobres sobre a danação e o fim do mundo. Percebe-se nessas passagens a crítica que a autora tem a esse tipo de pessoas, que se dizem fiéis mas pregam uma salvação baseada em retribuição financeira. Apesar desses momentos de crítica à religião, o personagem principal parece ser religioso, se bem que não da forma tradicional. Edgar Wilson acredita no céu e no inferno e, de certa forma, também acredita em um Deus - embora não de uma forma muito tradicional.
    Outro personagem com certo destaque na obra é Tomás, um padre que foi excomungado devido a um homicídio que cometeu. Assim como Wilson, Tomás trabalha recolhendo animais mortos na estrada mas, nas horas vagas, faz batizados, extrema-unção e o que mais for necessário. No lugar onde vivem as pessoas estão pouco ligando se ele ainda é padre ou não.

 " - E eu tenho certeza de que nada nem ninguém me escuta. Deus ou o diabo, parece que nenhum dos dois está mais aqui."
    A autora não diz em nenhum momento o lugar exato onde a história se passa. Só sabemos que é um lugar bem pobre, com pessoas bastante religiosas e uma pedreira de calcário, uma mina de brita e uma fábrica de cimento. Parece ser um daqueles lugares esquecidos por Deus, onde coisas como lei, justiça não existem e a saúde pública é ineficaz - as pessoas morrem na estrada porque não há ambulâncias disponíveis para prestar socorro. O cenário dessa história poderia ser em qualquer país do mundo e também em nenhum deles mas, enquanto lia pensei no Brasil, embora alguns trechos me remeteram aquelas cidadezinhas americanas de beira de estrada.
   Ao longo do livro vamos acompanhando a rotina de Wilson como recolhedor de animais mortos na estrada, até que essa rotina é abalada pelo aparecimento de um corpo. À partir daí as coisas vão acontecendo de forma diferente na vida do personagem. 
   Não que Wilson comece a investigar ou coisa do tipo. Ele não quer justiça, apenas não suporta a ideia de deixar um corpo - seja humano ou animal - insepulto. É interessante perceber o interesse que esse personagem tem em dar um final digno para os mortos em contraste com o desinteresse que ele tem com o destino das pessoas ao redor. 

"Edgar Wilson nunca conheceu um trabalho que não estivesse ligado à morte. Sempre esteve um passo atrás dela, que invariavelmente encontra todos os homens, de maneira diferente. (...) Não sabe que espécie de fim esta reservado a ele. Mas diante dos mortos, seja humano, seja animal, ele não se mantém insensivel."
   Apesar de ser um livro relativamente curto, eu li Enterre Seus Mortos bem devagar, em pouco mais de uma semana. Acho que o conteúdo dele não é para ser absorvido de uma vez, por mais que o tom seco da autora sugira uma leitura rápida, o conteúdo do livro precisa de tempo para ser digerido. Não chega a ser nada extramente gráfico ou nojento - é só toda a enormidade da desolação que rodeia a vida dos personagens que as vezes fica difícil de aguentar. É tanta miséria, tanta coisa dando absurdamente errado, tanta gente de caráter duvidoso, que as vezes eu tive que deixar o livro descansar um pouco antes de retornar. 
   É interessante acompanhar essa verdadeira saga que Wilson e Tomás vivem nas páginas finais do livro mas, ao mesmo tempo em que apreciei a leitura, senti falta de algo mais. O final é super coerente com todo o livro e com a própria personalidade do personagem a qual o narrador acompanha ao longo da história mas, por algum motivo, fiquei esperando algum tipo de clímax. Obviamente, eu não conheço bem Edgar Wilson porque fiquei esperando o tempo inteiro que ele perdesse seu ar blasé, algo que não aconteceu
   Mesmo com essa "decepção", Enterre Seus Mortos é um livro que valeu a pena ser lido. Há algo meio faroeste nessa história, talvez o fato de se passar em um lugar "sem lei", que achei bem interessante. Os personagens também são bem marcantes - fiquei com vontade de reencontrar Wilson em alguma outra história da autora (sei que ele aparece alguns livros dela), de forma que é bem provável que eu volte a ler Ana Paula Maia em algum momento, se não por agora. 
     Nota 7,5 - o livro é bom mas tirei meio ponto por essa "decepção" com o final. 
   
 "Um abutre descreve uma curva e do céu aponta para a terra, abre as asas e sua envergadura acoberta o fio de claridade que ilumina o rosto da mulher. Pousa sobre a cabeça da mulher em riste e equilibra-se, recolhendo novamente as asas para junto do corpo. Olha Edgar Wilson antes de inclinar a cabeça e bicar o olho direito da mulher. O abutre grana e ainda o encara. Só então bica outra vez o olho da mulher até arrancá-lo, mantendo-o preso no bico. Edgar Wilson suspende a espingarda de pressão, aponta e com um tiro acerta a ave em cheio; morta, cai próximo a seus pés." (pág 40)



Não sou um Homem Fácil (Review)


   Damien é um daqueles homens que não consegue conversar com uma mulher sem flertar com ela. Mulherengo e um pouco machista, o personagem vê sua vida se transformar completamente quando, após bater com a cabeça em um poste, acorda em um mundo invertido em que os homens são o 'sexo frágil'. Quando ele percebe que não vai sair dessa tão cedo, tem que se adaptar ao novo mundo e ao que se espera dele como homem nesta realidade.
   Já tinha ouvido vários comentários positivos e negativos sobre esse filme quando resolvi assisti-lo na Netflix. Não esperava gostar tanto dessa história quanto gostei, embora consiga enxergar o porquê desse filme dividir tanto as opniões. 
   Vamos deixar claro desde o inicio: ao mostrar esse "mundo dominado pelas mulheres" a diretora não cria nenhum paraíso feminista. Ao contrário, o objetivo é simplesmente inverter as atitudes de homens e mulheres para expor o absurdo de algumas situações e escancarar a importância de, tanto homens quanto mulheres, perceberem e lutarem para o fim dessas situações. 
   Enquanto tenta se adaptar a depilação, estilo e atitudes diferentes, Damien acaba se relacionando com Alexandra, uma mulher que é basicamente o que ele era antes de acordar naquele mundo. Alexandra acha divertidíssima a história de Damien, que existe um mundo em que os homens dominam, e resolve escrever um livro sobre isso, ao mesmo tempo em que tenta seduzi-lo. 
   Embora tenha reflexões muito importantes, a abordagem do filme é bem leve  e não muito profunda, afinal, trata-se de uma comédia (humor francês mas okay). Me diverti acompanhando essa jornada de Damien e as dificuldades em "ser homem", ao mesmo tempo em que torci para que o relacionamento dele com Alexandra desse certo, mesmo sabendo que ela era o "boy lixo" da história.

   O final é o 'tapa da cara' final para o público e para a própria Alexandra e, no caso desta, tanto literal quanto figurativamente. Quando observamos o nosso mundo com esse olhar de estranhamento que a personagem tem, vemos o quão absurdo é algumas coisas que a nossa sociedade impõe tanto às mulheres quanto aos homens.
  Mesmo entendendo a importância desse final, senti falta de algo mais esclarecedor e conclusivo. Apesar disso, gostei demais do filme, talvez e principalmente pelas atuações do que pelas situações descritas: Tanto o ator que faz Damien (Vincent Elbaz), quanto a atriz que faz Alexandra (Marie-Sophie Ferdane) estão excelentes nesse papel. 
   Não há muito mais o que dizer: fica a dica dessa comédia divertidinha da Netflix, que consegue entreter e fazer pensar ao mesmo tempo. 
   Nota 8,5 - muito bom, mas tirei meio ponto pelo desfecho. 
   

Frankenstein - Mary Shelley


   É curioso como tanto Drácula quanto Frankenstein partiram de sonhos. A história de Mary Shelley surgiu quando, após ouvir discussões entre seu marido e Lorde Byron sobre o surgimento da vida através do galvanismo, Mary teve um sonho de um jovem impetuoso criando um ser monstruoso e desmaiando quando este abre os olhos... Para logo em seguida acordar e se ver se cara com a criatura.
    O sonho foi a primeira visão que a autora teve de Frankenstein mas a história é muito maior do que isso. A discussões éticas sobre o tema da criação - mesmo que fosse possível, seria o correto? - o sofrimento da criatura perante o ódio injustificado daqueles que o cercam, as discrições de paisagens na Suíça, Inglaterra e Irlanda, entre outros países... São coisas que não esperava lendo esse livro, mas que gostei bastante de ter encontrado.
    Tanto Drácula quanto Frankenstein tem outro ponto em comum: são livros que, embora nem todos tenham lido, todos acham que conhecem a história, mas não é bem assim. Além dos pontos inesperados que citei, a maior surpresa do livro foi descobrir que Frankenstein era o nome do criador e não da criatura: Victor Frankenstein é um jovem ambicioso e com personalidade obsessiva que resolve construir um ser a partir do nada. Quando consegue o que quer, porém, ele se esquiva dos seus deveres como "pai" de um novo ser.
    Os personagens desse livro não são nem um pouco gostáveis, nem Victor, nem o Monstro mas é interessante e surpreendentemente rápido ler esse livro. Os capítulos curtos e a vontade de saber o que vai acontecer foram os responsáveis por ter lido esse livro em tempo razoavelmente curto, embora nem sempre feliz em saber o que os personagens estavam aprontando. Gostei da escrita de Mary Shelley e do drama que as vezes exagera em suas páginas, fazendo com que o romance de terror parece muitas vezes um dramalhão. Mais uma vez comparo esse livro com Drácula, outro terror em que o drama pesa um pouco - mas que é igualmente divertido.
    Minha indicação desse livro é para os que querem um livro rápido e para os que tem curiosidade de conhecer exatamente tudo o que é falado nesse clássico. Fiz uma leitura coletiva desse livro e até mesmo pessoas que pensavam que não iam gostar (porque não gostam de terror) consideraram essa uma das melhores leituras de todas (é um grupo do whatsapp que só lê clássicos).
    Enfim, nota 8,5 - o livro é realmente muito bom.


A assombração da casa da colina - Shirley Jackson

fonte: Biblioteca do Terror 

   Quando um autor que você gosta recomenda um livro, você olha com atenção. Mas e quanto este autor não só recomenda um outro mas também dedica um livro a este? Quando recebi "A incendiária" da Suma e vi a dedicatória que Stephen King fez a Shirley Jackson, soube que precisava conhecer a autora que influenciou um dos meus escritores preferidos.
   Há dois livros dessa autora publicados recentemente mas escolhi Assombração na casa da colina para conhecer a autora. O motivo foi o mais bobo possível: o título me lembrou um filme de terror que assisti quando era pequena (mais a frente, percebi que a história me lembrava de um outro filme, que também vi quando era mais nova, chamado "A casa amaldiçoada"). Além disso, gosto de histórias sobre casas e lugares assombrados.
   Um das coisas que mais me chamou a atenção na escrita de Shirley Jackson é a forma como autora consegue criar todo um ambiente propício e assustador e desenvolver seus personagens de forma muito precisa sem apelar para descrições muito elaboradas de lugares e pessoas. A personalidade das quatro pessoas na casa da colina são delineadas com muita confiança e ao longo do livro de uma forma tão natural que, lá pela metade da história, já pensa que conhece todos os personagens muito bem.
   Assombração da Casa da Colina começa quando esse cientista e investigador de fenômenos paranormais, o Dr. Mortague, convida várias pessoas para passar um tempo nessa casa assombrada, que ele aluga sob a condição de receber também um parente dos donos da casa. Somente duas mulheres - Eleanor e Theodora - aceitam o convite e todos (Dr. Mortague, as mulheres e Luke, o herdeiro ) se mudam para a casa por um tempo.
    É curioso observar que a personagem sobre o qual eu mais tinha dúvidas era justamente a que narrava a história, Eleanor. Há algo que essa personagem esconde, de si e de leitor, algo que já estava nela antes que entrasse na casa mas parece desabrochar enquanto está lá. Nellie é mais do que demonstra mas qual será o seu segredo? E o que a casa quer com ela? São essas algumas das perguntas que me fiz durante esse livro.
   Como toda boa história de terror, essa também é um prato cheio de simbolismos e representações. A cena em que Theodora entra em crise após ver algo em seu quarto e a reação de Eleonor a tudo o que ocorre, são muito interessantes e nos fazem pensar nas camadas que há por trás da tensão entre as duas mulheres.
    Nessa mesma cena, há um momento muito específico em que Eleanor vê as mãos de Theo cheias de sangue e vai limpar, pensando que "nunca sentira uma repulsa incontrolável por ninguém em toda a sua vida". É de se pensar o simbolismo daquelas palavras, principalmente quando relacionamos o fato de que, até o sangue aparecer, as duas mulheres eram bem amigas, talvez até mesmo mais. O que o sangue representa ali? Talvez um lembrete ao subconsciente de Eleanor de que trata-se de outra mulher a pessoa pela qual ela se sentia tão encantada anteriormente. Ou, talvez, o sangue cobrindo as mãos de Theodora fosse uma marca física da transformação que a moça sofreria aos olhos de Eleanor. "Ela é má, é um monstro, é suja", pensa Nellie ao final dessa cena. Depois desse momento, embora volte a ver a amiga de uma forma positiva, o relacionamento entre elas não é mais exatamente como antes, quando chamavam uma a outra de primas. 
   Assim como ocorre em O Iluminado, o comportamento do protagonista vai sendo alterado quanto maior o tempo que ela passa na casa. Seria o objetivo da casa, fazer com que a protagonista se afastasse de todos os outros moradores? Ou será  que Eleanor sempre foi daquela forma e a casa apenas exacerbou seu comportamento? Não sei a resposta a essa pergunta mas, conforme o tempo vai passando na Casa da Colina mais temos contato com esse lado sombrio e um pouco instável da protagonista. É interessante e também um pouco assutador: Eleanor tem tanto medo de perder o controle que ficamos apreensivos sobre o que ela fará quando isso de fato acontecer.
   O livro é tão pequeno (240 páginas) e a narrativa tão interessante que, quando você dá por si, a história já terminou. Acostumada que estou aos calhamaços de Stephen King foi uma grata surpresa ler uma história de suspense/terror que consegue ser instigante, assustadora e psicologicamente rica em tão poucas páginas. Mesmo após terminar ainda fiquei um tempo pensando nos personagens, no desfecho, no que significou aquela experiência toda na casa da colina. Se você é do tipo que gosta de coisas nos mínimos detalhes talvez seja melhor ler o sr. King: Shirley Jackson não vai te explicar o que está acontecendo; ela apenas narra, cena após cena, os acontecimentos que e a reação dos personagens a eles. 
   Eu terminei o livro morrendo de medo mas não sei se é o tipo de terror que vai assustar a qualquer pessoa. É muito mais o suspense e algo psicológico do que cenas com fantasmas propriamente ditas. Para mim esse tipo de terror é mais interessante, mas vi algumas resenhas no Skoob que disseram que o livro não é tão assustador, o que me fez pensar que nem todo mundo vai ficar com tanto livro quanto eu fiquei. 

   Como um livro publicado pela primeira vez em 1959 é interessante ver o quanto a ficção (filmes ou livros) se inspirou em alguns aspectos desse livro. A sensação de familiaridade que eu senti enquanto estava lendo essa história se justificou: descobri que "A casa amaldiçoada", o filme que este livro estava me fazendo lembrar, é uma adaptação de "A assombração da casa da colina", tendo sido lançada em 1999 com Catherine Zeta Jones interpretando Theodora (repare que eu tinha 7 anos quando esse filme foi lançado e eu tinha mais ou menos essa idade quando assisti. Quando falo que filmes de terror me lembram infância é por isso). Há também uma adaptação da década de 60, mas não assisti. 
    Como prévia leitora de King, pude ver alguns ecos desse livro em algumas obras do autor, principalmente em "O iluminado" que, assim como "A assombração da casa da Colina" faz um paralelo entre medo, confinamento e loucura que é muito interessante. Outra coisa interessante que ambos os autores fazem é dar um toque de tristeza em suas histórias - uma boa história de terror tem sempre algum sentimento profundo além do medo. No caso de "...Casa da Colina" os sentimentos de culpa, solidão e não pertencimento que certa personagem sente alcançam o leitor mesmo sem a autora dizer com todas as letras que é isso que a personagem está sentindo. 
   O que mais posso dizer para te convencer esse terror clássico? Chamo de clássico não tanto pela idade mas por entender que as influências que esse livro despertou e sua atemporalidade fazem com que esse mereça tal título. Shirley Jackson já entrou no meu panteão de autores de terror favoritos não só pela qualidade da escrita mas também por desenvolver histórias que nos fazem pensar por horas mesmo depois de ter terminado, afim de criar nossas próprias interpretações do que ocorreu. Os personagens também são ótimos e, por mais que isso já torne esse livro acima da média, ainda há cenas de causar arrepio, mexendo sempre com o psicológico do leitor. 
   Nota 9,5 - esse livro já está na minha lista de favoritos do ano mas vou aguardar uma futura releitura antes de mudar essa nota para 10. 


Ouvidores de Vozes (documentário)


   Ouvidores de Vozes é um documentário que conta um pouco da vida de pessoas que sofrem com essa situação e passam por tratamento no CAPS. Isabel, Reginaldo e Marlene são os protagonistas, pessoas de idades e histórias diferentes mas que tem em comum o fato de ouvirem vozes que as outras pessoas não ouvem. 
   O que mais gostei nesse documentário é que ele não tenta estabelecer um porquê dessas pessoas estarem ouvindo vozes. Embora todos os participantes do documentário tenham um diagnóstico psiquiátrico, este pouco é mencionado. O que interessa é ouvir aqueles que ouvem vozes. Para isso os produtores deram um microfone para cada um desses três e pediram para que falassem tudo o que quisessem, sobre as vozes, sobre a vida, sobre tudo. 
   Este é um documentário bem triste porque você vê o sofrimento e a espécie de fundo do poço que essas pessoas chegaram. Reginaldo, por exemplo, é um daqueles cuja história mais me impressionou: ele trabalhava e levava uma vida sem muitos incidentes até que perdeu, em pouco de espaço de tempo, a mãe e a tia. Desde então ele parou de trabalhar, toma remédios e tenta lidar com as vozes que ficam insistindo para que ele se mate. Me impressionou o fato dele ter quebrado os próprios dentes como forma de criar dor ("a dor alivia as vozes", ele diz em determinado ponto). Mas o que me deixou mais triste com a história de Reginaldo foram os comentários da família dele, dizendo que ele se entrega, que ele só quer ficar deitado, que ele tem que ir à igreja ou fazer uma atividade física. Como se doença mental fosse apenas um estado de espirito. 


   Falei um pouco mais do Reginaldo mas Isabel e Marlene também tem histórias de vida interessantes. O curioso é que, de todos, apenas Isabel (uma adolescente) é que tem uma divisão: uma voz diz algo bom e a outra algo ruim. O restante só ouvem conselhos ruins das vozes, conselhos que, muitas vezes colocam em prática.
   Chorei ao ouvir um texto de Marlene, uma carta para a felicidade. É muito triste porque ela (a carta) simboliza toda a tristeza que essas pessoas carregam consigo, não só por ouvir vozes, mas por todo o estigma e incapacitação que esse fato gera na vida dessas pessoas. O CAPS tem um grupo de apoio só para essas pessoas, para que elas possam narrar sua experiência lidando com o problema. Gostei muito de saber disso, ainda mais quando ouvi os entrevistados falando que aquele era o único lugar onde se sentiam acolhidos. Uma forma de aliviar a tristeza e solidão dessas pessoas.
    Não só vou recomendar como também colocarei o link desse documentário no final do post. Foi produzido pelo Canal Futura e eles o disponibilizam no site deles. Se te interessa esse tipo de discussão sobre saúde mental, vale muito a pena.

Nota 8 - bom


As Ondas - Virginia Woolf


   A vida de seis amigos, que cresceram e estudaram juntas e narrado em uma série infinita de monólogos dos próprios personagens. Jinny, Susan, Rhoda, Neville, Louis e Bernard parecem ter pouca coisa em comum mas são, simultaneamente, protagonistas e narradores de suas próprias histórias e das histórias um dos outros.    
   Meu receio em ler Virginia Woolf era me sentir tão confusa como quando eu li Clarice Lispector. Quando descobri que esse seria o livro do mês no clube do livro que participo quase tive um treco. Já previ um mês de terror, lendo uma história da qual não conseguia entender nada.
    Resolvi encarar, mesmo com todos esses receios. A primeira coisa que fiz, antes de começar "As Ondas" foi ler algumas resenhas e sinopses da história para saber do que falava o livro exatamente. Reconhecendo a minha dificuldade de acompanhar esse tipo de narrativa, mais fragmentado, achei uma boa ideia ter uma noção do que fala o livro antes de começar.    
   Enquanto lia as resenhas (nunca resumos, não gosto de spoiler) e ao descobrir a forma como livro era estruturado (diálogos) e os personagens que faziam parte dele, decidi fazer uma espécie de fichamento. Aproveitei que estava lendo no Kindle e, conforme os personagens iam aparecendo e fazendo coisas ia construindo anotações sobre cada um. Jinny beijou Louis, Susan ficou com ciúme, Bernard deixou Neville sozinho e foi atrás de Susan, enquanto Rhoda ainda estava na sala de aula e nada viu. Essas anotações foram fundamentais no começo da história, para separar quem era quem, mas, conforme o livro prosseguia percebi que não era mais necessário continuar alimentando esses registros.   
    É muito legal pegar o livro que você não entende nada e perceber que, aos poucos, as coisas vão ficando mais claras pra você. Toda essa minha preparação teve um pouco a ver com o resultado mas o mais importante foi ter, desde o início, a consciência de que nem tudo eu iria entender 100% ou seria narrado da forma cronológica a qual estou acostumada. Essa constatação meio que tira um peso das costas - como disse uma colega "esse não é um livro para se entender com a cabeça e sim com o sentimento". E foi assim mesmo que eu passei a entender "As Ondas".
       Gosto muito do título desse livro porque tem muito a ver com a narrativa, sempre fluindo de um personagem ao outro, como se uma série de ondas estivessem arrebentando na praia, uma após a outra, num ritmo tranquilo e natural. Os diálogos/monólogos dos personagens se sucedem um ao outro dessa mesma forma, como ondas. E assim, os anos vão se passando muito rapidamente.    
   Cada personagem tem uma maneira de ser, de encarar a vida. Louis, por exemplo, é um perfeccionista, Jinny é uma moça simples, quer ser amada - e assim, todos tem sua própria história. O que une todas essas pessoas não é bem a amizade que tem entre si, mas o amor que todos sentem por Percival. Ironicamente, Percival é o único personagem citado que não tem sua própria voz interior.    

   De todos, Bernard talvez seja aquele que é mais apegado aos outros. Carecendo de um sentido para sua própria vida ele visita os amigos, sente necessidade de revê-los. Sem os amigos Bernard é fluido, carece de propósito e personalidade. E é Bernard quem encerra a história, em um monólogo maior que todos os outros, onde lembra a sua vida e também um pouco a de seus amigos.
      Nesse desfecho dá pra se imaginar muitas coisas, além do próprio fim que cada personagem teve. A sensação, nesse momento, é que cada um dos personagens é uma faceta da própria autora, ou até mesmo de Bernard; todos eles na verdade são como um só.   
   Pesquisando para essa resenha, descobri que essa é a sensação que a autora quis passar, que todos esses personagens são facetas de uma só pessoa. Gostei bastante disso, fiquei pensando em uma única pessoa que tem tantas outras dentro de si.    
   Admito que não entendi 100% de "As Ondas" mas é um livro que me fez sentir muito e, por isso, recomendo. Pretendo reler mais pra frente - quem sabe não consigo captar um pouco mais?   
    Nota 8 - bom livro