Enquanto eu te esquecia - Jennie Shortridge


   Uma página em branco. É assim que estão as memórias de Lucy Walker quando ela é encontrada nas águas da baía de São Francisco. Ela não se lembrava seu nome ou de onde tinha vindo, nem mesmo porque estava no meio das águas do São Francisco com todas as roupas. Levada para um hospital psiquiátrico e tendo seu rosto divulgado em todos os jornais da cidade, logo aparece seu noivo, Grady, que a leva para a casa dos dois em Seattle e tenta faze-lá se adaptar a vida que os dois tinham antes. 
   Mais uma leitura do Clube do Livro do qual participo, "Enquanto eu te esquecia" é um livro sobre o qual eu não sabia nada antes de começar a ler. Nem na capa eu tinha prestado muita atenção, razão pela qual eu passei os primeiros capítulos pensando que se tratava de um thriller e que Grady logo iria se revelar um completo boçal. Mas não, trata-se de um romance romântico com algumas pitadas de drama, principalmente quando se trata da revelação do segredo de Lucy. 
   Quando Grady leva Lucy para casa ela não consegue se reconhecer nas antigas roupas, na decoração do lugar e em seu estilo de vida prévio. A única coisa que parece despertar alguma memória é um piano antigo na qual Lucy toca algumas melodias cujo nome não conhece. Ela também não se lembra de nada sobre o noivo, embora o considere atraente. 
    O livro é contado sob o ponto de vista de Lucy, de Grady e da tia de Lucy, Helen, com a qual a personagem não falava havia anos. Enquanto Lucy parece estar gostando pouco do seu antigo eu conforme o vai conhecendo, Grady só pensa em ter a antiga Lucy de volta para lhe dizer o que fazer, já que a relação dos dois era inteiramente centrada nas vontades de Lucy e não no que Grady realmente queria. Por mais que ele goste da nova versão que sua noiva apresenta, parte dele ainda se sente culpado pelo o que aconteceu com ela, principalmente devido ao fato de que ela desaparece após uma briga dos dois. 
    "Enquanto eu te esquecia" tem um desenvolvimento lento e, por isso, os primeiros capítulos são bem pouco interessantes. Porém, quando Lucy se encontra com sua tia as coisas começam a acontecer de forma bem mais veloz e o livro se torna interessante. Ao mesmo tempo que a personagem luta para recuperar suas memórias, também vemos o desenvolvimento de seu relacionamento com o noivo, com os dois ainda atraídos um pelo outro mas agindo um com o outro como se fossem estranhos (para Lucy eles são mesmo).
   Infelizmente toda essa qualidade do meio do livro não se traduz no final. A revelação do segredo que Lucy carrega e as razões para sua amnésia são fortes o suficiente mas, quando tudo parece se encaminhar para o desfecho, o livro termina de forma aberta. Não consigo entender os motivos para a autora terminar o romance da forma como o fez, sem deixar claro se a personagem eventualmente recupera a memória ou não. Esse foi um grande ponto de decepção para mim que já estava gostando do livro apesar do inicio meio estranho. 
   Se você gosta de histórias com romance e drama 'Enquanto eu te esquecia' pode ser uma boa alternativa mas, fique ciente, que a autora não dá aos personagens um final muito explicito. Fora esse ponto negativo, é um livro até rápido de ler e interessante em sua maioria - se a autora tivesse feito um epílogo minha avaliação geral poderia ser melhor. 
   Mas, com esse final, só me resta dar nota 6,5 - o livro ok com esse ponto negativo. 

A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves - Joca Reiners Terron

Fonte

   Tudo começa com um narrador insone. O homem, que trabalha numa delegacia de policia, não consegue dormir a mais de duas semanas, o que pode estar relacionado ao seu uso indiscriminado de anfetamina, que o personagem faz através do consumo excessivo de inibex. Mas o protagonista dá outra razão para a insônia, o fato de seu pai (a quem chama de "o velho") ter tentado se matar.
   A história desse escrivão é uma das duas tramas que compõe A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves de Joca Reiners Terron. A outra trama, ao contrário dessa primeira, é narrada em terceira pessoa - alguns capítulos são necessários para percebermos que o narrador em terceira pessoa da trama do "passeio noturno" é justamente o narrador em primeira pessoa da história do escrivão. As duas histórias estão interligadas - mas como?
   Com toques de terror e, talvez, um pouco de fantástico, A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves é um livro muito difícil de catalogar em uma única categoria, por não se resumir a elementos desses gêneros que citei. As duas tramas narradas vão caminhando juntas até um desfecho que, embora não seja exatamente imprevisível, causa algum impacto. 
   Fiquei alguns dias pensando nessa história e nesses personagens. Tudo é narrado afim de parecer mais um "caso de polícia" ou um simples conto familiar. Mas, sabe quando o livro te acompanha mesmo após você termina-lo? Fiquei pensando no possível significado de  tudo e, também, com muita vontade de ler outras coisas desse autor. Embora não tenha muitos argumentos conscientes para justificar, gostei do livro, embora tenha demorado bastante para concluir a leitura (levei 2 meses e o livro tem menos de 200 páginas). 
   O Bom Retiro, enquanto bairro, é também um dos personagens dessa história. É nele que acontecem as duas tramas e é sobre ele que o protagonista/narrador fala algumas vezes, seja para comentar a mudança no tipo de imigrantes que o bairro passou a receber, seja para falar das ruas e constrições de lá. Não conheço o bairro mas isso não é relevante porque o que vemos é a percepção do personagem sobre o Bom Retiro e não o lugar em si. Como esse narrador/protagonista não é lá um grande sujeito, a visão que ele tem de lá é a mais preconceituosa possível. 
   A escrita de Terron para um tanto seca em alguns momentos mas gostei da forma com que o autor constrói os pensamentos de seus personagens, que não são lá grandes seres humanos - talvez a "criatura" seja melhor que todos os ditos 'normais' no livro, mas é justamente essa personagem que não tem voz ao longo da trama
   Recomendo A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves para os que gostam de histórias sem muitas reviravoltas e sem uma "moral da história" propriamente dita, mas que sejam muito bem escritas. Os elementos meio 'creep' são o que transformam  A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves em algo mais do que um romance contemporâneo sobre um cara de meia idade que está em crise e, é por essa capacidade do autor de contar uma história além do banal que indico esse livro. 

Viva - A Vida é uma Festa (Review)

  

    Miguel é um menino de 12 anos que vive no interior do México e sonha em ser músico. Infelizmente, sua família odeia tudo o que for relacionado a música, tudo porque um antigo antepassado abandonou a esposa e os filhos para viver da música. Após isso, a família conseguiu se sustentar fabricando sapatos e esse oficio foi passado em todas as gerações. 
    "Viva - A vida é uma Festa" é uma animação da Pixar que tem todos elementos dos filmes desse estúdio. Ao mesmo tempo que se trata de uma história de caráter infantil e imaginativo o filme também tem mensagens profundas sobre amor e família, capazes de fazer o mais frio dos corações se emocionar com essa história. 
    Uma série de situações ocorrem no 'Dia dos Mortos', um feriado mexicano que homenageia os antepassados e  acabam fazendo com que Miguel vá parar no mundos dos mortos. Lá, Miguel passa a procurar o seu antepassado músico, contando com a ajuda de Hector e de um cachorrinho de rua chamado Dante e que, curiosamente, conseguiu ir para esse mundo junto com Miguel. 

    A animação é muito bonita e colorida mas isso não seria nada não fosse a história tão fascinante. Cheio de números musicais, 'Viva' consegue fazer de uma canção o ponto ápice do filme. Não é à toa que "Remember Me" ganhou de "This Is Me" esse ano no Oscar na categoria de 'Melhor Canção Original' - embora o tema de "O Rei do Show" seja sensacional, "Remember Me" consegue aliar uma música bonita à própria mensagem do filme, o que a torna inesquecível para todos que assistirem. 
   Como um filme feito para a família, a mensagem não poderia ser outra que não a de valorizar aqueles que amamos e a nos lembramos sempre daqueles que partiram. Tenha você perdido ou não uma pessoa da minha família, vai se emocionar com a história desses personagens que são tão carismáticos que parecem reais. 

    Recomendo esse filme demais - para aqueles que amam animações é mais um acerto da Pixar, daqueles que prometem ficar na nossa memória por muito tempo ainda. Como sempre, assisti essa animação dublada e não me arrependi, já que a dublagem brasileira é excelente. 
      Nota 9,5 - o filme é muito, muito bom

Hereditário (Hereditary) - Review



  A família Graham vive a perda da matriarca, a mãe de Annie. Embora tenha sido uma mulher não muito amável e um tanto misteriosa, isso acaba mudando a dinâmica na casa e causando mudanças em seus moradores. A mais afetada é Charlie, que aparenta ter sido mais próxima da vó do que de sua própria mãe.
    Esse é o ponto de partida para Hereditário, um filme de terror com ares de drama. Embora tenha seus momentos assustadores, é quando trata de emoções humanas como dor e luto que o filme se supera.
    A história se divide em três partes, cada uma delas assinalada de forma bem sutil, através de frases em latim (?) escritas na parede da casa. De todas, somente a terceira parte me parece ser dedicada ao terror de uma forma mais tradicional - as outras duas são um tom mais de suspense e, principalmente, drama.
    Isso não significa, porém, que Hereditário não seja um filme de terror que seja aquele bendito pós-horror, subgênero que críticos criaram para enquadrar os filmes de terror que eles gostam. Os melhores filmes do gênero contam histórias tristes ou dramáticas - a diferença é que, ao contrário dos queridinhos de Oscar e afins - esse drama é ponto de partida para o horror ser construído e não se esvai em si mesmo.
     Ao colocar Peter assistindo uma aula sobre "As Traquínias" de Sófocles, o roteiro parece enfatizar que, assim como Hércules, os personagens do filme não tem escolha e há uma série de elementos que reafirmam essa sensação. Desde a primeira cena - que parece se passar em uma maquete da casa e não da casa em si - até o frame final, há diversas referências ao destino, sina ou o que quer que seja aquilo que controla as ações dos personagens na história.
    Passe essa trama para um diretor menos cuidadoso e teríamos um filme apenas razoável mas o cuidado de Ari Aster em criar um ambiente angustiante e sua recusa em soluções fáceis (como os batidos jump scares) coloca Hereditário em um patamar superior. Os efeitos sonoros são enxutos e enfatizam os silêncios, ajudando a passar esse cenário angustiante que a família vive para o expectador.

    As atuações também são impressionantes - destaque para a atriz que faz Charlie e a incrível Toni Collette que dá vida a Annie Graham numa atuação digna de Oscar. É muito difícil que isso aconteça, claro, mas fica ai minha torcida para, ao menos, uma indicação.
    Revelar qualquer detalhe a mais sobre o enredo pode atrapalhar a experiência de descobrir aos poucos sobre o que é Hereditário, por isso não vou me estender mais. Meu único aviso é que o filme está dividindo bastante opiniões - assim como A Bruxa tem aqueles gostam e outros que não. Tudo depende das suas expectativas sobre o que um filme de terror pode ser e proporcionar e da sua capacidade de comprar a trama e seus desdobramentos.
    Considero Hereditário um dos melhores lançamentos do ano, com uma das cenas mais perturbadoras que já vi em filmes do gênero, que te deixa inquieto primeiro com a imaginação, depois através de sons e por último com a visão nua e crua do que de fato ocorreu (é a cena no meio do filme, be aware of). Minha única ressalva são alguns momentos do final que me pareceram expositivos demais - é como se o tivesse resolvido, de repente, explicar verbalmente a subtrama, fazendo com que o desfecho perca um pouco de seu caráter de caos e pandemônio.
    Indico demais para os fãs do gênero e até assistiria novamente se esse filme não tivesse me deixado sem dormir.
    Nota 9 - muito bom

|TRAILER|


Frances Ha! (Review)


   Aos 27 anos, Frances persegue um sonho que alimenta desde criança: ser uma dançarina. Enquanto não é aceita como membro principal de uma companhia de balé, Frances dá aulas. Ela ainda divide um apartamento com sua melhor amiga, Sophie, a quem se refere como uma versão de si mesma mas com o cabelo diferente. 
   Frances Ha estava na minha watchlist desde Lady Bird mas só recentemente é que resolvi assistir de fato, em um daqueles dias vagando pela Netflix. Assim como Lady Bird, Frances Ha também tem aquele estilão meio coming of age - por mais que seja mais velha, o filme retrata o amadurecimento de Frances e, de certa forma, também a forma que ela encontrou de conciliar seus sonhos e aspirações juvenis com as responsabilidades de uma vida adulta.
  Não há cores no filme e isso é algo que me surpreendeu mas não incomodou tanto quanto eu pensei que incomodaria. É interessante porque dá um ar retrô para a história, como se ela não se passasse exatamente no presente mas sim numa recordação de alguém. 
   Frances Ha é todo bem humorado e cheio de frases de efeito - "sou alta demais pra casar", por exemplo, é uma frase que quero levar para a minha vida. Ao mesmo tempo em que tem suas cenas engraçadas, o filme também emociona. Assim que como acontece em Lady Bird, o motivo de emocionar não é bem o que está acontecendo mas uma identificação (ou empatia) que se sente pela personagem principal. Como me senti mais próxima das situações vividas por Frances do que por Christine, chorei mais nesse filme que em Lady Bird. 


   O filme foca muito no desenvolvimento dessa personagem, mas não deixa de apresentar alguns outros personagens interessantes. Talvez o mais importante deles seja Sophie, a melhor amiga de Frances. Uma das coisas que mais gostei no filme é o foco que ele dá a essas duas mulheres e na importância de sua amizade uma para a outra - tem uma cena muito específica que sugere que a visão que Frances tem do amor é muito próxima do que ela tem com Sophie, e eu achei isso lindo, mostrar o amor entre duas mulheres num contexto de amizade, sem nada romântico ou sexual. 
   Acompanhar essa "crise dos 20 e poucos" da personagem é o objetivo da história e, quando ela parece fazer as pazes entre o eu do passado e o do presente, o filme acaba. Talvez minha realidade seja bem distante da personagem mas, talvez pela idade ou por algumas situações, me senti realmente acolhida assistindo esse filme - quando terminei senti como se alguém tivesse me dado um abraço e dito "vai dar tudo certo". 
Uma das melhores cenas do filme, quando Frances sai dançando na rua ao som de Modern Love

   Em algum ponto racional e imparcial da minha mente eu consigo visualizar que esse filme não é para todos, que boa parte do seu sucesso se resume a identificação com os personagens. Consigo até mesmo ver as cenas que dialogam diretamente com Lady Bird e pensar se isso foi proposital ou se é apenas repetição (acho que foi proposital, para criar uma espécie de elo entro os filmes, uma assinatura, por assim dizer).    
     Mas sabe quando, apenas por um momento você desiste de ser racional sobre um filme? É assim que me sinto sobre Frances Ha: eu gostei demais desse filme e só isso o que me importa.   

   Nota 9 - ia dar 8,5 mas um filme que despertou em mim a vontade de ir para Paris e ficar ignorarando todos os pontos turístico enquanto leio "Em busca do tempo perdido" merece mais.

P.S.: Citei várias vezes Lady Bird durante a review mas esqueci de explicar porque: a diretora de Lady Bird - Greta Gerwig - é atriz principal e co-roteirista de Frances Ha! 





Enterre Seus Mortos - Ana Paula Maia




   Edgar Wilson trabalha removendo animais mortos, da estrada ou de qualquer lugar onde seja chamado. Numa profissão que lida tão de perto com a morte, o personagem acaba vendo também muita coisa e, com isso, desenvolve uma visão peculiar sobre a realidade que o cerca. Ana Paula Maia narra Enterre seus mortos sob o ponto de vista desse personagem - embora se utilizando de um narrador onisciente (e julgador) na terceira pessoa, é sob o ponto de vista de Edgar Wilson que este narrador prefere ficar.
    Enterre seus mortos é romance narrado de forma seca e crua, que chega a chocar em alguns momentos, por cenas um tanto gráficas e pela atitude dos personagens frente a essas cenas. Praticamente contendo apenas com personagens homens endurecidos pela vida, a narrativa acaba espelhando os sentimentos e cinismos desses homens, em especial do protagonista, Edgar Wilson, um homem capaz de jogar um cachorro morto para ser triturado, limpar a mão no uniforme de trabalho e ir almoçar, sem perder o passo ou a calma. Tudo isso na primeira cena do livro, só para mostrar ao leitor com o que ele vai lidar.
    Ana Paula Maia é uma escritora que eu queria conhecer desde que vi uma reportagem da Folha sobre os livros dela. Embora não seja tão conhecida aqui no Brasil, Ana Paula é sucesso no exterior, tendo seus títulos traduzidos para sete países, inclusive os Estados Unidos. Quando recebi esse livro da Companhia das Letras, passei na frente na minha lista de leituras sem pensar duas vezes, queria conhecer essa prosa tão polêmica (a matéria fala de como alguns críticos brasileiros esnobaram o trabalho de Ana Paula Maia). O fato da capa ser tão bonita só me fez querer ler ainda mais. 

 "Olha para o alto e gira a cabeça de um lado para o outro na tentativa de encontrar algum vestígio, algum traço mínimo de verdade. Porém, não há nada no céu: nem fúria, nem anjos, nem santos. É um céu vazio, completamente sem cor e som. Inerte."
    Uma coisa relevante na biografia da autora é o fato dela ser ex-evangélica. Isso se reflete muito nesse livro, na forma irônica como o narrador vê os pastores e evangélicos que povoam as estradas e pregam para os pobres sobre a danação e o fim do mundo. Percebe-se nessas passagens a crítica que a autora tem a esse tipo de pessoas, que se dizem fiéis mas pregam uma salvação baseada em retribuição financeira. Apesar desses momentos de crítica à religião, o personagem principal parece ser religioso, se bem que não da forma tradicional. Edgar Wilson acredita no céu e no inferno e, de certa forma, também acredita em um Deus - embora não de uma forma muito tradicional.
    Outro personagem com certo destaque na obra é Tomás, um padre que foi excomungado devido a um homicídio que cometeu. Assim como Wilson, Tomás trabalha recolhendo animais mortos na estrada mas, nas horas vagas, faz batizados, extrema-unção e o que mais for necessário. No lugar onde vivem as pessoas estão pouco ligando se ele ainda é padre ou não.

 " - E eu tenho certeza de que nada nem ninguém me escuta. Deus ou o diabo, parece que nenhum dos dois está mais aqui."
    A autora não diz em nenhum momento o lugar exato onde a história se passa. Só sabemos que é um lugar bem pobre, com pessoas bastante religiosas e uma pedreira de calcário, uma mina de brita e uma fábrica de cimento. Parece ser um daqueles lugares esquecidos por Deus, onde coisas como lei, justiça não existem e a saúde pública é ineficaz - as pessoas morrem na estrada porque não há ambulâncias disponíveis para prestar socorro. O cenário dessa história poderia ser em qualquer país do mundo e também em nenhum deles mas, enquanto lia pensei no Brasil, embora alguns trechos me remeteram aquelas cidadezinhas americanas de beira de estrada.
   Ao longo do livro vamos acompanhando a rotina de Wilson como recolhedor de animais mortos na estrada, até que essa rotina é abalada pelo aparecimento de um corpo. À partir daí as coisas vão acontecendo de forma diferente na vida do personagem. 
   Não que Wilson comece a investigar ou coisa do tipo. Ele não quer justiça, apenas não suporta a ideia de deixar um corpo - seja humano ou animal - insepulto. É interessante perceber o interesse que esse personagem tem em dar um final digno para os mortos em contraste com o desinteresse que ele tem com o destino das pessoas ao redor. 

"Edgar Wilson nunca conheceu um trabalho que não estivesse ligado à morte. Sempre esteve um passo atrás dela, que invariavelmente encontra todos os homens, de maneira diferente. (...) Não sabe que espécie de fim esta reservado a ele. Mas diante dos mortos, seja humano, seja animal, ele não se mantém insensivel."
   Apesar de ser um livro relativamente curto, eu li Enterre Seus Mortos bem devagar, em pouco mais de uma semana. Acho que o conteúdo dele não é para ser absorvido de uma vez, por mais que o tom seco da autora sugira uma leitura rápida, o conteúdo do livro precisa de tempo para ser digerido. Não chega a ser nada extramente gráfico ou nojento - é só toda a enormidade da desolação que rodeia a vida dos personagens que as vezes fica difícil de aguentar. É tanta miséria, tanta coisa dando absurdamente errado, tanta gente de caráter duvidoso, que as vezes eu tive que deixar o livro descansar um pouco antes de retornar. 
   É interessante acompanhar essa verdadeira saga que Wilson e Tomás vivem nas páginas finais do livro mas, ao mesmo tempo em que apreciei a leitura, senti falta de algo mais. O final é super coerente com todo o livro e com a própria personalidade do personagem a qual o narrador acompanha ao longo da história mas, por algum motivo, fiquei esperando algum tipo de clímax. Obviamente, eu não conheço bem Edgar Wilson porque fiquei esperando o tempo inteiro que ele perdesse seu ar blasé, algo que não aconteceu
   Mesmo com essa "decepção", Enterre Seus Mortos é um livro que valeu a pena ser lido. Há algo meio faroeste nessa história, talvez o fato de se passar em um lugar "sem lei", que achei bem interessante. Os personagens também são bem marcantes - fiquei com vontade de reencontrar Wilson em alguma outra história da autora (sei que ele aparece alguns livros dela), de forma que é bem provável que eu volte a ler Ana Paula Maia em algum momento, se não por agora. 
     Nota 7,5 - o livro é bom mas tirei meio ponto por essa "decepção" com o final. 
   
 "Um abutre descreve uma curva e do céu aponta para a terra, abre as asas e sua envergadura acoberta o fio de claridade que ilumina o rosto da mulher. Pousa sobre a cabeça da mulher em riste e equilibra-se, recolhendo novamente as asas para junto do corpo. Olha Edgar Wilson antes de inclinar a cabeça e bicar o olho direito da mulher. O abutre grana e ainda o encara. Só então bica outra vez o olho da mulher até arrancá-lo, mantendo-o preso no bico. Edgar Wilson suspende a espingarda de pressão, aponta e com um tiro acerta a ave em cheio; morta, cai próximo a seus pés." (pág 40)



Não sou um Homem Fácil (Review)


   Damien é um daqueles homens que não consegue conversar com uma mulher sem flertar com ela. Mulherengo e um pouco machista, o personagem vê sua vida se transformar completamente quando, após bater com a cabeça em um poste, acorda em um mundo invertido em que os homens são o 'sexo frágil'. Quando ele percebe que não vai sair dessa tão cedo, tem que se adaptar ao novo mundo e ao que se espera dele como homem nesta realidade.
   Já tinha ouvido vários comentários positivos e negativos sobre esse filme quando resolvi assisti-lo na Netflix. Não esperava gostar tanto dessa história quanto gostei, embora consiga enxergar o porquê desse filme dividir tanto as opniões. 
   Vamos deixar claro desde o inicio: ao mostrar esse "mundo dominado pelas mulheres" a diretora não cria nenhum paraíso feminista. Ao contrário, o objetivo é simplesmente inverter as atitudes de homens e mulheres para expor o absurdo de algumas situações e escancarar a importância de, tanto homens quanto mulheres, perceberem e lutarem para o fim dessas situações. 
   Enquanto tenta se adaptar a depilação, estilo e atitudes diferentes, Damien acaba se relacionando com Alexandra, uma mulher que é basicamente o que ele era antes de acordar naquele mundo. Alexandra acha divertidíssima a história de Damien, que existe um mundo em que os homens dominam, e resolve escrever um livro sobre isso, ao mesmo tempo em que tenta seduzi-lo. 
   Embora tenha reflexões muito importantes, a abordagem do filme é bem leve  e não muito profunda, afinal, trata-se de uma comédia (humor francês mas okay). Me diverti acompanhando essa jornada de Damien e as dificuldades em "ser homem", ao mesmo tempo em que torci para que o relacionamento dele com Alexandra desse certo, mesmo sabendo que ela era o "boy lixo" da história.

   O final é o 'tapa da cara' final para o público e para a própria Alexandra e, no caso desta, tanto literal quanto figurativamente. Quando observamos o nosso mundo com esse olhar de estranhamento que a personagem tem, vemos o quão absurdo é algumas coisas que a nossa sociedade impõe tanto às mulheres quanto aos homens.
  Mesmo entendendo a importância desse final, senti falta de algo mais esclarecedor e conclusivo. Apesar disso, gostei demais do filme, talvez e principalmente pelas atuações do que pelas situações descritas: Tanto o ator que faz Damien (Vincent Elbaz), quanto a atriz que faz Alexandra (Marie-Sophie Ferdane) estão excelentes nesse papel. 
   Não há muito mais o que dizer: fica a dica dessa comédia divertidinha da Netflix, que consegue entreter e fazer pensar ao mesmo tempo. 
   Nota 8,5 - muito bom, mas tirei meio ponto pelo desfecho.