Persuasão - Jane Austen (Resenha)


   Persuasão é um dos últimos livros publicados vida pela escritora Jane Austen. Conta a história de Anne Eliot, uma jovem de família abastada, que se apaixona e fica noiva de um Zé-ninguém chamado Frederick Wentworth.
   O noivado porem não dura muito tempo: Persuadida pela família, Anne termina com o rapaz, que vai embora cheio de mágoa e sem entender seus motivos.
   Já tinha lido Persuasão há alguns anos. Na época tinha acabado de assistir A Casa do Lago e o livro era citado várias vezes. Me lembro de ter gostado da trama e dos personagens mas de ter terminado o livro um pouco decepcionada: Seja pela tradução ou por outro motivo, não consegui enxergar em Persuasão a mesma escrita que conheci em Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, livros que havia lido pouco tempo antes de iniciar esse.
   Voltando a trama, 8 anos se passam antes que Anne e Frederick se reencontrem. Dessa vez a situação está quase que invertida, Anne e a família tem que alugar a casa e se mudar afim de quitar dívidas, enquanto que Frederick agora é capitão e aparece na antiga residência de Anne para visitar a irmã, que havia alugado a casa.
    Se você nunca leu Jane Austen, prepare-se para uma narrativa lenta, com alguns tons de ironia e várias críticas sutis as aparências e ao modo de vida da época. Ao mesmo tempo há também aqueles momentos doces e românticos - mas não se deve ler o livro esperando por eles porque as coisas demoram para acontecer.
   Mesmo fazendo uma releitura, tive a sensação de que a história por vezes estava se arrastando sem nenhum sentido. No meio da narrativa, Frederick desaparece e você fica pensando porque agora essas pessoas de Bath são tão importantes e se ele vai aparecer de novo. Felizmente, não há "fillers" nos livros de Jane Austen, tudo na história tem um propósito, até mesmo a amiga doente de Anne.
   Acho que, assim como aconteceu com Anne e Frederick, o tempo só melhorou a minha relação com esse livro. Nessa segunda leitura (embora tenha achado a escrita da autora diferente em Orgulho e Preconceito) não tive qualquer dificuldade. Isso pode ser tanto devido a tradução da Zahar quanto a meu crescimento como leitora: há mais de 10 anos entre a minha primeira leitura de Persuasão e essa.
    Outra razão para esse livro ter crescido tanto no meu conceito com o passar dos anos tem haver com o tema da história. Por mais que seja uma história de amor, Persuasão também fala muito sobre escolhas e arrependimentos que fazemos na vida: O peso das decisões que Anne teve que tomar quando era mais nova influenciaram o seu caráter, tornando-a uma pessoa mais infeliz (mesmo que não estivesse arrependida). Acho que meu eu de 25 anos dialogou muito mais com essa história do que quando eu tinha 14.
    Não me entenda mal, eu gostei de Persuasão quando o li pela primeira vez. A minha decepção com o livro (além da escrita) foi por ter sentido que faltava alguma coisa na história. Agora percebo que nada faltava no livro mas sim em mim: maturidade e tempo transformaram Persuasão em um dos meus livros favoritos.
   Nota 9,0 - não é perfeito mas é uma das melhores releituras que já fiz.


O Estrangeiro - Albert Camus



Nenhum sofrimento me comove
Nenhum programa me distrai
Eu ouvi promessas e isso não me atrai
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu 'to exatamente aonde eu queria estar
(...)
A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mersault é o jovem narrador do estranho livro chamado “O Estrangeiro”, do autor Albert Camus. Porque uso o termo estranho ao tratar desse livro? Porque, embora tudo pareça tudo muito normal e corriqueiro algo também parece muito esquisito durante toda a trama.
Não é como se houvesse algum fato futurista ou fantástico. O estranho mesmo é o comportamento do narrador/protagonista Mersault. Um homem aparentemente comum, com um trabalho comum, pessoas que conversam com ele e o chamam de amigo, uma mulher que o chama de namorado. Tudo corriqueiro – a não ser pelo fato do narrador ser apático a tudo.
A canção Deja vú da cantora Pitty, cujo trecho foi colocado no inicio dá uma ideia de como reage esse personagem a tudo o que está a sua volta. O primeiro parágrafo é icônico e dá bem o tom de toda a trama:
“Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.”
Percebe-se desde o primeiro momento a indiferença de Mersault com a noticia e o mesmo se repete ao longo de toda a narrativa. A morte de sua mãe, o encontro com uma namorada, seu vizinho espancando o cachorro, nada o abala. Nem mesmo a ideia de uma promoção, de ir morar em Paris a trabalho parece capaz de esboçar qualquer reação de Mersault. Nem mesmo rir esse personagem consegue, é como se estivesse algo nele fechado para o mundo, um abismo que a realidade não consegue transpor.
Como uma espécie de Bartleby emocional (ao invés de “prefiro não faze-lo”, temos o “prefiro não senti-lo”), vemos esse personagem se metendo em uma série de situações moralmente duvidosas na parte 1 até que, ao final desta, ele comete o ato mais impensável possível: mata um homem, sem motivo algum.
Peço perdão caso considerem isso um spoiler, mas está na orelha do livro. De toda forma, nem mesmo matar um homem a sangue frio e sem razão provoca uma reação de Mersault. Na verdade, só há um momento da trama em que vemos algum tipo de emoção e essa emoção é a fúria do personagem quando alguém lhe diz que vai rezar por ele.
O que é Mersault? Qual o significado dessa história e dessa vida aparentemente carente de propósito? Camus parece estar querendo fazer uma metáfora aqui e, me arrisco a dizer, a mensagem talvez seja a de que – no nosso mundo sem raízes e sem pensamento crítico que vivemos hoje – temos todos um pouco de Mersault. É muito fácil levar a vida no automático, não refletindo ou pensando sobre nada, apenas comendo, dormindo e aproveitando tudo o que podemos. Sem moralidade, sem imoralidade, apenas aquela indiferença eterna, no trabalho, na vida, nos relacionamentos. Talvez seja por isso que o livro seja tão perturbador, afinal: é muito fácil se tornar um Mersault.
Ou talvez não seja nada disso e a mensagem de Albert Camus seja outra completamente diferente. Mas deixo aqui minhas reflexões e recomendo o livro para que você também tire as suas. Não sei exatamente se gostei dO Estrangeiro, mas quero ler outras coisas do autor.
Se for preciso dar uma nota: 8. Até a próxima.

|SINOPSE NO SKOOB|




Kindred: Laços de Sangue - Octavia E. Butler


    Eu amo histórias com viagens no tempo mas, quando me perguntam para que período da história eu voltaria me resposta sempre foi "nenhum". Isso porque, além de questões de tecnologia, modernidade e higiene que eu considero essenciais, a cor da minha pele impediria que eu tivesse uma daquelas aventuras divertidas que leio e assisto.
   Kindred parece ter saído de um dos meus piores pesadelos a respeito de viagem no tempo: a protagonista, Dana, é uma mulher negra que volta dos anos XX (1976) para o Sul pré-abolicionista. Obviamente as coisas não são tão fofinhas quanto um Outlander da vida - Dana tem que não só lutar pela sobrevivência mas também para manter sua identidade.
   Com uma narrativa hipnotizante e personagens humanos, Kindred foi a primeira leitura de 2018 e, com certeza, já entrou pra lista de melhores do ano. Gostei de muitas discussões que ele trás, sobre relacionamentos, sobre racismo, sobre feminismo.
   Embora não tenha muitas explicações sobre o porquê dessas viagens no tempo que Dana faz, tudo parece estar relacionado à seus antepassados que viveram nesse período, Alice e Rufus.
    Um dos pontos interessantes é o contraste entre o relacionamento de Dana e do marido com o relacionamento vivido por seus antepassados. Embora ambos sejam relacionamentos interrraciais é bem claro a diferença entre um relacionamento do tipo da década de 70 e no período da escravidão. Não é possível a construção de qualquer coisa saudável em um ambiente em que uma das partes é posse da outra.
   Também é interessante a reflexão da autora sobre o quão fácil é se acostumar com a escravidão. Quando chega a esse mundo Dana acha tudo insuportável e o leitor também. Depois de um tempo, como numa síndrome de estolcomo, ela começa a se acostumar e até ver um pouco de vantagem nos tipos de servidão mais "tranquilos", como o cuidado da casa, por exemplo. Fica cada vez mais fácil pra Dana baixar a cabeça e se sujeitar a humilhações diárias quando ela percebe que a alternativa é ser surrada.
   Achei que fosse difícil escrever sobre esse livro porque ele ainda não foi 100% digerido. Vez ou outra me pego pensando na história, nos personagens e nos temas tratados por Kindred. Mesmo com essa dificuldade, achei por bem escrever sobre ele para incentivar quem não conhece a conhecer essa obra de uma das maiores autoras da ficção científica.
   Recomendo demais. Nota: 9,0 - muito bom



As Mil e Uma Noites - volume 1 (Resenha)



   Foi lá por outubro de 2017 que eu peguei esse livrinho para ler, disposta a iniciar meu caminho por esse clássico árabe. O "livrinho", no entanto, só está inserido as "Mil e uma Noites" por ser a minha edição de bolso: só o primeiro volume tem mais de 600 páginas. E o segundo (a minha edição só tem dois volumes) também é uma pequeno calhamaço de tamanho similar.


   Enfim, peguei esse livro disposta a ler sem pressa, pensando até mesmo em ler uma das noites a cada dia. Mas esse plano não deu certo porque:

1) não consegui ler todos os dias (#shameonme)
2) não dá para ler um único dia e parar

   As mil e uma Noites conta a história de uma moça, Sherazade, que começa contar uma história para o marido na noite de núpcias e não termina até bem depois. Na verdade são dois volumes dessas histórias, que vão se ligando uma a outra de forma aparentemente infinita (não cheguei ao final de tudo, então não sei se acaba ou não).
   De autor desconhecido, As Mil e Uma Noites é uma espécie de reunião de histórias e lendas dos povos Árabes, sempre narrada de forma envolvente e interessante. Os temas podem parecer mundanos mas sempre algo fantástico ocorre, seja a aparição de algum ser (gênio, fada, gigante) seja por alguma coincidência maravilhosa.
   Uma expressão utilizada bastante nesse livro é a de que "Sherazade retomou o fio da história". Gosto muito dessa forma de dizer que ela continuou a contar a narrativa porque mostra bem o que são As Mil e uma Noites: um tecer de várias histórias que a personagem principal vai contando para envolver seu marido Sultão. O objetivo de tantas histórias é salvar sua vida: depois de ser traído, o sultão decide que vai desposar uma mulher por noite e matá-la no dia seguinte (afim de evitar uma nova traição). Sherazade já é a quinta ou sexta esposa mas, ao contrário das outras, ela se oferece para o cargo porque está disposta a impedir que mais moças morram. Com ajuda de sua irmã, Dinazade, a protagonista começa a narrar essa história sem fim, e os dias vão passando sem que o sultão deseje matá-la - ele quer saber como a história termina.

   Embora seja supostamente narrado por uma mulher, o livro tem algumas situações tão machistas que chegam a ser absurdas. Nesse momento cabe a tão famosa contextualização: não dá para julgar uma história tão antigas pelos nossos padrões atuais, não seria justo. Mesmo assim, é meio chocante perceber quão pouco valor as mulheres tinham naquele tempo; em uma das histórias, por exemplo, o homem desfigura a mulher com chibatadas porque estava com ciúme dela (e os dois ficam juntos depois disso).
   Mesmo com algumas cenas bem bizarras o livro é delicioso. As histórias são todas interessantes e é impossível não ficar envolvido nesses "fios" da narradora/protagonista vai puxando. Os temas, apesar de tantos anos de sua publicação, são os mesmos que atraem grandes audiências até hoje: morte, amor, dinheiro... Histórias universais que possuem temas que qualquer pessoa, em qualquer período do tempo, consegue entender.
   Por mim começaria o volume dois imediatamente mas estou lendo tanta coisa que acho que iria acabar tendo que parar no meio ou não dar tanta atenção quanto a trama merece. De todo modo, indico muito essas histórias para quem quer conhecer um pouco mais da cultura árabe, mas também para os que querem se divertir com um clássico.

   Nota 9 - muito bom.



Os posts que não fiz


   MissCarbono não é o blog que eu tenho a mais tempo mas é aquele na qual eu posto com mais frequência: toda sexta feira tem post (a não ser que algo muito sério aconteça).
   Dito isso o blog acaba virando um reflexo do que eu leio e assisto. Até para fazer lista de melhores do ano eu tenho que olhar no blog, afim de lembrar do que assisti.
   Isso quer dizer que posto tudo o que assisto e leio por aqui? Depende. Há momentos em que o MissCarbono é uma cópia carbono (haha) da minha vida como leitora e pseudo cinéfila. Em outras, muitas coisas acabam ficando sem postar.
   Um exemplo recente é o filme "Mãe!". Me senti incapaz de escrever o que quer que fosse sobre esse filme: primeiro porque tudo o que havia de interessante a ser dito sobre ele ia havia sido publicado antes. Segundo porque eu não consigo definir (mesmo hoje, tanto tempo depois) se gostei do filme ou não.
   O que me leva a outro ponto. Eu meio que parei de fazer resenhas de livros que eu não gosto. Sinto que não vale a pena, sabe? Na maioria das vezes, comento o filme/livro no direto ao ponto e sigo com a vida. Para que perder tempo falando de algo que não gostei?
   Claro, tem exceções. As vezes você faz questão de assinalar o que não gostou. O maior exemplo disso é um dos posts mais famosos do blog, onde explico porque "Cinquenta tons mais escuros" foi uma verdadeira decepção para mim. Na maioria das vezes, porém, não há muita coisa a ser dita quando o livro/filme não é bom. A gente só não gosta e pronto.
    É o caso de 50 tons de liberdade, por exemplo. Eu só não gostei do filme ( o livro eu nem li). Poderia fazer uma review falando em como Christian é um dos piores heróis masculinos que já vi em tela mas, sério, para que? Quem gostou dos outros filmes, vai gostar desse, quem não gostou, não vai passar do primeiro e pronto. 
   Enfim, vocês vão perceber, se ainda não perceberam, que nas próximas semanas teremos muito poucos "direito ao ponto" ou postagens falando de filmes /livros que não gosto ou sobre o qual não tenho muito o que falar. Espero encher esse espaço com mais coisas que gosto e que acho interessantes. Deixar de comentar sobre o que não gostei não será sacrifício nenhum.



Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi (Review) #Oscar2018


   O filme começa com dois irmãos cavando uma cova, tentando finalizar antes que caia uma tempestade. Logo depois, eles vão carregar o caixão para aquele buraco que abriram mas não conseguem baixá-lo em sincronia, o buraco é muito fundo. Nesse momento Henry, um dos homens que estão ali fazendo tentativas de colocar o caixão na cova, vê Hap e sua família passando e pede ajuda para conseguir colocar o corpo de seu pai no túmulo. Segue-se um clima pesado mas só vamos entender o porquê no final de Mudbound (ou Lágrimas sobre o Mississipi).
   Mudbound narra a história das famílias de Henry e Hap, que são vizinhos em uma fazenda. Tanto Hap quanto Henry tem parentes que foram enviados para a guerra ( o filme se passa na década de 40) mas somente Jamie, o irmão de Henry, volta como um herói: Ronsel, o filho de Hap e Florence não tem tal tratamento por ser um negro vivendo num estado racista como o Mississipi nesse período. 
   Sabe aquele filme que parece ter sido feito para concorrer a um Oscar? Mudbound tem todos os requisitos: Questão social, fundo histórico, atuações excelentes, cenas dramáticas. O filme não fica perdendo em nada à qualquer dos indicados desse ano, sendo até mesmo superior a alguns.


   Através da narrativa em primeira pessoa de cinco pessoas diferentes - 2 brancos e 3 negros - Mudbound constrói uma história tão realista que chega a ser difícil de assistir em alguns momentos. É algo parecido com o que aconteceu comigo quando eu assistia "12 anos de escravidão", uma sensação pesada enquanto assistia a um filme. Mudbound pelo menos termina num tom mais leve, mas nada é fácil para os personagens desse filme, principalmente aqueles que são negros.
    Comparei, em sentimentos que me causou, Mudbound a um vencedor do Oscar, 12 anos de Escravidão. No entanto, o filme não concorre nessa categoria, tendo sido indicado apenas por fotografia, roteiro e melhor atriz coadjuvante (Mary J. Blige, excelente como Florence). Como um filme concorre a melhor roteiro adaptado mas não a melhor filme? Coisas do Oscar, já aconteceu algumas vezes. O que me incomoda mesmo é a sensação de que essa história teria sido mais lembrada se não fosse uma produção da Netflix.


   Não é irônico que um filme sobre o racismo e preconceito sofra de preconceito? Não se trata aqui de questão racial mas sim preconceito por ter sido por um serviço de streaming. Mesmo tendo passado nos cinemas (é requisito para o Oscar) o filme ainda foi esnobado pelos sindicatos nessa premiação tão importante. O Oscar sempre foi muito injusto mas creio que já está na hora de Hollywood parar com essas picuinhas contra produtoras como a Amazon, Netflix e Hulu. Se o fizesse, essa lista de indicados desse ano talvez tivesse Mudbound concorrendo a melhor filme.
   O lado positivo é que você pode assistir ao filme e perceber toda a injustiça que foi cometida no conforto da sua casa: Mudbound já já estará disponível na Netflix. O filme é um pouco longo mas está longe de ser insosso - há personagens que nos dão tanta raiva que dá vontade de socar a tela e cenas que são tão pesadas e doloridas que sequer dá pra chorar. Para você ter uma ideia: A Ku Klux Khan aparece nesse filme. 
   Desculpe a piada ruim mas esse filme é "BBB": bom, bonito e bem escrito. 
    Nota 8

|TRAILER|


The Post - A Guerra Secreta (Review) #Oscar2018


   Após a morte do marido Kat Graham se torna a dona do Washington Post, jornal que está em sua família há anos. Kat se prepara para abrir o capital do jornal no mercado de ações e, ao mesmo tempo, tem que lidar contra o descrédito por parte de seu próprio conselho, que não acredita que ela, uma mulher, tem força para liderar o negócio. Estamos na década de 70, afinal, e as mulheres ainda tinham um longa caminho a percorrer na busca por participação no mercado de trabalho. 
   The Post provavelmente será o último filme dos indicados ao Oscar que assistirei. Não só porque a premiação é hoje a noite mas porque não tenho muita vontade de assistir ao filme que falta, O Destino de Uma Nação. Talvez eu mude de ideia, talvez não mas, se esse for realmente o último filme, posso garantir que encerrei minha saga do Oscar com chave de Ouro.
   Steven Spielberg é um diretor premiado e aclamado tanto por crítica quanto pelo público e, nesse filme, coloca em ação mais uma vez a sua capacidade de contar histórias profundas e emocionantes. Meryl Streep e Tom Hanks tambéms dispensam comentários: É quase como se fosse um dream team realizando esse filme.


    The Post segue aquele roteiro Davi vs Golias ao contar a história desse - até então - pequeno jornal chamado Washington Post e sobre como eles acabaram sendo responsáveis por toda uma decisão da suprema corte envolvendo liberdade de imprensa. As informações que o jornal tem acesso provam que o governo americano não só interviu na política do Vietnã mas também continuou com a guerra mesmo sabendo que tinha poucas chances de ganhar. 
   Tom Hanks vive o editor-chefe do jornal e desempenha o papel de co-protagonista ao lado de Meryl Streep, que vive Kat Graham. A personagem vivida por Meryl tem um dos arcos mais interessantes da história, é nítida a mudança que vai se operando em sua pessoa ao longo do drama envolvendo a publicação (ou não) dos documentos secretos. Em um mundo rodeado por homens, Kat começa ansiosa e insegura mas vai, aos poucos, assumindo seu papel como dona de uma publicação. A mudança ocorre aos poucos mas um cena, perto do final, mostra que temos uma nova Kat, disposta a ignorar conselhos para fazer o que acredita ser o melhor para o seu jornal. Minha cena preferida dessa personagem ocorre no final, quando Kat está saindo do tribunal da Suprema Corte Americana.
   Obviamente The Post tem contornos políticos e sai em um momento em que se discute a liberdade de imprensa nos Estados Unidos, em meio a governo Trump. Aliás, Trump e Nixon tem algumas coisas em comum, como o fato de censurar a entrada de membros da imprensa à casa branca... Não é exclusividade desses dois presidentes, claro, mas é obvio que a discussão sobre imprensa da década de 70 que ocorre nesse filme tem muito haver com a discussão que ocorre hoje.


   Uma das coisas que mais gostei do filme foi como mostraram a relação entre políticos e jornalistas. O Whashington Post, sendo um jornal da capital dos Estados Unidos, tinha tudo para ser um dos mais argutos jornais do países, estando as notícias políticas praticamente no seu quintal. O que acontecia, no entanto, era uma relação de comadres entre a imprensa e o governo, que fez com que o Post permanecesse por anos como um jornal menor.
   O relacionamento vergonhoso entre imprensa e governo pode ser aplicado aos dias atuais, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Dá para acreditar que todo o escândalo da Lava Jato foi revelado pela polícia e não pela imprensa? Onde estão os jornalistas dos dias atuais que deveriam estar cobrando e espezinhando políticos?
   Claro, ainda existem bons jornalistas, que acreditam no trabalho e na liberdade. À eles, e a todos que querem um filme jornalístico inspirador, indico "The Post".
   Nota 9 - muito bom

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