Nós / Us (2019)



   No dia de seu aniversário, uma menina passeia com os país por um parque que fica próximo ao mar. Entediada ou levemente curiosa, a menina aproveita-se de um momento em que a mãe teve de sair e vai perambulando pelo lugar, até se ver em uma casa de espelhos. Naquele lugar ela se encontra com algo que vai marcar sua vida para sempre. 
   Muitos anos se passam e Adelaide e Gabe estão levando os filhos para a casa de praia, afim de passarem o final de semana juntos com uma outra família amiga. Mal poderiam imaginar que essas simples férias poderiam levar a uma situação bizarra, situação essa curiosamente relacionada com os eventos de alguns anos. 
   Fui assistir Nós sem nenhuma informação do tema do filme e acho que você deveria fazer o mesmo. Claro, vi algumas divulgações mas, fora isso, nenhum simples comentário ou spoiler chegou até mim. Isso foi bom porque me colocou em uma posição de assistir ao filme sem ter muito certeza do que estava prestes a ver. 
  Fiquei hipnotizada pela história desde a primeira cena. A direção, a história e a trilha sonora (que alterna momentos clássicos com canções populares) são dignas de todos os elogios possíveis. Você quer saber o que está acontecendo ali e o que tudo isso significa - mas a resposta para isso pode de deixar ainda mais confuso do que você estava no começo. 

   Jordan Peele apresenta em Us (Nós, em português) uma história que pode ter interpretações sociológicas, filosóficas e psicológicas. É um filme com muitas camadas e com muitas cenas que parecem carregadas de simbolismos e pistas para o espectador, tudo isso ao mesmo tempo em que somos imersos naquela tensão que os protagonistas sentem quando cópias de si mesmos aparecem em sua casa. 
   A questão do duplo não é exatamente nova nem no cinema e nem na literatura mas, aqui, não há uma explicação fácil para isso. O que significa o aparecimento dessas pessoas de vermelho com uma tesoura na mão? O que eles são, o que querem? "Somos americanos", responde a mulher de vermelho que se parece com Adelaine. Em outros momentos, ela refere-se a si mesma como sombra ou chama as pessoas de vermelho de "acorrentados".
   Ao invés de nos dar apenas uma resposta Peele nos dá várias. A coerência interna do filme pode até apontar para uma origem específica, mas isso não significa que o filme se esgote nela. Na verdade, ele parte desse pressuposto supostamente fantasioso para lidar com questões que podem ser bem complexas, fantasiosas ou não.
   Assisti a Nós por duas vezes no cinema e, ainda agora, percebo que há muitos detalhes do filme esperando para serem percebidos nas próximas vezes em que assistir. Eu, particularmente, tenho uma predileção por aspectos psicológicos nesse tipo de história, o duplo sombrio e maldoso como um aspecto indesejado da nossa própria mente. Nós o deixamos longe da superfície por tanto tempo que, quando ele por fim escapa, se torna incontrolável e pronto para nos destruir.  

   Nesse sentido, não pude deixar de lembrar de Cisne Negro enquanto assistia 'Nós'. Principalmente na segunda vez, quando a história já estava contada para mim e pude apreciar os detalhes, senti que Adelaine tem um pouco de Nina, na medida em que vai, ao longo do filme, passando por uma espécie de transformação, tendo, inclusive, seu ápice em uma espécie de dança. Por essa visão, penso que o Nós do título diz muito mais a respeito de Adelaide que de sua família. 
   Mesmo que eu esteja certa e o título diga respeito a personagem de Lupita Nyong'o (maravilhosa!), a participação de sua família na história apenas acrescenta a trama. Em alguns desses momentos o filme flerta com a comédia, algo que já tínhamos visto em Corra! nas interações entre Chris e seu amigo. Há também algumas cenas que tem muito do gênero de ação mas, não se engane, ainda estamos em um filme de terror. E um muito bem escrito e dirigido, por sinal - as comparações com Hitchcock que Peele tem recebido são reflexo disso. 
   Gosto muito de Gabe e Zora mas Jason, o filho mais jovens, é um dos personagens mais complexos depois de Adelaide. O tipo de relação que ele desenvolve com o seu duplo e diferente dos demais e, além disso, apesar da pouca idade, Jason é muito observador e, em certa cena do filme, sua reação representa justamente aquela que o espectador tem assistindo a história. 

   Indico Nós para que gostam de histórias de suspense e terror, mas sem clichês. Vi gente reclamando de supostos "furos" do roteiro ou do terceiro ato (que explica demais), ou do pequeno twist do final. Acho que as pessoas estão tão acostumadas com filmes que explicam tudo que, quando isso não ocorre, chamam de furos. Dizer que o filme se explica demais também me parece um pouco bobo, como se a pessoa se limitasse a acreditar em tudo o que os personagens disseram ou falaram sobre o que estava acontecendo. 
   Quanto ao twist, ele é sensacional e um dos motivos pelo qual tive que ver esse filme outra vez. Ao invés de explicar a história, ele deixa tudo ainda mais complexo ao lançar na nossa cara algo que estava ali o tempo todo e que preferimos não enxergar. Qualquer teoria que você possa ter sobre esse filme apenas se complica quando vem a virada do final - a sensação é que estamos participando de um truque de mágica, como aqueles que Jason vive fazendo ao longo da história: ficamos surpresos mas ao mesmo tempo confusos, como se tivéssemos perdido algo. 
   Nota 9,5 - o meio ponto é por puro capricho. Vocês precisam assistir Nós.  


Creep (2014)



   Creep é um daqueles filmes de terror que certamente teria passado despercebido por mim, não fosse uma indicação que li na Internet. Acho Adriana, do canal redatora de merd@ que comentou no Twitter uma vez sobre esse filme e, desde então ele se alojou no meu subconsciente, pronto para aparecer ao menor sinal de tédio.
   Foi o que aconteceu. Sábado a noite, ninguém dava sugestões legais ou se empolgava por qualquer coisa que havia na Netflix. Foi quando aquela imagem do homem com máscara de lobo surgiu na minha mente e eu pensei "porque não?" - o fato do filme ter 1 hora e 17 minutos de duração também foi um importante motivador. Afinal, se nada mais der certo, o tempo perdido equivale ao mesmo que um episódio de uma série meia boca da própria Netflix.
   Narrado com aquela câmera em "primeira pessoa" (found footage), Creep conta a história de Aaron, um cinegrafista que vai até uma casa nas montanhas devido a um anúncio que viu nos classificados. Chegando lá, ele conhece Josef, que é um cara bem excêntrico, para dizer o mínimo. Josef quer gravar um vídeo para o filho que está prestes a nascer, já que foi diagnosticado com uma doença terminal. Apesar da visível estranheza do seu contratante, Aaron resolve ficar. 
   Creep foi escrito por Mark Duplas e Patrick Brice, justamente os atores que fazem Josef e Aaron. A direção fica por conta de Brice, enquanto Duplas faz a produção. Não fosse o fato de que a produtora é a Bloomhouse, eu diria que esse era um filme caseiro, tanto por essas informações quanto pela simplicidade da história que, realmente, parece ter sido gravada com aquela única câmera e aquelas duas pessoas. 
   Não que isso seja algo negativo. Gosto das formas que o filme se utiliza para criar a empatia entre quem está assistindo com o protagonista - algo que seria difícil, sendo ele também o câmera. Gosto também como eles fizeram desse found footage algo interessante e não cansativo como os últimos filmes do gênero que vi. Não espere efeitos mega especiais ou cenas sanguinolentas - o terror aqui é muito mais do fato de imaginar exatamente o que Josef quer com Aaron. 
   Conforme o dia passa as coisas vão ficando mais e mais estranhas. Aaron parece perceber que a situação é, no mínimo, inusitada, mas parece não conseguir se livrar dela. Sabe aquelas pessoas que tem receio de parecerem mal educadas ou desagradáveis? Esse é Aaron. É o típico personagem que até pode conseguir ser mais esperto que o antagonista em algum momento mas que sempre acaba sendo traído por sua natureza bondosa. 
   Não quero dar spoilers e o filme é relativamente curto, então, se você gosta de filmes de terror, dê uma olha em Creep. Não vai mudar sua vida, não vai revolucionar o cinema, mas garanto que vale alguns arrepios - a cena em que conhecemos Peachfuzzz é um dos pontos altos do filme para mim. 
   Nota 8 - bom filme do seu gênero, perfeito para um sábado em casa.   
   

Sangue no Olho - Lina Meruane


   Um dia como qualquer outro, uma festa no apartamento de uma amiga. Ela abaixa para pegar qualquer coisa que caiu ao chão e, de repente, está lá. Acontece o que ela sempre temeu. Com um sentimento de ódio que vai crescendo cada vez mais, Lina (a protagonista tem o mesmo nome da autora) vê sua visão ser coberta de sangue e, finalmente, escurecer tudo. 
    Sangue no Olho conta a história dessa protagonista que vê-se ficando cega de um dia para o outro. Geralmente, ao narrar histórias de pessoas com deficiência (de nascimento ou adquirida) usa-se muito um tom de superação. Os protagonistas dessas histórias também seguem um padrão, sendo todos muito conformados com a situação que se encontram. Ou então eles estão começam a história muito desgostosos da vida mas conseguem ir adotando uma visão mais positiva. 
   Ao meu ver um grande diferencial desse livro é que foge do senso comum citado no parágrafo anterior. Lina está ficando a cada dia mais cega e debilitada mas isso não faz dela uma pessoa mais gentil ou amável com as pessoas próximas de si. Na verdade a protagonista vai se tornando cada vez mais amarga e um tanto desesperada com a própria situação - desespero esse que leva a um desfecho que é bem chocante.
    O início do livro se passa em Nova York. Ao perceber o sangue cobrindo sua visão, Lina (Lucina) logo marca uma consulta com o médico, pensando que finalmente iria chegar o momento, que iria ter que operar dos olhos e torcer por um milagre. Pensava até mesmo em um transplante, para não ter que imaginar como seria ficar o resto de sua vida daquela forma. 
    A surpresa que teve quando vai se consultar é que o médico, Dr. Leks, não vai operá-la imediatamente como havia prometido. Ele quer esperar um período de um mês para ver (sem trocadilhos) se o sangue sai dos olhos de Lina espontaneamente e, também, para uma série de exames.  
   Lina então resolve ir visitar os país em Santiago. Esse foi um momento que gostei bastante do livro, já que minha última viagem foi justamente para a Capital do Chile. Não fiquei por muito tempo mas foi legal ver a protagonista se referindo a lugares que eu já conhecia e já havia visto. 
   Na casa dos país, Lina continua dando mostras de seu jeito de lidar com a situação. Os país querem que ela opere em Santiago mesmo, com um doutor amigo deles (os país de Lina são médicos) e que tem formação em Harvard. Quanto mais o pai insiste nessa surgia, mais Lina a rejeita. A recusa dela tem muito mais haver com a forma com que o médico de Santiago a tratou quando foi consultar-se, do que com qualquer tipo de critério técnico. Lina confia no dr. Leks, um soviético que sequer se lembra do nome dela durante as consultas. Essa confiança toda me pareceu muito mais um ato de desafio aos pais (estão vendo só em quem eu confio?) do que qualquer outra coisa. 
   Com uma criação dada quase sempre pelo irmão mais velho, Lina cresceu um tanto afastada dos país, sempre médicos muito ocupados. Logo, quando percebe o desespero da mãe com sua situação, Lina se sente desconfortável, como se ela estivesse querendo, com sua atuação de desespero, se retratar de todos os anos de indiferença. 
   Esse é o ponto de vista da narradora e protagonista (o livro é em 1ª pessoa) mas não significa que seja o ponto de vista correto. Lina me pareceu uma pessoa um tanto egoísta, que oscila entre a rebeldia e necessidade de independência e um desejo patológico de ter alguém a sua mercê, para que possa usar como quiser. Alguém dá a entender que se trata de qualquer um, mas Lina quer mesmo que Ignácio, seu namorado, cumpra esse papel de seu salvador, aquele que irá se sacrificar com ela. Ignácio por sua vez, tem uma espécie de vocação para agir conforme os desejos de Lina, o que faz com que ela vá perdendo a falsa objeção que demonstrava em tê-lo como seus olhos o tempo todo. 
   Dizer que gostei desse livro não é o termo correto. Claustrofóbico, Sangue no Olho envolve o leitor no desespero (e certa dose de loucura) da personagem e não solta até a última página. Alguns trechos são particularmente agoniantes, um deles é uma cena em que Lina e o namorado estão de avião voando de volta para Nova York. Foi o momento do livro em que eu percebi que a sanidade estava começando a deixar a mente da protagonista. 
   Indico para os que gostam de livros bem escritos e para quem quer fugir de ler sempre só autores americanos ou ingleses. A escritora chilena parece ter total domínio da sua personagem e de sua história e descreve tudo de forma tão realista que cheguei a me perguntar o quanto de ficção e realidade havia nas páginas. Acho que as fronteiras são tênues - descobri que Lina Meruane, além de ter o mesmo nome que sua personagem protagonista, também possui como tema de doutorado o mesmo que a Lina do livro e carrega a mesma doença que enche os olhos de sangue. Sangue no olho pode não ser uma autobiografia, mas possui vários elementos da biografia da autora. 

   Gostei demais e, ao mesmo tempo, não sei se gostei é a palavra certa para expressar os sentimentos angustiantes dessa leitura. Nem sei se a nota 8 também expressa esses sentimentos corretamente, mas é a nota que eu atribui. 

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Cloro - Alexandre Vidal Porto


*LIVRO CEDIDO PELA EDITORA PARA RESENHA. OPINIÕES INDEPENDENTES. 

   Logo nas primeiras páginas a noticia de que o narrador e protagonista da história está morto. Numa espécie de limbo, Constantino resolve repassar os fatos de sua vida, principalmente as circunstâncias que o levaram até a sua morte precoce, aos 51 anos. Desapegado dos medos e vergonhas que sentia enquanto vivo, ele pode (finalmente) falar de forma livre sobre algo que escondeu durante toda a sua vida, sua homossexualidade. 
    Embora seu conteúdo seja triste, Cloro não foi escrito para fazer o leitor chorar. Talvez o fato de ser narrado por esse personagem que é um defunto-autor dê a trama certo distanciamento, tornando mais fácil acompanhar alguns momentos dessa história. Afinal, tudo o que estamos lendo é passado, a realidade presente é que Tino está morto e, portanto, muito distante de tudo o que passou. 

"Tem gente que passa a vida fugindo de uma coisa sem compreender que não existe fuga possível, que não adianta lutar, que não adianta ter controle. Foi o que aconteceu comigo e, antes que minha memória se apague, preciso entender como gastei a vida".  (pág. 12)
   Uma coisa interessante narrada na história é a forma como a homossexualidade foi revelada ao personagem. Ao ser chamado de "bicha" (ou "viado", não me lembro) por seu colega de turma quando tinha 8 anos, Tino percebe que há algo nele que era diferente das outras pessoas. Como a descoberta veio na forma de xingamento, de injúria, Tino passa a rejeitar aquele termo e tudo o que nele enseja. Ele organiza a sua vida a partir daquele momento, daquela injúria, para não dar razão aos xingamentos, para não ser aquilo que o coleguinha de turma via nele
   Ele se casa aos 21 anos, com Debora, sua namorada da juventude. Pouco tempo depois vem os filhos, um menino e uma menina. De repente a vida de Tino estava perfeita e o destino parecia promissor, aquela palavra esquecida para sempre. Mas a vida não é algo que você se planeja e logo um acontecimento trágico vem atrapalhar aquela vida familiar que Tino usava como escudo. Ele então se vê analisando os desejos que tem desde sempre dentro de si, uma homossexualidade nunca exercitada mas que sempre ficou latente, mesmo quando Tino pensava ter tudo superado. 

"Quanto tempo vou ficar na escuridão? Será que a morte é isso, uma escuridão perpétua dentro da gente, uma tentativa sem fim de entender o que aconteceu na vida? Acho que, aqui, nada de novo surgirá". (pág. 101)
   Cloro é um livro bem curto, suas palavras certeiras e direto ao ponto. Tino tem algumas atitudes um tanto reprováveis ao longo da história mas é difícil julgá-lo, ainda mais sabendo que ele já morreu. E, pior, que viveu uma vida de mentira e segredos, que nunca conseguiu assumir sua homossexualidade, que apenas gastou a vida ao invés de vivê-la - quando começou, de fato, a viver, foi-se. Não dá para censurar Tino, esse personagem que é fruto de uma época mais conservadora, que não tornou fácil a sua vida. Sim, Tino traiu a esposa, mas isso é tão pequeno perto de todas as nuances da história, que acabou sendo deixado como mais um aspecto infeliz de uma vida infeliz. 
   Após concluir a história de Tino, o autor faz alguns capítulos comentando sobre a reação de certos personagens citados na história, algo que achei tanto desnecessário quanto interessante. O capítulo dedicado a Debora, particularmente, foi o que eu mais gostei dessa sessão.. Queria, inclusive, que houvesse mais páginas sobre essa personagem que parece guardar alguns segredos ela mesma. Entendo, porém, que isso seria desviar o foco do tema do livro que é a história de Tino. 

"A vida, para mim, se transformou numa sequência infindável de cenas das quais eu participava sem ter fala." (pág. 135) 
   Nunca tinha lido nada de Alexandre Vidal Porto mas já coloquei Sergio Y. vai a América na minha lista de futuras leituras. Gostei dos temas que o autor apresenta e, mais ainda, gostei da forma com que o autor narra suas histórias e como constrói personagens únicos e cotidianos ao mesmo tempo
   Recomendo Cloro para quem gosta de boas histórias contemporâneas, com bons personagens. A temática é LGBT mas os sentimentos que o livro evoca são universais então seria realmente uma pena se alguém colocasse esse tipo de rótulo no livro e deixasse de lê-lo por isso. 
   Nota 9 - muito bom. 


|SINOPSE|


Megarromântico (2019)

   

   O saudosismo tem dominado o entretenimento de massa. Nos últimos anos tem sido comum filmes, séries ou até mesmo livro que fazem referência a outros filmes, séries ou livros publicados no passado. Essas referências podem ser desde uma música mais retrô (alô, Guardiões da Galáxia) até citações de obras ou cenas. O Jogador nº 1 é um dos exemplos mais extremos desta nova era do cinema mas temos exemplos mais sutis como Para todos os garotos que já amei que é praticamente uma homenagem à romcoms adolescentes mas sem copiar exatamente nenhum deles.
   Megarromântico pega um pouco desse saudosismo já tão utilizado ao contar a história de Natalie: Quando criança, ela adorava filmes de romance, daqueles bem água com açúcar, que costumam levar a finais felizes mas, devido a comentários críticos de sua mãe, sua percepção mudou e ela cresce odiando tudo e qualquer coisa que possam envolver o amor. 
   Um belo dia, durante um assalto, Nat acaba batendo com a cabeça e acordando na sua própria versão de uma comédia romântica para menores de 13 anos. Em dúvida sobre o que fazer para sair do que considera ser um pesadelo, Natalie chega a conclusão de que precisa que alguém se apaixone por ela - dessa forma, o "filme" acabará e ela poderá retornar para a sua vida antiga. 

   Embora algum filme romântico ou outro seja eventualmente citado durante Megarromântico, a grande sacada do filme é fazer piadas com todos os clichês desses filmes que amamos tanto e, com isso, criar uma história de auto-aceitação bem convincente. O saudosismo aqui está por conta do próprio expectador já que o filme exagera alguns pontos desse tipo de filme para criar humor e expor que, sim, é tudo um pouco ridículo - mas que isso não significa que não podemos encontrar o amor da nossa própria maneira. 
    Não sou muito fã da Rebel Wilson, acho ela forçada em alguns momentos, mas nesse filme ela está bem melhor do que em Pitch Perfect, por exemplo. Falando em A escolha perfeita, Adam DeVine também está nesse filme e, pasmem, novamente faz um aparente par romântico com Wilson. Gosto bastante desse ator, ele tem uma daquelas caras que são tão simpáticas que você não pode evitar torcer por ele em qualquer filme. 

   Para quem está tendo um dia ruim e que uma história divertida, com homens bonitos e cenas com os personagens cantando em um karaokê, Megarromântico é uma ótima pedida. A Netflix tem se saído bem com esses filmes mais "água com açúcar", sendo uma das poucas a ainda produzir algo nesse gênero hoje em dia. Eu gostei demais desse filme, e ainda terminei com vontade de reassistir uma série de outras comédias românticas de que gosto igualmente. 
   Nota 8 - um bom filme. 

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A vegetariana - Han Kang

  

   A vegetariana se relaciona muito com a "Redoma de Vidro" de Sylvia Plath no sentido de que ambos os livros tratam de mulheres que sucumbem por não suportar as pressões  e exigências que são feitas a elas.
   É interessante que, mesmo sendo um livro sobre o sofrimento psicológico de uma mulher, as duas primeiras partes são narradas por homens. Esses narradores, sejam em primeira ou terceira pessoa, só vem uma mulher ficando louca mas não conseguem ver o papel que eles próprios exercem nessa loucura - o estupro e abuso físico e moral de mulheres e normalizado por eles, o que favorece a sensação de desconforto que nos acompanha durante toda a história. Poucos são os momentos em que vemos o que se passa no mundo interior da protagonista (Yeonghye) mas esses poucos momentos é que mostram que há uma batalha interna muito forte acontecendo dentro dela, algo muito maior do que simplesmente não comer carne.
   Um dos momentos que mais marcantes do livro ocorre logo na primeira parte, em um almoço de família, quando o pai da protagonista fazer com que a filha como um pedaço de carne. Essa cena parece fora de cabimento mas é o resumo exato do livro, mostrando a apatia de alguns frente ao absurdo e o desejo de preferir a auto destruição que deixar que outra pessoa tenha o controle sobre seu ser (seu corpo) novamente.
   A protagonista do livro luta o tempo inteiro para ter controle sobre o próprio corpo, seja através do ato de não comer mais carne ou pelas atitudes mais extremas que se seguem. Talvez os sonhos de Yeonghye a tenham feito perceber que a indiferença que as pessoas sentem com a crueldade contra os animais é muito similar à indiferença contra os abusos que os maridos cometem contra as suas mulheres. Ou talvez eu esteja só divagando aqui e o ato não comer carne seja simplesmente a forma mais simples que a protagonista encontrou para ter algum controle sobre si.
Só no último capítulo é que temos uma narradora mulher, a irmã de Yeonghye. É então que temos uma perspectiva mais humana do sofrimento que a protagonista vem passando - será que a loucura dela veio assim do nada? Será que é algo que não poderia acontecer com qualquer outra mulher vivendo a mesma situação? A perda de lucidez de Yeonghye pode ser muito específica mas também vem de sofrimentos infelizmente muito comuns para muitas mulheres.
   Além de toda essa reflexão, que é praticamente universal, sobre o poder que a mulher tem sobre si e sobre seu corpo na nossa sociedade atual, também temos uma breve visão dos costumes e modo de vida da Coreia. Uma cena do início é particularmente chocante quando mostra um hábito relativamente comum na Coreia - os outros momentos são mais sutis, mas dá pra ver algumas diferenças e semelhanças culturais ao longo de todo o livro. 
   Li em algumas resenhas a ideia de que esse final pode ser feliz, porque Yeonghye finalmente consegue impor sua vontade. Mas a que preço? Não vejo nada positivo no desfecho - ele é apenas a conclusão de que o machismo e a repressão enlouquecem as mulheres.
   Esse é um livro que pode não agradar a todos, ainda mais porque, penso, há um esforço proposital em ser chocante, incompreensível e bizarro. Mas gostei das reflexões que o livro me trouxe enquanto tentava relacionar algum significado para essa história.
   Nota 8 - bom livro

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Roma (Filme) #Oscars2019


   Roma é um filme que se passa na década de 70 e conta a história de uma empregada doméstica, que vive com os patrões e participa dos cuidados da casa e das crianças. Cleo é uma daquelas empregadas que os patrões dizem que é "quase da família", ou seja, trabalha ali há anos e ganha pouco mas tem onde viver então tudo bem. 
  Acompanhamos alguns meses na vida de Cleo, seu relacionamento com os patrões, os filhos desses, sua amiga que também é doméstica naquela mesma casa e até mesmo um namorado. Ao mesmo tempo, também vemos um pouco do período em que se passa a história - em 1970 o país vivia um verdadeiro estado de exceção, onde a polícia e os estudantes viviam em pé de guerra, uma "guerra suja" como ficou conhecida pela história. No inicio do filme não reparamos muito nos soldados e carros de polícia mas existe um momento bem específico que fez com que eu fosse correndo pro Google para entender o que exatamente eu estava vendo ali. 
  Ao dar o foco a essa personagem marginalizada, Cuarón mostra os conflitos sociais que existiam no México naquele período. Cleo tem uma relação quase que de servidão com a família, sendo alvo, animal de estimação, doméstica, filha, mãe, tudo ao mesmo tempo. É uma figura que está sempre lá, cuidando e velando por todos na família, mas que permanece ainda a distancia, ignorada. Em um dos momentos mais dramáticos do filme, a protagonista se vê sozinha numa sala de hospital enquanto a patroa tenta preencher a ficha dela de entrada naquele ambiente mas percebe que não sabe sequer a data de nascimento da funcionária. Cleo está lá por todos mas ninguém está lá por ela. 


   O filme corre sem pressa. Todo e preto e branco, com as cenas quase estáticas, é quase uma aula de fotografia que um filme propriamente falando. Mas a história segue sendo interessante, Cleo (interpretada magistralmente por Yalitza Aparicio) é um personagem "gente como a gente", daquelas que você se relaciona logo de cara. A personagem também me pareceu um pouco familia, creio que porque no Brasil tivemos (e temos) muitas Cleos, moças que viviam um estilo de vida praticamente idêntico ao dessa protagonista. 
    O final é bem anticlimático porque mostra que, embora Cleo doe praticamente a sua vida para aquela família, ela nunca fará parte daquele núcleo familiar, não de verdade. Ao mesmo tempo, Cleo não está interessada em ter sua própria família então essas crianças, filhos e filhas de outra mulher, são toda a família que tem, tudo o que lhe resta. É melancólico mas também realista que, logo após uma viagem traumática para todos, Cléo simplesmente vá lavar as roupas: no final do dia ela é apenas uma empregada doméstica. 
   Talvez esse meu texto esteja dando a impressão de que Cleo foi maltrada pelos patrões ou coisa que o valha mas não é nada disso. Na medida do possível ela é até tratada bem. Mas é uma relação intima demais para ser de patrão e empregado e afastada demais para ser de entes familiares - o que Cléo é então? O filme lida com essas questões numa abordagem do ponto de vista de Cleo mas, ao mesmo tempo, muito distante, como se estivéssemos observando tudo de longe. Não por acaso, são poucos os closes do filme, tendo o diretor preferido planos mais longos, algo que valorizou a fotografia mas me fez ter dificuldades em assimilar os sentimentos dos personagens em algumas cenas. 

   Gostei de Roma e amei a interpretação de Yalitza Aparicio. Acho que esse é um dos favoritos do Oscar desse ano, por unir beleza e um tema que gera bastante reflexão. Ao mesmo tempo prevejo algumas dificuldade para essa vitória, como o fato do filme ser produzido pela Netflix - o preconceito da indústria quanto a empresa de streaming ainda me parece muito grande.
   Nota 8 - bom filme.

p.s.: Por que o filme se chama Roma se ele se passa no México? Porque Roma é o bairro do México onde o filme se passa e não a capital romana. 

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