O homem invisível - H.G. Wells (Resenha)

    Um jovem físico faz experimentos com a refração e a luz e acaba se tornando invisível. A partir daí o homem se envolve em uma série de confusão devido a sua nova condição. 
   O livro é dividido em três partes: na primeira, os moradores de uma pequena vila recebem a visita de um sujeito estranho, todo agasalhado. O sujeito tem hábitos solitários e extremamente rude com todos a sua volta, o que logo gera desconfiança dos moradores. 
    A segunda parte é a fuga do homem invisível, após ser descoberto e a série de crimes que o mesmo passa a cometer apenas porque pode, auxiliado por um certo senhor Marvel. Vemos nesse momento um dos grandes trunfos do livro: mais do que falar sobre um homem que ninguém pode ver, a história reflete sobre o quanto as nossas ações estão atreladas ao medo de uma punição. O indivíduo só é bom, honesto e educado porque todos podem vê-lo, prende-lo e julga-lo se agir de forma diferente. Um homem invisível não tem esses pudores e, nesse momento percebemos a condição cada vez mais deteriorada da mente e moral da personagem. 
   A terceira parte é a caçada ao homem invisível. Não vou dar detalhes, mas considero a melhor parte do texto: finalmente podemos ver alguma ação. O desfecho é previsível mas coerente com o restante da trama. 
   Não é um livro com muitos momentos de ação e os personagens são bem superficiais. Mas a leitura é rápida e vale a pena para os que gostam de ficção científica: Wells é um percursor do gênero. 
Nota 7 - leitura ok.



A Rainha Branca - Phillippa Gregory (Resenha)


   Elizabeth Woodville, viúva e com dois filhos pequenos, é uma mulher da casa Lancaster, que atualmente vive em guerra com a Casa York. Infelizmente, a casa Lancaster perde e Eduardo IV ascendente ao trono, como primogênito da casa York. Isso significa que Elizabeth, além de perder o marido, também perdeu suas terras. É por isso que Elizabeth busca um encontro com o rei, para tentar reaver sua propriedade (aliás, a propriedade de seu marido).
   Esse é o primeiro livro de uma série da autora Phillipa Gregory, conhecida por seus romances com fundo histórico. Dessa vez o período abordado é a Guerra das Rosas, período anterior aos Tudor em que ocorre a guerra entre as duas principais dinastia Plantageneta: a Lancaster, simbolizada pela rosa vermelha), e a casa York, cujo símbolo é a rosa Branca.
   Nesse contexto de guerra e rivalidades familiares, o casamento entre essa viúva da casa Lancaster e o rei da casa York toma ares de conto de fada. Partindo dessa premissa, a autora conta a história de amor entre Elizabeth e Eduardo, utilizando esse pano de fundo (a possível história de amor e a ascenção dessa mulher como rainha) para falar sobre as disputas e reviravoltas que ocorreram nessa guerra.
   Embora tenha tido um pouco de dificuldades em entender "quem era quem" no início, essa trama me prendeu logo nas primeiras páginas, justamente porque a autora não enrola para começar a ação. Assim que Elizabeth e Eduardo tem seu casamento anunciado, começa as artimanhas e manipulações da corte. Em um país em Guerra como a Inglaterra da época, é necessário que os que detém o poder façam de tudo (dentro e fora do campo de batalha) para permanecerem com ele. E, partindo do ponto de vista de Elizabeth, acompanhamos essas artimanhas e jogos políticos, além das batalhas, que são narradas em terceira pessoa.

"Quando um país está em guerra, primo contra primo, irmão contra irmão, nenhum homem está a salvo"
   Não sou a primeira e nem a última pessoa a dizer isso mas, considerando o que vi nesse livro, é nítida a inspiração que a Guerra das Rosas foi para o autor G. R. R. Martin na criação do universo das Crônicas de Gelo e Fogo. Vi alguns pontos de encontro entre a obra de fantasia e os elementos históricos que encontrei nesse livro, o suficiente para recomendar essa história para aqueles fãs das artimanhas que ocorrem em Westeros.
   Infelizmente, essa é uma autora não muito conhecida aqui no Brasil. Eu, por exemplo, só me interessei pelos livros (comprei o primeiro e o segundo dessa série em uma feira de livros usados) depois que vi um vídeo da Tatiana Feltrin sobre eles. E, mesmo com esse vídeo, não esperava um autora tão competente em amarrar ficção aos fatos históricos.


   A narração em primeira pessoa e a herança mística da protagonista desse livro, lembrou "As Brumas de Avalon", um dos meus livros favoritos. Em A Rainha Branca, a magia não ocupa tanto destaque, mas gostei de ter uma protagonista realizando pequenos feitiços ou tendo pressentimentos em meio a todo esse universo de contornos tão reais. Embora seja uma época em que as mulheres não tinham lá muita voz ou vez, a narração feminina permite enxergar o todo, como geralmente ocorre quando os fatos são narrados por alguém de fora da zona principal de conflito.

   Recomendo muito esse livro, que devorei em cerca de 3 dias. Você não vai conseguir largar o livro enquanto não terminar e, garanto, vai querer ler a continuação logo em seguida.

   Nota 9 - muito bom.



O Concorda de Notre Dame - Victor Hugo (Resenha)

  

Esse livro faz parte das metas de leitura para 2015. Para conhecer outros livros que fazem parte da meta, CLIQUE AQUI

   Paris, século XV. É o dia da eleição do "Papa dos bufos", uma tradição do povo pela qual um homem comum é louvado e elogiado como um rei. Sugere-se uma competição, o homem que fizesse a careta mais feia seria o escolhido. E assim é feito - a surpresa veio depois quando descobriram que não estavam vendo uma careta mas o rosto caolho e disforme de Quasimodo, o sineiro da igreja de Notre Dame. 
   Minha intenção era ler esse livro ano passado mas acabou que outras leituras ocuparam o espaço dessa. Em janeiro, aproveitei as férias e para iniciar esse clássico. 
    Das referências à personagens da época até citações em latim a torto e a direito, seria muito complicado concluir essa leitura se eu não tivesse a edição comentada da Zahar. Não fossem pelas explicações e traduções dadas por essas notas eu teria ainda mais dificuldade do que tive no começo desse livro.  E isso vindo de uma pessoa que sempre ignorou notas e considera essa coisa de edição comentada uma bobeira. 
   Victor Hugo escreve muito bem e está claro que fez extensa pesquisa para recriar em seu livro a Paris do século XV. Por outro lado o autor também abusa das citações em grego e italiano, além de ter carta obsessão pela descrição minuciosa dos ambientes. Para vocês terem uma ideia, o livro tem todo um capítulo tratando da descrição da catedral de Notre Dame, seguido por outro capítulo de quinze páginas com a descrição da "vista que se tem do alto de Notre Dame".
    Esses primeiros momentos, foram pesados e difíceis. Só insisti porque tinha tempo e porque me forcei a isso, mas a primeira parte do livro não me deu qualquer prazer na leitura. Era como se, mesmo estando todos os personagens importantes lá, Victor Hugo desse um grande parêntese para descrever o cenário, algo aborrecido (principalmente se você não é fã de descrições). 
   Sobre o personagens, temos entre os protagonistas Quasimodo (o tal corcunda que dá título ao livro), Frollo e Esmeralda. Quasimodo, que já citei no início da resenha, é extremamente feio e, por isso, afastado do convívio social. Frollo, o padre responsável por Notre Dame, é um homem culto e é quem acolhe Quasimodo quando este era criança. Já Esmeralda é uma bela cigana de 16 anos por quem tanto Frollo quanto Quasimodo se apaixonam. Para desespero dos dois, Esmeralda só quer saber do soldado Phoebus, um homem rude e mulherengo. 
   Embora não possa dizer que gostei de nenhum personagem desse livro, a forma de descrever o que se passa na mente dos protagonistas (Quasimodo, Frollo e Esmeralda) é um dos pontos altos da história. 
   Não tanto Esmeralda - para o autor ela é incapaz de pensar em algo que não seja Phoebus - mas Quasimodo e Frollo são personagens obscuros e, por isso, cativantes. O primeiro tem toda aquela estigma do passado que o vez mau e ignorante, o segundo estudou tanto que perdeu de vista sua humanidade; Quasimodo e Frollo podem não ser os protagonistas que se esperam de uma história do romantismo e estão longe de qualquer ideal romântico, mas tem força o suficiente para fazer com que torçamos por um e detestando (mesmo entendendo) o outro. 
   Como toda criança que nasceu nos anos 90, eu assisti "O Corcunda de Notre Dame" da Disney, porém não me lembrava de muito sobre a trama quando comecei a ler essa história. Nem faria muita diferença se eu tivesse lembrado porque, tirando a eleição do Papa dos Bufos e uma cena particularmente tocante na metade da história (Santuário! Santuário!) o filme da Disney em nada tem a ver com o livro de Victor Hugo. 
   Mas, voltando a leitura, passado da penosa primeira metade o livro melhora bastante. Nesse momentos as descrições diminuem de páginas para alguns parágrafos e as coisas, finalmente começam a acontecer naquele ritmo francês que já estou aprendendo a identificar: muitos personagens, muitas tramóias, diálogos gigantescos e reviravoltas inacreditáveis. Conheci esses elementos lendo Dumas e reconheci vários deles lendo Victor Hugo. 
   A diferença é que Dumas tem uma escrita muito mais acessível que seu colega francês e um gosto para finais felizes do qual Hugo parece carecer. Porque o desfecho de "O corcunda..." é tudo, menos feliz
   Embora eu tenha gostado da maioria da história e da forma como os personagens são apresentados e a escrita do autor tenha sido um desafio superado, não gostei tanto desse livro como gostaria. Estava curiosa com o desfecho da trama mas apenas aquela curiosidade intelectual; não consegui me importar com os personagens e seu desfecho como me importe com Mercedes, por exemplo. Ainda pretendo ler mais coisas desse autor, quem sabe não sou cativada numa próxima?

   Indico para os fãs de clássicos. Nota 7 - um livro ok.


Antes do baile verde - Lygia Fagundes Telles (Resenha)

  
   Acho que foi Tchekhov que disse que um bom conto é aquele em que corta-se o início e o final. Lendo os contos desse livro foi essa sensação que tive, que a história começou antes de ser narrada pela escritora e, quando concluída, ainda ocorreu algo depois. Longe de trazer confusão ou serem histórias pouco claras, a questão aqui é aquela sensação que se tem, ao terminar um conto, de que a história é muito maior do que aquilo que está sendo narrado. Os bons contos tem em comum a capacidade de te fazer se sentir dessa forma.    
   Ou "Antes do baile verde" é uma releitura de  um livro lido há muito tempo atrás ou esses contos já estavam no meu subconsciente porque as histórias parecem novas e, ao mesmo tempo, bem familiares. Cheguei até mesmo a lembrar do desfecho de algumas delas. Releitura ou não, fazia um tempo em que um livro não me dava tanto prazer ao lê-lo. Sabe aquela coisa de ficar ansiosa para pegar o livro e realmente se divertir lendo alguma coisa? Foi o que senti ao ler "Antes do Baile Verde". Alguns livros a gente tem que se forçar a prosseguir ou a pegar para ler, mas esse não foi esforço nenhum e a leitura fluiu muito bem e muito rapidamente.    
   Ironicamente, embora esse seja o segundo livro de contos da autora que leia e tenha gostado muito de ambos, o único romance da autora que tentei ler, chamado "As meninas", foi abandonado lá pela página 60. Em minha defesa, eu tinha uns 15 anos quando tentei ler esse livro e a história não conseguiu me pegar. Posso estar falando groselha mas acho que o livro também tinha o tão temido "fluxo de consciência", o que também não facilitou em nada a leitura. Aindo preciso me redimir e ler algum romance dessa autora mas o trauma permanece, mesmo após 10 anos da minha tentativa com "As meninas".     
   Mas, voltando à "Antes do Baile Verde", o que todos esses contos tem em comum? Pequenas coisas, como a cor verde que aparece no título e vez ou outra também em um vestido, um objeto, na cor do rio... Há também o fato da maioria se passar na intimidade - há sempre poucos personagens, dois na maioria das vezes, conversando em locais privados. Um quarto, um cinema, uma sala, um barco quase vazio na véspera de Natal. Os espaços grandiosos não são utilizados nesses contos, talvez por serem esses espaços menores os mais propícios para o desenvolvimento sutil que ela dá às tramas.    

   Recomendo "Antes do Baile Verde" para os que gostam de contos e querem ver o melhor daquela que, ao meu ver, é uma das melhores contistas que já li. Nota 9,5 - por que é muito bom mas o 10 é só para os favoritos.

Impressões sobre alguns dos contos do livro

"Helga": o desfecho mais surpreendente, ao lado de "Venha ver o pôr do Sol".   
"A chave": o final foi meio confuso pra mim mas, se pudesse resumir toda a história em uma palavra seria "Carma".   
"A janela": louco é quem não para e sente o cheiro das rosas (reais ou não).    Conto "O jardim selvagem": por algum motivo esse conto me lembrou do livro "Rebeca" mas acho que a única coisa que ambos tem em comum é a personagem feminina misteriosa. Mesmo assim, gostei.   
"Venha ver o pôr do sol": esse com certeza já li várias vezes. A cada releitura, a mesma sensação, de que é uma das melhores (e mais assustadoras) histórias que já li.   
"Eu era mudo e só": o desespero de um 'felizes para sempre'



LENDO Alice Munro, Kazuo Ishiguro e Robert Louis Stevenson (Direto ao ponto #022)

Fugitiva
Autor: Alice Munro
Ano:   2014  /   Formato: E-BOOK
Editora: Biblioteca Azul
Opinião: Um livro com menos de dez contos, todos eles sobre mulheres e seus relacionamentos (familiares, amorosos pessoais). Alice Munro escreve de forma excelente e há algo em seus contos a a forma com que ela os constroe que te deixa sempre curioso e incerto a respeito do desfecho. 
Por outro lado, achei algumas reviravoltas de seus contos um pouco inacreditáveis. Alguns momentos parecem ter saído de novela mexicana, embora sejam narrados com muito mais naturalidade do que nestas. 
A própria autora brinca com isso em algum momentos, o que é outro positivo mas, tirando o primeiro conto, não consegui me empolgar. 
Cena: Fugitiva, conto que dá título ao livro, é sensacional e me deixou com uma expectativa enorme pelos outros contos. Infelizmente essa expectativa não se justificou. 
Nota: 7,5 - se fosse só por "Fugitiva" a nota seria maior mas no contexto geral este é um livro apenas okay. O meio ponto vai para a escrita muito boa e por esse conto que gostei.


Não me abandone jamais 

Autor: Kazuo Ishiguro 

Ano:  2016   /   Formato: E-BOOK
Editora: Companhia das Letras
Opinião: 

Eu vinha de uma fase de dois ou três livros que eu tinha devorado, mas começar "Não me abandone jamais" foi como se um muro tivesse dado de cara em um muro, em meio a uma corrida frenética. Esse é um livro que você não pode ler com pressa, é preciso certa delicadeza e paciência na leitura.
Kazuo Ishiguro não tem pressa e pede, ao longo de seu livro, que nós também não tenhamos.

A história da vida de uma jovem e de seus colegas de internato propõe uma reflexão sobre uma realidade que não vivemos mas que, devido a nossos avanços tecnológicos, seria bem possível. 
Acho que o mérito do livro é te envolver nessa história narrada de forma tão blasé e te fazer se importar e ter esperanças pelos personagens mesmo sabendo, no fundo, que suas esperanças são tolas. 
Entre Murakami e Ishiguro percebo que tenho certo problema com autores japoneses. Não consigo amar seus livros ou tão pouco odiar; os dois livros de  japoneses que li foram apenas okay, não sinto vontade de ler qualquer coisa desses autores de novo. 

Cena: A cena do final e aquela que dá título ao livro são as mais emocionais de toda a história. Talvez seja por isso que elas se destaques na minha mente. 

Nota: 7 - razoável. Aceito indicações de autores japoneses, porque os que ando lendo me desanimaram com essa literatura.
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O médico e o Monstro 
Autor: Robert Louis Stevenson 
Ano:   2011  /   Formato: LIVRO 
Editora: Saraiva de bolso 

Opinião: O que aconteceria se pudéssemos separar o nosso lado mau de nosso lado bom? Embora seja essa a premissa do livro, o texto de Robert Louis Stevenson tem um caráter de mistério: só descobrimos quem realmente é o Mr. Hyde nas últimas páginas. 
Gosto da escrita desse autor desde que li "A ilha do tesouro" e essa história só me fez querer ler mais coisas dele. Mesmo sabendo o desfecho somos envolvidos por esse mistério e a curiosidade de saber quais os próximos passos dessa história é algo que faz com que as 90 páginas desse livro pareçam vem mais curtas. 
Cena: Minha parte favorita são os dois capítulos finais, que contém cartas de dois personagens. A reflexão sobre a dualidade da alma, a natureza humana e sua capacidade para se corromper ou se salvar... É mais filosófico do que a cultura pop tem nos mostrado quando fala de médicos e monstros. Mas não entendam isso como se a história fosse maçante, só é mais profunda do que parece a primeira vista. 
Nota: 9 - muito bom. Certamente é um livro que irei reler algum dia. Recomendo a todos. 

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Livro A maldição do cigano - Stephen King (Resenha)

   
   Billy é um advogado com a carreira ascenção, casado com uma bela mulher chamada Heidi e com uma filha de 15 anos, Linda. Ele tem tudo o que um homem poderia desejar, mas há um único problema: Billy é extremamente obeso, come demais e não parece querer mudar esse quadro. 
   As coisas mudam quando Billy atropela uma velha cigana. No julgamento, Billy é inocentado pelo juiz, seu amigo de longa data e parceiro de golf. Ninguém se atreve a dizer nada: afinal aquela é uma cidade pequena e a mulher morta é apenas uma cigana que fazia parte de um bando que passava pela cidade. 
   Na saída do tribunal, um velho com uma aparência horripilante toca seu rosto e diz uma única palavra. Após isso tudo muda na vida do personagem que, conforme avança a maldição, também vai ficando mais louco. 
   Assisti ao filme "A maldição do cigano" quando era bem nova e, por muito tempo, tinha a dúvida se aquela história que eu me lembrava nos mínimos detalhes era real ou só um pesadelo que eu tive. Até que eu vi o livro de Stephen King e resolvi pesquisar na Internet, apenas para descobrir que esse livro não só existia mas também era de um autor que tenho tido muito interesse. 

   Qualquer leitor imparcial jamais colocaria "A maldição do cigano" na lista dos melhores livros de King. A trama se arrasta em alguns pontos e tudo poderia ser reduzido a um simples conto, tamanha a sua simplicidade. Mesmo assim, no auge da minha parcialidade, não posso criticar esse livro: mesmo após quase 20 anos após ter "visto" esse filme continuo me arrepiando com essa história*. 
   Dito isso, só posso recomendar "A maldição do cigano". Se você tiver paciência para alguns momentos mais parados e cansativos, personagens odiosos e momentos nem nojentos, vai ser recompensando com uma trama interessante e memorável. 
   Me atrevo a dizer que, após ler "A maldição do cigano", você nunca vai olhar para uma torta de morango com os mesmos olhos. 
   Nota 8,5 - um bom livro mas dei meio ponto pela nostalgia que essa história me despertou.


* "Mas Karol você tem 25 anos? Como assim assistiu a um filme de terror com 5?!" - Eu não assisti de verdade, eu meio que estava na sala enquanto viam o filme e fui perguntando as coisas que não entendia. Minha mãe e minha tia assistiam muitos filmes de terror quando eu era menor, por isso tenho essas recordações meio bizarras (e estranhamente nostálgicas) na minha infância - qualquer dia faço um post sobre isso.

"Ninguém nasce herói" - Eric Novello (Resenha)

    
     
   "Isso aí, ninguém nasce herói, se torna". Essa frase veio da professora da escola em que eu trabalho quando viu  o livro que eu carregava pelos corredores. Fiquei pensando no que ela disse e acho que tem tudo a ver com o que o autor quis passar nesse livro.   
    "Ninguém Nasce herói" conta sobre a vida de um grupo de amigos em São Paulo, vivendo em um futuro em que o Brasil se tornou uma espécie de califado Cristão, governado por um líder que se auto intitula como "O Escolhido". No começo esses jovens parecem viver rotinas normais mas, quando a realidade do que estão vivendo se torna mais próxima de suas vidas, tudo muda. E surgem os heróis.     
     Não heróis tipo capa e máscara, das histórias em quadrinhos que o protagonista-narrador, Chuvisco, tanto gosta de ler. Os heróis e heroínas desse livro são pessoas que ainda conseguem fazer o bem e ter empatia e ajudar o próximo, mesmo com toda uma sociedade pregando o contrário. Chuvisco gosta de se imaginar uma espécie de homem de ferro durante os episódios que chama de "Catarse Criativa", quando a sua imaginação toma o controle total sobre a realidade que o cerca. No entanto, ele permanece herói mesmo quando está despido dessa armadura de fantasia, quando ajuda os amigos e até desconhecidos que encontra na rua. Quando se impõe e defende em voz alta aquilo que acredita

 "A verdade é que ninguém nasce herói. Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando."    
    Sobre o protagonista, Chuvisco certamente tem algum tipo de diagnóstico médico que justifique as suas "catarses criativas" mas o autor não nos diz o que é e talvez seja melhor assim, enxergar o personagem sem o peso desse diagnóstico. Chuvisco também tem uma opinião bem critica a respeito da religião e do que está acontecendo atualmente. Ele não se permite ter esperanças mas algumas coisas o fazem acreditar que o futuro poderá ser diferente. Mas, mesmo em meio a esperança, ele ainda teme por sua vida e pela vida de seus amigos. 
     Uma coisa que eu gostei no livro é que o autor faz questão de diferenciar os fanáticos religiosos da religião em si. Apesar do "Escolhido" dizer que segue a palavra de Deus, seus atos são o oposto do que a maioria das religiões cristãs prega, e algumas frases do personagem refletem que essa também é uma opinião de Chuvisco. O momento mais concreto em que essa diferenciação ocorre é quando o personagem encontra Denise, uma jovem cristã, de uma família cristã, mas que não concorda com o que está havendo. Apesar de ser uma ficção, gostei que não generalizaram. 
   O livro é cheio de referências da cultura pop que vão desde os X-men, passando por Freddy Krueger, Stephen King e outros. Gostei de ler e ir tentando identificar, seja nos diálogos ou nas "catarses" do Chuvisco, alguma referência nova.  
   
"...todos vestidos de branco, dando chutes e pontapés na pessoa caída" - Seria a "Guarda Branca inspirada nos Drugues de Laranja Mecânica? 
 
   Acho que é a primeira vez que senti vontade de escrever em um livro. Tanto para grifar frases que achei impactantes quanto para escrever comentários nas bordas, não consegui ler esse livro sem algo para escrever neles em minhas mãos. Para uma pessoa acostumada a interagir muito pouco durante a leitura (não sou de marcar quase nada) é uma novidade e tanto, além de um reflexo do quanto fiquei envolvida com essa história.   
    Falando em diálogo, esse é um dos pontos principais do livro. A conversa entre os amigos ocorre com uma naturalidade que é muito gostosa de ler - é como se estivéssemos vendo amigos nossos mesmo conversando entre si. Talvez por isso as cenas em que todos os cinco (Chuvisco, Cael, Amanda, Pedro e Gabi) interagem estão entre as minhas favoritas da história. Ver o diálogos desses amigos é como assistir a um episódio de Friends. O único personagem do grupo que achei meio chato foi Dudu mas ele não é exatamente parte da turma, então tudo bem. 
   Tenho muita dificuldade em dizer que esse é um livro que se passa no futuro, embora seja o que está escrito na contra-capa. Por mais que a situação toda parece um exercício de quão ruim seria nosso futuro - política e socialmente - se as coisas continuarem do jeito que estão, no geral percebo essa história ocorrendo em um universo paralelo, porque há vários elementos que me ligam ao presente e não ao futuro.    
    Acho que a grande sacada é percebermos que não se passaram muitos anos entre o que estamos vivendo hoje e o futuro em que esse livro ocorre, que não é preciso muito tempo para estarmos vivendo uma distopia como a que vivem os personagens de "Ninguém nasce herói". Como diz o próprio narrador: "A diferença não está no que está no que se vê, está na ausência". Nesse mundo distópico, São Paulo perdeu a sua pluralidade.    
Como imaginei o Símbolo da Guarda Branca 
   Como toda Distopia, a ação demora a começar e no início o leitor mais acompanha as reflexões do personagem-narrador em meio a essa realidade tenebrosa. Mesmo assim, as cenas que contém mais ação real são de tirar o coração da boca, os episódios na passeata e na Galileia são um exemplo. Foi como se eu estivesse assistindo a um filme passar, tamanho o realismo com que imaginei e fui impactada por esses momentos, principalmente o último, que agiu como um divisor de águas para a história: nada seria igual a antes depois daquele momento.    
   Apesar de gostar de vários momentos da história, um dos meus favoritos é quando Pedro e Chuvisco conversam no alto de um prédio, enquanto olham toda a cidade. Ao invés de pedir desculpas ou dizer algo direto sobre um episódio difícil que havia ocorrido recentemente, Pedro conta uma história, um momento de seu passado. Mesmo que a história não tenha nada a ver com os pontos da discussão aquele relato reúne os dois amigos novamente. Foi um momento bem singelo mas e na hora não entendi porque mas me emocionei. O diálogo dos dois nesse momento me lembrou um pouco de Sense8, talvez pela troca de histórias ser um elemento chave nos diálogos dessa série.

 "O vazio que sinto é diferente. Ele é feito da matéria escura do universo"   
    Por mais que a ação não seja o elemento principal da história, no final ela toma conta da trama. Foi uma surpresa atrás da outra nas últimas 80 páginas a maioria apenas mostrando que os medos de Chuvisco não eram tão injustificados assim. Mesmo já esperando algo nesse estilo (distopia nunca termina muito bem), fiquei surpresa com coisas que aconteceram e bem triste também. Não cheguei a chorar mas tive que deixar o livro em um canto e dar uma volta antes de retomar a leitura.    
   Achei o desfecho da história um tanto brusco. Basicamente tudo se fecha no último capítulo e é narrado de uma forma distante pelo protagonista, em um epílogo que avança alguns anos na história. Eu entendo que esse livro seja mais o começo da história desses personagens na luta contra essa ditadura e que muitos anos ainda se passaram depois daquela última cena narrada. Mas levei um susto com esse avanço mesmo assim e, falando dos personagens, fiquei bem triste com a forma como a maioria terminou. Não vou dar spoiler, então  leia o livro para entender melhor sobre o que estou falando.  
  
   "Ninguém Nasce Herói" é para aqueles que gostam de histórias jovens e atuais, com bastante representatividade e bons personagens e diálogos. O livro também tem toques de fantasia/imaginação, graças a Chuvisco, um protagonista peculiar. Recomendo se você é um leitor assim. 

    Nota 8,5 - um bom livro, com ótimos personagens.