A assombração da casa da colina - Shirley Jackson

fonte: Biblioteca do Terror 

   Quando um autor que você gosta recomenda um livro, você olha com atenção. Mas e quanto este autor não só recomenda um outro mas também dedica um livro a este? Quando recebi "A incendiária" da Suma e vi a dedicatória que Stephen King fez a Shirley Jackson, soube que precisava conhecer a autora que influenciou um dos meus escritores preferidos.
   Há dois livros dessa autora publicados recentemente mas escolhi Assombração na casa da colina para conhecer a autora. O motivo foi o mais bobo possível: o título me lembrou um filme de terror que assisti quando era pequena (mais a frente, percebi que a história me lembrava de um outro filme, que também vi quando era mais nova, chamado "A casa amaldiçoada"). Além disso, gosto de histórias sobre casas e lugares assombrados.
   Um das coisas que mais me chamou a atenção na escrita de Shirley Jackson é a forma como autora consegue criar todo um ambiente propício e assustador e desenvolver seus personagens de forma muito precisa sem apelar para descrições muito elaboradas de lugares e pessoas. A personalidade das quatro pessoas na casa da colina são delineadas com muita confiança e ao longo do livro de uma forma tão natural que, lá pela metade da história, já pensa que conhece todos os personagens muito bem.
   Assombração da Casa da Colina começa quando esse cientista e investigador de fenômenos paranormais, o Dr. Mortague, convida várias pessoas para passar um tempo nessa casa assombrada, que ele aluga sob a condição de receber também um parente dos donos da casa. Somente duas mulheres - Eleanor e Theodora - aceitam o convite e todos (Dr. Mortague, as mulheres e Luke, o herdeiro ) se mudam para a casa por um tempo.
    É curioso observar que a personagem sobre o qual eu mais tinha dúvidas era justamente a que narrava a história, Eleanor. Há algo que essa personagem esconde, de si e de leitor, algo que já estava nela antes que entrasse na casa mas parece desabrochar enquanto está lá. Nellie é mais do que demonstra mas qual será o seu segredo? E o que a casa quer com ela? São essas algumas das perguntas que me fiz durante esse livro.
   Como toda boa história de terror, essa também é um prato cheio de simbolismos e representações. A cena em que Theodora entra em crise após ver algo em seu quarto e a reação de Eleonor a tudo o que ocorre, são muito interessantes e nos fazem pensar nas camadas que há por trás da tensão entre as duas mulheres.
    Nessa mesma cena, há um momento muito específico em que Eleanor vê as mãos de Theo cheias de sangue e vai limpar, pensando que "nunca sentira uma repulsa incontrolável por ninguém em toda a sua vida". É de se pensar o simbolismo daquelas palavras, principalmente quando relacionamos o fato de que, até o sangue aparecer, as duas mulheres eram bem amigas, talvez até mesmo mais. O que o sangue representa ali? Talvez um lembrete ao subconsciente de Eleanor de que trata-se de outra mulher a pessoa pela qual ela se sentia tão encantada anteriormente. Ou, talvez, o sangue cobrindo as mãos de Theodora fosse uma marca física da transformação que a moça sofreria aos olhos de Eleanor. "Ela é má, é um monstro, é suja", pensa Nellie ao final dessa cena. Depois desse momento, embora volte a ver a amiga de uma forma positiva, o relacionamento entre elas não é mais exatamente como antes, quando chamavam uma a outra de primas. 
   Assim como ocorre em O Iluminado, o comportamento do protagonista vai sendo alterado quanto maior o tempo que ela passa na casa. Seria o objetivo da casa, fazer com que a protagonista se afastasse de todos os outros moradores? Ou será  que Eleanor sempre foi daquela forma e a casa apenas exacerbou seu comportamento? Não sei a resposta a essa pergunta mas, conforme o tempo vai passando na Casa da Colina mais temos contato com esse lado sombrio e um pouco instável da protagonista. É interessante e também um pouco assutador: Eleanor tem tanto medo de perder o controle que ficamos apreensivos sobre o que ela fará quando isso de fato acontecer.
   O livro é tão pequeno (240 páginas) e a narrativa tão interessante que, quando você dá por si, a história já terminou. Acostumada que estou aos calhamaços de Stephen King foi uma grata surpresa ler uma história de suspense/terror que consegue ser instigante, assustadora e psicologicamente rica em tão poucas páginas. Mesmo após terminar ainda fiquei um tempo pensando nos personagens, no desfecho, no que significou aquela experiência toda na casa da colina. Se você é do tipo que gosta de coisas nos mínimos detalhes talvez seja melhor ler o sr. King: Shirley Jackson não vai te explicar o que está acontecendo; ela apenas narra, cena após cena, os acontecimentos que e a reação dos personagens a eles. 
   Eu terminei o livro morrendo de medo mas não sei se é o tipo de terror que vai assustar a qualquer pessoa. É muito mais o suspense e algo psicológico do que cenas com fantasmas propriamente ditas. Para mim esse tipo de terror é mais interessante, mas vi algumas resenhas no Skoob que disseram que o livro não é tão assustador, o que me fez pensar que nem todo mundo vai ficar com tanto livro quanto eu fiquei. 

   Como um livro publicado pela primeira vez em 1959 é interessante ver o quanto a ficção (filmes ou livros) se inspirou em alguns aspectos desse livro. A sensação de familiaridade que eu senti enquanto estava lendo essa história se justificou: descobri que "A casa amaldiçoada", o filme que este livro estava me fazendo lembrar, é uma adaptação de "A assombração da casa da colina", tendo sido lançada em 1999 com Catherine Zeta Jones interpretando Theodora (repare que eu tinha 7 anos quando esse filme foi lançado e eu tinha mais ou menos essa idade quando assisti. Quando falo que filmes de terror me lembram infância é por isso). Há também uma adaptação da década de 60, mas não assisti. 
    Como prévia leitora de King, pude ver alguns ecos desse livro em algumas obras do autor, principalmente em "O iluminado" que, assim como "A assombração da casa da Colina" faz um paralelo entre medo, confinamento e loucura que é muito interessante. Outra coisa interessante que ambos os autores fazem é dar um toque de tristeza em suas histórias - uma boa história de terror tem sempre algum sentimento profundo além do medo. No caso de "...Casa da Colina" os sentimentos de culpa, solidão e não pertencimento que certa personagem sente alcançam o leitor mesmo sem a autora dizer com todas as letras que é isso que a personagem está sentindo. 
   O que mais posso dizer para te convencer esse terror clássico? Chamo de clássico não tanto pela idade mas por entender que as influências que esse livro despertou e sua atemporalidade fazem com que esse mereça tal título. Shirley Jackson já entrou no meu panteão de autores de terror favoritos não só pela qualidade da escrita mas também por desenvolver histórias que nos fazem pensar por horas mesmo depois de ter terminado, afim de criar nossas próprias interpretações do que ocorreu. Os personagens também são ótimos e, por mais que isso já torne esse livro acima da média, ainda há cenas de causar arrepio, mexendo sempre com o psicológico do leitor. 
   Nota 9,5 - esse livro já está na minha lista de favoritos do ano mas vou aguardar uma futura releitura antes de mudar essa nota para 10. 


Ouvidores de Vozes (documentário)


   Ouvidores de Vozes é um documentário que conta um pouco da vida de pessoas que sofrem com essa situação e passam por tratamento no CAPS. Isabel, Reginaldo e Marlene são os protagonistas, pessoas de idades e histórias diferentes mas que tem em comum o fato de ouvirem vozes que as outras pessoas não ouvem. 
   O que mais gostei nesse documentário é que ele não tenta estabelecer um porquê dessas pessoas estarem ouvindo vozes. Embora todos os participantes do documentário tenham um diagnóstico psiquiátrico, este pouco é mencionado. O que interessa é ouvir aqueles que ouvem vozes. Para isso os produtores deram um microfone para cada um desses três e pediram para que falassem tudo o que quisessem, sobre as vozes, sobre a vida, sobre tudo. 
   Este é um documentário bem triste porque você vê o sofrimento e a espécie de fundo do poço que essas pessoas chegaram. Reginaldo, por exemplo, é um daqueles cuja história mais me impressionou: ele trabalhava e levava uma vida sem muitos incidentes até que perdeu, em pouco de espaço de tempo, a mãe e a tia. Desde então ele parou de trabalhar, toma remédios e tenta lidar com as vozes que ficam insistindo para que ele se mate. Me impressionou o fato dele ter quebrado os próprios dentes como forma de criar dor ("a dor alivia as vozes", ele diz em determinado ponto). Mas o que me deixou mais triste com a história de Reginaldo foram os comentários da família dele, dizendo que ele se entrega, que ele só quer ficar deitado, que ele tem que ir à igreja ou fazer uma atividade física. Como se doença mental fosse apenas um estado de espirito. 


   Falei um pouco mais do Reginaldo mas Isabel e Marlene também tem histórias de vida interessantes. O curioso é que, de todos, apenas Isabel (uma adolescente) é que tem uma divisão: uma voz diz algo bom e a outra algo ruim. O restante só ouvem conselhos ruins das vozes, conselhos que, muitas vezes colocam em prática.
   Chorei ao ouvir um texto de Marlene, uma carta para a felicidade. É muito triste porque ela (a carta) simboliza toda a tristeza que essas pessoas carregam consigo, não só por ouvir vozes, mas por todo o estigma e incapacitação que esse fato gera na vida dessas pessoas. O CAPS tem um grupo de apoio só para essas pessoas, para que elas possam narrar sua experiência lidando com o problema. Gostei muito de saber disso, ainda mais quando ouvi os entrevistados falando que aquele era o único lugar onde se sentiam acolhidos. Uma forma de aliviar a tristeza e solidão dessas pessoas.
    Não só vou recomendar como também colocarei o link desse documentário no final do post. Foi produzido pelo Canal Futura e eles o disponibilizam no site deles. Se te interessa esse tipo de discussão sobre saúde mental, vale muito a pena.

Nota 8 - bom


As Ondas - Virginia Woolf


   A vida de seis amigos, que cresceram e estudaram juntas e narrado em uma série infinita de monólogos dos próprios personagens. Jinny, Susan, Rhoda, Neville, Louis e Bernard parecem ter pouca coisa em comum mas são, simultaneamente, protagonistas e narradores de suas próprias histórias e das histórias um dos outros.    
   Meu receio em ler Virginia Woolf era me sentir tão confusa como quando eu li Clarice Lispector. Quando descobri que esse seria o livro do mês no clube do livro que participo quase tive um treco. Já previ um mês de terror, lendo uma história da qual não conseguia entender nada.
    Resolvi encarar, mesmo com todos esses receios. A primeira coisa que fiz, antes de começar "As Ondas" foi ler algumas resenhas e sinopses da história para saber do que falava o livro exatamente. Reconhecendo a minha dificuldade de acompanhar esse tipo de narrativa, mais fragmentado, achei uma boa ideia ter uma noção do que fala o livro antes de começar.    
   Enquanto lia as resenhas (nunca resumos, não gosto de spoiler) e ao descobrir a forma como livro era estruturado (diálogos) e os personagens que faziam parte dele, decidi fazer uma espécie de fichamento. Aproveitei que estava lendo no Kindle e, conforme os personagens iam aparecendo e fazendo coisas ia construindo anotações sobre cada um. Jinny beijou Louis, Susan ficou com ciúme, Bernard deixou Neville sozinho e foi atrás de Susan, enquanto Rhoda ainda estava na sala de aula e nada viu. Essas anotações foram fundamentais no começo da história, para separar quem era quem, mas, conforme o livro prosseguia percebi que não era mais necessário continuar alimentando esses registros.   
    É muito legal pegar o livro que você não entende nada e perceber que, aos poucos, as coisas vão ficando mais claras pra você. Toda essa minha preparação teve um pouco a ver com o resultado mas o mais importante foi ter, desde o início, a consciência de que nem tudo eu iria entender 100% ou seria narrado da forma cronológica a qual estou acostumada. Essa constatação meio que tira um peso das costas - como disse uma colega "esse não é um livro para se entender com a cabeça e sim com o sentimento". E foi assim mesmo que eu passei a entender "As Ondas".
       Gosto muito do título desse livro porque tem muito a ver com a narrativa, sempre fluindo de um personagem ao outro, como se uma série de ondas estivessem arrebentando na praia, uma após a outra, num ritmo tranquilo e natural. Os diálogos/monólogos dos personagens se sucedem um ao outro dessa mesma forma, como ondas. E assim, os anos vão se passando muito rapidamente.    
   Cada personagem tem uma maneira de ser, de encarar a vida. Louis, por exemplo, é um perfeccionista, Jinny é uma moça simples, quer ser amada - e assim, todos tem sua própria história. O que une todas essas pessoas não é bem a amizade que tem entre si, mas o amor que todos sentem por Percival. Ironicamente, Percival é o único personagem citado que não tem sua própria voz interior.    

   De todos, Bernard talvez seja aquele que é mais apegado aos outros. Carecendo de um sentido para sua própria vida ele visita os amigos, sente necessidade de revê-los. Sem os amigos Bernard é fluido, carece de propósito e personalidade. E é Bernard quem encerra a história, em um monólogo maior que todos os outros, onde lembra a sua vida e também um pouco a de seus amigos.
      Nesse desfecho dá pra se imaginar muitas coisas, além do próprio fim que cada personagem teve. A sensação, nesse momento, é que cada um dos personagens é uma faceta da própria autora, ou até mesmo de Bernard; todos eles na verdade são como um só.   
   Pesquisando para essa resenha, descobri que essa é a sensação que a autora quis passar, que todos esses personagens são facetas de uma só pessoa. Gostei bastante disso, fiquei pensando em uma única pessoa que tem tantas outras dentro de si.    
   Admito que não entendi 100% de "As Ondas" mas é um livro que me fez sentir muito e, por isso, recomendo. Pretendo reler mais pra frente - quem sabe não consigo captar um pouco mais?   
    Nota 8 - bom livro


Com amor, Anthony - Lisa Genova


   A história de Olivia e Beth se passa na Ilha de Nantucket. Olivia vai para lá depois de perder o filho de 9 anos de idade. Beth havia se mudado há vários anos quando resolveu se casar com um morador da ilha, porém, nesse momento, ela vive uma crise quando o marido sai de casa para viver com outra mulher. O que une Beth e Olivia é Anthony, mas as duas mulheres mal se viram e não sabem da existência uma da outra.
    Quando foi escolhido para ser o livro do mês do qual participo, logo me chamou a atenção o fato de ser a história de uma criança autista. Mas, quando descobri (logo no começo) que o menino já havia morrido, desanimei um pouco. Pensei que o livro seria daqueles que parecem ser criados só para gente chorar, um Nicholas Sparks da vida. 
    Felizmente, estava errada. Sim, o livro é dramático e tem vários momentos que me tiraram lágrimas dos olhos mas Lisa Genova não força a barra. Tudo na história tem uma coerência e uma razão para acontecer em determinado momento. Até mesmo as recordações de Olivia do passado, algo que poderia ter ficado um pouco exagerado pela frequência em que acontece foi bem dosada nessa história. 
   Quando Beth começa a escrever uma história sob o ponto de vista de um menino autista, ela se inspira em uma criança que viu na praia há muitos anos atrás. Acontece que ela viu é o filho de Olivia, o que já cria um elo entre as personagens, mesmo que elas não se deem conta deste até quase o final do livro. Enquanto é consumida pela história de Anthony, Beth ainda tem que lidar com as filhas e com o ex-marido, Jimmy, que está com outra mas parece que não se desligou completamente da antiga família. Ou seria Beth que não se desligou dele?
   Gosto muito das partes do livro que são trechos do diário de Olivia porque dá para ter um ponto de vista mais intimo da situação e também se aproxima do que eu esperava do livro, que é entender como é o dia-a-dia de uma criança autista e como os pais lidam com isso. Os trechos "narrados" por Anthony começam bem chatos e repetitivos mas os dois ou três últimos também valeram bem a pena. Sobre a ultima mensagem de Anthony, aquela que encerra o livro, eu achei um tanto quanto expositiva demais; a autora parou de mostrar a ação e resolveu usar a suposta "razão da existência" de Anthony para justificar um desfecho de uma personagem. 

   Claro, eu chorei horrores nesse último capítulo. Mas uma parte de mim continua incomodada, talvez porque não gostei do que esse capítulo levou as duas personagens do livro a fazer. Principalmente o desfecho de Beth; entendo como ocorreu mas não sei se concordo 100% com o que essa personagem decidiu fazer. 
   Lisa Genova é autora de 'Para sempre Alice', um livro que eu não li do qual surgiu um filme que eu não assisti. Este livro conta a história de uma mãe que se vê com mal de alzheimer precoce e tem que lidar com isso, assim como toda a sua família. A autora também tem um livro chamado Nunca Mais Rachel que fala sobre lesão cerebral, segundo pesquisei. Ou seja, há um histórico e um padrão em seus livros. Isso quer dizer que leria todos os livros dessa autora só por ter gostado desse? Provavelmente não. 
   Indico Com amor, Anthony para os que gostam de livro mais dramáticos porém com um desenrolar mais lento. Não espere reviravoltas aqui mas sim momentos bonitos e que, caso você seja do tipo que chora lendo, podem te levar às lágrimas quando você menos espera. Eu, por exemplo, terminei o livro dentro do ônibus e não recomendo já que quem estava perto deve ter pensado que eu era uma doida chorona rs. 
   Enfim, dei nota 7,0 - o livro é ok, acho que vale a leitura se autismo é um tema que te interessa.

Amora - Natalia Borges Polesso



 Amora é um livro de contos da autora Natalia Borges Polesso que foi publicado pela editora Dublinense em 2015. Comprei o livro em ebook meio que por impulso, em uma daquelas promoções loucas da Amazon.
O que todos os contos desse livro têm em comum? Todos falam de relacionamentos afetivos em diferentes estágios: alguns tem casais no começo de seus relacionamentos, outros abordam o fim. Há também aqueles livros que falam de momentos pontuais, como o primeiro amor ou a descoberta da sexualidade na adolescência. O que esses casais tem em comum, além do amor (ou desamor) entre eles? São casais formados por mulheres.

“A gente some e quer que as pessoas continuem aí, no mundo, para a gente. Como se fossem portos inertes, sempre à espera de um barco que ficou à deriva, sem leme, sem farol.”
Eu, que nunca tinha lido leitura brasileira com personagens homossexuais, achei muito interessante e realista a voz que a autora dá essas personagens homo ou bissexuais em seus contos. Em alguns momentos a escrita de Natalia entra num lirismo que pode ser muito bonito, ainda mais quando fala de casais que não deram certo. Mesmo assim, pessoalmente, prefiro os contos felizes que compõe essa reunião – por serem mais raros, talvez?
Amora, que é o conto que dá título ao livro, conta a história de uma menina em um tornei de xadrez; ela ganha a competição, mas, no mesmo dia, tem o que pensa ser sua primeira decepção amorosa. O tempo, porém, mostra que o primeiro amor da protagonista terá um aspecto muito mais feliz e sensível que um encontro com um menino que a confundiu com outro menino. Amora é um dos contos mais singelos do livro; uma daquelas histórias que você termina com um suspiro e um sorriso no rosto.

“No entanto, era um descolamento, a sensação de não pertencer a lugar nenhum.”
Outro conto que me chamou a atenção foi ‘Dramaturgia Hemética’ que consiste em uma troca de email entre duas mulheres. Gosto muito porque você começa imaginando uma coisa e, quando vê, é tão enganado quanto àquela personagem que recebeu os e-mails de madrugada. Um resumo desse conto é o primeiro trecho que selecionei para essa resenha – algumas pessoas acham que as outras tem que estar sempre a disposição enquanto elas fazem o que quiserem.

“E eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.”
Para quem indicar ‘Amora’? Para quem gosta de prosa bonita, com figuras de linguagem e sentimento. E para quem gosta de contos que falam sobre relacionamentos amorosos (ou pseudo amorosos). Como todo livro de contos, é bom ir degustando as histórias sem pressa, para não cair naquela de ler apenas por ler. No caso de amora os contos são curtinhos, dá para ler ao menos uns dois ou três por vez – mais que isso não recomendo, é desperdício de boas histórias numa única tacada.
Nota 8- bom livro.






O processo - Franz Kafka (Resenha)


   "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum."   
   Assim começa o romance "O processo", com a detenção do protagonista, que ocorre (por coincidência ou não) no dia do seu aniversário de 30 anos. A partir desse momento a vida de K. embora em muitos aspectos pareça ser a mesma, também se torna uma sequência de acontecimentos improváveis. K. não sabe de que foi acusado, quem o acusou, qual é a punição e, como a história se passa do ponto de vista desse personagem (apesar de ser utilizada a terceira pessoa), o leitor sabe muito menos.    
   "O Processo" não tem uma linguagem particularmente difícil mas é como se acompanhassemos uma história da qual não sabemos todos os fatos. O mesmo também ocorre com o personagem principal, K. mas até mesmo ele age de uma forma que, para quem está lendo o livro, é completamente incompreensível.
  Desde o primeiro capítulo percebi que esse livro tem algo de sonho, a irrealidade e senso de absurdo que só os sonhos têm. Se tudo fosse um sonho muitas coisas seriam explicadas mas facilmente na história mas um sonho não seria tão longo e nem seria uma explicação muito razoável para o que está acontecendo com K.    
   Quando li "Lojas de Canelas" do autor polonês Bruno Schulz vi uma introdução que comparava o autor a Kafka e, finalmente, entendi o porquê. O absurdo permeia a obra dos dois autores e o tom de sonho, com personagens que se comportam de maneira bizarra em alguns momentos e perfeitamente normal em outros, também está presente na obra dos dois autores. Mesmo assim acho que Schulz divaga um pouco mais dentro de si mesmo, enquanto Kafka é mais objetivo que o autor polonês. Mesmo as divagações de Kafka não são tão ininteligíveis quanto as de Schulz.      

   Acompanhar o andamento do processo de K. e a vida desse personagem é, em grande parte, fazer uma viagem ao subconsciente. Não sou psicanalista ou nada do tipo mas alguns capítulos, entre eles um chamado "O Espancador" tem uma subjetividade que até alguém leigo como eu consegue vizualizar. Mais do que sonho, a matéria que traz o absurdo pra essa história são representações dos pensamentos mais profundos e secretos do autor - talvez por isso Kafka tenha pedido que sua obra fosse destruída após sua morte, esses livros revelam demais sobre ele próprio. O fato de que o personagem principal tem como nome a primeira letra do sobrenome do autor, também reforça esse sentimento de que K. é uma representação do próprio Kafka.
    Embora nunca tenha deixado de me sentir confusa lendo essa história, uma hora o estranhamento fica mais suportável e é possivel seguir a trama com mais facilidade. K. é um homem repleto de culpa, defeitos e assuntos mal resolvidos, de forma que, mesmo que ele continue se dizendo inocente e não haja no livro nenhum prova em um sentido ou em outro - sequer há uma acusação - é difícil não enxergá-lo culpado de alguma coisa. O desfecho parece uma confirmação de que K. acaba por condenar a si próprio com sua passividade ante o que lhe acontece.    
   Claro, essa interpretação se junta a várias outras que vários autores já realizaram ao longo dos anos. O sentido real de "O processo" talvez seja para sempre desconhecido, assim como ficarão incompletos os capítulos começados e não terminados pelo autor. Mas, como o proprio livro diz, não devemos nos prender muito a interpretações já que o texto é imutável. "As opiniões são muitas vezes uma expressão de desespero" por essa imutabilidade.    
   Apesar dessa ambiguidade toda, gostei de conhecer Kafka e pretendo ler outros livros desse autor. Recomendo aos que querem un bom desafio literário - material e não formal como o de autores como James Joyce, por exemplo. Kafka da forma mais simples possível e, ainda sim, ficamos completamente confusos com suas histórias.   
    Nota 8 - um bom livro.


P.S.: O posfácio de Modesto Carone é interessante e elucidativo, apresentando algumas teorias a respeito do sentido do texto. Entre outras coisas, o Carone fala sobre o diálogo entre o livro de Kafka e "Crime e Castigo" de Dostoievski. À conferir, já que ainda não li essa obra do autor russo.

Sobre Guilty Pleasure (ou: Por que sentimos culpa por gostar de coisas "ruins"?)


   Você já ouviu a expressão guilty pleasure? Funciona assim: a pessoa diz que gosta da série/livro/filme X e acrescenta que é "guilty pleasure", porque sabe que é ruim etc etc. Ou seja, um "guilty plesure" é um produto que você consome e gosta mesmo sabendo que é de qualidade duvidosa
    Eu já devo ter utilizado esse termo no blog em algum momento porque é uma maneira bem rápido de explicar que você sabe que aquela coisa X (novamente, livro/filme/série) é ruim mas que gosta mesmo assim. Em uma resenha é quase um aviso "olha, eu estou falando bem disso mas não me xingue, okay? Eu sei que é ruim". Funciona mas, ao mesmo tempo, também me incomoda um pouco toda vez que uso. 

   A primeira coisa que me incomoda é a tradução literal - prazer culpado. Como se a pessoa devesse se sentir culpada por gostar de algo que não é considerado entretenimento de qualidade. Como se fosse necessário um grupo homogêneo de pessoas dizendo que algo é bom para que você possa respirar aliviado e dizer que gosta. 
   Eu entendo que algumas coisas que você goste possam ser tão ruins e tão massacradas que dê até uma vergonha de dizer em voz alta para um grupo de pessoas. Ou tão ruins que você até consegue perceber as falhas e pontos absurdos, mesmo gostando. Mas, falando como um fã da Saga Crepúsculo e alguém que gostou sinceramente do primeiro 50 Tons de Cinza: A gente tem que parar com essa coisa de Ensino Médio de fingir que não gosta das coisas só para se encaixar. Dá vergonha, mas precisamos tirar nossas autores e séries "ruins" que curtimos do armário: do contrário, como vamos encontrar outras pessoas que curtem esse algo tanto quanto a gente? 
   Então o primeiro motivo é esse, uma nova postura de assumir que meu gosto não é só clássicos e coisas cabeças, que também consumo bobagem (no melhor sentido possível). De dizer sem vergonha - ou talvez até com vergonha mas dizer mesmo assim - que não só estou amando Supergirl como também chorei no último episódio da primeira temporada porque pensei que a Kara não fosse sobreviver. A série tem problemas? Claro, principalmente a segunda temporada, que estou assistindo agora. Mas eu gosto. 

   O segundo ponto é que acho esse lance de "guilty pleasure" algo meio arrogante. Porque a pessoa que usa esse termo parece pressupor que, tirando aquelas músicas do Pablo Vittar ou aquela trilogia de romances hot que é o que ela chama de guilty pleasure, todo o resto que ela consome é bom. Tudo bem, você gosta dessas coisas mesmo sabendo que são ruins, ou bobas ou whatever - mas já parou para pensar nas coisas que você gosta e não sabe que são ruins? 
   Quando falo bom e ruim falo, obviamente, em um nível de avaliação técnica, aquela coisa impessoal, sem consideração pessoal. Um livro bom no sentido de ser bem escrito, um filme bom no sentido de ser bem filmado com um roteiro bem elaborado, bons diálogos. Pare e pense: tudo o que eu gosto é tecnicamente bom? 
   Se você for honesto consigo mesmo vai responder que "NÃO". Há momentos em que algo é bem feito ou bem escrito ou historicamente relevante mas esse produto supostamente incontestável não é algo que você gosta. Maior exemplo são os "clássicos" da literatura: eles são aclamados como clássicos por um motivo ou por outro mas, de modo geral, são considerados boas produções. Você gosta de todos os clássicos que lê? Só para citar um exemplo, eu não consegui terminar "O triste fim de Policarpo Quaresma" até hoje porque achei um porre. "O ateneu"? Li duas páginas. São livros clássicos mas não foram livros que me agradaram. 
   É aquele papo de sempre, gostar é algo muito pessoal e individual. É quando o livro dialoga com você de alguma forma ou quando aquele filme tem algo que te interessa, te desperta atenção. Quando a série tem aquele personagem que parece falar tudo o que você quer dizer.
  Gostar não faz sentido, não é racional. Então, lamento dizer, nem tudo o que você gosta e defende com unhas e dentes da internet é bom. Isso vai além daquela comédia boba que você assiste sempre que está se sentindo para baixo, além de guilty pleasure, porque gostar não é um critério técnico, é algo 100% emocional (ok, talvez menos. Eu estou tentando criar um argumento aqui, me ajudem). 

    Então eu entendo o que você (e eu) quando falamos de Guilty Pleasure. É uma forma de avisar "olha, não adianta falar mal de X para mim, eu sei que é ruim". Mas essas mesmas pessoas que comentam "nossa, uma moça tão inteligente, assistindo reality show?" também curtem coisas que não foram validadas ou que não são intelectuais. E está tudo bem, sabe? Porque julgando o coleguinha ou se justificando para um coleguinha imaginário toda vez que for dizer que gosta de algo?
    Pensei nesse texto porque estava lendo o livro da Stephenie Meyer, chamado "A Química". É um livro irregular, algumas partes eu gostei, outras nem tanto. Mas, antes de escrever sobre esse resolvi refletir um pouco sobre essa expressão tão usada e compartilhar aqui com vocês.

 Claro, essa não é uma discussão fechada. Coloque sua opinião nos comentários! Bjs e até a próxima!