O quarto de Giovanni - James Baldwin



    Publicado na década de 50, O quarto de Giovanni conta a história de David, um americano que se auto exila em Paris afim de se encontrar (ou para fugir de si mesmo, quem sabe). Lá ele conhece Hella, também americana e os dois se envolvem até chegar ao ponto de que David a pede em casamento. Mas Hella vai embora pra Espanha e David fica sozinho em Paris, passando por dificuldades financeiras. É quando conhece Giovanni, um bartender, e é forçado a reconhecer seus desejos que o perseguem desde a adolescência. 
    Logo de início já sabemos o final da história: Giovanni está preso, por algum motivo ainda não revelado, e será executado em algum momento da manhã seguinte. Sozinho numa casa do interior da França, David pensa no antigo amante e na história dos dois, ao mesmo tempo que se culpa pelo o que virá a acontecer. O livro é então essa mistura entre as memórias de David e o momento presente, em que ele tem que lidar com a desilusão e a culpa. O leitor sabe que não terminou bem, mas tem que ler o livro para descobrir o porquê.
    O quarto de Giovanni é bem curtinho, duzentas e poucas páginas muito bem escritas. Os textos ao  final do livro ajudam a ter uma noção maior do autor e do contexto em que o livro foi publicado. Foi lendo esses textos que descobri a alcunha de "Henry James do Harlem", que se encaixa perfeitamente com o autor. Assim como James, Baldwin parece ter total controle sobre o texto e as palavras. É tudo muito bem polido e colocado, tornando a leitura prazerosa, pois o texto é elegante sem recorrer a "firulas" de estilo.
    Outra coisa que os textos de apoio deixaram a entrever foi a figura de Baldwin como membro de uma suposta "literatura negra". O primeiro livro do autor tem essa temática mas, surpreendente, não há personagens negros nesse livro (exceção para o primeiro amante de David). Um dos textos do final discute essa diferença entre as temáticas do autor e a forma como, apesar de não ser um livro sobre raça, é possível fazer várias reflexões também nesse sentido.
    Por mais que seja um livro que trate sobre um relacionamento sexual e amoroso entre dois homens, O quarto de Giovanni é uma história muito mais sobre os papéis de gênero. O que significa ser homem e ser mulher, na década de 50, que é quando esse livro se passa. Obviamente, como um produto de sua época, o livro está repleto de frases e comentários machistas dos personagens principais, sendo um exemplo um momento em que Giovanni insinua que mulher deve apanhar do marido. Mas não dá para se ficar revoltado com as colocações dos personagens, ainda mais quando se percebe que é a masculinidade tóxica do ambiente cultural em que vivem (e que está introjetada dentro deles mesmos) que fez com que o relacionamento tivesse um final tão trágico. David e Giovanni são frutos de sua época e sofrem por isso.
    Gostei muito de O quarto de Giovanni, principalmente pela escrita de Baldwin, do qual pretendo ler outras coisas em breve. Recomendo para os que gostam de livros com essa temática (gênero, sexualidade, memórias) e para os que querem conhecer um grande autor.
    Nota 9 - muito bom

Leah fora de sintonia - Becky Albertalli


   É o último ano do ensino médio, últimos meses antes de Leah sair da casa da mãe e ir fazer faculdade na Geórgia. Seus amigos, Simon, Nick, Morgan e Anna, entre outros estão todos lamentando o fim dos seus dias de união e  Leah parece estar um pouco distante de tudo isso. Não é que ela não vá se sentir falta deles ou que ela não se importe com o que vai acontecer, mas é só que ela se sente acompanhando tudo isso a distância e, ao mesmo tempo, sente esse incômodo dentro de si, a sensação de que algo não está certo em sua vida.

"As vezes eu me sinto deixada de lado até quando a vida continua junto comigo."
   Leah fora de sintonia é a continuação de Simon e a agenda homo sapiens (ou Love, Simon), desta vez com uma história sobre uma das personagens mais misteriosas do primeiro livro. No primeiro livro Simon chega a pensar que era muito difícil conversar com Leah, porque parecia haver sempre um subtexto ali, algo que ele não conseguia entender ou perceber. Dessa vez nos temos acesso só que se passou na cabeça da personagem, o que é muito legal e, por vezes, surpreendente.
   Leah é o tipo de garota que se considera durma e fria, "uma Sonserina", como ela pensa em si na maioria das vezes. Mas, nesse período que o livro se passa, vemos uma rachadura nesse pose de durona e ela se mostra através de duas relações: de Leah com Garrett, que é meio apaixonado por ela desde o primeiro livro e de Leah com Abby.
  Pois é, Leah e Abby. Eu admito que cantei essa bola desde que assisti Love, Simon mas, quando cheguei ao final do primeiro livro, tive minhas dúvidas. Talvez eu só tivesse lendo demais no relacionamento das duas, talvez Leah só estivesse mesmo apaixonada por Nick.    Ou talvez não. Porque, nesse livro, percebemos toda uma situação que ocorria no primeiro livro e Simon nem reparou. Leah é Abby eram melhores amigas mas algo aconteceu e elas foram se distanciando, depois Abby começou a namorar Nick e as coisas ficaram bem estranhas.

"Essa deve ser a melhor parte de estar apaixonado - a sensação de ter um lar na mente de outra pessoa."
   Ao longo da história é complicado decidir se Abby é um ex-amor ou um amor atual pra Leah. Mesmo a personagem narrando tudo em primeira pessoa; é como se Leah estivesse enganando até mesmo a si mesma, tentando desenvolver algo por Garrett e falhando miseravelmente vez após vez.  Como leitura isso me deixou bastante em dúvida até mais ou menos a metade do livro - quem é cannon aqui Abby ou Garrett? - mas depois as coisas desenrolam e a gente vê que muito dessa confusão mental que Leah vem sentindo tem haver com os sentimentos que ela tem desenvolvido por Abby ao longo desse 1 ano e meio.
    Uma coisa legal desses livros serem em primeira pessoa é que a mudança de ponto de vista parece até mudar o personagem. A Abby que Leah vê é muito diferente da que Simon enxergava no primeiro livro - muito mais perfeita e baladeira do que nos foi mostrado em outra história. Talvez um pouco idealizada, porque Leah joga tantas qualidades em Abby que a considera perfeitinha e inacessível - além de, obviamente, hetero.
    É só quando o namoro de Abby e Nick começa a ir mal e quando as duas resolvem conhecer a faculdade que estudarão juntas é que as coisas começam a ficar mais claras na história. Leah, por exemplo, apesar de se considerar bissexual desde os 11 anos, nunca contou o fato pra ninguém além de sua mãe. Como ela esperava que Abby agisse de forma diferente da que agiu?      
   Enfim, esse livro tem bastante daquela angústia adolescente e dramas, o que me fez grudar na história e ler tudo em uns 2 dias. Chegou determinado ponto que eu cheguei a conclusão de que, se Leah não terminasse com ninguém mas procurasse um psicólogo, o final do livro seria feliz. Porque é óbvio que, por trás daquela pose marreta e auto suficiente, Leah tem problemas sérios de auto estima e aceitação. Pra não dizer um perfeccionismo que beira a auto sabotagem - do tipo que te impede de fazer qualquer coisa se não tiver certeza de que vai sair tudo perfeito.

"Como se já não fosse ruim o bastante eu estar sempre a um sopro de desmoronar, tenho que fazer isso sob a luz de um holofote? Não dá."
   Mas o amor resolve tudo e, bem, temos aqui nosso final feliz. Acho que, por ter personagens presentes na história e não apenas por mensagens como foi com Blue e Simon e por essa dúvida que tive durante toda a história se ia dar certo ou não, preferi a leitura de Leah fora de sintonia a leitura de Simon vs homo sapiens agenda. De um modo geral, essa semana que passei lendo Becky Albertalli foi bem divertida, fazia tempo que eu não me divertia lendo YA.
   Recomendo essa duologia para os que querem romance adolescente com a mistura certa de slice of life, romance, comédia e drama. A representação das minorias é muito bem feita - temos bons personagens negros, gordos e LGBT - e a autora escreve bem (embora com algumas ressalvas), Leah e Abby são um casal muito muito fofo.

"Ela me faz querer rasgar meu peito e arrancar meu coração"
  Nota 8,5 - o livro é muito bom mas tirei por causa de alguns detalhes da história que me deixaram um pouco confusa. 


Bohemian Rhapsody é bom mas cheio de problemas | Review




   Bohemian Rhapsody é um filme cheio de problemas. Se o objetivo é fazer a cinebiografia do Queen, falha em não mostrar a vida pessoal dos outros integrantes da banda. Se é contar a história de Freddy Mercury erra em não ser ousado ou específico o suficiente; não conta nada de específico sobre a vida pessoal de Mercury a não ser o que qualquer um pode ler lendo o Wikipedia. A sensação é de terminar o filme ainda sem conhecer o vocalista do Queen, parecem sempre mostrar o personagem do ponto de vista de terceiros - poucas são as cenas em que vemos o que Mercury pensa ou sente sobre um fato ou pessoa.
   Por último, existe a possibilidade do filme ser sobre a música que lhe dá título, Bohemian Rhapsody. O fato de sua composição ter preenchido boa parte do tempo de filmagem parece corroborar essa teoria. Mas então, porque não utilizar mais a canção na trama? E porque a história continua depois que a canção é lançada?
   Logo, não se trata de um dos melhores trabalhos de Bryan Singer como diretor. A direção é dispersa e preguiçosa e o roteiro, embora tenha ótimos momentos, é um tanto limitado pela classificação indicativa. A sorte é que é um filme falando do Queen, uma banda tão incrível com músicas tão populares e um vocalista tão icônico que mesmo um filme sem muito carisma consegue ocupar o posto de cinebiografia musical que mais arrecadou na história.

   É por causa da força das músicas do Queen que Bohemian Rhapsody merece ainda algum destaque - e pela atuação de Rami Malek, mas já volto a esse assunto. As músicas são tão poderosas que conseguem carregar de sentimento até mesmo momentos que, pela direção equivocada ou qualquer outro motivo, não teriam tal peso. Eu fui às lágrimas em diversos momentos e me arrepiei em tantos outros devido a música - as cenas em que Freddy Mercury toca ao piano Love of My Life e, depois, ao final, Bohemian Rhapsody são as minhas favoritas do filme e foram aquelas que me emocionaram.
   Outro ponto digno de nota é atuação de Rami Malek como Freddy Mercury. No começo não botei muita fé, aquelas primeiras cenas em que o ator usava peruca me pareceram mais uma paródia do que uma representação. Faltava o sex appel que o vocalista tinha mesmo com os dentes proeminentes, era difícil acreditar que conquistasse tanta gente por onde passava daquele jeito. Só quando adotou o bigode e os cabelos curtos é que o quadro mudou - nesses momentos Malek encarna Mercury de uma forma única e digna de aplausos.     

   No final, apesar de ter me emocionado bastante, fiquei com a sensação de desperdício. Freddy Mercury merecia um filme melhor, o Queen também. Até mesmo Rami Malek também merecia algo que você mais digno de sua interpretação. Bohemian Rhapsody não é horrível ou descartável, é apenas mediano - e isso é algo inaceitável para a cine biografia de um dos maiores vocalistas daquela que é uma das maiores banda de todos os tempos.
   Nota 8 - o filme é bom mas frustra porque poderia ser excelente.

Obs: os responsáveis pela legenda PT-BR não traduziram as músicas. Imperdoável. 


Simon vs the homo sapiens agenda - Becky Albertalli


   Após assistir a "Love, Simon" fiquei curiosa para saber com o seria o livro. Ainda mais porque já havia lido alguns comentários de que a adaptação para o cinema tinha um desfecho diferente do original. Como já tinha uma ideia da história, achei que seria legal ler o original, por isso peguei o ebook em inglês. 
    Simon vs the homo sapiens agenda é uma história bem fofa sobre um menino de 16 anos que se apaixona por um misterioso Blue que ele conhece através do Tumblr. Acontece que Blue é um garoto, e ninguém (além de Blue) sabe disso. Por isso, quando seu 'amigo' Martin ameaça a contar para todos sobre seus e-mails secretos, Simon se vê sem saber muito bem o que fazer. 
    Mais do que o final, a principal diferença entre filme é livro é a reação de Simon com a chantagem. Nas duas versões ele fica apavorado etc mas somente no cinema ele age ativamente para juntar Abby e Martin, chegando até a mentir para chegar nesse ponto. No livro Simon não chega a tanto, se limitando a realizar encontros em que Martin esteja presente e chamá-lo para a festas.
    A aparência fisica e um pouco da personalidade de Simon também foram suavizadas na adaptação.  No livro o protagonista tem cabelo loiro escuro e uso óculos, além de ter um humor bem mais palhaço do que o adolescente reprimido que se mostra no filme. Curiosamente, o restante dos personagens ficou bem fiel fisicamente, embora Leah tenha tido bastante de sua personalidade ácida suavizada.
    Faço essas comparações mais para efeito de registro, já que gosto das duas versões, livro e filme. Acho que cada uma das obras tem seus pontos positivos. Simon vs the homo sapiens agenda é tão fofo quanto "Love, Simon", com a vantagem de ter menos momentos traumáticos ou de tensão como nas inúmeras drs e rupturas que existem antes que o filme chegue ao final feliz. Gostei demais de ter lido e aproveitei que estava nessa vibe team para pegar a "sequência", Leah fora de sintonia

 Nota 8 - bom livro

Halloween (2018) é o melhor slasher dos ultimos anos | Review


   Quarenta anos se passaram desde que o ataque do psicopata Michael Myers mudou a vida de Laurie Strode para sempre. Desde então ela se prepara para o momento em que tornará a ver o seu assassino, contando com um forte esquema de segurança e preparação - seu nível de paranoia é tão grande que ela chegou a perder a guarda da filha quando esta tinha 12 anos. 
   Hoje avó, Laurie tenta se reconectar com filha e neta, enquanto luta contra esses fantasmas que assolam com ainda mais força na véspera do Halloween. Allyson, sua neta, é um pouco mais aberta e, ainda, um pouco curiosa sobre os eventos de 40 anos atrás.
   Por ser uma continuação direta do primeiro Halloween de 1978, fiquei um pouco receosa de ver Halloween nos cinemas. Não me lembro nada do primeiro filme e não consegui rever a tempo da sessão, então imaginei que iria ficar boiando mas, felizmente, não é o que ocorre. Todos as menções aos fatos do primeiro filme são feitos de forma bem superficial ou contextualizada então dá para assistir essa suposta continuação sem ter visto o original, o que é ótimo para atrair toda uma nova geração aos cinemas para conhecer um dos seriais killers mais famosos do cinema. 


    O subgênero slasher já fez muito sucesso algumas décadas atrás e Halloween é tanto uma homenagem a esses filmes em que um serial killer vai matando geral quanto uma reinvenção do gênero. A direção e trilha sonora do filme é muito competente em criar um clima de tensão o filme todo, realmente é possível temer e se angustiar com a aparição do assassino e torcer pelos personagens. As mortes são bem chocantes, a ponto da gente começar a se perguntar como Michael Myers pode ser forte o suficiente para, por exemplo, esmagar um crânio humano com apenas um pisão de suas botas pesadas.
   Ao mesmo tempo, o clichê da mocinha indefesa é um pouco pervertido aqui. Laurie não é mais mocinha e, muito menos, está indefesa. Tanto ela quanto Michael parecem aguardar esse reencontro, a expectativa de finalizar o que foi iniciado vários anos atrás. Há toda uma discussão no subtexto do filme sobre o fato de você lutar com um monstro e acabar se tornando um monstro também, uma afirmação que ressoa particularmente na ultima cena e um pouco na sequência final. Falando em sequência final, é a melhor coisa do filme, eu recomendaria que vocês assistissem o filme somente por ela. 

   Eu gosto muito de terror mais sobrenatural e, nessa categoria, o melhor filme do ano para mim foi Hereditário. Mas slasher é um gênero do terror que eu acho muito divertido também. Claro, dá para sentir medo, ansiedade e tudo mas o slasher tem algo que outros filmes de terror não tem, que é aquela catarse do final e uma diversão inerente em ver outras pessoas serem trucidadas por um serial killer. Como nos melhores filmes do (sub) gênero, a gente não liga muito para a maioria dos personagens, por isso não sentimos tanto quando eles morrem. Além disso, o final é sempre muito simbólico: derrotar o monstro pode ter saído de moda, mas é especialmente legal de assistir quando se trata de um filme slasher. E mais ainda quando é feito por personagens femininas, que tem uma imagem particularmente indefesa nesses filmes. 
   Nesse Halloween, não poderia haver indicação melhor para vocês que o filme homônimo. Assistam Michael Myers em um dos melhores filmes da franquia e estejam preparados para cenas realmente bem feitas e uma história clássica e que vale a pena. 
    Nota 9  - muito bom

|TRAILER|

    

Onde a Luz Cai - Alisson e Owen Pataki


  Revolução francesa, uma época de mudanças sociais e filosóficas que mudariam não só a França mas também o mundo para todo sempre: depois que a plebe depôs seus Reis, nenhuma monarquia em todo mundo parecia segura. Como era época de conflito e profundas mudanças, nem tudo eram flores. Dickens, em Um conto de duas cidades já nos mostrava um pouco dessa nova sociedade: embora tivessem realmente alguma razão para se rebelar, a visão do autor era bem pessimista, alardeando principalmente as milhares de execuções que ocorreram naquele período em todo o país. A guilhotina parecia esfomeada por sangue - ou seria o povo?
   É nesse ambiente excitante e um pouco selvagem que Alisson e Owen Pataki se concentram para narrar a história de três personagens principais. O primeiro é Jean Luc, um advogado idealista que saiu do Sul da França junto com sua esposa Marie para trabalhar na "revolução" em Paris. Ele espera estar em contato com valores morais superiores (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) mas, ao contrário, passa o dia fazendo o inventário do espólio que foi confiscado dos nobres.
   O segundo personagem principal é André, um oficial voluntário do exército francês. André se voluntariou a causa da revolução mais por não ter escolha do que por qualquer desejo de realmente ajudar: por ter sangue nobre, era isso ou ir para a guilhotina e encarar o mesmo destino que seu pai. A vida de André no exército parece estar começando a ficar menos tranquila, quando este se encontra e se apaixona por Sophie (a terceira protagonista) - a jovem viúva é sobrinha do general Murat e o homem não vai aceitar o enlace entre ela e Jean Luc de forma nenhuma.
   Ao longo de vários anos da revolução francesa, vamos acompanhando a trajetória desses personagens e suas reações perante os fatos históricos que se sucedem. A fidelidade histórica, porém, não é bem o fato aqui - o livro tem várias liberdades nesse sentido, deixando bem claro que o foco são os personagens, não a revolução francesa.
    A escrita, cheia de diálogos e ações, propícia uma leitura rápida e fluida. Não há muitos momentos de reflexão dos personagens e, mesmo quando há, eles não seriam tão difíceis de serem transportados para a tela caso esse livro fosse, por exemplo, adaptado para filme. A linguagem e algumas das cenas que ocorrem aqui me fizeram pensar nessa comparação entre o livro e uma obra cinematográfica. Um dos momentos que mais me chamou a atenção nesse sentido é justamente o final, quando os autores viram a necessidade de criar um embate direto (e físico) entre mocinhos e bandidos.
    Nada do que eu citei até aqui é necessariamente algo ruim, não fosse o fato de eu estar esperando outra coisa. Ano passado li A rainha branca da Phillipa Gregory e foi uma das melhores leituras daquele ano, um novelão da melhor qualidade, aliando história e a trama dos personagens de forma perfeita e emocionante. Ao contrário de Gregory, os irmãos Pataki preferem uma história mais seca, tanto em pesquisa história quando em motivações de personagens. Já estava tendo certa dificuldade com a história mas, do meio para final, ficou ainda mais complicado continuar. Há um momento chave no livro e, após ele, nada acontece. É como se a história tivesse chegado a um auge e os autores não soubessem o que fazer após isso.
   A solução encontrada para a ausência de propósito foi mandar um personagem para outro continente enquanto o restante continuava em Paris. O problema é que, após páginas e páginas de descrição de viagens e de protagonistas sofrendo na mão da "justiça", o livro termina sem muitos esclarecimentos, como se fosse só "derrotar o vilão" para tudo ser esquecido.      O livro não estava funcionando para mim desde o começo, quando pensei que as opiniões dos personagens sobre a revolução eram elitistas demais - parece que nenhum protagonista ver qualquer coisa de bom nos atos pós revolução, pelo contrário, um ou outro parece ter até mesmo saudade da Monarquia. Eu li Um conto de duas Cidades, que também não via a revolução com bons olhos, mas Dickens ainda conseguiu mostrar ao leitor que parte da revolta do povo tinha sim uma razão de ser. O mesmo não acontece nesse livro.    Me pareceu que os autores passaram muito tempo tentando encaixar pessoas ou lugares na história (hey, e se a gente citar a revolução americana aqui, quando na verdade seria impossível que os franceses sequer ligassem pra ela na época?) e pouco tempo pensando em como essa história desses personagens iria se desenrolar, na complexidade dos desafios que teriam diante de si etc.     
    Mesmo com todos esses poréns, indicaria para os que gostam de romances históricos com linguagem mais veloz, fáceis e rápidos de ler. É o tipo de livro que você pega para esquecer da vida - como eu queria que tivesse funcionado comigo mas não rolou. 
     Nota 7 - livro OK.    

  Livro cedido pela editora para resenha

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Ele está de volta | Review


    Era um dia comum em Berlim, crianças brincavam no parque. De repente, um clarão: eis que Adolf Hitler aparece caído ali, diante dos olhos de todos. Mas o ano é 2014, não 1945. Algo aconteceu e, sem explicação, o antigo Führer está ali.
    "Ele está de volta" é um filme alemão que começa como uma comédia. Afinal, as ideias de dominação mundial de Hitler soam anacrônicas no mundo atual, certo? As pessoas tiram fotos e fazem piadas, porque não pode ser sério que esse homem realmente se ache Hitler.
    Um jovem cinegrafista, recém demitido, decide fazer uma espécie de documentário e sai com Hitler pela Alemanha, onde o líder nazista conversa com as pessoas e tenta entender seus medos e sentimentos. Após reunir material suficiente, o cinegrafista leva o material para o antigo canal em que trabalhava e Hitler vai para a TV, para participar de um humorístico.
    Eu até dei risada com esse filme mas nada que justifique o título de comédia. Algumas cenas não são muito engraçadas, talvez porque eu não ache esse lance de imitação algo engraçado (seja imitação de qualquer coisa, não necessariamente essa). A duração do filme também não ajuda, são mais ou menos 2h de filme e, sinceramente, chega um momento em que você já não está muito interessado em Hitler fazendo presepada.
    Apesar desses pontos negativos, a última meia hora ou assim é absolutamente interessante, diria até necessária. Você não acredita, mas as pessoas que antes riam de repente percebem que "ei, ele fala umas besteiras mas também fala muita coisa que acontece de verdade". Nisso, os seguidores de Hitler aumentam.
    Acho que não cabe aqui dar spoiler do final mas eu o senti como um soco na cara. Afinal, Hitler não deu exatamente um golpe. Hitler foi "eleito" pelo povo, que não tinha mais fé nos políticos e resolveu tentar algo de diferente. A gente pode até fingir que toda a maldade estava naquele único homem mas toda a população da época tinha aqueles mesmos sentimentos dentro de si.
    Se trouxermos Hitler para a época atual será que seria difícil para ele reconquistar seu império? As pessoas não mudaram tanto assim, na Europa os refugiados são os novos "indesejados" da vez. Não é difícil ouvir discursos absurdos sobre refugiados na Europa nem discursos absurdos sobre outras minorias no Brasil.
    As pessoas ouvem e pensam "ok, ele não está falando sério sobre isso". Ou até mesmo se sentem representadas por comentários xenófobos ou racistas. Quando a ficha cai já é tarde demais e é essa a grande mensagem do filme e o motivo pelo qual eu acho que todo mundo deveria assisti-lo. Ainda mais no momento em que vivemos.
    Nota 8,5 - muito bom, apesar dos poréns que citei na Review. Assistam esse filme - tem na Netflix.