Os três mosqueteiros - Alexandre Dumas (Resenha)

   
Quando um autor se torna um dos seus favoritos depois de um único livro é sinal que seus livros têm algo de especial. Não que seja sempre um escritor incrível ou perfeito - quando esse tipo de ligação acontece é como se parte do livro dialogasse diretamente com você.
   "O conde de Monte Cristo" foi um dos melhores livros de 2016. Depois dele decidi que iria ler tudo o que Dumas tivesse publicado no Brasil mas, tanto tempo depois só li Os Mosqueteiros.
   Embora tenha algumas semelhanças entre as duas histórias - um jovem inocente e idealista cujo nome começa com a letra D (de Dumas?) passa por várias peripécias em Paris - o cerne de "Os três mosqueteiros" não é a vingança como no livro anterior mas sim a amizade. D'artagnan chega a Paris disposto a se tornar um mosqueteiro e, enquanto isso não ocorre, cria amizade com um trio de mosqueteiros bem peculiar - Athos, Portos e Aramis. Esses quatro amigos não tem muito em comum entre si além do fato de serem muito bons no manejo da espada e  serem um meio quebrados (financeiramente falando). Mas a amizade entre eles é imediata e sem ressalvas - "um por todos, todos por um" é aplicado em cada página desse calhamaço de quase 800 páginas. 

"A vida é um rosário de pequenas misérias que o filósofo desafia rindo" - Athos, pág. 593

   Não gostei muito de D'artagnan no começo mas gostei que ele foi ficando mais esperto e menos impulsivo ao longo da história. No primeiro capítulo D'artagnan é um homem esquentadinho que arma um barraco por causa de um cavalo. Com o passar da história ele fica mais esperto, embora não menos letal com a espada.
   Impossível não ler essa história e não se lembrar dos filmes. Embora não me recorde muito da trama, o rosto dos personagens que imaginei é uma mistura dos atores que participaram de "Os três mosqueteiros" e "O homem da máscara de ferro". Parece meio estranho mas garanto a vocês que tudo fez sentido por aqui.
   Os três mosqueteiros é então focado na aventura desses quatro personagens principais mas com foco no recém chegado D'artagnan. É uma trama cheia aventuras e diálogos, no melhor estilo Dumas, na qual você mergulha sem pensar em mais nada e lê páginas e páginas sem cansar. Quem diz que ler clássicos é algo chato certamente nunca conferiu um dos "novelões" de Dumas. Se "O Conde de Monte Cristo" fosse novela, passaria no horário das 21h. Já "Os Três Mosqueteiros" seria uma novela das 19h, pois, ao contrário do primeiro, tem um clima muito mais de humor que de drama.
 Algumas cenas parecem ter sido tiradas de uma esquete de "Os trapalhões", como aquela em que os quatro amigos conseguem perder quatro cavalos caríssimos nas situações mais absurdas que você possa imaginar (pra vocês terem uma ideia: um deles matou o cavalo pra comer). No início estranhei um pouco essa galhofa toda mas acabei tendo que aceitar, porque a coisa vai por esse lado durante todo o livro. Claro, também há momentos sérios mas, até mesmo esses, não são tão sérios quanto poderiam - a gente sabe que mais cedo ou mais tarde tudo acaba se resolvendo.

    Uma coisa que me irritou um pouco durante a leitura foram as atitudes dos mosqueteiros para com as mulheres. Eles as exploram, chantageiam e se aproveitam delas de todas as formas. Embora não haja nenhum abuso físico, alguns atos de D'artangnam beiram o imoral.
   Porém, o próprio Dumas diz que "estaríamos errados julgando os atos de uma época sob o ponto de vista de outra". Não falava especificamente do mesmo que eu, mas serve para nos lembrar que as coisas antigamente tinham diferentes contextos.
   Mesmos com esse porém, "Os três mosqueteiros" é uma leitura excelente e muito divertida. As pessoas que temem os clássicos ou os calhamaços certamente não conhecem os livros de Dumas. Embora nem sempre verossímeis, são livros interessantes da primeira até a última página.
   Ainda gosto mais de "O Conde De Monte Cristo" mas recomendo "Os três mosqueteiros" para os que querem um livro divertido, para ler e perder noção das horas (e até do tamanho do próprio livro - as 700 e poucas páginas passam rápido).
    Nota 8 - bom livro.

O que faz uma biografia ser boa? - Dois livros e duas visões diferentes da homossexualidade


Uma biografia é um tipo de literatura muito específica. Há pouco espaço para inventos e ficções – quanto mais famoso o biografado mais as pessoas querem detalhes/dados/fotos do que ocorreu. Querem saber exatamente o que aconteceu e, se tiver alguma história sórdida no meio dos fatos, também não faz mal.
“Antes que Anoiteça”, é uma autobiografia com poucas fotos mas cheia de detalhes. Nela, o escritor Reinaldo Arenas retrata a sua vida antes, durante e após o regime cubano. Embora tenha começado apoiando Castro, Arenas logo passa a discordar da ideologia vigente e tensão entre escritor e governo é frequente, ainda mais por se tratar de um autor homossexual, já que os homossexuais eram perseguidos em Cuba.
Enquanto lia “Antes que Anoiteça”, senti falta de maior representação feminina. As menções a mulheres homossexuais não chegam ao número de dedos de uma mão, o que me levou a procurar algum livro que preenchesse essa lacuna. Foi aí que li “Flores Raras e Banalíssimas”.

Se a quantidade de fatos e a veracidade deles é o que faz ser uma biografia boa, então "Flores Raras e Banalíssimas" não deveria ser considerado um bom livro. A história, que busca retratar os 15 anos do relacionamento entre Elizabeth Bishop e Lota de Macedo, carece de fontes nos momentos mais cruciais da trama. As correspondências e agendas das personagens principais não são o suficiente para retratar essa história em primeira mão: os depoimentos que a autora do livro tem de amigos e pessoas que conviveram com o casal na época é que dão a tônica de boa parte do livro.
Entretanto, assim como "Antes que anoiteça", "Flores Raras..." também foi uma leitura que me impressionou muito. Os dois livros não poderiam ser mais opostos e, no entanto, acho os dois realmente bons.
Um dos aspectos que torna as duas biografias interessantes é o mesmo que também faz com que dialoguem entre si, o retrato da homossexualidade durante as décadas de 40, 50 e 60. Em "Antes que anoiteça" o retrato da repressão aos homossexuais é tão intenso quanto ao das aventuras sexuais vividas pelo narrador ao longo desse período. Muitos trechos podem ser até mesmo chocantes para os desavisados, mas é um retrato cru daquele período e daquelas pessoas, principalmente Arenas.

 "Flores Raras..." é muito mais discreto. Como relato contado por diversas fontes e não pelas duas protagonistas da história, o livro carece do acesso à intimidade dos personagens que há em “Antes que Anoiteça”. Mesmo assim, são justamente esses relatos que deram a resposta para a minha dúvida "como era vista a homossexualidade feminina nas décadas de 40, 50 e 60?" a resposta é que não era vista. Nenhum dos entrevistados sequer tinha ideia do relacionamento entre as protagonistas, até que o caso estourou na década de 90.
Nesse sentido, são dois livros com visões contrastantes da homossexualidade, embora tenham se passado, senão no mesmo espaço, no mesmo período. O primeiro há uma ostentação desse estilo de vida, apesar (e talvez em razão) de toda a perseguição. Já no segundo não há perseguição alguma mas os relacionamentos são muito mais discretos.
Isso torna “Antes que Anoiteça” melhor que “Flores Raras...”? De forma alguma, dentro de suas possibilidades são excelentes livros que cumprem o objetivo de contar a história de uma pessoa (ou pessoas) e, de quebra, dão um contexto histórico muito rico e interessante.
As pessoas retratadas facilitam para que seja assim. Os dois livros nos apresentam personagens interessantes e, acima de tudo, humanos. Não dá pra concordar e simpatizar com tudo o que Reinaldo (ou Elizabeth, ou Lota) faz no livro. Ainda assim, não dá para terminar qualquer um desses livros sem uma dose de simpatia (ou, ao menos, empatia) por esses personagens.
Acho que o que faz uma biografia boa é esse fator humano. Seja ela autobiográfica ou retratando apenas um período da vida de uma pessoa, considero uma obra nesse estilo boa quando consegue situar o leitor na vida das pessoas retratadas e fazer com que nos coloquemos na pele dele, com que entendamos seus dilemas e conflitos, mesmo discordando de suas atitudes.

Tanto "Flores raras e Banalissimas" quanto "Antes que anoiteça" parecem entender que essa empatia não vem de retratar heróis e heroínas mas seres humanos, com suas falhas e incertezas.

P.S.: Os dois livros tem filmes inspirados neles, mas não assisti. 

Farenheit 451 - Ray Bradbury (Resenha)

   Um bombeiro responsável por queimar livros. Uma sociedade onde a máxima são as telas, as explosões e a violência, onde quem pensa diferente é visto com maus olhos e examinado por psicólogos. Mas se as pessoas tomam pílulas e tentam se matar mas tudo está tudo bem.
   O mundo construído nessas páginas é um reflexo distorcido dos nossos dias atuais, um exagero já forma de alegoria. Farenheit 451 é a temperatura sob a qual os livros são queimados e é também o nome dessa distopia, uma das mais conhecidas desse gênero, formando o trio clássico com Admirável mundo novoe 1984.
   Não sei porque demorei tanto tempo para ler esse livro mas minha vontade era começa-lo novamente assim que o terminei. As ideias de Bradbury sobre o futuro e sobre a nossa sociedade são do tipo que devem ser reapreciadas de tempos em tempos.
   Quanta verdade há nesse livro! Em volta de todo exagero, não é a realidade que hoje praticamente estamos a queimar livros? Histórias que não se encaixam com a nossa atual visão de mundo são taxadas sob uma etiqueta (machista, racista, homofóbica) e logo em seguida vítimas de boicotes.
   Não considero correta a livre expressão sem limites mas, se a obra é de ficção não deveria o autor ser livre para por o que quiser? Você pode sim discordar de algo que um autor escreveu ou da forma com que ele fez. O que é criticado pelo autor de Farenheit é a necessidade de cortar, reformular ou até mesmo excluir/queimar aquilo de que não gostamos.
  Apesar de ter sido escrito por inspiração da queima de livros durante a segunda guerra mundial, acho Farenheit 451 uma obra ainda aberta a discussões e as que levantei acima é apenas uma delas. Existe também a alienação das pessoas, o fato de que estamos com cada vez menos tempo para as coisas, muito menos para refletir. O modo como os relacionamentos estão cada vez mais vazios e em como nós não percebemos que nos falta algo até que o desespero não sufoque.
  Não concordo 100% com tudo o que o autor diz, principalmente quanto a "censura" de determinados livros. Mas gosto das discussões e diálogos desse livro e, mais ainda, do apreço que autor demonstra pela literatura e a capacidade que está tem de nos fazer refletir.
  Geralmente eu hesito em dar nota 10 para um livro antes de fazer uma releitura mas Farenheit 451 será uma exceção: nota 10, recomendo para quem gosta de distopias.

As perguntas - Antonio Xerxenesky (Resenha)


    Quando tinha mais ou menos 15 anos, meu professor de Crisma fez um "experimento". Apagou a luz da sala onde fazíamos as aulas, deixou só velas acesas. Em seguida começou a tocar uma especie de sino e pediu para que respirássemos fundo, fechando os olhos e buscando relaxar. Ele então pediu que abríssemos os olhos e tirou da mochila que estava ao chão, uma garrafa com o seguinte rótulo: Água com limão. Foi passando de pessoa em pessoa, pedindo para que tentássemos sentir o que estava na água.
    Quando o professor acendeu as luzes e perguntou quem tinha sentido o cheiro do limão na água, só uma pessoa não levantou a mão. Uma colega até mesmo reclamou por ele ter aberto a garrafa ali, disse que a sala estava agora toda cheirando limão. Meu professor então bebeu o líquido da garrafa e esclareceu que aquilo era simplesmente água. Havíamos sido condicionados a acreditar que havia limão ali.

***

     Essa pequena história aconteceu comigo, de verdade, e está aqui nessa resenha só para mostrar como eu sou uma pessoa sugestionável. Eu recebi "As perguntas" já interessada em ler o livro. A sinopse dava a entender que poderia ser algo relacionando uma seita/culto e um distúrbio chamado Paralisia de Sono (que é quando você vê umas sombras ou coisas assustadoras quando acorda durante a noite), que é uma das coisas mais loucas e assustadoras que eu já ouvi falar.  Mês passado assisti a um documentário chamado "The Nightmare" (O pesadelo - tem na Netflix) e fiquei tão apavorada com os relatos reais das pessoas que fiquei dias só conseguindo dormir com a tv ligada, assistindo desenho animado. Ou seja: estava com medo antes mesmo de pegar o livro. 
     A história é dividida, além de um pequeno prólogo, em duas partes: Dia e Noite. A parte intitulada dia é narrada em uma terceira pessoa muito bem formulada que ora de afasta ora se aproxima da mente e dos pensamentos da personagem principal. Só esse primeiro contato com a escrita do autor já me encantou a ponto de ler outro livro dele, mas a trama é tão boa quanto a forma como foi escrita.
   Na primeira parte de "As perguntas" conhecemos a história de Alina, uma jovem de quase trinta anos que tem (ou tinha?)  um distúrbio chamado paralisia do sono. Alina acredita que todas as sombras e imagens que vê são fruto da sua imaginação mas uma simples ida a delegacia acaba desencadeando uma série de eventos que a faz questionar tudo isso. 
   Nessa primeira parte há um clima de suspense, eu lia como se estivesse prestes a descobrir alguma coisa. Ao mesmo tempo, há também algumas quebras de tensão que mostram a rotina da personagem no trabalho ou com os amigos. Esses momentos são importantes também, para conhecermos um pouco mais sobre a protagonista da história, fazer com que ela se torne real para o leitor. Para trazer Alina para a realidade Xerxenesky fala sobre suas dificuldades em acordar de manhã, seu trabalho tedioso, seu curso universitário obscuro, seu interesse em filmes de terror. Uma pessoa não necessariamente feliz (talvez até mesmo infeliz) que passou a questionar toda a sua vida após um acontecimento marcante no ano anterior.
    Alina é muito plausível, muito real - fiquei com vontade de ser amiga dela, nem que seja para que ela me indicasse uns filmes legais de terror. Ter um protagonista com o qual você consegue se relacionar é algo importante em histórias do gênero. Não que seja absolutamente necessário mas, quando você entende o protagonista, você começa a entender também o porquê de suas atitudes e até mesmo se colocar na pele dele. Me identifiquei bastante com algumas reflexões da protagonista durante a trama, principalmente as relacionadas a nossa geração, sobre o quanto somos criticados pelas pessoas por não estarmos satisfeitos com um emprego medíocre, acusados de só buscar o que é gratificante. Era como se Alina estivesse falando comigo sobre todas essas coisas, ou melhor, muitas vezes era como me olhar no espelho mesmo.    
   Como eu já disse no começo, iniciei o livro já meio tensa sobre o que estava por vir. Quando o autor começa a narrar as leituras ocultistas que Alina começou a fazer eu já estava sentindo o medo aumentar mas a menção a um ocultista que via um ser a quem chamava "intérprete sombrio" me deixou apavorada. Não é bom ler esse livro a noite (ou até é, se você gosta desse tipo de sensação).

 "O problema com obsessões é que, mesmo quando queremos dar um fim a elas, acabamos nos enredando mais e mais" pág. 44
    Por conta de sua ida a delegacia, Alina acaba descobrindo que existe um grupo de pessoas, uma seita chamada Ordem Metafísica Experimental. No começo ela investiga apenas por curiosidade, mas acaba sendo sugada para esse mundo de culto parece, de alguma forma, se relacionar com as sombras que via na infância.
A imagem da Esq: Como imaginei o simbolo da Ordem Metafísica Experimental. Imagem da dir: Shree Yantra, simbolo para meditação que é o encontro de nove triângulos.  Depois que vi essa imagem pensei que o símbolo da seita pudesse ser algo assim, com a diferença de que, na OME, não há nenhum triângulo para cima.

     Apesar dos momentos assustadores, o que mais gostei de "As perguntas" foram as discussões internas que a personagem tem acerca da fé, acreditar ou não em algo que não pode ser comprovado empiricamente. Não li muitos livros de terror (vejo mais filmes) mas já percebi que as melhores histórias do gênero são muito mais do que um amontoado de momentos apavorantes. Quando Alina passa a refletir sobre o que lhe acontece, quando põe seu ceticismo à prova da maneira mais assustadora possível e, principalmente, quando questiona tudo o que está acontecendo com ela, é quando "As respostas" fica realmente interessante. 
    É mais ou menos na metade da trama que a personagem toma uma daquelas decisões que, em filmes de terror, ficaríamos xingando por horas. Como é um livro, conseguimos ver exatamente os caminhos que sua mente percorreu para fazer aquilo, então não é tão frustrante e inverossímil. A atitude que Alina toma por impulso numa noite de sexta-feira, dá origem a parte do livro chamada "Noite". Nesse momento temos uma virada interessante: some a narrativa em terceira pessoa que elogiei no começo do texto e começa uma (igualmente interessante) narrativa em primeira pessoa. Alina passa a contar tudo diretamente.

 "É noite, penso, e tenho que reconquistar minha própria história" (pág. 93) 
    Quando o livro passa para primeira pessoa é quando vemos a personagem mais vulnerável. Como num filme de terror, observamos a protagonista se enredar numa situação perigosa e gritamos mentalmente "saia daí!" mas, ao mesmo tempo, ficamos impressionados com o que está acontecendo, querendo saber mais. A vulnerabilidade de Alina é tanto pela situação em que se encontra quanto pelos questionamentos que tudo aquilo gera dentro dela. Como cética, não deveria haver nada a temer - mas Alina sente medo mesmo assim. Isso torna "As Perguntas" um livro com muitas reflexões a respeito da religião e das crenças das pessoas. Mesmo em meio às cenas assustadoras envolvendo sombras, a protagonista ainda reflete sobre sua vida em São Paulo e revive algumas lembranças.

"Quando entramos em contato com outros planos de existência, não sabemos quem pode estar nos escutando" (pág. 111)
    Como um recorte de um dia na vida da protagonista, temos um livro em um ritmo ágil, com ares cinematográficos. Consegui imaginar algumas cenas tão perfeitamente que é quase uma pena não existir um filme dessa história. As cenas em que Alina é perseguida por uma sombra são tão bem escritas que cheguei a olhar para trás enquanto estava lendo. E o medo de me virar e ver algo também?
Vir Heroicus Sublimis

     Achei o desfecho um pouco decepcionante mas tem tudo a ver com o título do livro. Porque uma história chamada "As perguntas" deveria trazer alguma resposta? Eu sou a primeira a reclamar quando o livro é muito explicadinho mas, ao ler a cena final desse livro, senti  falta de maiores explicações. Agora, tendo passado alguns dias que terminei essa história, penso que esse foi o melhor desfecho possível, passível de agradar todos os tipos de público que leem essa história, pessoas sugestionáveis (ou crentes) ou não.
    Para quem quer uma boa história ambientada em São Paulo, com elementos de terror e muito bem escrita fica aí a minha indicação. É uma história que funciona também como um discussão entre crentes e céticos: o que é real? O que é condicionado?
   
   Dei nota 8 - um bom livro.

|SAIBA MAIS|


Thor Ragnarok (Review)

 
   Tem como escrever uma crítica de Thor e dizer algo diferente do que estão todos dizendo? Acho difícil mas, ao menos, vou ser breve. 
   O último filme do Deus do Trovão abraçou a galhofa e isso foi a melhor decisão já tomada. Ao invés dos épicos de batalhas nórdicas temos aqui cenas que parecem extraidas de vídeo game, piadas nem sempre engraçadas e algumas referências ao próprio universo Marvel. Até shade para o universo da DC temos aqui, o que é bem legal, na minha opinião.
    Thor descobre que Loki tomou o lugar do pai no trono de Asgard, ao mesmo tempo em que tenta impedir que a cidade pereça nas mãos de um demônio gigante. O fim de Asgard é o chamado Ragnarok, que dá título à história. O que Thor não sabe é que, ao tentar impedir o Ragnarok trazendo seu pai de volta, ele acaba por acelerar is eventos que causariam a destruição evitada.
   Esse é o melhor filme sobre o Thor que a Marvel fez (Não que seja muito difícil, já que os outros não são aquelas coisas mas...). Temos um personagem mais poderoso, mais carismático e sem medo de se mostrar vulnerável ou arriscar-se na comédia. Além disso, Thor Ragnarok tem uma das melhores vilões da Marvel dos últimos tempos - desde Loki não tínhamos um antagonista tão carismático quanto Hela. A Deusa da Morte consegue tem aquela mistura de humor e maldade caricata que faz com que a achemos divertida e terrível.
    O filme é bem colorido, bem humorado e tem uma trilha sonora bem legal. Imigrant Song, claro, mas gostei até mesmo a trilha original do filme, que me fez sentir ainda mais a sensação de que estava vendo uma adaptação de vídeo game.  
   Claro, dizer que o filme opta pelo humor não é o mesmo que dizer que o filme é engraçado. Algumas cenas te ganham pelo nível de absurdo, outras tem uma piada bem colocada... Mas tem momentos em que as piadas não funcionam também. E não é como se fosse só conversa sem sentido, há todo um plot dramático (a destruição de Asgard) que é contado na história. Resumindo, é um filme divertido, mas não engraçado o tempo todo; não vá esperando dar gargalhadas histéricas ou coisa do tipo. 

   Até a metade desse filme estava achando ele bem mais ou menos (se bem que ainda melhor que os dois primeiros). Mas aí apareceu o Hulk e a trama melhorou bastante. Gosto muito dessa personagem e gostei ainda mais de ver o gigante esmeralda falando nas telonas. A luta com Thor também é um dos pontos altos da trama e só não ganha como a melhor cena do filme por causa de uma cena final ao som de Led Zeppelin que me fez querer saltar da cadeira e aplaudir. São três personagens lutando simultaneamente e mostrando toda a extensão de seus poderes. Acho que é a primeira vez que pensei em Thor como o mais poderoso dos vingadores, embora ache que Hulk não está muito atrás.
   Uma das personagens nessa cena de luta que citei acima é Valkyrie. Não conheço muito seu histórico nas HQs mas, no filme, é uma daquelas personagens que roubam a cena. Tentaram fazer algo acontecer entre ela e Thor e isso foi desnecessário pra caramba? Sim, a personagem não precisava ser um interesse do herói para mostrar seu valor. Mesmo assim é o tipo de anti-heroína que faz falta nos filmes da Marvel, que estão cheio de bons moços e moças.
   Se o seu objetivo é diversão pura e simples, vá assistir Thor sem medo, o filme é incrível. Agora, se está procurando fidelidade às hqs ou qualquer coisa mais profunda, acho melhor guardar seus dinheiros pra Liga da Justiça*.

   Thor é pura diversão. Nota 8,5 - o filme é bom mas tem o Hulk então ganha meio ponto só por isso.



*se bem que nem da liga da justiça espera-se mais tanta seriedade, né? Vamos ver o que Joss Whedon aprontou na ausência do Snyder

|TRAILER|


Bingo - O Rei das Manhãs (Review)


   Eu nunca gostei muito de palhaços e ler IT, no início desse ano não ajudou a melhorar muito minha opinião sobre eles. Porém, quando fui assistir Anabelle 2, assisti ao trailer de "Bingo - o rei das manhãs" e fiquei interessada na história de Ascenção e Decadência do homem que está por trás do palhaço. Fiquei mais interessada ainda quando descobri que toda a história desse filme é livremente inspirada numa história real, de um dos atores que interpretaram o Bozo nos anos 80.    
   A história de Augusto Mendes, nome do personagens que interpreta "Bingo", tem vários elementos já conhecidos desse tipo de trama. Augusto começa como ator de filmes pornô (aquelas chanchadas da década de 70) mas, quase por acaso, acaba fazendo o teste para o papel de Bingo e - surpresa! - sendo escolhido.   
    Augusto tem um filho de uns 9/10 anos chamado Gabriel e algumas partes do filme acontecem sob a perspectiva desse menino. Ao mesmo tempo em que fica feliz pelo sucesso do pai, Gabriel não pode revelar a ninguém que ele é o Bingo. As decisões de Augusto depois da fama também parecem priorizar Gabriel cada vez menos e essas são as cenas mais tristes do filme.
    Falando em atuação, o filme está cheio de grandes nomes, como Leandro Leal, Vladimir Brichta, Emmanuelle Araújo... O elenco todo é muito bom, cada um dos atores consegue transmitir a verdade do seu personagem.
   Claro, não basta só um elenco bom para se fazer um filme de sucesso. Bingo tem também uma ótima trilha sonora (tanto a original quanto as músicas dos anos 80 selecionadas para compor a história são muito boas) e uma direção que consegue navegar entre o humor e o drama presentes do roteiro. A produção é impecável: em todos os aspectos, parece um filme dos anos 80.
   Não vivi a época do filme, por isso algumas cenas pareceram semi-biográfica pareceram meio absurdas para mim. Quem leva a Gretchen para um programa infantil? Para nossa realidade isso é algo incompreensível, mas os tempos lá eram outros e o filme não teme mostrar isso, indo desde cenas de bullying contra crianças até músicas e atrações inapropriadas como as que citei.    A queda do "maior palhaço do Brasil" ocorre pelo uso intenso de drogas. Augusto já se drogava antes de virar Bingo mas, com dinheiro e fama, acabou entrando ainda mais nesse mundo. Há algumas cenas fortes para mostrar a vida desregrada do "personagem" e outras para mostrar a consequência desse estilo de vida no trabalho e na vida pessoal. Uma das minhas cenas favoritas do filme acontece perto do final, com Augusto caracterizado e no ar, mostrando que até o trabalho dele começava a ser comprometido. É a gota d'água (ou melhor, gosta de sangue) que falta para que o ator alcance o fundo do poço.
   Se você ainda tem preconceito com produções brasileiras, está na hora de deixar isso de lado e dar uma chance a filmes como Bingo. Não adianta reclamar que "brasileiro só faz comédia" e ir ao cinema só pra ver "Minha mãe é uma peça" (que também é um ótimo filme). Comédia é legal, mas o cinema brasileiro vai além disso.
   Bingo tem elementos de comédia mas o desenvolvimento da história é um crescendo, entrando cada vez mais no drama, além de ter o melhor que o cinema brasileiro tem a oferecer, em termos técnicos e artísticos.
    Um dos melhores filmes do ano e recomendo para todos que gostam de dramas e narrativas bem contadas.
      Nota 9

P.S.: Depois que escrevi esse texto saiu a notícia de que Bingo iria representar o Brasil no Oscar 2018.


Lendo H.G. Wells, F. Scott Fitzgerald e Joachim Meyerhoff (Direto ao ponto #023)


 A máquina do tempo
Autor: H.G. Wells
Ano: 2010   /   Formato: LIVRO
Editora: Alfaguara

Opinião:  Um inventor constrói uma máquina do tempo e viaja para futuro onde tem que lutar com os monstros, que ele descobre ser descendentes dos humanos. 
Essa é a primeira história sobre viagem no tempo já escrita e, assim como toda primeira história de um gênero (oi subgênero) não é das melhores. Mesmo assim as ideias aqui contidas são interessantes e a leitura é rápida e divertida, principalmente para aqueles que apreciam histórias de viagens no tempo. 
Parte de mim gostaria que Wells explorasse o passado mas, ao situar o personagem em um futuro bem distante o autor consegue criar uma história atemporal e acredito que tenha sido essa a intenção.
Cena: gosto muito do primeiro capítulo, quando os princípios da viagem no tempo são explicados. Infelizmente o livro perde um pouco da graça no desenvolvimento dessa ideia mas imagino que este capítulo seja um dos motivos pelo qual essa história permaneça na mente das pessoas.
Nota: 7, 5 - uma leitura ok. Meio ponto é pelo primeiro capítulo

O curioso caso de Benjamin Button
Autor: F. Scott Fitzgerald
Ano: 2016    /   Formato: LIVRO
Editora: Mediafashion
Opinião: uma pequena novela (ou conto) sobre um homem que nasce velho e vai ficando mais jovens, invertendo assim o ciclo da vida. Tem algumas interpretações interessantes que podem ser feitas a partir dessa história mas o todo eu achei um tanto banal. Ao meu ver a história seria mais interessante se, assim como no filme, o intelecto do personagem principal não mudasse com o transição da idade. Por ex, com 60 anos, Benjamin tem corpo de criança e esquece que foi adulto ou como se escreve - seria mais interessante se ele se recordasse de tudo.
Cena: gosto dos "choques de geração", primeiro entre Benjamin e o pai, depois entre ele e o filho. Mas são breves momentos.
Nota: 6,5 - uma leitura okay, mas não memorável.


Quando finalmente voltará a ser como nunca foi
Autor: Joachim Meyerhoff
Ano:  2016   /   Formato: E-BOOK
Editora: Valentina

Opinião: o livro narra as memórias do escritor/ator alemão Joachim Meyerhoff, que cresceu ao redor de um hospital psiquiátrico. São vários episódios, narrados em ordem mais ou menos cronológicas que, ao todo, compõe um pedaço da vida do autor. O foco da trama é a sua família e a morte do pai e do irmão, fatos que marcaram profundamente sua vida (isso não é Spoiler está no primeiro capítulo). 
O livro começa todo nostálgico e alegre mas, ao chegarmos à momentos mais pesados é adotado um tom mais reflexivo. O personagem/autor nem sempre toma as melhores atitudes e a Ho que é uma vantagem da história que o autor narre suas falhas com toda a honestidade, se arriscando ao julgamento do leitor.
É um livro que me fez sorrir e chorar, me despertando reflexões sobre família, vida e morte. Uma história que toca justamente porque é narrada de forma sincera, sem se preocupar em despertar esse ou aquele sentimento. Ainda tenho sentimentos mistos com algumas passagens, mas no geral gostei muito.
Cena: de modo geral gostei mais da última parte de "Quando finalmente voltará a ser...", com o autor adulto. Gosto de vários momentos mas a cena em que o personagem chega em casa e encontra seus pais deitados juntos na cama foi particularmente tocante pra mim. Só quem leu o livro vai entender o significado desse momento.
Nota: 8,5 - o livro é muito bom mas tirei meio ponto pois sinto que o li em um momento errado.