|Resenha| 1984 - George Orwell

sexta-feira, junho 05, 2015 0 Comments A+ a-

"ABAIXO O GRANDE IRMÃO!" 

      Winston Smith é apenas mais um cidadão que serve o partido na Oceania.  Ele trabalha no Departamento da Verdade, responsável por adulterar jornais, livros e documentos que não apresentem a verdade dita pelo partido. Então se, por exemplo, o partido disser em alguma edição antiga de algum jornal que não irá diminuir a ração de chocolate mas em seguida diminuí-la, a função de Winston é "corrigir" esse jornal antigo, para que se adeque a verdade. 
          O ano é 1984, ou ao menos é o que Winston imagina. Nesse futuro distópico (o livro foi escrito na década de 40/50) vemos o que antes era a Inglaterra, subjugado por esse regime totalitário, onde todos respondem ao comando do Grande Irmão (ou Big Brother, no original) e são vigiados o tempo todo por ele. O 'Grande Irmão' é uma espécie de Deus para essas pessoas, o nome máximo desse partido ditatorial e aquele a quem todos amam e obedecem. Todos menos Winston que, embora seja um membro obediente do partido, parece ter alguma dificuldade em aceitar a lealdade cega que todos são obrigados a prestar.  A Oceania, nome desse país-continente, está atualmente em guerra com a Eurásia e, embora a mensagem oficial do partido seja de que eles sempre estiveram em guerra contra esse outro país/continente, Winston se lembra claramente de que, há 4 anos, eles estarem guerra com a Lestásia, o outro país/continente que governa outra parte extensa do mundo. No entanto, só por essa lembrança, Winston já comete crimidéia pois está pensando que o partido está errado, e o partido nunca erra. 
        O tom do livro e seco e sem muitas reviravoltas. Desde a primeira página somos apresentados a rotina cansativa e solitária de Winston e a esse governo absurdo do 'Grande Irmão'. Como membro médio do partido, Winston mora em um apartamento e é vigiado o tempo inteiro por uma teleteta que filme e grava todos os seus movimentos, além de transmitir as noticias, músicas e o que mais o partido mandar. O livro começa com Winston comprando um diário e escrevendo no papel, pela primeira vez, o que realmente pensa. Ele não acha que irá sobreviver por muito tempo fazendo isso, logo a polícia do Amor (responsável pela Guerra) irá prendê-lo e matá-lo mas, pela primeira vez não parece se importar muito com isso. 
         Para entender esse livro em sua totalidade, é muito importante saber o contexto e história em que foram escritos. Orwell é o pseudônimo de Eric Blair, um escritor inglês, conhecido por sua luta contra o socialismo coletivista e crítico do comunismo russo e do fascismo. Orwell escreveu 1984 no inicio da Guerra Fria, como forma de criticar a forma a que, aparentemente o mundo estava sendo levado: uma disputa eterna entre dois extremos (EUA e URSS) em que nenhuma das partes pensa nas pessoas mas apenas em conseguir mais e mais poder. É importante dizer também que Orwell, embora crítico do comunismo, mantinha estreitas relações com o partido Socialista Inglês, considerando esses regimes oligárquicos que tanto criticava, apenas perversões do que seria considerado o "verdadeiro socialismo". 
"A história parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão."
       Com tudo isso em mente, é fácil entender o pessimismo de sua obra, onde não há esperança, não por que o partido seja indestrutível, mas por que as pessoas estão por demais acomodadas em sua situação que se recusam a lutar. No livro, Winston diz várias vezes sobre como a salvação está nos "proletas", a parcela da população não-filiada ao partido, que vive "livremente" mas em extrema pobreza. No entanto, ao mesmo tempo em que faz essa afirmativa, Winston percebe que os 'proletas' (ou proletariado) pouco se importa com política ou com aquele que os controla, mais preocupados em sobreviver em sua pobreza extrema e se entupindo de cultura inútil, escapista e sem sentido proporcionada pelo próprio partido.
           É um livro muito difícil de ler, tanto pela seu estilo lento e repetitivo, tanto pela total ausência de esperança que emana de suas páginas. Mesmo quando se apaixona por Júlia e começa a ter encontros secretos com ela (é proibido para os membros do partido se relacionar), Winston tem plena consciência de que isso não durará muito tempo, que logo serão descobertos, torturados e mortos e Júlia também pensa o mesmo. Eu li por força de vontade e pelas reflexões de Winston a respeito do partido que podem ser aplicadas (de forma livre) a muitos "partidos" nos dias de hoje. 
          Quando, Emmanuel Goldstein, suposto líder de um movimento contra o Partido, escreve num livro que Winston estalendo que "grandes setores da população foram impedidos de trabalhar e mantidos semivivos por meio de caridade estatal" ou quando afirma que a pedra fundamental do socialismo inglês é "dizer mentiras deliberadas e nelas acreditar piamente, esquecer qualquer fato que se haja tornado inconveniente" é impossível não traçar paralelo com governos populistas da atualidade. Não digo somente o Brasil, que engatinha nesse aspecto, mas países como Venezuela, Cuba e até mesmo regimes não populistas e sim totalitários como o da Coréia do Norte e China, parecem ter seguido a mesma cartilha do Grande Irmão. 
        Essa interpretação e atualização é muito pessoal. A quem diga que as teletas-espiãs são possíveis e utilizadas livremente no dia de hoje, com os computadores de todos sendo espionados pela NSA nos Estados Unidos e que o opressor na verdade é o Capitalismo. Essas são algumas dos paralelos que se atribui essa obra que é elogiada por pessoas de esquerda e de direita, desde o século XX até os dias de hoje. 
          Eu, particularmente, não me ative muito a essas reflexões, mais interessada em terminar o livro e saber onde raios aquela história em que muita pouca coisa acontece iria me levar. O final seguiu precisamente o que é dito desde o inicio do livro e, embora possa admirar a constância do autor, também fiquei um pouco chateada com o destino dos personagens. 
         "Se quer uma imagem do futuro, pense numa bota pisando um rosto humano - para sempre"
          Acho que 1984  não é um livro divertido mas é necessário - todos devem ler e tirar suas próprias conclusões ao menos uma vez na vida. Prefiro "A revolução dos bichos", por ser uma história a que se pode atribuir mais significados e mais acessível as pessoas, mas acho a distopia 1984 uma obra maior, não só pela quantidade de páginas: seu enredo é atemporal e serviu como base para muitas obras (livros, filmes etc) que vieram depois. Então leia e prepare-se para se divertir pouco mas pensar muito. 
           Nota 8 - um bom livro

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"My work always tried to unite the true with the beautiful; but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful." -- Hermann Weyl Miss Carbono que é o numero 6 na tabela periodica


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