|FILME| O jogo da imitação (Resenha / Review) #Oscar2015

segunda-feira, fevereiro 09, 2015 2 Comments A+ a-


        Logo no inicio do filme, Alan Turing faz um pacto com o detetive que o interroga: Ele iria contar ao detetive sua história mas exigia que o mesmo prestasse atenção, bastante atenção, pois não iria repetir nada, nem aceitaria ser interrompido com perguntas. Ele avisa que a história é longa e surpreendente e que, se o detetive não estivesse interessado, que se retirasse naquele momento, antes do inicio. 
         Esse aviso serve tanto para o detetive quanto para os espectadores, já que ambos ouviremos a mesma surpreendente história de sua vida, ou ao menos, uma das partes mais impressionantes dessa. Não é um filme de muita ação, a história é longa, então é como se fosse dado a nós, telespectadores uma ultima chance de "levantar da cadeira e sair". O efeito, no entanto, é oposto: Como ocorre no inicio de toda boa história, com essas palavras o público do cinema, até então um tanto disperso, ficou em completo silêncio, na expectativa da tal história. 
          Nesse momento volta-se a 11 anos atrás, no inicio da segunda guerra mundial, quando o jovem matemático e professor de Oxford é recrutado pelo serviço secreto britânico. O objetivo dessa missão, que reúne os melhores decifradores de código de toda a Bretanha, é quebrar o código da Enigma, uma máquina criptográfica utilizada pelos nazistas e cuja chave revelaria todas as estratégias e passos dos alemães. 
           Em algum dado momento do filme somos levados ainda mais ao passado, quando o jovem Turing, ainda na escola, encontra seu primeiro (e talvez único) amigo, Christopher. O filme então se passa em três momentos: o "futuro", em que Alan conta sua história, o período em que ele trabalhou para o serviço secreto, e um passado ainda mais distante quando este estava na escola. O objetivo é formar uma imagem o mais completa possível de um homem tão singular quanto Alan Turing, embora o filme não seja propriamente uma biografia. 
            Sabia a história desse filme bem por cima, apenas que se passava durante a segunda guerra e que tinha algo a ver com decifrar códigos. Logo no primeiro 'flash back' soltei um palavrão: Esse recurso pode ser muito bem utilizado, claro, mas não é o meu preferido. No entanto logo relevei esse detalhe - a história já havia me prendido. 
             Como eu disse no inicio não há muita ação ou guerra de fato no filme. Apenas um grupo de "nerds" tentando quebrar um código - mas isso não faz com que o filme fique menos interessante. Isso se deve tanto a história, que consegue fazer o espectador entender a importância do que está sendo feito e se empolgar com as "vitórias" alcançadas, quanto ao elenco muito bem selecionado, capaz de manter-se interessante em tela e manter o público cativado pelos personagens e suas ações. 
               Benedict Cumberbatch entrega uma atuação impecável de Alan Turing, um personagem complexo e com dificuldades de relacionamento. O Alan de Benedict consegue ser ao mesmo tempo engraçado (me lembrou Sheldon de TBBT) quanto dramático, sendo a carga dramática aumentada lentamente ao longo da história até que, no final, nos vemos emocionados com o destino do personagem. São dignas de nota também as atuações de Keira Knightley como Joan e Matthew Goode como Hugh. Mas, embora tanto Knightley quanto Cumberbatch concorram ao Oscar por seus papéis, só um deles realmente poderia ganhá-lo, sem que fosse considerado injusto - Benedict Cumberbatch, que nos entrega, acima do gênio, a figura humana também.

                  Embora tenham muitas boas cenas no filme, certamente o final é o que mais me chamou a atenção. O filme se encaminhava para uma nota 7 em meus padrões (razoável com talvez meio ponto por ser tão interessante) e eu já pensava quanto tempo faltava para terminar, quando ocorre a ultima cena. O encontro  final entre Joan e Alan depois de tantos anos partiu meu coração - não por que eu torcia para eles como casal de alguma forma (Turing era gay), mas por mostrar o quanto ele vinha sofrendo e o quanto ele sacrificou para "não ficar só", embora sua única companhia naquele momento fosse uma máquina. 
                   Saí do cinema tocada, pensativa. Como pode um herói de guerra (embora nunca tenha lutado, ele salvou milhares de vidas) ser tratado dessa forma? Como é possível que a 60 anos atrás as pessoas fossem "condenadas" de forma tão cruel simplesmente por ser o que são
                    Recomendo esse filme para os que gostam de dramas bem contados, que falam sobre guerra mas, mais importante, sobre uma figura complexa e importante como foi Alan Turing. Me surpreende que essa história não tenha sido retratada antes, mas fico feliz que finalmente tenham feito esse filme: a história do pai dos computadores e de um dos nomes mais importantes da segunda guerra mundial (e mais ignorados também) merecia ser conhecida. 
                    Nota 8 - um bom filme. 


P.S.: A história me lembrou um pouco a de "Uma mente brilhante" mas um tanto mais engajada - e com um final mais melancólico. 


P.S.2: Alexandre Desplat (O discurso do Rei) compôs a excelente trilha do filme. 


O jogo da imitação concorre ao Oscar nas categorias: melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor diretor, melhor trilha sonora, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor direção de arte.


"My work always tried to unite the true with the beautiful; but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful." -- Hermann Weyl Miss Carbono que é o numero 6 na tabela periodica

2 comentários

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24 de maio de 2016 09:57 delete

Alguns dias atrás eu vi e realmente gostei. O interessante é que The imitation game, em princípio, parece-II Guerra Mundial. Tem soldados, tanques, ecos de bombas, a sombra de Hitler. Avanços, percebemos que abrange mais do que um evento histórico. abrangido pela presente de nossas vidas. Alan Turing foi um herói injustamente esquecido. Turing não existiria sem Bill Gates ou Steve Jobs não teria existido. Mesmo algumas lendas atribuído à Apple Turing Wolf.

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29 de junho de 2016 17:26 delete

Concordo com você, Sofia. Eu que não conhecia Alan Turing pelo nome, fiquei meio chocada com o tamanho da descoberta e dos avanços tecnológicos que ele conseguiu em sua época

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