|RESENHA| Outra volta do parafuso - Henry James

sexta-feira, setembro 25, 2015 0 Comments A+ a-

 "Se uma criança aumenta a emoção da história e dá outra volta ao parafuso, que diriam os senhores de duas crianças?"

   É com essa chamada que inicia-se o livro "Outra Volta do Parafuso", de Henry James. Um grupo está reunido em volta da lareira, durante a véspera de Natal, contando um ao outro histórias de terror. O autor dessa pergunta instigante resolve contar a tal história, a que tem duas crianças, para o grupo de amigos. Mas, por se tratar de uma história que lhe foi escrita através de uma mulher que conheceu em seu passado, o personagem resolve então pegar esse escritos e lê-los ao grupo. Nesse momento, temos como personagem narradora a babá dessas crianças, numa história que ocorreu quando essa está nos seus 20 anos. 
   "Outra volta do parafuso" é um livro relativamente curto, a história não chega a 200 páginas. Mesmo assim é um livro bem interessante e, de certa forma, familiar: Ao ler sobre a história dessa babá, das crianças (Miles e Flora) e da empregada, senhora Grose, tive a sensação de já conhecer esses personagens. Será porque já assisti a "Os outros" que foi inspirado nesse livro? (Se não sabe que filme é esse, pare de ler essa resenha e vá vê-lo AGORA). Não sei, o livro e filme tem pouco em comum (a não ser algumas características dos personagens). Acho que o motivo dessa familiaridade é a quantidade de clichê que esses personagens contém. 
   Não digo isso para denegrir o livro mas é inegável que a história do personagem que percebe algo errado na casa e resolve "investigar" o ocorrido para que esse mal não atinja seus "protegidos" é muitíssimo comum no cinema e na literatura do gênero. Tampouco é novidade a figura do "orelha", aquele personagem que está lá para ouvir as teorias da personagem principal e ajudá-la, embora nem sempre confie em nessas ideias em questão. Lendo o livro, cheguei a conclusão de que, ou esses clichês já existiam na época do Henry James e ele os utilizou, ou ele os criou nessa história e foi imitado inúmeras vezes depois (gosto de pensar que é o segundo caso).
   Falando do autor, nunca tinha lido nada do Henry James e, embora esse livro não seja do gênero que o autor costuma escrever, deu para ter uma noção da sua escrita espetacular. James não usa uma única palavra "difícil" ou expressões truncadas e de compreensão dificultada e, mesmo assim, consegue mostrar seu talento com as palavras. É como se ele soubesse como encaixar cada palavra com precisão, como se o texto saísse para a página com naturalidade e facilmente. Claro que semelhante habilidade deve vir de inúmeras revisões, mas não se nota - assim como não se nota o próprio autor no texto: Não vemos na história "Henry James contando a história da babá" e sim a babá contando sua própria história - quase dá para esquecer que existe um narrador por trás da trama (não sei se isso fez sentido, mas...). 
   Sobre a trama, não há muito mais a se contar sem dar spoilers. Só queria comentar sobre as "aparições" dos fantasmas, a primeira delas na verdade. Não sei se já falei para vocês, mas trabalho numa escola pública. Durante o recesso das escolas, muitas vezes nós temos que ir trabalhar, para arrumar uma coisa ou outra mas o ritmo é bem mais tranquilo, porque não há ninguém (além dos funcionários) na escola. 
   Pois bem, estava eu, na ultima sala da escola, uma salinha onde guardam os livros didáticos. Eu estava esperando meus colegas almoçarem para continuarmos arrumando os esses livros (muito pesados, que cobrem toda a pequena sala, incluindo o chão) e por isso resolvi pegar "Outra volta do parafuso" e ler mais algumas páginas enquanto aguardava. Eis que ocorre a primeira aparição e, juro por tudo o que vocês quiserem, que, no mesmo instante, a porta da sala que fica no final do corredor (do lado oposto de onde estava), bateu com toda a força. E eu ali, sozinha. Claro que fechei o livro na hora e fui tentar achar algum colega o mais rápido possível (sem emocional para lidar com fantasmas naquele momento kkk). 
   Contei esse "causo" no meio da resenha para vocês terem noção do quanto essa primeira aparição é bem descrita, o  quanto ela é impressionante e dá fôlego para a história. Infelizmente, nas outras vezes em que os "fantasmas" apareceram o impacto não foi o mesmo - acho que houve uma certa banalização da coisa na terceira ou quarta aparição, pois logo se tornou claro que os fantasmas não iriam fazer nada com os vivos. Sobre isso, devo dizer que essa minha impressão sobre os fantasmas não foi inteiramente certa (está aí o final que não me deixa mentir). 
   Sobre o final, ele me deixou pensando por vários dias depois da história. Primeiro, porque é tão abrupto que dá raiva do autor. Segundo, porque abre espaço para várias interpretações (infelizmente a sinopse do skoob entrega essas interpretações de bandeja). Ouvi muita gente reclamando que esse livro faz muito mistério com coisas que são óbvias para o leitor e que poderia ser escrito em menos páginas. Não posso deixar de concordar com a ultima afirmação, assim como não posso deixar de discordar dessa primeira: Será que o livro é tão óbvio assim? Me parece que, nessa história, o autor trabalha muito mais com o "não-dito" do que com o que é informação direta. Portanto, algo que parece óbvio para você pode ser apenas uma interpretação sua, outro leitor pode ter visto algo diferente.
   Esse é um dos livros que eu poderia reler facilmente mas, por mais  paradoxal que soe, não indico para todos. De fato, se trata de uma leitura interessante para os fãs do gênero de suspense mas não é algo necessário, a não ser a título de curiosidade. 
   Mesmo assim é uma leitura que eu gostei muito de ter feito. Nota 7,5  um bom livro mas tirei meio ponto por esse final meio WTF.

P.S.: Essa edição da abril s2
P.S.2: Não, a babá não tem um nome.

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