Resenha: Lugar Nenhum - Neil Gaiman

sexta-feira, novembro 30, 2012 1 Comments A+ a-


          Em uma noite chuvosa, Richard Mayhew, que estava comemorando o novo emprego em Londres, conversa com uma senhora incomum. Ela lê sua mão e prevê um longo caminho a ser percorrido. Além disso aconselha o herói a ficar longe de “Portas”.

          Três anos depois Richard mal se lembrava daquela noite e nem da previsão daquela senhora. Mas é quando encontra uma jovem sangrando na calçada que sua verdadeira aventura em Londres começa.
          Já havia lido “Coraline” também do Neil Gaiman e curtido muito o livro, portanto, quando tive a oportunidade de ler outro livro do autor não perdi tempo. Escolhi ‘Lugar Nenhum’ por ter a impressão de que era uma história mais adulta do que a de Coraline e por causa das criticas que li sobre o livro, todas elogiando o autor.
          E a ‘Londres de baixo’ criada pelo autor realmente é digníssima de elogios. Gaiman criou um mundo sujo e mais antigo que a própria Londres, com pessoas que tem habilidades incomuns vivendo nos esgotos e subterrâneo. É aterrorizante e fascinante de acompanhar a trajetória de Richard por esse mundo, em companhia da jovem Door, do marquês de Carabas e da misteriosa Hunter. Lembrando que Door significa ‘porta’ em inglês, por isso a profecia da velhinha tinha certo sentido, embora o próprio Richard não consiga enxergar isso ao longo da história.

Fan Art
          A maneira de narrar do autor me lembrou muitas vezes uma história infantil, não tanto pelas palavras mas pela maneira de se utilizar das palavras e como conduzia o diálogo. Porém uma criança não conseguiria entender as sutilezas do livro, o paralelo entre a ‘Londres de baixo’ e o mundo marginalizado em que os mendigos e moradores de rua vivem na realidade das grandes (e pequenas) cidades. A Londres mágica pode não existir no subterrâneo, mas os moradores de rua existem e recebem mesmo esse tratamento descrito no livro por parte dos habitantes da Londres ‘de cima’, ou das ‘pessoas normais’.
          Porém esse livro questiona e muito o que realmente é normal. Será que Richard seria mais feliz se tivesse permanecido em seu emprego comum, com sua noiva comum e destino absolutamente previsível? Mesmo mais suja e mortal, a Londres de baixo exerce uma fascinação sobre o personagem principal de forma que,  ainda que com medo e querendo ir para casa, ele permanece naquela situação em companhia desses amigos novos e igualmente estranhos.

Fan Art           O relacionamento entre Richard e Door merece um parágrafo a parte. Mesmo tendo afirmado diversas vezes que Door é uma menina, uma jovem, uma garota, dá para perceber certa tensão romântica entre esses personagens, uma ligação mais forte do que com o restante das pessoas relacionadas a Richard. A grande culpada por Richard ter ‘caído’ de seu mundo normal é Door, porém a ligação entre ela e o personagem principal se estabelece antes disso. Realmente, o autor não deixa muito claro se existe algo romântico entre eles, mas tive essa sensação.
          Falando em personagens, esses são outro ponto fortíssimo do livro. Embora o próprio ambiente criado pelo autor atue como um personagem, há também personas muito bem desenvolvidas por Gaiman, tanto física quanto psicologicamente. Os aspectos físicos são tão vividos que é como se eu estivesse vendo um desenho dos personagens a minha frente, é tudo muito vivido, talvez pelo histórico de Gaiman na criação de quadrinhos (ele é autor do elogiado Sandman).

          O melhor exemplo dessa descrição impecável são o Sr. Croup e o Sr. Vandemar. Ambos são vilões e vestem roupas iguais mas é impossível não distingui-los e imaginá-los cada um com sua característica particular. Se eu soubesse desenhar (eu não sei) seria capaz de fazê-lo perfeitamente, somente baseando-me nas informações do próprio autor.
          Essa precisão e profundidade não se aplicam apenas ao aspecto físico dos personagens. Algo que gostei bastante no livro foi que todos os personagens têm contornos psicológicos muito amplos, além de ser apenas bom ou mau. Os vilões são engraçados, os bonzinhos são dúbios em sua bondade, um traidor pode ser ainda um amigo... A única que se mantém mais ou menos a mesma ao longo da história é Door, o restante dos personagens não são tão corretos ou bonzinhos o tempo inteiro.  
          E ainda tem a questão: Será que tudo isso aconteceu mesmo? O mundo real aparece vez ou outra no livro e vez ou outra ao longo da história me veio essa questão na cabeça. O próprio final do livro questiona a sanidade de Richard, cabendo ao leitor dizer se o que passou aconteceu mesmo ou se o personagem apenas endoideceu por alguns dias depois que sua noiva o largou.
          Eu prefiro acreditar nessa Londres mágica que existe no subterrâneo. E dou nota 9,5, pois o livro, além de muito bom, é completamente diferente de tudo o que já li.
          Claro, muito dessa impressão se deve a minha falta de intimidade com histórias do gênero, mas gostei mesmo do livro e indico para os que gostam de narrativas fantásticas, mesmo que essas não tenham necessariamente um romance e não sejam voltadas para adolescentes.

P.S.: Descobri que o livro foi adaptado,  era uma série britânica. Para maiores informações é só procurar pela série Neverwhere


Já leu algum livro do Neil Gaiman? Tem vontade de ler? Comente! 

"My work always tried to unite the true with the beautiful; but when I had to choose one or the other, I usually chose the beautiful." -- Hermann Weyl Miss Carbono que é o numero 6 na tabela periodica

1 comentários:

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Anônimo
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7 de janeiro de 2013 15:39 delete

Houve também uma adaptação para HQs. Para os que curtem vale a pena dar uma olhada...

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